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Em quatro jogos o que mudou e o que melhorou com Jorge Jesus em Portugal: A análise tática do treinador Paulo Mendes

Redação BnR · 8 min

Jorge Jesus Portugal
Foto: Carlos Silva / Bola na Rede

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Portugal venceu os quatro jogos iniciais da Liga das Nações e Jorge Jesus conseguiu uma entrada 100% vitoriosa ao serviço da Seleção Nacional. Analisamos, ponto por ponto, o que melhorou com o novo técnico de Portugal. A análise de Paulo Mendes.

Paulo Mendes está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol e já orientou o Cinfães e o AD Marco 09, tendo também acumulado trabalhos noutros clubes como Arouca ou Lusitânia Lourosa.

Portugal venceu os quatro jogos iniciais da Liga das Nações e Jorge Jesus conseguiu uma entrada 100% vitoriosa ao serviço da Seleção Nacional. Analisamos, ponto por ponto, o que melhorou com o novo técnico de Portugal.

Jogo 1: Portugal 1–0 País de Gales

Foi o jogo mais experimental dos quatro. Jorge Jesus apresentou uma estrutura que podia ser lida como 4-1-3-2/4-4-2, com Cristiano Ronaldo e João Félix juntos na frente, Bruno Fernandes a partir normalmente da esquerda, Pedro Neto do lado direito e Vitinha e Rúben Neves por dentro.

Com bola Portugal queria instalar-se muito alto. Nuno Mendes dava praticamente toda a largura pela esquerda porque Bruno Fernandes procurava constantemente zonas interiores, o que criava assimetria.

A ideia era interessante porque Portugal colocava muitos jogadores entre as linhas galesas. João Félix podia baixar, Bruno Fernandes aparecia por dentro e Cristiano fixava os centrais. Nuno Mendes tinha então espaço para atacar o corredor. É precisamente desse lado que nasce o 1–0.

O problema apareceu quando Portugal perdia a bola. Como Bruno estava muito por dentro e Nuno Mendes muito alto, o corredor esquerdo ficava exposto. Além disso, Ronaldo e Félix não proporcionavam sempre a intensidade necessária para uma pressão contínua.

Na segunda-parte, Portugal perdeu controlo e acabou por sofrer mais do que seria desejável perante Gales. A própria crónica do jogo destaca a pouca produção ofensiva portuguesa e as oportunidades desperdiçadas pelos galeses.

Conclusão: havia qualidade posicional, mas a equipa ainda estava desequilibrada. Muito talento por dentro, pouca segurança quando perdia a bola.

Jogo 2: Noruega 1–2 Portugal

Aqui aconteceu a primeira grande transformação tática de Jorge Jesus. Sai a dupla Ronaldo–Félix e aparece Gonçalo Ramos como 9, com Félix atrás e jogadores rápidos nos corredores. Cristiano começou no banco. Ou seja, 4-2-3-1 sem bola, mas extremamente móvel quando Portugal atacava.

E isto mudou três coisas. A profundidade com Gonçalo Ramos a oferecer movimentos que Ronaldo, nesta fase da carreira, naturalmente oferece menos. Ramos não quer apenas receber no pé. Ataca constantemente: central → lateral e central → central, e sobretudo as costas da linha defensiva. Isso começou a criar espaço para João Félix.

Quando Ramos ameaça profundidade, os centrais noruegueses têm uma decisão difícil: acompanhar Ramos ou subir para controlar Félix. É um dos mecanismos ofensivos mais importantes desta nova Seleção. João Félix entre linhas.

Félix começa a parecer um jogador especialmente importante no modelo de Jesus. Em vez de ficar preso como segundo avançado, aparece frequentemente nesta zona. Recebe entre setores, roda e pode encontrar os extremos ou Ramos. No primeiro golo, Pedro Neto encontra Félix e este faz o 1–0.

Há ainda uma diferença enorme sem bola. Ramos pressiona o guarda-redes e os centrais e consegue transformar passes aparentemente seguros em situações de recuperação.

O 2–1 é o melhor exemplo: aproveita o erro de Nyland e faz o chapéu que decide o encontro. Mas este jogo também mostrou uma fragilidade importante.

Depois do 1–0, Portugal recuou demasiado. Ødegaard começou a controlar zonas interiores, a Noruega empurrou Portugal para trás e Diogo Costa teve de intervir várias vezes. Haaland acabou por fazer o 1–1 após uma bola parada.

Conclusão: Portugal com bola → muito interessante. Portugal a defender perto da própria área → mais vulnerável.

Jogo 3: Dinamarca 2–4 Portugal

Este foi, na minha opinião, o melhor jogo ofensivo dos quatro. Portugal jogou sem Cristiano e com Gonçalo Ramos na frente, Bruno Fernandes atrás dele, Rafael Leão pela esquerda e Pedro Neto pela direita. A equipa entrou forte e pressionante. E aqui começou a aparecer claramente aquilo que Jesus procura.

A ideia é ocupar largura + meio-espaços + profundidade. E os laterais são fundamentais. João Cancelo praticamente transforma-se num médio/ala durante algumas fases. Pode aparecer: por fora; por dentro; em combinação curta; ou atacando a área.

O primeiro golo contra a Dinamarca mostra isso perfeitamente: Cancelo combina com Ramos e aparece em posição de finalização para fazer o 1–0. Isso é muito “Jorge Jesus”. O lateral não serve apenas para cruzar. É mais um jogador de construção e combinação.

Quanto a Gonçalo Ramos, o segundo golo é talvez a melhor jogada para perceber o conceito. Ramos baixa e combina com Bruno. Depois imediatamente ataca profundidade. Bruno encontra-o nas costas da defesa e Ramos faz o 2–1. É uma sequência muito importante:

Ramos baixa → arrasta adversário → entrega → roda → ataca espaço.

Portugal passa a ter uma ameaça vertical que complementa muito melhor Vitinha, Bruno, Félix, Neto ou Leão. Mas apareceu o maior problema destes quatro jogos A transição defensiva.

Portugal sofreu o primeiro golo dinamarquês depois de uma bola parada ofensiva portuguesa. A Dinamarca recuperou e atacou rapidamente o espaço deixado pela Seleção. Isto é fundamental. Quando Portugal ataca, coloca muitos homens à frente da bola. Se Vitinha/Rúben Neves e os centrais não matarem imediatamente a transição, existe muito campo para defender.

É provavelmente o maior risco estrutural do modelo de Jesus.

Jogo 4: Portugal 2–1 Noruega:

No Dragão vimos talvez a versão mais madura deste Portugal. A Noruega tentou entrar agressiva, mas Portugal conseguiu ultrapassar esse momento e controlar o jogo através de posse curta. Vitinha tornou-se claramente o organizador, enquanto o corredor direito Francisco Conceição–Cancelo criou muitos problemas.

Aqui apareceu outra característica muito interessante. Portugal consegue atacar de duas maneiras diferentes. Por fora: Cancelo → Conceição → combinação → 1×1 → linha de fundo. Mas se o adversário fecha o corredor:

Vitinha ↓

circulação interior

 ↓

mudança de corredor

Isto torna Portugal menos previsível. Contra blocos baixos, esta capacidade será importantíssima. A Noruega marcou primeiro através de Ajer, após passe de Ødegaard, mas Portugal respondeu rapidamente com Cancelo, depois de Nuno Mendes colocar a bola na entrada da área. Depois aparece novamente Gonçalo Ramos. E isto já começa a deixar de ser coincidência: Ramos é extremamente compatível com este modelo. Foi ele quem marcou o 2–1 aos 79 minutos, garantindo a quarta vitória e o apuramento.

O padrão tático dos quatro jogos Depois destes quatro encontros, eu resumiria a Seleção de Jorge Jesus desta forma:

Sistema nominal: 4-2-3-1 / 4-4-2.

Sistema real com bola: algo bastante mais próximo de 2-3-5 / 3-2-5, dependendo da posição de Cancelo, Nuno Mendes e do médio mais defensivo. Naturalmente, as posições variam, mas o princípio é este: cinco jogadores ocupam a última linha e os espaços entre setores; três dão equilíbrio e circulação; dois garantem cobertura.

A importância de Vitinha: Há um jogador que considero absolutamente central neste modelo: Vitinha. Não necessariamente porque faça golos ou assistências. É porque determina onde Portugal joga. Vitinha consegue mudar o centro do jogo. E joga sempre para frente. Isso permite que Portugal atraia adversários para uma zona e depois encontre espaço noutra. Contra a Noruega no Dragão, essa capacidade de controlar a posse e variar entre corredores foi particularmente evidente.

Cancelo + Nuno Mendes: Outra arma potencialmente brutal são os laterais.Mas desempenham funções diferentes. Nuno Mendes dá mais profundidade, aceleração e largura. Cancelo oferece mais jogo interior, associação e criatividade. Por isso Portugal pode ficar assimetricamente organizado. Ou seja, quando Mendes sobe por fora, Cancelo pode entrar por dentro.Isso cria superioridade no meio-campo sem retirar largura à equipa. Cancelo marcou nos dois últimos jogos, incluindo o primeiro golo contra a Noruega no Dragão.

Gonçalo Ramos muda Portugal: Esta é provavelmente a maior conclusão dos quatro jogos. Não significa necessariamente que Ramos seja individualmente “melhor” que Cristiano Ronaldo. Significa que as características de Ramos parecem encaixar melhor naquilo que Jorge Jesus está a tentar construir. Com Ramos temos:

Pressão → profundidade → movimentos sem bola → ataque ao primeiro poste → capacidade de fixar centrais.

E isso beneficia os jogadores que estão atrás dele. Especialmente João Félix e Bruno Fernandes. É significativo que Ramos tenha sido titular na primeira vitória sobre a Noruega, na Dinamarca e novamente frente à Noruega, tendo impacto direto nos resultados.  

João Félix pode ser um dos grandes beneficiados: Também vejo Félix como um dos jogadores que pode ganhar mais com Jesus, porque o selecionador não lhe está a pedir que seja um extremo clássico, está sim a colocá-lo perto da zona onde é mais perigoso, as entre linhas. Félix pode receber, virar, combinar e aparecer na área. Nos quatro primeiros jogos desta fase, ele marcou três golos, tal como Gonçalo Ramos.

O maior problema: defender a perda: É aqui que eu teria mais atenção. Portugal quer atacar com muitos jogadores. Isso produz futebol ofensivo, mas significa que, quando perde a bola, fica em dificuldades. Foi particularmente evidente contra a Dinamarca, que chegou a marcar numa transição iniciada após uma bola parada ofensiva portuguesa.

Contra uma seleção de elite — França, Espanha, Inglaterra, Alemanha — isso pode ser muito perigoso. Jesus terá de melhorar a chamada rest-defence: a organização dos jogadores que ficam atrás da bola enquanto Portugal ataca.

Leitura final dos quatro jogos

Vejo uma evolução bastante clara:

Gales → experiência.

Portugal ainda parecia estar a aprender onde cada jogador devia estar.

Noruega fora → descoberta.

Ramos + Félix + extremos deram à equipa profundidade, mobilidade e pressão.

Dinamarca → explosão ofensiva.

Foi quando vimos melhor o potencial do modelo: movimentos, combinações, laterais muito ofensivos e vários jogadores a chegar à área.

Noruega em casa → consolidação.

Portugal mostrou mais capacidade para controlar diferentes momentos do jogo, utilizar tanto corredores exteriores como interiores e sobreviver também quando teve de defender.

Em suma, a grande mudança que vejo com Jorge Jesus é esta: Portugal está a passar de uma equipa que tinha muita bola, com a posse em U, para uma equipa que procura fazer coisas concretas com essa bola. Já para não referir a libertação das amarras da construção que Nuno Mendes tinha com Martinez.

Há mais profundidade, mais gente na área, mais movimentos de rutura, laterais mais envolvidos e uma tentativa clara de recuperar rapidamente após perder a posse.

O preço dessa ambição é o risco defensivo. E é precisamente aí que estará o teste verdadeiro: se Jesus conseguir manter esta agressividade ofensiva e simultaneamente construir uma boa proteção da perda, Portugal pode tornar-se uma equipa extremamente difícil de controlar.

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