Publicidade

Nike Oregon Project – Afinal o que é o projeto de Alberto Salazar?

Pedro Pires · 10 min

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Muito se tem falado nos últimos tempos de Alberto Salazar e do projeto da Nike sediado no estado de Oregon nos EUA. Num fim-de-semana em que teremos entre os favoritos na Maratona de Chicago dois nomes relacionados com o projeto, é hora de explorarmos um pouco daquilo que é este projeto, as razões pelo qual é tão falado e também as polémicas associadas ao mesmo. 

A criação do Oregon Project

A história que está por detrás da criação não é mais do que o resultado de anos e anos de fracassos na meia e longa distância norte-americana, que se afundava depois do seu período áureo ter terminado a meio da década de 80. Segundo a versão oficial que consta no site do Oregon Project, Alberto Salazar estava sentado junto de Thomas Clarke (vice-presidente da Nike) e perguntou “como é que chegámos aqui? Como é que podemos estar tão excitados com um sexto lugar?”, referindo-se a um sexto lugar norte-americano na Maratona de Boston em 2001. Foi nesse ano que o Nike Oregon Project foi criado, tendo como objetivo o renascer norte-americano nas distâncias mais longas. Tendo começado como um projeto que contava com os principais nomes norte-americanos da altura, a equipa acabou por perceber que os resultados não eram suficientemente animadores, tendo concluído que esses atletas já traziam vícios e métodos de trabalho difíceis de mudar e que o foco deveria passar por formar atletas desde idades mais jovens. Hoje o projeto continua a ser claramente dominado pelos norte-americanos, mas conta com alguns atletas estrangeiros, ligados à Nike, que têm ajudado a cimentar o posicionamento do projecto, não esquecendo o desenvolvimento dos atletas nacionais. 

Alberto Salazar e os outros técnicos 

A história da criação do projecto e todo o seu desenvolvimento até aos dias de hoje está umbilicalmente ligada a Alberto Salazar. Salazar, que nasceu em Cuba mas que emigrou para os EUA aos dois anos de idade, cedo se começou a destacar no Atletismo, tendo quebrado recorde nacionais jovens em várias distâncias de meia e longa distância.

Alberto Salazar enquanto atleta
Fonte: NYRR

Depois de se ter mudado para Oregon no ano de 1976, o norte-americano venceu (entre 80 e 82) três Maratonas de Nova Iorque consecutivas, sendo que em 82 também venceu em Boston. Durante este período foi também por duas vezes campeão nacional, em pista, nos 10.000 metros (81 e 83), tendo vencido também campeonatos nacionais de Corta-Mato, sendo segundo nos Mundiais de Roma. Não foi uma carreira, ao mais alto nível, particularmente longa e consta-se que tal aconteceu devido aos abusos de Salazar ao nível de treinos de elevada intensidade, tendo seguido uma metodologia de “mais é melhor”, o que lhe provocou muitos problemas com lesões e efeitos secundários de determinadas abordagens. Depois de terminar a carreira como atleta, o norte-americano enveredou pela carreira de treinador, com importantes sucessos, obtidos principalmente depois da criação deste projeto. Os problemas de saúde, esses, não o abandonaram. Em Junho de 2007, teve uma paragem cardíaca e na sua autobiografia publicada em 2012 (“14 Minutes: A Running Legend’s Life and Death and Life”), o técnico relata esse episódio e as suas origens mais pormenorizadamente. 

Alberto Salazar é o cérebro por detrás do projeto
Fonte: Spikes IAAF

Embora, a “cabeça” do projeto continue a ser Alberto Salazar, existem mais nomes que fazem parte do mesmo e que fazem com que o o Oregon Project role da melhor forma, mesmo nos momentos em que Salazar não está tão presente. Pete Julian, provavelmente o mais famoso, é o treinador assistente do projeto, tendo colaborado pela primeira vez com o projeto em 2008 e tendo-se juntado ao mesmo de forma permanente em 2012. Da equipa também fazem parte Darren Treasure (importante no trabalho mental dos atletas), David McHenry (especializado no trabalho de força e físico) e o terapeuta Gavril Muscalu.

Os atletas 

O mais condecorado atleta e o mais famoso que passou pelo projecto chama-se Mohamed Muktar Jama Farah. Ou mais conhecido por Mo Farah. O atleta é o mais bem-sucedido britânico da história moderna do atletismo no que diz respeito a provas de corrida, tendo conquistado, entre muitas outras coisas de enorme valor, quatro medalhas de Ouro em Jogos Olímpicos, seis em Mundiais e cinco em Europeus. No final de Outubro de 2017, Mo Farah que se unira ao projeto em 2011, acabaria por deixar o mesmo, no momento em que decidiu mudar-se para a estrada. A separação foi, de acordo com o que foi divulgado, acordada entre Farah e Salazar, sem qualquer conflito a registar. Farah acabaria por dizer que considera que a Grã-Bretanha lhe dá mais nesta fase da carreira em estrada, começando uma ligação com Gary Lough, conceituado técnico (e marido) que levou Paula Radcliffe ao avassalador recorde mundial da Maratona.

Mo Farah e Galen Rupp voltam a encontrar-se este Domingo na Maratona de Chicago
Fonte: IAAF

Neste momento, o projeto conta com dois estrangeiros como dois dos principais atletas a conseguir bons resultados pelo mundo fora e com um enorme potencial para o futuro próximo: Sifan Hassan e Yomif Kejelcha. Sifan Hassan fez uma época fantástica a nível de marcas. Bateu recordes pessoais na Milha, 3.000 metros, 5.000 metros (recorde europeu) e Meia-Maratona (com direito a recorde europeu), foi campeã europeia nos 5.000 metros, conquistou duas medalhas nos Mundiais de Pista Coberta e também venceu a Continental Cup. Kejelcha bateu recordes pessoais aos 1500, 3000, 5000 e Meia-Maratona, tendo voltado a conquistar o título mundial de pista coberta dos 3.000 metros. Sifan Hassan já afirmou que após Tóquio irá começar a focar-se na estrada, numa altura em que terá 27 anos e muito a tempo para atacar a distância da Maratona com tempo suficiente para uma mais faseada progressão, ao contrário do que se passou com Farah. Yomif Kejelcha, ainda mais novo, já começa a equilibrar a pista com algumas provas de estrada, não estando bem claro qual o rumo que a sua carreira poderá seguir. 

Do lado dos norte-americanos, temos um campeão olímpico (Matthew Centrowitz) e um bronze em Jogos Olímpicos (Clayton Murphy). Mas aquele a quem sempre foi dada uma especial atenção, por ser um projeto de Alberto Salazar desde bem novo, é Galen Rupp. Nascido no estado de Oregon, em Portland, Rupp até começou por treinar futebol, mas foi rapidamente observado pelo técnico norte-americano que o levou para o Projeto para viver nas instalações do mesmo, depois de terminado o ensino secundário, adiando até o seu ingresso na Universidade. Rupp tem como resultados maiores em pista ter alcançado a medalha de Prata nos 10.000 metros dos Jogos de Londres em 2012 e a medalha de Bronze na Maratona dos Jogos do Rio em 2016, enquanto que em Mundiais ficou várias vezes à beira do pódio. 

Galen Rupp nos Jogos de Londres
Fonte: IAAF

2016 foi o ano que começou a transição para a estrada e um ano depois viria a conquistar a vitória na prestigiada Major de Chicago, com um tempo de 2:09:20. Em 2018 dedicou praticamente todo o ano à estrada, embora com poucas provas devido a problemas físicos (que o impediram de terminar em Boston, por exemplo). Venceu a Meia de Roma e em Maio foi a Praga bater o seu recorde pessoal na Maratona, com uma marca de 2:06:07. Tem neste momento 32 anos e continua a ter como objetivo entrar nas discussões de todos os grandes eventos, contra os habituais favoritos africanos. 

No lado feminino, Shannon Rowbury, a recordista nacional dos 1500 metros e medalhada de Bronze em Mundiais (ao ar livre e pista coberta) é um dos nomes grandes, assim como Jordan Hasay, que muito prometeu enquanto jovem e que apesar de alguns bons resultados como sénior, falhou na missão de obter grandes títulos globais em pista. No entanto, no ano passado, no seu ano de estreia na Maratona ficou em 3º em Chicago e Boston, sendo que a sua marca de Chicago (2:23:00) foi a mais rápida estreia de sempre de uma atleta norte-americana. 

Os métodos utilizados 

O projeto é conhecido pelos seus métodos inovadores, fazendo uso da mais alta tecnologia ao serviço do desporto, aliando a vertente científica a treinos, usualmente, intensos e rigorosos. 

https://www.youtube.com/watch?v=4DpI2JLFAwU

Também é comum ver os atletas de Salazar a treinar logo depois das suas provas, como tivemos a oportunidade de observar, ao vivo, Sifan Hassan a fazê-lo na Liga Diamante de Birmingham. Os diferentes métodos são utilizados em todas as fases do projeto, incluindo na recuperação desses atletas, como também podemos observar no vídeo abaixo.

Em conjunto com o Colorado Altitude Training (CAT), todos os atletas treinador por Salazar, fazem treino de altitude na também designada “Casa de Altitude Nike”. A simulação de altitude resulta na redução da pressão do ar, reduzindo a percentagem de oxigénio presente e o método não é apenas utilizado por este projeto em específico, existindo vários atletas que o utilizam pelo mundo fora. 

As polémicas e as suspeitas 

O facto de atletas instalarem-se no campus, colocando em segundo planos os seus estudos – como aconteceu com Galen Rupp – é algo que tem levantado alguma polémica e que eticamente tem os seus críticos. A verdade é que é uma opção dos próprios atletas se querem ou não dar o salto para a Universidade ou começar de imediato a apostar na carreira desportiva. Nos EUA, sabemos que a primeira opção é bastante mais comum e é até quase ofensivo não o seguir. No entanto, não é uma característica exclusiva deste centro. Noah Lyles, por exemplo, é um atleta Adidas, que também preferiu saltar esse etapa do seu desenvolvimento, apostando cedo na profissionalização. Existem, ainda assim, diferenças nos casos. O regime intensivo e até de reclusão que Galen Rupp, por exemplo, viveu durante essa etapa não é o mesmo que Noah Lyles partilha nas redes sociais acerca da sua rápida transição para a profissionalização. Mas, mais uma vez, ainda que se discuta a ética de “atacar” estes talentos desde bem cedo e tentar moldá-los à filosofia do projeto, não parece existir qualquer base legal que possa servir de polémica. 

Outro fator que normalmente “levanta ondas”, como se costuma dizer, são os regimes bastante intensivos de treinos utilizados por Alberto Salazar. Recentemente, Rupp confessou que corre uma Maratona inteira numa passadeira, por vezes e que não acha isso nada de extraordinário porque também corre mais de 30km à volta de um terreno de apenas 300 metros, provando que Salazar é um técnico que adora repetição e que considera isso fundamental para ter resultados a longo prazo. 

Mas as grandes polémicas do projeto estão relacionadas com as sempre presentes suspeitas em relação aos métodos utilizados e as suas potenciais ligações a substâncias proibidas. Desde o seu começo que as salas/casas de altitude têm levantado alguma polémica quanto à sua legalidade e efeitos no corpo humano. Ainda assim, este é um método utilizado um pouco por todo o mundo (onde não se faz treino de altitude não simulado) e é bastante comum, por exemplo na Grã-Bretanha, ouvirmos atletas a referirem-se a tal treino de forma natural. A USADA e, mais tarde, a WADA debruçaram-se sobre o assunto, mas até ao momento o método continua a ser aceite e legal. 

No entanto, as maiores suspeitas surgiram em Junho de 2015, quando um documentário da BBC mostrou e acusou Alberto Salazar de incentivar os seus atletas a utilizar medicamentos prescritos, mesmo que não tenham qualquer doença, de forma a melhorar a sua performance. Dois presumíveis ex-atletas do projeto terão confidenciado, anonimamente, que foram incentivados a correr de forma bastante intensa antes de um teste de asma, de forma a aumentar as chances de obterem uma prescrição para um inalador. 

Também são mostradas imagens com a frase “medicação de testosterona” num gráfico acerca de Galen Rupp, embora a defesa é de que essa frase dizia respeito a suplementos naturais para esse fim. Existem também polémicas quanto ao alegado gel de testosterona que terá sido encontrado depois de uma sessão de treinos em Utah, que Salazar terá respondido que seria parte da sua medicação para o coração. Acusações envolvem ainda a atleta Kara Goucher, que supostamente terá dito a Dvaid Epstein (o repórter por detrás da investigação) que foi forçada por Salazar a utilizar uma substância proibida – Cytomel. Todas essas alegações foram negadas por Alberto Salazar e as cartas escritas pelo técnico respondendo a todas as acusações podem ser encontradas no site oficial do projecto – https://nikeoregonproject.com/blogs/news/35523713-alberto-open-letter-part-2.  Ainda assim as acusações a Alberto Salazar e os seus métodos têm subido de tom e ler os seguintes artigos do NY Times e do Boston Globe, que exploram as acusação atuais que o técnico enfrenta, poderão ajudar a entender melhor a dimensão dessas mesmas acusações no momento:

https://www.nytimes.com/2017/05/19/sports/nike-oregon-project-alberto-salazar-dathan-ritzenhein.html 

https://www.bostonglobe.com/metro/2018/04/12/celebrated-coach-alberto-salazar-faces-doping-allegations-shadow-cast-over-two-his-elite-runners-competing-boston-marathon/Uh490TOBRqRvVUu6wbm36M/story.html 

Se os métodos de Alberto Salazar e a sua equipa são legais, não o sabemos. Se são éticos, existem ainda mais possibilidades de resposta. A verdade é que, embora o Oregon Project ainda não tenha atingido a grandeza a que se propôs a nível do domínio norte-americano na meia e longa distância, os bons resultados do projeto da Nike são visíveis e o crescimento de atletas como Sifan Hassan, Yomif Kejelcha, Galen Rupp ou Jordan Hasay é sempre acompanhado por um considerável grau de ceticismo. Com razão ou não? O tempo possivelmente o dirá.

Foto de Capa: Nike Oregon Project

Pedro Pires

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.