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O «atalho» de 16 mil euros que abalou o futebol brasileiro – e chegou a antigos jogadores de FC Porto, Sporting e Benfica

João Esteves · 5 min

Thiago Silva FC Porto
Foto: Paulo Ladeira / Bola na Rede

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Thiago Silva, antigo jogador do FC Porto, Roberto Assis, que representou o Sporting, e Diego Souza, com passagem pelo Benfica, estão entre os nomes ligados a uma investigação que está a abalar o futebol brasileiro. No centro do caso está a alegada comercialização irregular de licenças de treinador, com uma promessa de certificação rápida por cerca de 100 mil reais — aproximadamente 16 mil euros —, sem cumprir o percurso de formação habitual.

A investigação foi publicada pelo portal brasileiro UOL e tem como figura central Alejandro Mancuso, antigo internacional argentino, ex-jogador de Flamengo e Palmeiras e antigo adjunto de Diego Maradona na seleção argentina. Segundo a reportagem, Mancuso terá apresentado uma via alternativa para a obtenção de quatro certificações de treinador atribuídas à Associação de Técnicos do Futebol Argentino (ATFA). A entidade argentina, porém, nega reconhecer os documentos em causa e afirma que Mancuso não tinha autorização para a representar. O antigo jogador, por seu lado, nega ter vendido licenças ou recebido dinheiro dos interessados.

Via rápida para chegar ao banco

Segundo a investigação assinada pela jornalista Joanna de Assis, a proposta consistiria em obter, em poucos dias, quatro certificações: C e B, destinadas à formação, A, de nível profissional, e Pro, de âmbito internacional. O conjunto dos documentos custaria cerca de 100 mil reais, qualquer coisa como 16 mil euros. A promessa seria conseguir as licenças sem cumprir o percurso regular de formação, num processo apresentado como rápido e simplificado. A ATFA rejeitou qualquer ligação institucional a Mancuso e declarou não reconhecer a documentação que lhe é associada. A reportagem do UOL refere ainda irregularidades nos certificados, incluindo datas incompatíveis com o percurso de responsáveis pela sua validação e erros nos próprios documentos.
Contactado pelo portal brasileiro, Mancuso negou ter vendido licenças de treinador e afirmou que se limitava a orientar os interessados. A sua versão contrasta com os elementos reunidos pela investigação, que incluem gravações, mensagens e documentação.

Os nomes e as diferentes situações

Além de Thiago Silva, Roberto Assis e Diego Souza, a investigação refere outros nomes conhecidos do futebol internacional, entre os quais Roberto Carlos, Felipe Melo, Luiz Gustavo, Diego Lugano, Paolo Guerrero, Alex de Souza, Dejan Petkovic e Paulinho.
A presença nesta lista não significa, contudo, que todos tenham utilizado as licenças, que soubessem de uma eventual irregularidade ou que lhes tenha sido atribuída responsabilidade criminal. As circunstâncias descritas variam de caso para caso.
Roberto Carlos e Roberto Assis disseram ter recebido licenças, mas afirmaram não ter utilizado os documentos por não terem concluído o curso. Dejan Petkovic relatou ter ficado com a licença suspensa por não ter cumprido a componente presencial. Diego Lugano confirmou ter adquirido licenças através de um curso que incluía aulas teóricas online, mas reconheceu não ter realizado a parte presencial.

Felipe Melo, por seu lado, contou ter começado a desconfiar da proposta quando a componente presencial não se concretizou e afirmou ter recebido o dinheiro de volta. Alex de Souza declarou que nunca precisou da documentação e que só mais tarde reparou num erro no certificado.

Os testemunhos revelam situações distintas. A aquisição de uma licença, a conclusão de uma formação e a utilização de um certificado para efeitos de registo são atos diferentes e não devem ser confundidos.

Brasil Jogadores
Fonte: CBF

Diego Souza perdeu o registo na CBF

O caso ganhou uma dimensão administrativa concreta no Brasil com Diego Souza, antigo internacional brasileiro que jogou no Benfica e é treinador do Joinville. Segundo uma segunda reportagem do UOL, o ex-jogador foi inscrito, em agosto de 2026, no Boletim Informativo Diário (BID) da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com uma licença Pro atribuída à ATFA. Depois de a entidade argentina ter informado que os nomes consultados não constavam dos seus registos, a CBF cancelou o registo de Diego Souza e encaminhou o caso para a Comissão de Ética e para a Câmara Nacional de Resolução de Disputas, para apuramento de eventuais responsabilidades.

Diego Souza afirmou ter recebido a documentação em 2023, quando ainda jogava pelo Grêmio, e disse ter acreditado na legitimidade da proposta. Segundo o seu relato, Mancuso apresentou-se como diretor internacional da ATFA e garantiu que a licença lhe permitiria trabalhar como treinador depois do fim da carreira de jogador. O técnico declarou ter sido enganado e manifestou intenção de se defender e de procurar responsabilizar quem considera ter agido de má-fé. A CBF recordou que cabe aos clubes assegurar a veracidade dos documentos apresentados para efeitos de registo.

O cancelamento do registo não equivale, por si só, a uma condenação criminal de Diego Souza. A decisão incide sobre a sua situação administrativa enquanto treinador, num processo em que continuam por apurar responsabilidades.

O que aconteceu à investigação na Argentina?

O caso tem ainda um antecedente que exige uma leitura cuidadosa. Em julho de 2025, a polícia argentina investigou suspeitas de irregularidades relacionadas com seis licenças de treinador. Entre os nomes associados a esses documentos estavam Felipe Melo, Roberto Carlos, Roberto Assis, Diego Lugano, Paolo Guerrero e Dejan Petkovic.
Segundo uma reportagem posterior do UOL, esse inquérito foi encerrado em dezembro de 2025 por ausência de provas da existência de crime. O procedimento incidia sobre a eventual emissão irregular de certificados e não chegou a investigar Alejandro Mancuso, cujo nome não foi analisado nesse processo. O arquivamento não confirma a validade de todos os documentos mencionados na investigação jornalística posterior. Também não constitui uma decisão judicial sobre as alegações agora divulgadas contra Mancuso. São procedimentos distintos, com objetos e âmbitos diferentes.

Uma questão que vai além dos nomes

O caso coloca sob escrutínio os mecanismos de formação e certificação de treinadores e os procedimentos utilizados para reconhecer qualificações obtidas no estrangeiro. A experiência de um antigo jogador pode ser um património importante, mas não substitui automaticamente os requisitos formais exigidos para exercer a profissão. A investigação do UOL descreve uma proposta que prometia contornar esses requisitos através de um processo rápido e dispendioso. A ATFA rejeita a autenticidade dos documentos que lhe são atribuídos, Mancuso nega ter vendido licenças e alguns dos antigos jogadores referidos afirmam ter acreditado na legitimidade da oferta. A questão central permanece, por isso, a de apurar o que aconteceu em cada caso: quem recebeu documentação, quem a utilizou, em que circunstâncias e com que conhecimento da sua validade.

Entre a promessa de um atalho de 100 mil reais e as consequências já verificadas no registo de Diego Souza, o caso expõe as fragilidades que podem surgir quando a procura de uma certificação rápida se sobrepõe à verificação dos procedimentos oficiais.

João Esteves

Redação Bola na Rede · ver artigos

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