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Armando Sá em exclusivo: «Custa-me ouvir antigos jogadores falarem como se, durante as suas carreiras, tivessem sido sempre exemplos perfeitos»

Redação BnR · 5 min

Armando Sá
Foto: DR

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Armando Sá analisa em exclusivo para o Bola na Rede a polémica em torno de Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus.

Armando Sá fez um artigo de opinião acerca da polémica em torno de Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus, que ganhou outra dimensão nesta pausa internacional. Atualmente sem clube desde que foi treinador-adjunto do Pacific FC, o antigo internacional por Moçambique em 21 ocasiões deu a sua opinião, que podes ler em baixo:

O caso entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus é, na minha opinião, um caso muito delicado. Primeiro, porque estamos a falar de Cristiano Ronaldo. Um símbolo português e uma das maiores referências da história do futebol. E faço questão de dizer: não apenas tudo aquilo que ele foi, mas tudo aquilo que ele é e continua a representar. Há quem fale dele no passado. Eu não. Cristiano continua a ser.

Do outro lado está Jorge Jesus, um treinador com responsabilidades, autoridade e legitimidade para comandar uma equipa e tomar decisões. Isso, para mim, não está em discussão. Um treinador tem de decidir, mesmo quando essas decisões não agradam aos jogadores. Mas este caso tem uma dimensão diferente.

Aqui não existe apenas uma relação normal entre treinador e jogador. Existe uma relação anterior entre duas pessoas, construída ao longo do tempo, com proximidade, confiança, conversas, expectativas e, eventualmente, compromissos ou promessas. É precisamente por isso que aparece uma palavra tão forte como “traição”.

Quando existe uma relação dessa natureza, uma decisão pode deixar de ser sentida apenas como uma decisão técnica. Se uma das partes entende que aquilo que foi conversado ou prometido não foi respeitado, entra o sentimento. E quando entra o sentimento, tudo ganha outra dimensão.

Numa relação exclusivamente profissional, o treinador decide. O jogador pode concordar ou não, mas tem de respeitar a decisão. Aqui, porém, existe uma história entre os dois. E essa história não pode ser ignorada quando tentamos compreender a dimensão que o caso ganhou.

Mas há outra parte desta discussão que me preocupa ainda mais. A facilidade com que antigos jogadores criticam outros jogadores. Quem esteve num balneário sabe como funciona o futebol. Existem emoções, egos, discussões, frustrações, injustiças sentidas, conflitos com treinadores e companheiros. Faz parte do futebol de alto rendimento.

Por isso, custa-me ouvir antigos jogadores falarem como se, durante as suas carreiras, tivessem sido sempre exemplos perfeitos. Como se nunca tivessem contestado uma decisão, discutido com um treinador ou reagido emocionalmente. Todos sabemos que não é assim.

E quando olho para aquilo que acontece com Neymar no Brasil, encontro outro exemplo desta realidade. Independentemente dos erros que possa ter cometido — porque ninguém está acima da crítica — estamos a falar de alguém que representou o futebol brasileiro ao mais alto nível durante muitos anos. No entanto, vemos antigos jogadores e colegas entrarem também nessa corrida para criticar, atacar e julgar.

E hoje existe uma coisa que não podemos ignorar: a necessidade de aparecer. É preciso criar conteúdo. É preciso ter uma opinião forte. É preciso conseguir aquela frase que vai circular nas redes sociais. É preciso audiência. É preciso vender. E, nessa corrida pelo protagonismo, por vezes deixa-se de olhar a meios.

Mas quero deixar uma coisa muito clara. Eu não estou a dizer que apenas quem jogou futebol pode falar de futebol. O futebol pertence à sociedade. Aos adeptos, jornalistas, analistas, treinadores, dirigentes e a todos aqueles que gostam do jogo. Existem pessoas extraordinariamente competentes no futebol que nunca foram jogadores profissionais.

O que estou a defender é outra coisa: o conhecimento e a experiência de quem esteve lá dentro também têm de ser respeitados. Eu nunca vi um jogador entrar num debate entre médicos e começar a explicar aos médicos como devem exercer medicina. Nunca vi um futebolista entrar numa discussão entre engenheiros e dizer-lhes como devem construir uma ponte. Porque existem profissões onde reconhecemos naturalmente o valor da experiência, do conhecimento e de quem vive aquela realidade.

No futebol, parece que essa fronteira praticamente desapareceu. Toda a gente pode dizer ao jogador como deveria jogar, como deveria reagir, aquilo que deveria sentir, como deveria comportar-se perante uma substituição, uma derrota, uma lesão, uma pressão ou um conflito. Tudo bem. Faz parte da dimensão pública do futebol.

Mas então faço outra pergunta: Quem protege os jogadores? Quem protege aqueles que estiveram dentro do campo? Aqueles que treinaram durante anos, competiram, perderam, ganharam, sofreram, foram assobiados e aplaudidos, representaram clubes e seleções e sentiram na pele aquilo que tantas vezes é analisado de fora?

E principalmente: Se nós, antigos jogadores, não nos protegermos e respeitarmos uns aos outros, quem nos vai proteger? Proteger não significa esconder erros. Não significa defender o indefensável. Não significa dizer que Cristiano Ronaldo, Neymar ou qualquer outro jogador está acima da crítica.

Podemos discordar. Podemos criticar uma atitude. Podemos dizer que determinado comportamento foi errado. Mas existe uma diferença enorme entre criticar um comportamento e destruir uma pessoa. Talvez aqui esteja um dos grandes problemas da nossa classe. Terminamos as carreiras, mas muitas vezes continuamos a competir fora do campo.

Continuam os egos. Continua a necessidade de mostrar quem sabe mais. Quem tem mais razão. Quem aparece mais. E enquanto continuamos a competir uns contra os outros, outras pessoas vão ocupando os espaços que poderiam ser ocupados por antigos jogadores.

Depois perguntamo-nos por que razão há cada vez menos jogadores, depois de terminarem as suas carreiras, a continuar ligados ao futebol em lugares de responsabilidade. Talvez também tenhamos responsabilidade nisso. Precisamos de recuperar aquilo a que eu chamaria a família do futebol.

Não significa pensarmos todos da mesma maneira. Não significa protegermo-nos cegamente. Não significa acabar com a crítica. Pelo contrário. Podemos discutir futebol, discordar profundamente e até criticar-nos. Mas sem esquecer de onde viemos. Sem esquecer aquilo que vivemos. E sem precisarmos de destruir um dos nossos para ganharmos protagonismo.

Cristiano Ronaldo e Neymar são dois exemplos, mas esta reflexão vai muito além deles. É sobre jogadores. É sobre antigos jogadores. É sobre respeito pela experiência. É sobre aquilo que queremos que seja o nosso espaço depois de terminarmos as carreiras. Porque se nós próprios não valorizarmos quem viveu o futebol por dentro, dificilmente podemos exigir que os outros o façam.

Por isso deixo uma pergunta para todos nós que passámos por aquele campo, por aquele balneário e por aquela pressão: Se nós, que vivemos o futebol por dentro, não conseguimos respeitar-nos e proteger-nos uns aos outros, como podemos exigir que os outros respeitem a nossa profissão? Talvez esse seja um dos grandes problemas do futebol. E talvez esteja na altura de começarmos a resolvê-lo entre nós.

Redação BnR

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