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Julgo já me ter pronunciado sobre este tema em artigos anteriores. Ainda assim, a performance de CM Punk no evento UFC 225 não deixou ninguém indiferente. Era a narrativa perfeita, envolvendo um veterano sem experiência em MMA, uma antiga estrela do sports entertainment, com milhões de fãs espelhados por todo o mundo. CM Punk era o underdog que iria, com coragem e empenho, superar todas as adversidades.
CM Punk iria provar que nunca somos velhos demais para conquistarmos os nossos sonhos, para superarmos as adversidades, que podemos fazer aquilo que queremos se trabalharmos, se nos atirarmos de cabeça com empenho e determinação calando as vozes pessimistas que teimam em agastar-nos com comentários ofensivos e desencorajadores. Esta era uma narrativa que podia ter sido concebida por um dos mais experientes guionistas da WWE. No entanto, caros leitores, UFC não é WWE.
Os focos da polémica são inúmeros. Desde logo, o próprio CM Punk. Depois da sua derrota frente a Mickey Gall, rapidamente se percebeu que Philip Brooks (CM Punk) não teria forma de contrariar a sua própria veterania e inexperiência. Portanto, muitos estranharam a inclusão do seu nome no main card do evento, quando haviam combates como o de Alistair Overeem vs Curtis Blaydes. Por que razão CM Punk e Mike Jackson haveriam de merecer tal reconhecimento?

Fonte: UFC
A incapacidade de encontrar uma resposta plausível a esta pergunta, motivou fortes críticas à administração da maior promotora de eventos de MMA do mundo. Muitos consideram que este combate desvirtua tudo aquilo que o desporto representa. Outros considerarão que é uma falta de respeito para com todos aqueles que lutam há vários anos por uma oportunidade de competir no octógono da UFC, por um contrato que mudasse as suas vidas. Não nos esqueçamos que por todo o mundo existem atletas a competir em pequenas organizações de MMA. Muitos destes atletas não são profissionais e conciliam o treino e a competição com as suas profissões.
Este é um assunto que me é bastante caro. Pratiquei artes marciais durante vários anos. Pratiquei judo quando era criança e já adolescente tive o privilégio de treinar muay thai. Nesta minha última experiência pude constatar o sacrifício de ser atleta profissional numa modalidade com pouca expressão. Vi com os meus próprios olhos atletas que corriam dos seus trabalhos para o clube, dispostos a treinar várias horas sem uma recompensa financeira ajustável à dimensão do seu esforço.
Portanto, qual é o fundamento de colocar CM Punk num octógono? Eu sei a resposta mas não a compreendo. Sei que a narrativa que pretendiam veicular é entusiasmante. Sei que para Philip Brooks seria quase impossível recusar uma oferta da UFC perante os números do contrato envolvidos, mesmo sabendo (presumo que tivesse essa consciência) da impossibilidade de ser bem-sucedido frente a atletas mais novos, mais experientes e mais aptos para o desporto.
O combate foi horrendo. A falta de técnica dos dois indivíduos foi evidente. A forma como Philip Brooks se movia no octógono indiciava o seu nível de experiência. Philip movia-se com a guarda em cima e demasiado estática, com deslocações robóticas e um boxe lento e infrutífero.

Fonte: UFC
Podemos retirar daqui várias lições. Se me permitirem, passarei a enumera-las:
1 – A idade é um posto, não tenhamos dúvidas disso. Também é verdade que a experiência que a idade nos dá pode ser canalizada em vários sentidos. Um atleta experiente saberá, por certo, utilizar o seu corpo de forma muito mais eficiente do que um jovem pleno de vigor físico. Adicionalmente, as inúmeras sequências de treino permitem a automatização de técnicas, movimentos e estratégias. No caso das MMA, isso significa que o atleta já se debateu com vários e distintos cenários de luta, diferentes adversários com padrões comportamentais e que terá um conhecimento das suas próprias forças e fraquezas muito superior ao de um jovem. Mas no caso de CM Punk nada disto se aplica. Como é que alguém pode pensar que, sem experiência alguma em artes marciais, pode interiorizar um alargado conjunto de movimentos e técnicas num curtíssimo espaço de tempo. Caros leitores, não é possível
2 – A fama vende. CM Punk vende. Estas premissas são cruciais para explicar a decisão de colocar este combate no main card. O foco, a curiosidade para assistir à iminente queda no abismo poderão ser um grande chamariz. Mas o nível técnico exibido neste combate põe em risco um dos mais sagrados argumentos dos fãs de UFC. Assumo o risco de falar em seu nome quando digo que os fãs assistiam aos eventos para ver e admirar os artistas marciais. Sim, a luta como forma de arte. Os pontapés precisos, as técnicas afinadas, as transições, as finalizações, as trocas de golpes, os argumentos técnicos que tornavam um combate competitivo. UFC era arte e isso era um argumento fortíssimo para justificar esta paixão. No entanto, parece que a administração da UFC pretende valorizar o nível de fama dos atletas em detrimento das suas aptidões. Não houve arte neste combate, por isso, para mim, não houve UFC. UFC não era pancada, era arte.
A CM Punk resta-me desejar-lhe uma próspera vida longe do octógono. Espero que reencontre o sucesso numa outra área que não as mma. Digo isto, não só por mim como pela saúde do próprio. Reconheço a coragem e o esforço, mas isto não é para ti.
Foto de Capa: UFC












