Não há espaço, no seio dos sentimentos do Casa Pia, que não para o alívio. Há festejos e sorrisos, é certo, mas nenhum sentimento tão forte como o expirar profundo de dever cumprido, com muita dificuldade. A duas mãos, o Casa Pia marcou mais dois golos que o Torreense e, numa casa emprestada há quatro anos, selou as contas da manutenção.
A época foi longa para o Casa Pia. Começou em agosto, diante do bicampeão Sporting que se tratou de banalizar os gansos. Na altura era João Pereira o treinador dos gansos. Desde então, João Pereira saiu, o seu adjunto Gonçalo Brandão foi promovido a principal, tendo também deixado já o clube. Álvaro Pacheco foi o responsável por fechar uma época atípica e feliz apenas no último suspiro.
Com o mítico treinador da boina, substituída pelo chapéu com o aproximar do verão, numa relação de proporcionalidade inversa entre o calor e a quantidade de cabeça preenchida, o Casa Pia não se livrou das dificuldades sentidas ao longo de uma época delicada. Não deixa de ser curioso pensar que, no meio de tanto grito aflito e receoso, não fosse a vitória sobre o campeão FC Porto ou o empate resgatado contra um Benfica em crescendo, e o playoff não era senão uma miragem distante.
Foi no playoff, diante de um moralizado – mas cansado – Torreense, que foi obrigado a encaixar uma final de Taça de Portugal que se tornou no mais bonito capítulo da sua história, que o Casa Pia garantiu a manutenção. Os gansos vão partir para a quinta época consecutiva na Primeira Liga. E, para tal, há nomes no plantel impossíveis de ignorar. Eis os cinco maiores destaques, de trás para a frente, da época casapiana.
Patrick Sequeira


Entre todos os jogadores do Casa Pia, nenhum terá, neste momento, tanto potencial de mercado como Patrick Sequeira. Tivesse a Costa Rica sido mais talentosa no apuramento e seria um dos nomes a ter debaixo de olho para o Mundial 2026, que verá do sofá.
Já na última temporada havia sido destaque e manteve o protagonismo em 2025/26. É um guarda-redes de estampa física e envergadura para preencher a baliza e que tem nos reflexos e agilidade entre postes o cartão de visita.
É certo que, em 31 jogos na Primeira Liga, sofreu 45 golos, mas há números que valem mais pela equipa do que pelo individual. Aí, olhando para os 90 minutos, se percebe facilmente que, não fosse Patrick Sequeira e a sua imposição na baliza, e a temporada teria sido bem mais complicada.
Khaly


Khaly chegou ao Casa Pia na última temporada onde fez apenas um jogo – onde entrou aos 89 minutos – e não mais jogou até janeiro deste ano. No primeiro jogo da segunda volta, José Fonte lesionou-se e, em Alvalade, Khaly foi chamado a render o veterano central. Desde então, impôs-se na equipa.
É o protótipo de central de equipa grande, principalmente pelas condições físicas que tem. É alto, forte nos duelos aéreos ou no corpo e, principalmente, muito rápido. Permite à equipa defender mais à frente e, no seu caso, consegue camuflar alguns erros técnicos e nas abordagens pela velocidade como se recompõe.
Chegou a voltar a ser preterido, mas terminou a época como titular e figura de destaque do Casa Pia. Ainda é um defesa com muitas arestas a limar e com imprecisões, mas tem potencial para chegar a um nível superior. Continuando a crescer e a merecer minutos, viverá afirmação completa.
Gaizka Larrazabal


Por falar em afirmação completa, se ainda havia dúvidas relativas à qualidade de Gaizka Larrazabal, foram todas dissipadas nesta temporada. Foram, como ala direito, oito golos e quatro assistências em 37 jogos na temporada. Isto, numa equipa com claras lacunas ofensivas.
Para colmatar as dificuldades e debilidades coletivas, o individual sobrepôs-se. O ala basco, que chegou a jogar pela equipa principal do Athletic, até pode ter dado um passo atrás na carreira – aí dependerá da opinião de cada um -, mas dentro de campo dá sempre passos em frente.
Tem na capacidade de chegada de trás para a frente, quer atacando a linha para cruzar, quer respondendo a cruzamentos ao segundo poste, o principal atributo. Vive da intensidade nas ações, quer ofensivamente, com chegada, condução em velocidade e imposição física, como defensivamente, com pulmão para fazer o corredor e agressividade nos duelos. Pode, como foi caso no jogo decisivo, também jogar mais à frente. E, sobre o futuro, Álvaro Pacheco lembrou todos os potenciais interessados.
«Temos aqui um jogador de primeira linha, em final de contrato. Já quis renovar com ele. Este homem joga muito, tem uma mentalidade, uma postura, um profissionalismo, tem números, está em final de contrato. Onde estão os grandes? Ele merece», referiu o treinador do Casa Pia duas horas depois do golo que ajudou a decidir a continuidade casapiana na Primeira Liga. Alguém ouvirá o apelo?
Lawrence Ofori


Chegou em janeiro, poucos deram por ele, mas foi um elemento fundamental nos pontos conquistados pelos gansos na segunda volta. De resto, não é inédito ver Lawrence Ofori ser completamente desvalorizado.
Viveu o auge em Portugal no Moreirense, quando o meio-campo de Rui Borges contava com Lawrence Ofori na base, Gonçalo Franco a chegar de trás para a frente e Alan a criar e a definir perto da área contrária. Na altura, era um facilitador de jogadas e um elemento de limpeza.
Agora, numa equipa com menos volume ofensivo, destaca-se principalmente pela abrangência de campo que consegue ocupar no momento defensivo. É um daqueles médios com bichos-carpinteiros e vontade de perseguir adversários. A dois, ganha também capacidade de chegada à frente e de transporte. Em 18 jogos, marcou um golo: o que confirmou a manutenção no playoff
Jérémy Livolant


Entre o veterano Cassiano, o mundialista Dailon Livramento ou os talentos que procuram revitalizar a carreira João Marques e Tiago Morais, o mais importante jogador do ataque do Casa Pia continua a ser Jérémy Livolant.
Não faz muito barulho por não ser o mais corpulento ou driblador dos extremos, mas tem crescido na função como intérprete no espaço interior, nomeadamente na meia direita. Numa equipa capaz do melhor e do pior, é dos mais certinhos nas ações. Não irá deslumbrar ou partir meia equipa, mas irá quase sempre arranjar consequência para as ações.
Também sabe vir atrás buscar jogo e procurar criar superioridades, mas é mais à frente que se destaca. No alto do seu baixo centro de gravidade, é capaz de receber, rodar, acelerar e definir perto da área. Somou cinco golos e oito assistências em toda a época e a parceria com Larrazabal sobre a direita foi o principal ponto de destaque do Casa Pia ofensivamente.
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: O Torreense teve três jogos contra equipas da Primeira Liga em oito dias. Enquanto clube, mas principalmente enquanto equipa, onde sente que estes jogos podem dar ferramentas e armas para o Torreense crescer?
Luís Tralhão: Vou responder por aquilo que foi a minha sensação nos três jogos com clubes da Primeira Liga. Faltou-nos aqui e ali alguma mentalidade, especialmente na organização ofensiva no último terço. Na Segunda Liga, o jogo acaba por ser um bocadinho mais partido, mais acelerado de um lado e outro. Na Primeira Liga, as equipas acabam muitas vezes por se fechar e temos de ter alguma paciência no último terço. Também devo dizer que não achei uma diferença assim tão grande. Não quero ser pouco sensato e dizer que contra o Sporting foi ela por ela, não foi. Vi alguns comentários esta semana sobre esse jogo e adorava dizer que jogámos de igual para igual com o Sporting. Tivemos as nossas armas, o Sporting teve muitos ataques, muitas finalizações e não teve um dia inspirado. Fomos muito bem organizados defensivamente, mas hoje o jogo pedia outra coisa. Acho que fomos bem organizados defensivamente, mas logo na primeira parte fiquei um bocadinho frustrado porque a equipa não estava a ter bola suficiente. Estávamos a desbloquear e depois não estávamos a encontrar o caminho para a baliza. É aquela calma que às vezes temos na Segunda Liga.
Bola na Rede: Chegou ao Casa Pia já com a época a decorrer e sabe-se que, muitas vezes, quando os treinadores entram nos clubes nesta situação, o objetivo passa primeiro por estabilizar e só depois meter a marca. Que balanço faz destes meses e onde sente que defensivamente, ofensivamente e do ponto de vista estrutural o Casa Pia mais pode crescer na próxima temporada?
Álvaro Pacheco: Não é fácil entrar a meio com mudanças. Tivemos de ter uma capacidade de nos adaptar e conhecer rapidamente o plantel e as necessidades da equipa. Na altura, pela minha leitura, senti que tínhamos de melhorar defensivamente, sendo mais compactos defensivamente. Também é mais fácil a nível do treino. É mais fácil treinar o processo defensivo que o ofensivo. Foi por aí a nossa estratégia. Acho que a equipa foi crescendo nesse sentido ao longo da época. Com bola também cresceu, mas não cresceu à velocidade que eu pretendia e que eles têm capacidade. Às vezes é o momento e são as necessidades. No jogo, quando estás a implementar uma ideia, há sempre sensações e emoções. Essas sensações e emoções podem ajudar ou refutar o crescimento de uma ideia. O mais importante, e disse-o aos meus jogadores, foi a resiliência que eles tiveram. Mostraram sempre uma abertura muito grande em abraçar os desafios que lhes eram lançados. Mesmo nos momentos de dificuldade mantivemo-nos unidos e acho que o Casa Pia foi sempre a crescer. Acabámos com uma capacidade ofensiva muito alta e a criar muitas oportunidades de golo, mas pecámos na finalização. Na parte final, tivemos de arranjar um espanhol [Gaizka Larrazabal] para começar a fazer golos e sermos felizes.

