Ricardo Pessoa é um antigo internacional jovem português, com vários anos de experiência nos relvados da Primeira Liga, muitos deles ao serviço do Portimonense. No final da carreira, desempenhou funções como treinador-adjunto no clube algarvio, antes de iniciar o seu percurso como treinador principal. Destacou-se no comando do Lusitânia dos Açores, promovendo o emblema açoriano até à Liga 3, com passagens pelo Lusitano de Évora, Amora e um regresso ao Portimonense, onde assumiu a liderança da equipa principal.
Bola na Rede: Quando é que sentiu a vontade de ser treinador e também o quão benéfico foi ter iniciado a carreira como treinador-adjunto?
Ricardo Pessoa: A transição acaba por ser fácil, porque nós com o passar dos anos começamos a entender e olhar para o jogo de outra forma, que não olhamos no início da carreira enquanto jogadores. Quando chegamos ali aos 26, 27, 28 começamos também a olhar para a perspetiva do treinador, enquanto até lá nem sempre olhamos para aquilo que é a perspetiva e o trabalho do treinador. E eu a partir dessa idade, dos 26, 27, comecei a tomar atenção e comecei a perceber também aquilo que é o trabalho do treinador, aquilo que são as decisões, a tomada de decisão e fui percebendo não só o jogo, mas todos os outros fatores que envolvem a escolha, a decisão, voltar atrás de uma decisão ou não, e comecei a entender que era algo que me apaixonava. Nos meus últimos anos de carreira já fui tendo um tipo de comportamento com colegas meus, não sendo treinador obviamente, mas numa ideia de lhes dar conselhos. Muitas vezes os jovens olham só para eles e não percebem aquilo que o treinador está a fazer, pensam sempre que estão a ser prejudicados e foi numa de aconselhamento, de lhes dizer que não é bem assim: ‘se o homem está a ter esta decisão é porque ele acha que é melhor’. Foi já um pouco assim nos últimos anos e foi aí que eu entendi que era uma carreira que queria segui. Depois, obviamente que ter sido adjunto permitiu-me também perceber algumas decisões, aquilo que era positivo e negativo, aquilo com o que eu me identificava e não me identificava e traçar um projeto e ideias que me permitissem, um dia mais tarde, ser treinador principal.
Bola na Rede: Que impacto teve o facto de ter iniciado esse processo no Portimonense, num clube que já conhecia tão bem?
Ricardo Pessoa: É mais fácil, porque temos uma história dentro do clube, conhecemos a realidade, conhecemos a casa. Torna tudo muito mais fácil e acessível, porque somos da casa. Mais fácil do que estar a mudar completamente a vida para outro sítio. Não é que não me adaptasse, mas eram muitos os anos de Portimonense e isso permitiu-me também, com mais calma e com mais tempo, aprofundar aquilo que era a minha visão.


Bola na Rede: Agora já com alguns anos de profissão, como é que se descreveria como treinador? Principalmente a nível tático, quais são as ideias de jogo que considera fundamentais nas suas equipas?
Ricardo Pessoa: Há um traço muito claro naquilo que são as minhas ideias, naquilo que são as minhas equipas: gosto de equipas que tenham bola, que não tenham medo de ter bola, que saibam os caminhos que têm que usar para chegar à baliza adversária. Muitas das vezes dando alguma liberdade para os jogadores exprimirem, porque, enquanto treinadores, traçamos um caminho, mas nem sempre esse caminho está disponível e, por vezes, é preciso dar aos jogadores essa confiança para que possam eles descobrir esses caminhos com recursos alternativos. Acima de tudo, eu gosto de equipas que tenham bola, jogadores que não tenham medo de assumir o jogo, por vezes assumir o risco, acho que é muito importante. Sabemos que estamos dependentes dos resultados, mas se um treinador não tiver a capacidade de dar aos jogadores a capacidade de serem eles A decidir o caminho por vezes, eu acredito que está-se muito mais longe do sucesso, porque os jogadores veem coisas que nós nem sempre conseguimos ver. Mas são equipas que gostam de ter bola, agressivas na pressão alta – são dois traços fundamentais que eu gostaria de destacar. Obviamente, há muitos outros, mas acima de tudo estão estes dois traços. Depois, há um que para mim é muito importante que é o relacionamento com os jogadores, porque nós temos que olhar também para os jogadores, sabendo distinguir aquilo que é o ser jogador e o ser treinador. Há sempre um limite, mas que gosto que os jogadores sintam que, do lado de cá, têm uma pessoa que não olha para eles apenas enquanto jogadores, mas também enquanto seres humanos. Isso nem sempre é fácil e foi uma das coisas que, quando fiz nesta transição de jogador para treinador, disse sempre que queria ter no meu relacionamento com os jogadores. A nível tático, tenho dois sistemas que foram aqueles que usei mais nestes anos, que é normalmente jogar num 4-3-3 ou num 3-4-3, porque são dois sistemas que eu acho que podem, dentro do mesmo, naquilo que é um processo ofensivo, desdobrar-se um para o outro. São dois sistemas que eu utilizo e que me permitem utilizar todas estas ideias que eu gosto.
«gosto de equipas que não tenham medo de ter bola e que saibam os caminhos que têm que usar para chegar à baliza adversária».
Bola na Rede: Dentro desses sistemas tem algum treinador ou alguns treinadores que vê como referências mais a nível tático?
Ricardo Pessoa: Sim, por exemplo as equipas do Guardiola no início no Barcelona e depois no Bayern, quando metia os laterais por dentro e os extremos sempre abertos, para criar desequilíbrios. No 3-4-3, gostei muito do Sporting de Ruben Amorim. Mas seria injusto estar aqui só a destacar os dois, mas ficam estas duas referências para aquilo que foram os percursos destes dois treinadores naquele período de tempo nessas equipas. O 3-4-3 do Ruben Amorim veio revolucionar um pouco aquilo que se praticava em Portugal nos últimos anos. Foi um sistema com os jogadores certos, porque os sistemas são bons quando as características dos jogadores assentam perfeitamente para aquele sistema e foi o que aconteceu. Portanto, destacaria esses dois, um internacional e um nacional.
Bola na Rede: Começou de forma muito vitoriosa com o Lusitânia, acabou também por ser o clube onde passou mais tempo e chegou à Liga 3 em duas temporadas. Como é que reflete sobre essa experiência no geral e a forma como o preparou para o salto para outros patamares?
Ricardo Pessoa: O Lusitânia teve uma importância muito muito grande na minha vida profissional, porque foi o projeto que eu encarei na Distrital. Sinto que ter começado de baixo permitiu-me passar por algo que eu nunca tinha passado enquanto jogador, porque andei sempre entre a Primeira e a Segunda Liga. Vivi experiências que me permitiram crescer enquanto treinador e enquanto homem. É verdade que foram duas épocas de muito sucesso, com muitas dificuldades durante todo os dois anos do percurso: criar uma mentalidade vencedora, tentámos criar um espírito nestes jogadores que, não é que fossem imbatíveis, mas que fossem muito difíceis de derrotar. Foi isso que nós conseguimos criar aqui. Teve um impacto enorme para aquilo que eu pretendo fazer, porque vivi experiências, lidei com jogadores, com diretores, com presidentes, com pessoas que estavam habituadas ao amadorismo, e quando nós falamos no amadorismo, a palavra não é depreciativa. Tem de se valorizar o amadorismo, porque são pessoas que têm as suas vidas e que dão o seu tempo sem retorno financeiro para os seus clubes, Foi extremamente importante para criar ligações, para criar formas de estar que me vão permitir adaptar-me a qualquer circunstância que venha a apanhar no futuro.
Bola na Rede: Enquanto esteve na Lusitânia conseguiu também potenciar jovens que levam agora carreiras a mais alto nível. O exemplo claro é Camilo Duran, que já leva 6 golos no Celtic, depois de custar mais de 5 milhões de euros. Como é que vê o papel que teve na evolução do jogador e até que nível é que acredita que ele pode chegar?
Ricardo Pessoa: Sim, isso é verdade, o projeto que nós tínhamos aqui era muito acreditar em jovens que estavam, entre aspas, perdidos ou que se tinham desviado de um caminho positivo, como foi o caso dele (Camilo Duran) e de outros que tinham passado no Benfica e Sporting. O caso dele acaba por ser mais fácil de falar, porque foi aquele que chegou mais longe de todos aqueles que passaram durante estes dois anos aqui, apesar de termos alguns jogadores que, entretanto, também tiveram bons percursos e que chegaram a alguns clubes grandes de Primeira Liga e outros que acabaram por andar a jogar no Distrital e Campeonato de Portugal e que hoje em dia estão a jogar a Liga 3. Ele é o caso mais flagrante porque realmente era um talento, mas faltava-lhe outro tipo de coisas. O talento estava lá, mas faltava-lhe o trabalhar diariamente, faltava-lhe aprender a sofrer, porque ele sabia que realmente era muito bom, mas achava que, por ser muito bom, se calhar não tinha que trabalhar tanto. O meu papel com ele a nível tático, trabalhámos o processo defensivo dele. Ainda há pouco tempo, ele já estava no Celtic e disse-me: «Mister, agora é até corro para frente e para trás». E eu dizia: «Não, tu sempre conseguiste correr, tu é que não o querias fazer tanto, porque sabias que eras bom e o nível era baixo». A nível mental, ele hoje é um jogador muito mais maduro. É um jogador que está preparado para as dificuldades e para ficar de fora. Eu levei-o para o Portimonense porque acreditava que ele ia ter sucesso, mas não foi fácil para ele no início. Ele não foi logo titular porque vinha do Campeonato de Portugal para a Segunda Liga e o contexto é diferente: a rapidez com que se joga, o tempo que nós temos para nos virar é completamente diferente e ele vinha habituado a ter esse tempo e espaço. Sendo um jogador que era melhor que os outros, aquele tempo não lhe fazia diferença, mas quando chegou à Segunda Liga, o tempo para reagir e pensar é muito menor e ele teve algumas dificuldades no início e não foi titular. Mas eu sabia e sempre disse que era um jogador que, quando se impusesse, iria dar sucesso e foi isso que aconteceu. Acima de tudo, foi trabalhar com ele a parte mental, trabalhar este aspecto do jogo defensivo. É um craque e acredito que ele não vai ficar por aqui. Tenho uma fé enorme que ele vá ser chamado à seleção, já lhe disse há um mês atrás, e acredito que este passo para o Celtic vai permitir que, daqui a um ou dois anos, possa dar mais um salto. Foi muito bom trabalhar com os jovens, fazer crescer muitos deles, fazermos algo que era quase impossível. Não digo impossível, mas foi uma tarefa muito difícil conseguirmos subir dois anos consecutivos.


Bola na Rede: No Portimonense, treinou também Filipe Relvas, que depois seguiu para o Vitória SC, sendo depois apontado a grandes clubes em Portugal, antes de assinar com o AEK. No mesmo sentido, pergunto-lhe também como é que vê a evolução do jogador e o papel que teve nesse sentido?
Ricardo Pessoa: Fui treinador do Relvas enquanto adjunto e depois também tive a felicidade de ser treinador dele. O Relvas era um jogador que veio de baixo, assim como o Duran, e era um jogador que, na minha opinião, se adaptava muito mais a jogar na primeira Liga do que na Segunda. Isto pode soar estranho, mas a Segunda Liga tem características muito especiais e, tanto ele como o Alemão, que foi um jogador que também saiu depois para o Lask Linz e que eu vi agora jogar contra o Duran, eram dois jogadores que nós falávamos enquanto equipa técnica que eram muito mais jogadores da Primeira Liga. E tínhamos razão naquilo que era a nossa avaliação, porque o Relvas quando sai para Guimarães tem um rendimento extraordinário e o Alemão quando sai para o Lask Linz também tem um rendimento extraordinário. Portanto foi bom trabalhar com o Relvas, já o conhecia e fico contente por ver o percurso dele. Ele precisava e era bom para ele sair do Portimonense, porque já eram alguns anos (no clube) e era importante para ele ter estas experiências no estrangeiro e na Liga dos Campeões como está a ter agora.


Bola na Rede: Nesse sentido, pensa que o desenvolvimento de jovens talentos é um dos seus pontos fortes como treinador?
Ricardo Pessoa: Eu acredito que sim, sinceramente, trabalhei sempre com jovens, integrei sempre jovens nas equipas onde estive, tanto no Lusitânia como no Portimonense. É algo que eu gosto de fazer, mas também temos que saber suportar esses jovens e também temos de ter alguns jogadores que permitam que esses jovens cresçam, amadureçam e que possam expressar toda a qualidade que têm. Muitas das vezes, isto não é só apostar por apostar. Tem que se apostar na altura certa. Um jogador que hoje com 18 anos pode estar preparado, mas pode haver um de 20 que neste momento não está e vice-versa. Portanto, cada um tem o seu momento e precisam das oportunidades. Mas, acima de tudo, precisam de ganhar maturidade em treino, com jogadores de outro nível que os façam crescer e é sempre esse protocolo que eu assumo. Não tenho medo nenhum de lançar jovens e, se tiverem qualidade, ela vai evidenciar-se.
Bola na Rede: Olhando agora para o futuro da sua carreira em específico, estaria mais aberto agora a um projeto já bem definido ou estaria disposto a arrumar a casa, como se costuma dizer, em algum clube, seja em Portugal ou no estrangeiro?
Ricardo Pessoa: Neste momento, aquilo que eu procuro é um projeto que me dê as condições de poder trabalhar, impor uma ideia, preparar um estudo de alguns jogadores. Portanto, um contexto que me permita isso, dentro ou fora de Portugal. Mas, neste momento, aquilo que eu procuro mesmo é ter um projeto neste sentido fora do país. Já houve algumas abordagens em Portugal e também no estrangeiro, mas eu e os meus empresários entendemos que não era o mais viável, porque não estava dentro destas características. Eu costumo dizer que vou ser muito criterioso com aquilo que pretendo, que é: um contexto que me permita mostrar a minha ideia com um trajeto, não a curto prazo, mas algo a médio ou longo prazo, onde possa desenvolver jogadores. Acima de tudo, procuro isso fora do país, é uma experiência que quero ter.
«Procuro um contexto que me permita mostrar a minha ideia com um trajeto a médio ou longo prazo, onde possa desenvolver jogadores».
Bola na Rede: O que o leva a pretender essa experiência fora do país?
Ricardo Pessoa: Primeiro, porque nunca tive essa experiência enquanto jogador, e sinto que, neste momento, era importante ter essa experiência lá fora, para também poder abrir outros mercados, e trabalhar com jogadores diferentes. Isto porque há tantos países aí, tantos continentes onde há jogadores de grande qualidade e nós, às vezes, depois de lá estar a trabalhar, sentimos isso. Quero abrir um pouco o leque e explorar mais aquilo que é a qualidade dos jogadores de outros países e continentes, e também abrir portas a projetos interessantes fora de Portugal.



