Lê também os outros capítulos do Diário do Mundial 2026.
A arte de ter a bola sem saber o que dela fazer | Portugal 1-1 RD Congo


Ainda era hora de almoço em Houston quando apareceu o problema de Portugal. Talvez as borboletas na barriga tenham despertado uma vontade diferente que, em vez da fome de vencer, se manifestou numa insaciável tendência para mastigar o jogo. Só os três médios de Portugal, por exemplo, tiveram mais passes completos que toda a equipa da RD Congo. Mesmo assim, ambas as seleções marcaram o mesmo número de golos, provando que, o que conta, é mesmo a estratégia para meter a bola na baliza adversária. E aí, nada do que Portugal fez para lá dos primeiros minutos resultou.
Nos primeiros minutos, a seleção nacional fez o mais difícil. Quanto mais tarde Portugal marcasse, mais a ansiedade e a desconfiança teriam espaço para crescer dentro da equipa. João Neves tratou-se de impedir que esta teoria tivesse qualquer tipo de validade num dos seus movimentos tipo. Não há, no mundo, muitos jogadores tão fortes na leitura do espaço para responder a situações de cruzamento, quer pela identificação do local certo para atacar a bola, quer pela impulsão, quer pela técnica de cabeceamento.
Depois de um momento delirante, veio um delírio hipnotizante no sentido literal da palavra. Com a segurança da vantagem do resultado, a seleção nacional como que magnetizada pelo balançar de um pêndulo, decidiu repetir e começou a jogar como se de um oscilador se tratasse, indo da esquerda à direita sem grande urgência de chegar rápido à baliza adversária ou de fazer algo mais do que carícias à bola.


Taticamente, havia um objetivo claro de criar um quadrado no meio-campo, com Bernardo Silva de fora para dentro a suportar o trio de médios portugueses, de sair num 3+2 (ou 2+2, caso Nuno Mendes se soltasse) bastante dinâmico e de fazer do lado direito, com João Cancelo por fora e Bernardo Silva nas tais posições mais interior, o início de construções que se queriam ver terminadas no lado contrário, onde Portugal acumulava Nuno Mendes, Pedro Neto, Cristiano Ronaldo e Bruno Fernandes. Na teoria, pensando numa RD Congo que preenchia muito bem o espaço central num 5-3-2 bastante compacto, embora nem sempre assim tão baixo, o objetivo estava na criação de superioridades no corredor esquerdo.
No entanto, a rigidez posicional, principalmente dos médios, acabou por tornar tudo demasiado previsível e de fácil condicionamento. A RD Congo só precisava de controlar o espaço, ir flutuando de um lado ao outro e de ter cuidado com as infiltrações dos médios, acompanhados pelos médios congoleses. Mesmo com Vitinha e João Neves a trocar posicionamentos, os avançados africanos só precisavam de manter cuidado com as progressões com bola, cortando o caminho e levando a bola a voltar atrás, e com a entrada da bola no espaço. Depois, com Bruno Fernandes, principalmente, tão destinado a fixar a linha defensiva adversária, faltou envolvimento coletivo e capacidade de circular com a bola.
Que é um Portugal de médios, isso é claro e inequívoco. Agora, não basta esperar que somente a sua presença em campo seja capaz de resolver todos os problemas. É preciso dar-lhe sentido coletivo e, para os médios portugueses, maior liberdade para jogar. De outra maneira, por mais que a matemática da repartição espacial esteja correta – e por muitas vezes não esteve – a ciência do futebol tratará de ditar o impossível. Isso e de pedir mais minutos aos jogadores de Portugal mais fortes a jogar dentro do bloco adversário e de ser acionados nestes espaços curtos.


Além das dificuldades em passar da gestão com bola à ameaça com bola, Portugal tem lacunas na resposta a situações de cruzamentos e na defesa de bolas paradas. Quando as duas se juntaram, a RD Congo marcou o primeiro golo da sua história em Mundiais, naquele que foi também o primeiro e único ponto conquistado. Yoane Wissa é a grande referência técnica congolense e viu uma grande exibição, por dentro, como o elemento mais móvel no 5-3-2, coroada por um golo.
No seu 5-3-2, com encaixes dos alas por fora, com uma linha defensiva bem capaz de defender a área e retirar conforto aos adversários e um trio de médios fortes fisicamente, com a função de saltar quando necessário, mas também de proteger a área das infiltrações alheiras, a RD Congo será sempre muito competitiva. Com o empate, ganhou argumentos para sonhar com um apuramento para a próxima fase.
Juntar no setor defensivo jogadores como Chancel Mbemba, Axel Tuanzebe e Aaron Wan-Bissaka permitirá sempre ter confronto para defender. Mesmo Samuel Moutossamy, dos mais desconhecidos, o maior destaque do jogo contra Portugal, tem argumentos para defender a área, baixando se necessário para encaixar entre os centrais. Desta feita, sem necessidade de o fazer, acabou por ser um importante termómetro na distribuição dos ataques da RD Congo, fazendo fluir as transições, sempre muito pensadas por dentro, até pela ausência de extremos. Ter Cédric Bakambu, que nem viveu um jogo por demais influente, e Yoane Wissa, capaz de atacar espaços na frente, mas também de baixar para rodar e acelerar ou dar alguma pausa, é a chave da seleção africana. O mais difícil no Mundial 2026 está feito.
O clube de Thomas Tuchel | Inglaterra 4-2 Croácia


Thomas Tuchel deixou de fora da convocatória de Inglaterra, de cabeça e sob pena de algum nome grande ter sido esquecido, Harry Maguire, Levi Colwill, Trent Alexander-Arnold, Lewis Hall, Luke Shaw, Adam Wharton, Morgan Gibbs-White, Cole Palmer, Phil Foden ou Jarrod Bowen. À falta de outras palavras, não faltou coragem e autoridade ao alemão na escolha dos melhores ingleses para ir jogar o Mundial 2026 às suas ordens. Uma lista que, deixou bem claro o próprio, não contempla necessariamente os melhores jogadores ingleses do mundo. Apenas os melhores dentro das suas exigências.
Esta diferença levantou uma série de questionamentos, julgamentos e polémicas. As interrogações serão sempre bem-vindas à discussão sobre futebol, mas a resposta a esta dúvida não será certa até à eternidade. Tal como há múltiplas maneiras de meter a equipa a jogar em campo, também há várias formas distintas de criar um grupo. Thomas Tuchel optou pela via do “clube”, numa convocatória com incongruências, justificações díspares, mas da sua confiança.
Nesta ideia, o selecionador de Inglaterra quer ver uma identidade clara na seleção, padrões bem definidos e capacidade de variar jogadores, mantendo a mesma ideia. Há algumas interrogações que só mais tarde poderão ser respondidas, relativas à solidez defensiva, nomeadamente na capacidade de defender a profundidade e de garantir abordagens regulares e fiáveis ao longo do torneio e também, lá à frente, diante de blocos mais baixos, que garantam outro tipo de magia. Contra a Croácia, uma equipa que não se encapsulou, um jogo de afirmação.


Harry Kane é o ponto central de todo o modelo de jogo. Está a fazer a melhor temporada da carreira e cada vez mostra que ser bom em tudo é uma tarefa possível. Garante golos, joga bem na área, mas o grande determinante de tudo passa pela capacidade de, tal como faz no Bayern Munique, vir cá atrás, perto dos médios, receber a bola e lançar ataques. Devem estar loucos os adeptos norte-americanos com este quarterback. Para isso, Inglaterra só junta perfis capazes de atacar o espaço nas suas costas, de Jude Bellingham aos extremos. Os laterais jogam tendencialmente por dentro e há uma relação especial a ser criada no meio-campo, com Declan Rice a ganhar raio de ação, quer sobre a esquerda, quer a chegar à frente e com a afirmação completa de Elliot Anderson, um pensador e facilitador de jogadas. Não é à toa que se falam de milhões e milhões.
A Croácia teve sempre dúvidas para lidar com Harry Kane, ajustando e desajustando a pressão, com encaixes mais ou menos longos de Luka Vuskovic, mas tem uma reflexão para fazer. Onde há, para lá de Ivan Perisic, fundamental no segundo golo, capacidade para jogar sem bola e atacar o espaço? No 3-4-2-1 com que se espera que os croatas defrontem as seleções mais fortes, o quadrado no meio-campo juntou médios e, desta forma, será preciso dominar sempre a bola para ter perigo.
Luka Modric cometeu um erro estranho à sua genialidade e tem agora uma seleção onde não precisa, necessariamente, de ser o único criativo, embora continue a ser a principal fonte de organização. Diante de Inglaterra, Martin Baturina também deu mostras da qualidade que lhe é reconhecida e, sem tanto brilhantismo ao nível do passe, Petar Sucic e funcionou com elemento a mais em várias zonas do terreno. Atenção também a Petar Musa. Tem concorrência pelo lugar, mas marcou golo e ganhou pontos para ser este avançado capaz de funcionar como referência e de fixar a linha defensiva.
Tudo à imagem de Carlos Queiroz | Gana 1-0 Panamá


A partir deste dia, só Carlos Alberto Parreira tem mais Mundiais nas costas que Carlos Queiroz. Numa crise de identidade e sem vencer há quase um ano, desde outubro de 2025, o treinador português assumiu a seleção de Gana, já depois dos particulares de março e sem qualquer tempo de trabalho para lá das semanas antes do Mundial 2026. A juntar a isto, as lesões de Alexander Djiku, Mohammed Salisu e Mohammed Kudus, simplesmente os dois centrais titulares o maior poço de irreverência da seleção. Era difícil esperar um cenário mais turbulento, mas o Canadá ainda revogou o visto a Thomas Partey, a quem o futebol continua a fechar os olhos e a varrer o imperdoável para debaixo do tapete.
Nestas condições, uma vitória no Mundial 2026 é uma espécie de tesouro desencantado num palheiro quando se procurava uma mera agulha. E, o retrato do triunfo diante do Panamá, muito menos bombo da festa do que em 2018, é a imagem mais precisa dos últimos anos da carreira de Carlos Queiroz, principalmente do que ficou dos jogos do seu Irão nos últimos três Mundiais.
Não há, na vitória contra o Panamá, grande coisa que fique para o futuro, pelo menos em termos coletivos. Nem a organização defensiva foi tão sólida que o adversário se tenha visto sem oportunidades, nem houve recursos ofensivos suficientes para chegar à baliza para lá de lances soltos, providos das circunstâncias e ocasiões de um jogo de futebol. Também não era isso o mais importante. É honesto realçar que a seleção ganesa está bem distante do talento de outrora, mas nem é esse o ponto principal, mas sim a total ausência de estabilidade. Foi aí que Carlos Queiroz quis tocar e, num Mundial com espaço a terceiros lugares para se apurarem, muito possivelmente conseguir alcançar.


Do ponto de vista exibicional fica o destaque maior que Antoine Semenyo ganhou quando passou a jogar por dentro, como um 10 com capacidade para aproveitar espaços e estar mais envolvido no jogo. Partem do avançado do Manchester City as maiores esperanças quanto a algo que o Gana seja capaz de alcançar. Na segunda parte, a melhoria coletiva foi ajudada com as entradas de Brandon Thomas-Asante, a chegar no espaço, e Abdul Fatawu, a lançar. O golo surgiu com um toque de Caleb Yirenkyi, o nome de maior projeção futura no Gana. Sem ter tido tanta bola como os seus pés desejariam, mostrou capacidade para a proteger e usar o corpo sempre que a teve e voluntarismo na procura de encontrar soluções para a trabalhar. Deixou Carlos Queiroz a sorrir. Mais uma vez, o plano do pragmatismo máximo foi-lhe sorridente.
Em sentido contrário, fica a grande desilusão para o Panamá. Ainda não foi desta que o emblema da América Central somou os primeiros pontos no Mundial, embora seja justo mencionar a crescente capacidade competitiva da seleção nos últimos anos, no panorama da CONCACAF, e a versão relativamente interessante, dentro de uma noção de mau jogo que abraçou este Mundial, apresentada pela seleção.
Diante do Gana, destaque ao trabalho dos defesas centrais, praticamente intransponíveis nos duelos no corpo e na procura de evitar espaço nas costas, e à influência de Andrés Andrade, o mais à esquerda destes nomes, pelo impacto com bola. Também Yoel Bárcenas, geralmente mais à frente, se destacou como um médio capaz de ligar setores e de, sobre a esquerda, lado forte na construção, gerar jogo. Destaques curtos, num jogo também ele curto. O resultado final foi mesmo o grande destaque.
O bloco de notas de Roberto Martínez ficou cheio de bons apontamentos | Uzbequistão 1-3 Colômbia


Há duas visões distintas sobre a ressaca. Há quem tem no paracetamol, no descanso e no relaxamento a cura e há uma linhagem totalmente contrária que diz que, a única maneira de a curar, é continuar a beber. Se Roberto Martínez, que já admitiu não gostar de álcool e não terá aí a solução para afogar as mágoas de uma entrada em falso no Mundial 2026, optar pela segunda opção, já deve ter visto o Colômbia x Uzbequistão, jogo que colocou frente-a-frente os próximos dois adversários de Portugal na fase de grupos.
Na realidade, a seleção portuguesa tem muito mais de olhar para dentro, para si mesma e o que faz, do que para qualquer adversário. Fica, ainda assim, o aviso. Quer a Colômbia, que venceu o jogo e é melhor equipa, quer o Uzbequistão que, com bastantes diferenças face à RD Congo também é uma daquelas seleções bem chatas de defrontar, têm atributos claros que ficaram bem evidentes no Azteca. A primeira jornada começou e terminou no mesmo palco, o mais imponente de todos e que dá a qualquer jogo uma mística diferente.


A Colômbia começou a construir a vitória ainda antes do apito inicial. Impressionante a moldura humana vestida de amarelo nas bancadas. Será, ao longo do Mundial, uma ajuda extra à seleção de Néstor Lorenzo que sabe bem o que tem de fazer. Principalmente na primeira parte, demonstrou todo o potencial futebolístico que tem. Antes dos destaques mais evidentes, os dois defesas centrais (Jhon Lucumí e Davinson Sánchez) e Jefferson Lerma garantem segurança defensiva, particularmente em transição. Uma espécie de França dos pequeninos sul-americana.
Para a frente, onde mais interessa ver a Colômbia, há várias maneiras de montar a equipa. Diante do Uzbequistão, Gustavo Puerta funcionou como segundo médio com bola, fechando uma linha de quatro à direita sem esta. Concorre com Richard Ríos, desta feita suplente, pela vaga como jogador de maior rotação no meio-campo. É mais cerebral que o concorrente direto, mantendo a capacidade física para vencer duelos. Depois, entre Jhon Arias e James Rodríguez, ambos por dentro, há capacidade de tratar a bola, juntando-se Luis Suárez, menos encarregue de baixar em apoio para ligar e mais focado no trabalho junto da linha defensiva adversária. Jhon Arias tem, por estes dias, mais pensamento de médio que de extremo disruptivo e forte no 1×1, como já foi. James Rodríguez, de quem se nota distante a condição física ideal, desenvolveu um senso de proteção invulgar. Procura lados cegos na oganização defensiva adversária, quase sempre sobre um dos corredores, para ver o jogo sem a necessidade da agilidade e rapidez nas ações, e organizar o campo.
Diante do Uzbequistão, mais do que no pensamento, o jogo resolveu-se na capacidade de chegada. Primeiro, de Daniel Muñoz, lateral direito responsável por fazer todo o corredor, uma vez que aí, a Colômbia joga sem extremo. Muito interessante a forma como se movimenta para atacar o espaço, quer chegando à linha de fundo, quer fazendo diagonais como a do golo. Depois, e mais importante, de Luis Díaz. Um absurdo de jogador sem aparentes pontos fracos no que mais importa no futebol de um extremo capaz de funcionar na linha ou como segundo avançado: o passe, o drible, a mudança de velocidade, o remate. Tudo aliados do destaque desta geração colombiana. Nem foi o caso, mas também tem aquela sensibilidade para decidir e mudar o curso de jogos difíceis.


No lado uzbeque, fica a noção de que a diferença de dois golos não só é enganadora, como poderia nem ter existido, principalmente pela capacidade de, em desvantagem, a equipa se ter soltado. Fabio Cannavaro é o treinador da primeira geração do Uzbequistão no Mundial e é natural, até pelo perfil no banco e pelo estatuto de completo outsider, que a seleção asiática se tente impor pela solidez defensiva. Ainda assim, e apesar de também ter sido um domínio algo consentido, a segunda parte mostra que a seleção de Khusanov e companhia não se baseia apenas na procura de não sofrer.
Defensivamente, e sendo de lamentar a ausência de Husniddin Aliqulov, tal como também o é lá à frente a Jaloliddin Masharipov, houve várias novidades na composição do quinteto, com a adaptação de Abdulla Abdullaev como central do meio, libertando Abdukodir Khusanov para o lado direito e para o embate direto contra Luis Díaz, e com a titularidade surpreendente do jovem Bekhruz Karimov. Aos 18 anos, exibição surpreendentemente certinha e estável do jovem que corria por fora para ganhar a posição.
Tendo a segunda parte como referência, o Uzbequistão procurou, depois de ver que as ligações mais diretas a Eldor Shomurodov e a Oston Ununov não estavam a funcionar, ligar mais o jogo. Soltou os alas, com Farrukh Sayfiev à esquerda, valorizou o papel dos médios, ambos a dividirem-se entre as tarefas de constução e de ligação e aproximação à área, com natural destaque a Otabek Shukurov, e meteu Dostonbek Khmdanov a fazer companhia a Abbosbek Fayzullaev nas costas do avançado. A teia associativa construiu-se e o Uzbequistão também jogou com bola. Marcou um golo, pelo maior talento da equipa, mas podia ter marcado mais. Sem descurar a solidez defensiva, se os uzbeques tiverem bola conseguirão manter o nível exibicional alto. E Portugal que se cuide.

