Especial Antevisão da Primeira Liga Feminina 2026/27 e o retrato do Futebol Feminno em Portugal

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Estão de regresso as emoções da Primeira Liga Feminina, numa das temporadas mais aguardadas de sempre. Entre as histórias no feminino e os históricos nacionais, há 10 pontos de vista diferentes para relatar o que se vai suceder ao longo de 18 jornadas da competição.

O Benfica parte na frente, como hexacampeão, e terá no Sporting, segundo lugar nas últimas temporadas, a maior ameaça, no papel, à revalidação do título. Na corrida estarão também o Torreense, um dos clubes que mais passos de crescimento tem dado e que vai conjugar as responsabilidades internas com a estreia europeia. Como grande incógnita, o FC Porto chegou à 1.ª Divisão no terceiro ano do projeto e, depois de duas subidas de divisão consecutivas, agora surge o grande desafio.

Há também espaço ao sempre ferveroso Dérbi do Minho, com o Braga a chegar de uma época de reformulação e desilusão e o Vitória SC ainda a querer consolidar a presença entre os grandes. Escritos no feminino, os projetos do Valadares Gaia e do Racing Power continuam a figurar na Primeira Liga Feminina, provando que o futebol também é delas. O Rio Ave e o Marítimo são, na teoria, os clubes que mais terão de lutar para escapar da descida de divisão.

Para ajudar a antecipar a nova temporada, o Bola na Rede falou com Catarina Realista, média do Racing Power, e com Fernando Meira, treinador do Tadim, da 4.ª Divisão do Futebol Feminino e com passagens na formação de Braga, Vitória SC e Gil Vicente no feminino. 

A nota principal é simples «Estamos todos um bocadinho ansiosos para que comece a primeira jornada para percebermos que realidade é que temos à nossa frente», destacou Catarina Realista. Venha daí mais uma temporada. 

As equipas em prova

  • Benfica
  • Sporting
  • Torreense
  • Valadares Gaia
  • Braga
  • Vitória SC
  • Racing Power
  • Rio Ave
  • Marítimo
  • FC Porto

A experiência de Catarina Realista

Catarina Realista Cláudia Neto
Fonte: Mário Pinto / Bola na Rede

Em 2023, depois de dois anos e meio entre Finlândia, Itália e Roménia, na segunda odisseia pelo estrangeiro, Catarina Realista regressou a Portugal para encabeçar o projeto do Racing Power, um clube particular no panorama do futebol português. 

«Aqui no Racing foi tudo começado do zero. A Mariana e o Ismael, o pai dela, decidiram criar uma equipa feminina e exclusivamente feminina. Sempre foi um ponto dito. Queriam chegar à 1.ª Divisão e torná-la uma equipa de referência nacional», conta Catarina Realista.

Em 2019, Mariana Duarte, na altura no Paio Pires, queria continuar a jogar futebol, um sonho extensível ao pai, Ismael Duarte, empresário e CEO da RPower Energy Drink. Do sonho ao papel e do papel ao relvado foi rápida a evolução e o crescimento do clube, que chegou a andar com a casa às costas até se fixar em Setúbal. Agora, Mariana Duarte já não joga. Desde 2025, a principal das razões para o nascimento do projeto tornou-se a sua líder, assumindo a presidência do clube e deixando as emoções do relvado para outras jogadoras, entre as quais, Catarina Realista.

Nas três temporadas de Catarina no clube, todas na Primeira Liga, houve espaço a um 3.º, a um 6.º e a um 7.º lugar. Apesar do investimento e do crescimento, a diferença na classificação tem um motivo evidente. 

«O “problema”, entre aspas, é um bom problema. As equipas já se tornaram todas mais competitivas e todas começaram a investir. Já ninguém treina à noite ou ao final da tarde, a maior parte das pessoas treinam talvez de manhã, há rotinas de treinos, ginásios e nutrição pelas equipas quase todas», destaca a jogadora.

Catarina Realista
Fonte: Arquivo Pessoal Catarina Realista

Sobre a nova temporada, que se prepara começar – na primeira jornada, o Racing Power visita o terreno do Benfica – há a noção de que a pré-época preparou o terreno para meses que se esperam positivos. 

«As estrangeiras que vieram todos com um perfil muito tranquilo e trazem boa vibe. As portuguesas também são brincalhonas, e mesmo que não falem inglês, tentam e arranjam sempre formas de comunicar. Temos atividades que fazemos na pré-época e é para isso também que a pré-época serve. Não é só para a parte tática, mas também para criação de grupo, porque o grupo que nós estabelecemos agora, e as ligações que estabelecemos neste mês e meio, são as ligações que vamos ter para o resto da época. São ligações que temos de criar de forma a que sejam sólidas, e que, mesmo nos maus momentos consigam prevalecer», destacou Catarina Realista, antes de olhar para a forma como as dificuldades têm de ser encaradas. 

«É a parte mais difícil. Quando está tudo bem, somos todos felizes e melhores amigos, mas na vida, quando as coisas estão mal, a culpa também nunca é nossa. É sempre mais fácil empurrar para o lado. Temos de tentar que o grupo seja o mais sólido possível e o mais unido possível, mesmo quando as coisas não correrem mal, porque faz parte. Não é tudo um mar de rosas, e há dificuldades. Na realidade é na dificuldade que nós crescemos, mais do que na felicidade. Não que eu goste, mas obviamente que eu acho que aprendo mais de uma derrota do que de uma vitória», salientou a jogadora.

Aos 31 anos e a iniciar a quarta temporada no clube, há poucas manhas que Catarina Realista ainda tem por conhecer. No Racing Power, apenas Laura Luís, internacional portuguesa chegada neste mercado, tem mais anos de vida. Se o gosto pelo futebol é independente do ano na certidão de nascimento, há diferenças geracionais que podem sustentar o crescimento, quer das mais novas, quer das mais experientes. 

«Tento incutir o melhor da minha geração nelas e incutir em mim o melhor que  da geração delas. Há maior preocupação com a alimentação e na minha altura isto nem era um tema. Parece que foi há 50 anos atrás, mas não foi. Do meu lado, tento passar que à mínima dor não é para desistir», assume a média. 

O futebol feminino: do crescimento à consolidação

Portugal jogadoras
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

O futebol feminino já deixou de ser uma nova realidade há vários anos. Neste momento, mais do que a apresentação de um fenómeno novo, é necessário pensar em estratégias para o tornar parte integrante da vida do público.

«O crescimento do futebol feminino em Portugal está a acontecer. Mas nós sabemos que estamos a entrar numa fase que é muito delicada, que é a da consolidação do futebol feminino», destaca Fernando Meira. 

De resto, nos últimos anos, os números não mentem. Em Portugal, todos os cinco jogos mais vistos – ao vivo – no futebol feminino já ultrapassaram os 20 mil adeptos no estádio.

  1. Portugal 1-1 Chéquia, Estádio do Dragão, 29/11/2024, 40.189 espectadores
  2. FC Porto 9-0 União de Leiria, Estádio do Dragão, 01/09/2024, 31.093 espectadores
  3. Benfica 0-1 Sporting, Estádio da Luz, 26/03/2023, 27.221 espectadores
  4. Benfica 2-0 FC Porto, Estádio Nacional do Jamor, 17/05/2026, 22.258 espectadores
  5. Portugal 2-0 Ucrânia, Estádio do Bessa, 07/07/2023, 20.123 espectadores

O mundo também tem mais portas abertas para o futebol feminino. As últimas grandes competições de seleções atingiram recordes de audiências. Em 2025, mais de 500 milhões de pessoas assistiram ao Euro Feminino. Nos estádios, foram batidos recordes, com uma média de 21.203 pessoas por jogo, num total de mais de 650 mil adeptos na Suíça.

Antes, em 2023, disputou-se o Mundial Feminino, que bateu todos os recordes. No total, mais de 2 mil milhões de pessoas viram a competição pela televisão. Na Austrália e Nova Zelândia, os estádios encheram com uma média de 30.911 adeptos por jogo, num total de quase 2 milhões de bilhetes vendidos. No próximo verão, há novo Mundial no Brasil, e a convicção de que recordes voltarão a ser batidos.

Olga Carmona Espanha
Fonte: Selección Española Femenina de Fútbol

Empiricamente, há mudanças a nível financeiro e a nível pessoal impossíveis de negar e fundamentais quando o objetivo ainda passa pela profissionalização do desporto. Com o crescimento das estruturas, em quantidade e em profundidade, um salário já não é uma miragem distante. 

«Eu saio de Portugal numa altura em que só o Sporting e o Braga é que tinham jogadoras já profissionais. Já recebiam um ordenado, mas não sei até que ponto tinham contratos profissionais. Volto dois anos e meio depois para uma Liga em que já começam a haver contratos profissionais na maioria das equipas», salienta Catarina Realista.

Para lá das jogadoras e da equipa técnica, há também um crescimento cada vez maior do staff interdisciplinar que trabalha junto da equipa. Por isto, também se explica o desenvolvimento do jogo e das atletas. 

«Tens um nutricionista, tens um fisiologista, tens um psicólogo. Todas essas coisas às vezes parecem pequeninas, mas é isso que te vai potenciar a tua rentabilidade máxima», destaca ainda a jogadora. 

Passos a dar no futuro

Catarina Realista
Fonte: Arquivo Pessoal Catarina Realista

«Durante muito tempo foi cansativo lutar para chegarmos a este ponto. Há muita coisa a melhorar, não vou deixar isto de lado, mas há muita coisa que já melhorou». Que as palavras de Catarina Realista sirvam de base a toda a reflexão relativa ao muito onde ainda é preciso melhorar no futebol feminino. Se nem o futebol masculino, com todos os anos de desenvolvimento e crescimento, é perfeito, então não é de se esperar que o futebol feminino o seja. Ainda assim, o caminho para o crescimento tem de passar sempre pela identificação e resolução dos problemas e dos desafios. 

Não indiferente ao crescimento, o percurso para a valorização do futebol feminino ainda é longo. Na formação de grandes clubes em Portugal, Fernando Meira foi confrontado com vários dilemas e questões relacionadas com as dificuldades para com a profissionalização do futebol. 

«É preciso que as jogadoras se sintam  mais valorizadas. Às vezes, elas estão ali e não se sentem acolhidas a ponto de terem a certeza que aquilo vai servir de vida para elas», lamenta o treinador.

Nesta fase da transição, o mais comum é ver o futebol como o conciliar de outra etapa na vida, geralmente a faculdade ou o trabalho. Ainda assim, Fernando Meira destaca a importância do conciliar das duas realidades, sempre que possível e sempre que o objetivo for uma carreira dentro dos relvados.

«As miúdas que estão na formação também estudam. É fundamental e isso não pode deixar de acontecer. Nós sabemos que muitas delas estão ali, muitas vezes, para cumprir um sonho dos seus pais, mas é importante avaliar o que elas querem e se é realmente aquilo que elas querem. Às vezes, elas estão a estudar numa universidade, que não tem nada a ver com o desporto e não tem nada a ver com o futebol em si», destaca o técnico.

Por outro lado, há outra dimensão do crescimento do futebol feminino que continua a precisar de atenção particular. Se a bola é a mesma para todos, o corpo da mulher e do homem não o são.

Fernando Meira
Fonte: Arquivo Pessoal Fernando Meira

«Temos a questão da saúde menstrual delas. Nós não podemos deixar isso de lado, porque influencia mais à frente no crescimento e na formação», destaca Fernando Meira que alerta para o risco maior de, em períodos de maior fragilidade hormonal, surgirem lesões.

As lesões no futebol feminino são também, cada vez mais, alvo de investigação académica. Emily Karolidis, Alex Denton e Michael Hahn, investigadores da Universidade de Oregon, nos EUA, publicaram em 2025 um estudo sobre o impacto da morfologia do pé feminino e do calçado utilizado nas lesões no desporto feminino, particularmente no que diz respeito ao LCA (ligamento cruzado anterior). 

As conclusões sugerem que a pouca consciencialização face à importância de diferenciar as chuteiras masculinas e femininas pode contribuir para o aumento de lesões no joelho, das mais graves no desporto. Resumindo, os pitons da chuteira têm como principal objetivo aumentar a tração ao relvado, favorecendo o pisar da relva.

No entanto, segundo estudos na área, demasiada tração só não é positiva, como pode mesmo comprometer o movimento, uma vez que o pé fica preso ao chão. Ao não deslizar o suficiente, a força da rotação, para continuar o movimento, é transmitida para o joelho, aumentando a força necessária e a carga no LCA, o ligamento cruzado anterior, que tem maior probabilidade de ser afetado.

Neste sentido, importa olhar, avançam os investigadores, para a padronização dos movimentos do corpo masculino e feminino. Na investigação, chegou-se às conclusões de que o corpo feminino apresenta menor flexão do joelho, maior valgo do joelho e maior eversão do tornozelo, por exemplo, o que leva a diferentes necessidades no calçado que, uma chuteira desenhada para o pé e corpo masculino, não consegue compreender. 

Diana Silva Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Outra dúvida persiste na cabeça das jogadoras: e se não for uma lesão que me vai obrigar a parar? A gravidez e a maternidade continuam a ser um tópico muitas vezes varrido para debaixo do tapete. 

«A maternidade é um tema que ainda é muito tabu em Portugal. A maior parte das mulheres sentem-se descalças porque não sabem o que é que vai acontecer depois. Vou dar um exemplo, e não é nada concreto. Tens contrato e o teu contrato acaba no final deste ano. Se tu engravidas agora e depois acabas o contrato, não há nenhuma obrigatoriedade de o renovarem. No final do dia não estás protegido enquanto atleta nem enquanto pessoa», destaca Catarina Realista. O exemplo de Itália, onde uma gravidez obriga o clube a renovar contrato de forma automática com a atleta, é um vislumbrar de futuro nos horizontes da média.

O tabu já foi maior. Poucos dias antes do arranque da Primeira Liga Feminina, voltou-se a falar de gravidez, da expectativa para o nascimento de uma criança e da vinda ao mundo de um novo ser. Diana Silva, avançada do Benfica e da seleção portuguesa, vai ser mãe. O testemunho da avançada tem de servir de base para o crescimento neste capítulo. 

«Na semana passada, faltei a um treino porque fui ao médico, fazer a ecografia de final do primeiro trimestre e queria comunicar que estou grávida. Foi uma notícia inesperada para o clube, mas estou muito feliz pela forma como a estrutura encarou o desafio. Ofereceram-me o apoio necessário desde início. Fiquei mesmo feliz com a forma como receberam a informação. Mostra uma evolução no desporto feminino em Portugal», revelou a avançada num testemunho partilhado pelo clube encarnado. O caminho está traçado para o futuro. 

O futebol jovem português

Portugal x Inglaterra sub-20, Futebol Feminino
Fonte: FPF

Em 2022/23, havia 10.423 jogadoras federadas no futebol feminino em Portugal, segundo o Portugal Football Observatory da FPF, no último estudo realizado sobre o tema. Seguindo a tendência de crescimento, o número deve ser superior.

De momento, nem a Primeira Liga Feminina pode ser considerada 100% profissionalizada embora, naturalmente, haja equipas que o sejam. Pedro Proença, presidente da FPF, estabeleceu o ano de 2032 como o objetivo para que aconteça.

Até lá, reforça Fernando Meira, é importante pensar no modelo de transição do futebol de formação para o futebol sénior.

«Quando chegam aos sub-19 e as equipas não têm equipa B, ficam no limbo da transição. Ou vão para o profissional ou não. Muitas delas estão na universidade, vão estar sobrecarregadas com questões pessoais, e vão ter que esperar uma resposta do clube. Vai provocar um desgaste emocional e faz com que muitas delas caiam», explica o treinador.

Nas seleções jovens, o desafio é semelhante. Catarina Realista, internacional jovem por Portugal, reflete sobre a dificuldade da transição dos sub-19 para a equipa principal, um fenómeno que não é exclusivo do futebol feminino. 

Catarina Realista
Fonte: Arquivo Pessoal Catarina Realista

«Nós éramos sub-19 e, de repente, deixas de jogar com jogadoras com 18 anos ou 19 e passas para a equipa A. Poucas são as jogadoras que têm essa transição imediata e a mesma coisa para os homens. Tens o João Félix, que aos 18 anos foi logo para a equipa A, mas regra geral há todo um percurso até lá chegar», destaca a jogadora.

O caminho vai sendo dado e, com o Mundial Sub-20 a decorrer, surge um exemplo prático de como a transição que mais atletas retira do desporto pode ser suavizada. Se as Navegadoras se estão a habituar a jogar por mares nunca dantes navegados, então que já conheçam o barco, a bússola e saibam ler os mapas. 

«A Federação e a UEFA estão a criar competições também para escalões intermédios que não sejam as Sub-19. Termos uma competição Sub-20 e as Sub-23, se não estou em erro, vão tendo torneio. Mesmo que sejam amigáveis, dão-te experiência internacional. Já não há aquela ânsia no primeiro jogo de ir para a seleção», explica Catarina Realista.

Nos clubes, o caminho passa, garante o treinador Fernando Meira, por uma maior profissionalização dos processos na base da pirâmide. Para tal, confessa, seria importante que as jogadoras com experiência de formação nos principais clubes, sem continuidade nas equipas séniores, sejam capazes de alavancar mudanças em divisões inferiores.

«Cabe aos clubes menores, mesmo de Terceira e Quarta Divisão começarem a acordar para receber estas atletas. Elas vêm com uma experiência e com uma exigência totalmente diferente e precisam de treinos técnicos e táticos para dar continuidade. Elas chegam já com uma maturidade diferente daquelas que estão no clube. São meninas novas, mas que já têm muita experiência acima dessas», destaca ainda Fernando Meira. 

Fernando Meira
Fonte: Arquivo Pessoal Fernando Meira

O raciocínio é partilhado por Catarina Realista, que olha para a forma como as experiências das jogadoras podem permitir o crescimento de estruturas menos desenvolvidas. 

«Os clubes grandes, e mesmo não sejam os grandes, já têm uma estrutura. Muitos clubes já têm uma estrutura porque vêm do futebol masculino e já viram o que é que é uma realidade a sério. Algumas jogadoras na formação já chegaram a treinar com as equipas A, e portanto, já começam a ver a dimensão e onde podemos chegar. Já sabem que temos o direito e que isto são os standards mínimos que devemos ter e devemos exigir», vinca a média. 

Se o futebol jovem é a base do futebol profissional, é também interessante perceber se, com o crescimento das academias da formação, há um perfil da jogadora jovem portuguesa, capaz de englobar características comuns aos novos talentos que vão surgindo. 

Para Fernando Meira, a questão da agressividade nos duelos é o calcanhar de Aquiles da formação portuguesa. 

«Elas têm técnica, sim, têm velocidade, sim, e pensam rápido, mas na hora da execução, onde é preciso uma agressividade positiva para os lances, para os duelos, falta um pouco mais», destaca o treinador, habituado a trabalhar com jovens jogadoras nos últimos anos.

Portugal Jogadoras Feminino Sub-19 Lara Martins
Fonte: FPF

Diz-se que o futebol não é uma ciência exata e que, por essa razão, é tão bonito. É curioso como, partindo de experiências e visões diferentes, Fernando Meira e Catarina Realista vejam de forma diferente a nova geração que vai aparecendo. 

«Têm muita vontade. Eu acho isso fantástico, porque, quando há vontade e há orientação correta, o futebol é muito bonito», destaca o treinador.

Catarina Realista, que, há 15 anos dava os primeiros passos no futebol, traça uma diferença para com a sua geração. Quanto à qualidade técnica e tática, esse ponto é inegável. 

«Às vezes falta aquela raça e aquele comer-relva que havia muito. Tecnicamente, não tinhas tanta informação, taticamente não tinhas tanta informação. Tudo o que tu tinhas era a tua atitude, a tua vontade, o teu querer, a tua luta e acho que isso, às vezes, é o que falta. Já tiveram tudo, não é de mão beijada, porque nada é de mão beijada, mas já tiveram tudo mais fácil e não tiveram de lutar tanto. É nesta parte que eu acho que podem crescer muito. Se juntarem o potencial, a parte técnica e tática que já têm, com a ambição e o querer mais, têm tudo para ser jogadoras top», refere a jogadora. 

Assim seja.  

O hexacampeão Benfica, o candidato Sporting, o europeu Torreense e o novo FC Porto

SL Benfica vs Sporting CP - Liga PortugalBPI 2025/2026
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Em 2026/27, pela primeira vez na história do futebol feminino português, vão estar em prova na Primeira Liga Feminina os três grandes clubes do panorama nacional. Benfica, Sporting e, agora também o FC Porto, são, naturalmente, os clubes sobre os quais mais expectativas estão depositadas, pelo menos, da massa adepta. A estes, junta-se o Torreense, que se tem convertido numa força no futebol feminino português, empilhando Taças e conseguindo o apuramento europeu. Junto de ambos os entrevistados, procurámos perceber qual o ponto de situação destes quatro emblemas. 

«Os outros clubes que queiram superar o Benfica, vão ter que repensar o modo de olhar para o futebol feminino», destaca Fernando Meira. 

As hexacampeãs querem acentuar o domínio no futebol jogado por elas e são, para todos os outros clubes, o grande alvo a abater. Continuam a ser lideradas por Ivan Baptista que, depois de uma época de estreia com a difícil tarefa de suceder a Filipa Patão, conquistou a Primeira Liga Feminina e a Taça de Portugal. 

«A Liga, a cada ano que se passa, vem-se consolidando e vem-se fortalecendo cada vez mais. Nós vemos também a predominância do Benfica Feminino na competição, apesar da saída de jogadoras importantes. É uma equipa que consegue sempre dar respostas aos seus adeptos dentro do campo», destaca o treinador. 

Benfica Jogadoras
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Para Catarina Realista, o sucesso é transversal a treinadores e, principalmente, jogadoras, devido às condições e infraestruturas encarnadas. 

«O Benfica como um todo é provavelmente, em Portugal, o melhor clube no futebol feminino no que diz respeito a condições. O Benfica tem uma estrutura e tem um poder financeiro muito diferente de muitos outros clubes», explica a jogadora.

Anna Csiki (Tottenham), Demehin Blessing (Galatarasay), Flourish Sabastine (Fenerbahçe), Froya Brennskag-Dorsin (PSG) e Janet Akekoromowei (Bayelsa Queens) são as novidades no plantel liderado por Ivan Baptista. Ana Borges e Andreia Norton, recuperadas de lesões prolongadas, também são reforços. 

No mercado, entre outros nomes, deixaram as águias algumas figuras importantes das últimas épocas. Carole Costa, Cristina Martín-Prieto, Christy Ucheibe, Rakel Engesvik ou Beatriz Cameirão já não integram o plantel. Como já mencionado, Diana Silva também não estará nos treinos para abraçar o desafio da maternidade. 

Sporting Jogadoras
Fonte: Ana Beles / Bola na Rede

É no Sporting, segundo classificado, sobre quem recaem mais expectativas de competição às encarnadas. As leoas não estarão com o Benfica na Champions League Feminina, e jogam com o sonho de voltar ao topo do futebol feminino português.

Micael Sequeira mereceu novo voto de confiança e renovou contrato até 2028. Com o técnico, há uma esperança de que as novas talentos leoninas sejam capazes de dar novo passo em frente.

«As jogadoras da formação, que subiram naquele período de transição, de saída de jogadoras e lesões, hoje são titulares», destaca Fernando Meira. Os casos de Érica Cancelinha, Andreia Bravo ou Carolina Santiago deixam esperança às leoas e ao treinador de futebol. 

«Vai ser um clube que também vai dar o que falar. São meninas novas e querem que os holofotes também foquem nelas também», considera o técnico.

O mercado foi, novamente, agitado. Saíram nomes de relevo, como Daniela Arques, Ana Capeta, Brittany Raphino, Beatriz Fonseca ou Anna Wellmann, mas chegaram muitas novidades.  

Beatriz Cameirão (Benfica), Ruby Grant (Bayer Leverkusen), Neuza Besugo (Racing Power), Carol Alves (Valadares Gaia), Emma Ramírez (Real Sociedad), Cassie Coster (Rio Ave), Maísa Correia (regresso de empréstimo), Madalena Marau (Racing Power), Agata Filipa (Braga) e Ana Dias (Fomget Gençlik) já estão às ordens do treinador. 

Torreense Jogadoras
Fonte: Luís Batista Ferreira / Bola na Rede

Depois do sucesso nas Taças, o Torreense deu um passo importante também na competição por pontos corridos. O terceiro lugar, habitualmente reservado ao Braga, foi conquistado pelo emblema de Torres Vedras, que tem em Gonçalo Nunes, o seu treinador, um dos rostos visíveis do crescimento. 

«É uma equipa competitiva. Quando tem que jogar, joga. Quando tem que tirar a bola, tira. Não fica com muitas coisinhas, como vejo em algumas equipas, que preferem ter a posse de bola a vencer jogos», destaca Fernando Meira, admirador confesso do modo camaleónico como a formação do Oeste consegue jogar os jogos.

Para Carolina Realista, o sucesso da equipa feminina do Torreense é uma representação visível do crescimento do clube como um todo. 

«Tenho visto o trabalho do Torreense e não é só no feminino. O Torreense não tem um crescimento no feminino e ponto ponto final. Tem num contexto geral. O clube Torrense conseguiu crescer desde o futsal, ao futebol feminino e ao masculino, que ganhou a Taça de Portugal», elogia a jogadora.

Numa época de estreia na Europa, para jogar a Europa Cup, a segunda competição do cenário europeu feminino, o Torreense apostou na estabilidade. As saídas de jogadoras foram dolorosas, nomeadamente a da capitã, mas relativamente reduzidas. Tessa Salvestrin, Jesi Rossman, Carolina Correia,  Ava Seelenfreund e Gabi Gonçalves saíram. 

No mercado, chegaram Kiki Meva (FC Ebolowa), Sophie Hoban (Newcastle Jets), Carolina Pimenta (Sporting), Shakirat Moshood (Bayelsa Queens), Jennie Lakip (Valadares Gaia), Daniela Silva (Real Oviedo), Ella Tonkin (Adelaide United), Bárbara Latorre (Deportivo) e Núria Mendoza (Madrid CFF). A base do plantel continua a mesma. Resta saber se os resultados continuarão a ser em crescendo. O Torreense assim deseja.

FC Porto Feminino Jogadoras
Fonte: FC Porto

A maior interrogação desta Primeira Liga Feminina é o FC Porto. É estranho colocar o nome do FC Porto ao lado da palavra interrogação, mas os motivos para tal são elucidativos. O projeto está no arranque do terceiro ano e o emblema azul e branco tinha uma superioridade tal nas divisões inferiores que o desafio, agora, será diferente. 

A campanha na última Taça de Portugal deixa antever uma competitividade clara da equipa de Daniel Chaves. Mesmo a final perdida, diante do Benfica – ao contrário do que se sucedeu na Supertaça – foi marcada pela capacidade de competir e discutir o resultado. Agora, ao contrário da última temporada, deixará de haver jogos bónus ou semanas mais tranquilas. A expectativa é muita, mas o entusiasmo também.

«Na Terceira Liga, o FC Porto contratou jogadoras de Primeira Liga e Segunda Liga,  e já vimos um sinal que não iriam ficar a brincar em ter uma equipa feminina.  Foi dito pelo presidente que em três anos já estaria na Primeira Liga e aconteceu. Na Segunda Liga, de igual modo, o Porto entrou de uma forma avassaladora também. Elas engataram a marcha do início ao fim, e foram na mesma aceleração até agora», destaca Fernando Meira, que não tem dúvidas sobre as ambições azul e brancas para a temporada. 

«O FC Porto não vai lutar para não descer. Eu duvido muito. Vai lutar, de certeza, para ficar no topo», aponta o treinador.

Para Carolina Realista, só há boas notícias na subida do FC Porto à Primeira Liga Feminina, mesmo que tal signifique mais competitividade. Aliás, é esse o grande elogio que a jogadora do Racing Power, rival dos dragões, deixa à chegada do clube à 1.ª Divisão. 

«O FC Porto ter chegado à 1.ª Divisão é ótimo. É ótimo para o campeonato português porque traz visibilidade, traz massa associativa, traz condições, traz estrutura», salienta a jogadora.

Mais do que as saídas, ao FC Porto importa perceber o nível das contratações e a capacidade de acrescentarem valor ao clube, bem como a capacidade das jogadoras que ficam, muitas delas subindo da 3.ª à 1.ª Divisão, se afirmarem neste patamar competitivo. 

Para registo ficam os nomes de Lana Golob (Glasgow City), Mylena Freitas (Brooklyn FC), Alex Kerr (Parma), Fátima Pinto (Estrasburgo), Fatumata Sissé (Marítimo), Vânia Duarte (Valadares Gaia), Ana Teles (Valadares Gaia), Letícia Almeida (Benfica), Beatriz Carvalho (Benfica), Daniela Areia Santos (Benfica), Inês Nogueira (NJIT Highlanders), Morgan Stone (Valadares Gaia), Soraya França (São Paulo) e Lina Jamai (PSG), que reforçaram o clube neste verão. 

10 jogadoras a observar

Andreia Norton Benfica
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Pedimos a Fernando Meira e a Catarina Realista cinco jogadoras para manter debaixo de olho nesta edição da Primeira Liga Feminina. Não havia condicionantes de clube, currículo, idade ou posição. Foram estas as 10 escolhas que, seguramente, terão uma palavra a dizer na nova temporada.

  • Andreia Norton (Benfica)
  • Clarinha (Benfica)
  • Cláudia Neto (Sporting)
  • Ashley Barron (Sporting)
  • Érica Cancelinha (Sporting)
  • Janaina Weimer (Torreense)
  • Aline Lima (Braga)
  • Nádia Bravo (Braga)
  • Pamela González (Racing Power)
  • Eliza Turner (FC Porto)

Daqui a uns meses, podemos voltar cá para ver se as boas expectativas, de facto, se concretizaram. 

Portugal Mundial

Portugal Jogadoras
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Como uma estrada tão paralela que se torna perpendicular à Primeira Liga Feminina, a seleção portuguesa vai continuando o seu caminho. Esta época, em simultâneo ao arranque da prova nacional, joga-se o Mundial Sub-20 Feminino, onde Portugal ainda sonha com o apuramento para a próxima fase. No verão, as crescidas entram em campo no Mundial Feminino 2027, onde as Navegadoras sonham repetir a presença. 

Sobre as jovens portuguesas que estão, neste momento, na Polónia, Catarina Realista só vê coisas positivas. Quase todas integram plantéis da Primeira Liga Feminina e têm aspirações a garantir uma vaga na seleção de Francisco Neto. A experiência no Mundial Sub-20 Feminina, não se reduz aos 90 minutos repetidos por, pelo menos, três jogos. 

«Estarem no ambiente de seleção, só daí, já é uma das melhores experiências que uma jogadora pode ter, se não a melhor. Acho que não há nada mais bonito do que representar o teu país e é um motivo de orgulho para toda a gente», destaca a jogadora. 

Portugal Jogadoras Sub-20 Feminino
Fonte: FPF

Para lá da seleção, o Mundial – e qualquer outra grande competição – é uma montra para as jogadoras e para o futebol português como um todo. A jogadora do Racing Power destaca a possibilidade de crescer a partir destas experiências. 

«Estão lá as seleções, os selecionadores, as equipas, os treinadores e os treinadores das outras equipas. Provavelmente estão a ver as suas jogadoras, mas obviamente vão ver outras jogadoras a jogar e isto também traz uma visibilidade muito maior à jogadora portuguesa. É ótimo, porque temos muita qualidade na jogadora portuguesa, mas ainda podemos crescer mais e ser melhores», salienta Catarina Realista. 

Para Fernando Meira, qualquer um dos Mundiais ou competições deste nível em que Portugal marque presença será sempre positivo. 

«Uma boa prestação vai fortalecer a voz e o posicionamento delas dentro do desporto aqui em Portugal. Então, com certeza, só vai contribuir para o crescimento e a profissionalização delas», salienta o treinador.

O mote está dado e a Primeira Liga Feminina está aí. Antes, durante e após os 90 minutos, continua a acompanhar tudo no Bola na Rede.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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Aos 32 anos, e com 29 internacionalizações, Iñaki Williams anunciou a saída da seleção do Gana, treinada por Carlos Queiroz.

Michail Antonio é reforço do Watford

Michail Antonio foi anunciado no Watford. O ponta de lança chega a custo zero e assina um contrato válido por uma temporada.