«Fizemos um plantel praticamente novo e procurámos implementar um estilo de jogo totalmente diferente» | Entrevista Bola na Rede a Hugo Martins

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Hugo Martins é o treinador do AEL Limassol, no Chipre, onde soma três vitórias nos primeiros quatro jogos da temporada, a mais recente diante do Pafos, de Ricardo Sá Pinto. Aos 48 anos, cumpre a sexta época no futebol cipriota, depois de passagens por três continentes e experiências em realidades tão distintas como a Índia e Moçambique.

Bola na Rede: Começando com um olhar geral para a sua carreira, o mister ja treinou em 3 continentes diferentes. Gostaria que falasse um pouco das suas experiências na Índia e em Moçambique e as realidades que encontrou.

Hugo Martins: O convite na Índia aconteceu quando estava no 1.º Dezembro e a natureza do projeto, para mim, foi fascinante. Ponto número um, por ter o contacto com uma realidade e com uma cultura totalmente diferente. Isso é uma das coisas que me atrai naquilo que é o futebol. Termos essa possibilidade e essa capacidade de penetrar, de nos adaptarmos e também tentarmos influenciar dentro de culturas que são totalmente diferentes. A questão de participarmos num projeto mundial. Aquilo foi um projeto durante oito meses para preparar um grupo de jovens para uma prova tão importante. Esse foi o ponto aliciante dessa primeira experiência fora. Eu sempre tive esse desejo. E foi uma experiência fantástica porque conseguimos entrar, imagina que é uma cultura de treino também toda ela totalmente diferente. Tivemos que usar algumas estratégias para que eles se adaptassem à nossa metodologia de trabalho. Eles tinham muita cultura de correr antes, depois do treino ou durante o treino. Treinar sempre muito à base das capacidades físicas. E nós aos poucos introduzimos uma metodologia muito mais virada para aquilo que é o jogo, os fundamentos do jogo, os princípios do jogo, a forma como queremos atacar, como queremos defender. Sem cortar numa primeira instância com aquilo que é, se bem que é um bocado contra a nossa metodologia, mas também foi a estratégia do café com leite. Não pormos logo o café todo, fomos adicionando, fomos tirando leite e ao fim ao cabo acabámos depois só praticamente com o café, com aquilo que nos interessa que é o jogo: preparar os jogadores para a nossa forma de jogar. É também depois interessante perceber na nossa cultura, nós lidamos muito com o egg dos jogadores, portanto na Índia é totalmente diferente. Pela cultura deles a questão, nós também tivemos que encher o egg, eles tiveram que ter esse ego enchido para depois tomarem as melhores decisões. Portanto essa foi uma experiência fantástica. Depois Moçambique surge porque nós em Portugal, como vocês sabem, trabalhamos com muitos africanos, da Guiné-Bissau, Angola, Moçambique. Portanto temos aqui sempre essa possibilidade de absorvê-los. E aqui a ideia de Moçambique foi o contrário, é eu entrar na cultura deles, conhecer uma realidade diferente do projeto do clube, um clube muito bem estruturado em termos físicos e também humanos. Portanto é o maior clube de longe de Moçambique, condições de trabalho invejáveis. Portanto isso também me fez, também foi a tal questão de levar um pouco da nossa cultura, levar a nossa metodologia, pronto, e a pouco e pouco ir alterando aquilo que são os conceitos dos treinos antigos. Portanto é o reaprender e desaprender, não é? Eles têm que se largar daquilo que conhecem e ter a capacidade de se adaptarem para uma realidade diferente. Portanto essas foram duas experiências, essas duas primeiras experiências em contextos totalmente distintos, são países que crescem muito, com muitas carências, mas ao fim e ao cabo também depois têm muita coisa boa. Portanto os indianos, tal como os africanos, imagina para tu conseguires controlar às vezes o treino deles, imagina eles são capazes de esconder uma pequena lesão, porque na cultura deles é como se mostrar alguma fragilidade, então é desmontar um bocado isso, não? Tu podes estar lesionado sem ser uma fragilidade, é uma adaptação do teu corpo ao esforço, houve aqui alguma resistência e nós temos que voltar a adaptar novamente o treino e muitas vezes sair do treino para depois voltar com maior capacidade de adaptação aos estímulos.

Bola na Rede: Como é que se descreveria enquanto treinador, tanto a nível tático como na relação com os jogadores e equipa técnica?

Hugo Martins: Há um processo que é sempre mais fechado, que é o processo defensivo. Compactação, que é uma das coisas que eu desde o primeiro dia de trabalho, às vezes de uma forma muito macro. Imagina um 5 para 5 ou 6 para 6, em que para atacares, a tua linha defensiva tem que subir até uma determinada espaço, ou seja, a atacar e a defender existe uma compactação da equipa, portanto isso é uma das coisas que nós procuramos desde sempre trabalhar. Depois os alinhamentos: uma linha, duas linhas, onde é que nós fazemos, quando é que fazemos, e isso envolve todos os jogadores no processo defensivo. Obviamente que para nós o processo ofensivo já é uma coisa mais aberta, já tem também muito a ver com aquilo que são as características dos próprios jogadores. Imagina, nós este ano construímos um plantel de raiz, muito daquilo que era as nossas ideias ofensivas passavam por dois jogadores que se lesionaram gravemente logo no primeiro jogo, portanto os dois avançados. Ou seja, isto levou-nos a que a partir do minuto 75 do primeiro jogo da época nós tivéssemos que reformular e novamente procurar um fio condutor naquilo que é a parte ofensiva, mas na parte defensiva o envolvimento de todos o processo acaba por ser muito mais fechado.

Bola na Rede: Já tem uma vasta experiência no Chipre, onde foi campeão da segunda divisão com o Omonia. Como vê o estado atual do futebol no Chipre?

Hugo Martins: Mesmo na segunda liga há uma maior qualidade individual dos jogadores. Nós temos o Nuno Manta Santos, que também está aqui no segundo escalão, e basta olhar para o plantel dele: tem o Bruno Gama, o Rúben Brígido… Dou o exemplo dos portugueses porque é mais fácil de compreender. São dois jogadores que normalmente jogariam na primeira divisão e que, não obstante a idade e o contexto atual, os clubes da segunda liga já têm capacidade para contratar. Há um investimento superior, inclusive ao nível de treinadores. Quando cheguei e fomos campeões, salvo erro, eu e o treinador do Paralimni éramos os únicos estrangeiros — cerca de 80% a 90% dos técnicos eram cipriotas. Hoje olhamos para a segunda liga e vemos muito mais treinadores estrangeiros, além de que a qualidade individual dos atletas vindos do exterior também aumentou. Na primeira liga nota-se, de facto, um nível individual ainda mais elevado. Todas as equipas dispõem de atletas de qualidade, muitos deles com passagens por contextos ricos e bagagem competitiva, o que eleva diretamente a qualidade do jogo. Paralelamente, o nível dos treinadores tem vindo a subir. Por tradição, há clubes como o AEK Larnaca que apostam sempre em treinadores espanhóis, e o técnico que entrou recentemente já esteve na Premier League, no Championship e na Ligue 1. Esse passado no futebol inglês acrescenta, obviamente, valor à competição. Desde que aqui cheguei, vejo uma liga mais rica, com maior investimento e uma evolução clara na qualidade e no currículo de jogadores e treinadores.

Hugo Martins, AEL Limassol 5
Fonte: AEL Limassol

Bola na Rede: Está a ter um grande arranque de temporada com o Limassol, com três vitórias nos primeiros quatro jogos. Que balanço faz da sua temporada de estreia e o que pensa que levou a este início tão positivo?

Hugo Martins: Como referi há pouco, nós mudámos praticamente o plantel todo. No dia 29 faz um ano que nos mudámos para o AEL. Tínhamos tido um início de época muito bom no Achnas, o que nos levou a receber o convite do AEL, que tinha começado muito mal a época — não só em termos de resultados, mas também de exibição. Herdámos um plantel que já estava construído para jogar num determinado sistema e com jogadores para uma dinâmica totalmente diferente daquela de que mais gostamos. Houve aqui um enorme esforço da nossa parte: tivemos de adaptar as nossas ideias aos jogadores disponíveis, porque eles não conseguiriam praticar o futebol que preferimos. Foi bastante aliciante e extremamente difícil, mas acaba por se considerar positivo. Éramos uma equipa que jogava normalmente em bloco médio ou médio-baixo, numa linha de cinco, onde a componente ofensiva dependia quase exclusivamente das transições. Controlávamos pouco o jogo com a bola: entregávamo-la ao adversário e forçávamos o erro em determinados espaços para que os nossos jogadores pudessem progredir em transição. Foi um bocado contra a nossa natureza, mas conseguimos espremer ao máximo o rendimento do grupo. Chegámos à meia-final da Taça do Chipre e lutámos até ao último jogo para entrar no top 6. Apesar de não termos conseguido o objetivo principal, considero o balanço positivo, pois a qualidade individual não estava em sintonia com a exigência de um clube como o AEL — daí termos trocado tantos jogadores. Fizemos praticamente um plantel novo: transitaram apenas seis jogadores da época passada e adicionámos 15 ou 16 reforços. Desde o primeiro dia procurámos implementar um estilo de jogo totalmente diferente, com um bloco defensivo mais alto e capacidade para controlar e manipular o adversário através de variações do centro de jogo. Tendo conforto com a bola, decidimos quando acelerar ou quando manter a posse a aguardar pelo melhor momento, algo que na época passada não conseguíamos fazer. No primeiro jogo da época, em casa com o Anorthosis, jogámos com muita qualidade, mas nos primeiros minutos da segunda parte tivemos a lesão do Hamza — um perfil de avançado que queríamos muito, muito associativo, que baixa e liga com os médios. Já tínhamos o Yannick Gomis, um jogador muito experiente na liga (campeão pelo Aris), com características diferentes, de ataque à profundidade e progressão. Acabámos por vencer esse primeiro jogo, mas ambos sofreram lesões prolongadas — de seis e nove meses —, o que nos obrigou a recomeçar tudo do zero, sobretudo no processo ofensivo. No segundo jogo fomos defrontar o APOEL e acho que não nos conseguimos desligar dessas perdas. Quando entrei no balneário após a vitória do primeiro jogo — e eu por norma não falo após as partidas, para o bem e para o mal —, o ambiente parecia o de uma derrota. Sentia-se muito o impacto da ausência deles, não só pelo valor profissional, mas sobretudo pelo que davam e dão à equipa como homens. Tivemos de repensar novamente o processo ofensivo. Por felicidade, dois dias antes do jogo com o Anorthosis conseguimos contratar o Jovetić: um jogador impressionante, para mim o melhor jogador do Chipre na época passada (e espero que o volte a ser este ano). É um homem e um profissional espetacular; diria mesmo que é o melhor jogador com quem trabalhei até hoje, tanto pela carreira como pela excelência no dia a dia. Quanto mais alto é o nível em que os jogadores atuam, maior é a sua consciência profissional. Ele acabou por ter de jogar a ‘9’, embora não seja um ‘9’ fixo — é um segundo avançado, um ’10’, alguém que gosta de baixar, ligar o jogo, fazer o último passe e também finalizar. Isso obrigou-nos a pedir aos nossos alas ações totalmente diferentes das que fariam com o Hamza e o Gomis. No jogo com o APOEL tivemos um bloqueio não só tático, mas também emocional: foi uma catástrofe [derrota por 6-0] que criou muitas dúvidas no treinador, nos adeptos e naquilo que era esperado para o ADN da equipa. Depois de um primeiro jogo convincente e dominador, perder assim abalou a estabilidade. Apesar disso, eu e a minha equipa técnica tivemos uma participação ativa na construção deste plantel, em conjunto com o diretor desportivo. Sabíamos que a evolução podia levar tempo, mas que o plantel tem qualidade para jogar muito melhor do que no ano passado. O jogo seguinte foi difícil do ponto de vista emocional, porque custa ultrapassar uma goleada de 6-0. Não fizemos um jogo excecional — aliás, não fomos nada bons —, mas o aspeto positivo foi termos marcado no último segundo. Isso demonstrou caráter: nos últimos 15 a 20 minutos estivemos sempre em cima do adversário, a controlar, a criar oportunidades e a reagir com energia à perda da bola. A seguir veio o jogo com o Pafos, que em termos tático-estratégicos e mentais foi praticamente perfeito. Dá-nos sensações muito positivas. Nestas três semanas de pausa vamos conseguir trabalhar alguns aspetos (embora tenhamos vários internacionais ausentes), e acredito que os dois próximos jogos serão determinantes para percebermos a nossa verdadeira identidade.

Bola na Rede: Que análise faz à vitória frente ao Pafos de Ricardo Sá Pinto?

Hugo Martins: Em primeiro lugar, nós tentamos estudar bem os adversários, esta equipa do Pafos é uma equipa que nós conhecemos muito bem, portanto já é uma equipa que mantém muitos jogadores nos últimos 3, 4 anos, desde o momento que começaram a ter sucesso aqui os jogadores, que já estão há 3, outros há 2 anos, ou seja, o processo, o Ricardo Sá Pinto também, inteligente no meu entender, manteve muitas das coisas que era a dinâmica ofensiva desta equipa, muito jogo de corredores, muito envolvimento de corredores, pouco jogo interior, isso já acontecia com o Carcedo, devido às características dos jogadores, muitas das vezes atacam com 4, 5 jogadores a linha adversária, portanto a linha defensiva adversária, é como se partissem em equipa 5-5, muitas vezes um dos médios, normalmente o PP, baixa a construção a 3, o David Luiz, muitas das vezes tu vês ele a jogar e entra quase como um médio, entra quase como um número 10, portanto projetam-se muito no ataque, e depois tínhamos visto que poderiam ter dificuldades quando o Jové Tico baixasse, aí pedimos ao Jovetic para baixar um pouco mais com bola e sem bola, e com bola, muitas das vezes ou vinha o central com ele, aquilo que nos abria o espaço, e aqui a ideia era aproveitar do lado em que o central saltasse, nós pudéssemos acelerar por aí, perfeito, mas também sabendo que do lado contrário poderia haver desequilíbrios, devido à projeção dos dois laterais, e acabou por correr muito bem, não só em termos defensivos, também fizemos ali uma marcação individual ao Dragomir, que é um jogador que normalmente é muito forte a partir de uma linha mais atrasada e atacar a linha defensiva, já o ano passado nós tínhamos sentido isso na pele, o ano passado jogámos com linha de 5, conseguimos em alguns momentos, ou em grande parte dos momentos, controlar isso, mas esses movimentos do Dragomir são difíceis porque vêm de uma segunda linha, vêm de uma linha mais baixa, então acabámos por fazer uma marcação individual ao Dragomir, que sempre que ele tentava fazer esses movimentos era quebrado esse movimento, e depois também uma grande solidariedade em termos defensivos, muita ligação entre o nosso extremo lateral e médio, muitas vezes os nossos extremos tinham que pensar como laterais, e não é fácil quando temos jogadores como o Luther Singh e o Mughe, que são extremamente ofensivos, mas pronto, fomos preparando estrategicamente durante a semana para que eles tivessem essa vontade, e dando-lhes a certeza que da forma como nós trabalhamos eles iriam também estar frescos para poder atacar a linha defensiva do adversário, e acabou por acontecer tudo aquilo que nós trabalhámos, e quando assim é, principalmente a parte mental, depois de tudo, apesar de estarmos só apenas com 4 jogos, convém não esquecer que é praticamente uma equipa nova, e as ligações socioafetivas, as ligações táticas ainda estão a crescer, mas ainda estamos num ponto diferente da equipa do Pafos, porque temos aqui, como já disse, jogadores que estão lá há muito tempo, muitos treinos, muitos jogos, muita competição juntos.

Hugo Martins, AEL Limassol
Fonte: AEL Limassol

Bola na Rede: Nesse processo de passar as ideias para os jogadores e de elas ficarem bem intrínsecas na equipa, quão benéfico é ter 6 jogadores portugueses no plantel?

Hugo Martins: Nós criamos o perfil dos jogadores e depois demos alguma prioridade aos jogadores em que pudéssemos ter informação, principalmente sobre o caráter, porque hoje em dia com as ferramentas todas que existem, com os scouts, com os wyscout’s, com toda essa tecnologia e com o sistema de observação que os clubes têm, é fácil tu teres a percepção daquilo que o jogador em termos de jogo te pode dar. Depois dá a outra dimensão que para nós é fundamental, como é que ele é como homem. E aí traz-nos alguma facilidade ao mercado português. Para mim, eu quando escolho um jogador, para mim pouco tem a ver a nacionalidade, a idade, a mim interessa o que ele pode dar. O facto de termos tantos jogadores portugueses tem a ver porque essa informação é mais fácil de nos chegar. Por exemplo, eu dou-te um exemplo. Para nós podia ser considerado um risco contratar o Jair, que é um jogador com um potencial, um talento tremendo. Mas nós sabíamos exatamente quem é que é o Jair, o que é que o Jair também necessita. Então achámos que era um casamento perfeito, porque queremos potencial, acreditamos muito naquilo que é a qualidade dele como jogador e depois também sabemos, apesar de ele viver num mundo dele, é um ótimo miúdo, é muito profissional. É um miúdo que eu gosto muito, gosto-lhe de dar carinho, porque é um miúdo inteligente também no jogo. Não só no jogo, mas fora do jogo. É um miúdo que tem cultura, que é fascinante. Depois também te posso dar o exemplo do Diogo, que fomos buscar à terceira liga, que neste momento está a jogar a titular e temos jogadores que foram campeões na liga da Bélgica, que foram campeões na Turquia, com muito mais experiência acumulada e não estão a jogar. Nós sabíamos que o Diogo tem imenso potencial. Há ali coisas que ele já melhorou e ainda tem que melhorar mais, mas nós sabíamos que também no perfil social e como homem tem um valor tremendo. Tem potencial, isto vai nos servir, ele é rápido e tem qualidade com bola. É agressivo, é um defesa. Eu acho que vai dar aliado àquilo que é o valor dele como homem. Ajuda-nos sim, mas também às vezes pode ser um risco. Muitas das vezes o que é que acontece? Nós temos aqui o AEK, que eles ao contrário, são jogadores espanhóis. E nós sabemos, conheço muitos jogadores do AEK, nós sabemos que por vezes há ali alguns problemas grupais e muitas vezes tem a ver com os espanhóis que se juntam muito entre eles e depois dois ou três não estão a jogar. Pode haver esse risco. Nós não sentimos isso com os portugueses, porque alguns…O Sérgio já cá estava desde o ano passado. O Luther podemos considerar também quase como português, porque ele fala português fluentemente, teve muitos anos no nosso país. Foi agora, novamente, passado dois ou três anos à seleção da África do Sul, que é uma coisa que também nos deixa bastante satisfeito. Portanto, ajudam-se a integrar e envolvem-se com os outros elementos, com as outras nacionalidades, mas para nós não é determinante a nacionalidade em si. O facto de serem portugueses e nós sermos portugueses tem a ver mais com isso que eu estava a dizer, com informação.

Bola na Rede: Na época passada treinou Guillermo Ochoa na sua última temporada da carreira. Como era a relação com o lendário guarda-redes mexicano, que tantas vezes brilhou em Mundiais?

Hugo Martins: É muito calmo. É o mesmo exemplo que posso dar do Jovetic. Eu acho que quanto mais alto o nível que os jogadores jogam, mais conscientes e mais profissionais são. É enorme, claro que há exceções à regra. Mas o Ochoa sempre teve um comportamento excelente com todos, com os dois outros guarda-redes que eram o seu suplente, com todos os elementos do staff técnico. Falei várias vezes, várias semanas, para não dizer quase todas as semanas, falávamos muito. Tentei também que com a experiência dele nos pudesse ajudar. Passámos momentos difíceis, momentos muito bons, momentos mais difíceis. Mas foi uma experiência muito boa, sabendo que ele já não estava no nível de outros tempos. Ele já tinha estado em Portugal no ano anterior. Apesar de já não estar no seu auge, o comportamento foi excelente. Difere um bocado disto do Jovetic. O Jovetic com 36 anos ainda joga muito, é muito bom jogador. Ajuda-nos bastante.

Bola na Rede: Estando fora de Portugal há alguns anos, continua a acompanhar a Primeira Liga?

Hugo Martins: Sim, sempre. Não só a Primeira Liga, como a Segunda Liga e também a Terceira Liga. Tentamos acompanhar, de alguma forma, todos os campeonatos, os dois profissionais, e também a Terceira Liga, que também é um contexto que nos agrada muito.

Bola na Rede: Das equipas da Primeira Liga, há alguma que se destaque para si? Ou que se aproxime das ideias que gosta de implementar nas suas equipas?

Hugo Martins: Este início da época estou a gostar muito de ver o Benfica, pela dinâmica principalmente ofensiva da equipa. O Porto é uma equipa que, naquilo que é a organização ofensiva, aquilo que é o compromisso, o commitment, aquilo que é a reação, a vontade de recuperar, é uma equipa também que nos surpreende e que gostamos. E o próprio Sporting, eu acho que é uma equipa que joga muito bem. O início da época, se calhar, todos expectávamos, mas está muito bem orientada. Também é uma equipa que tem, principalmente em termos ofensivos, uma ideia de jogo em que nos revemos e gostamos bastante também. Então há estas três equipas. Depois também há outras equipas, há aqui algumas ideias. Agora gosto de ver o Vasco Botelho da Costa, que mudou até o próprio sistema. É interessante ver que ele se adaptou à competição e se calhar surgiu um pouco daquilo que era a matriz do jogo das equipas dele. É interessante ver. Lamento pelo Tiago Margarido, que é um excelente treinador. E o Vitória é uma equipa que tem um volume de ataque, mas que não tem tido resultados. Portanto tentamos acompanhar de uma forma geral certos treinadores, porque também nos identificamos com algumas coisas. Mas sim, na parte ofensiva, Benfica e Sporting. E digamos que na parte do jogo mais defensiva é o FC Porto, se bem que o FC Porto também tem muita qualidade ofensivamente e no último clássico demonstrou. Mas principalmente esta questão da parte defensiva que nos chama a atenção e que nos identificamos.

Hugo Martins, AEL Limassol 5
Fonte: AEL Limassol

Bola na Rede: Olhando agora para o futuro da sua carreira, gostaria de voltar ao futebol português? E se sim, que tipo de projeto é que estaria disposto a abraçar?

Hugo Martins: Sinceramente não penso nisso. Não é algo que esteja no meu horizonte. Basta nós olharmos todos os treinadores que estão na primeira liga. Muitos dos que estão na segunda liga. E direi alguns ou muitos, depende daquilo que é com muito ou pouco. Para mim ou para ti, ou para cada um de nós. Acho que há muita qualidade, como eu disse, na primeira liga. Na segunda liga, na terceira liga. E ainda temos os treinadores que infelizmente estão desempregados de futebol. Portanto acho que sou muito mais útil, se calhar, noutros contextos, noutros campeonatos, do que propriamente no campeonato português. Nós tivemos a hipótese, foi uma proposta concreta, de irmos trabalhar para a Grécia, para a primeira liga, que era algo que nos agradava bastante. Porque é uma liga com maior dimensão. Iríamos ter um orçamento muito maior. Poder ter jogadores de maior qualidade e competir com equipas de maior qualidade. E treinadores e jogadores de maior qualidade. Isso é algo que nós, como equipa técnica, procuramos. Se bem que estamos num contexto onde somos valorizados. Onde as pessoas apreciam o nosso trabalho e também a nossa postura enquanto homens. Respeitar a nossa humildade. Tendo grandes jogos, maus jogos, tentamos ter sempre a mesma postura. Porque nos grandes jogos eu recordo-me sempre de onde comecei. Comecei no Fontainhas de Cascais, com muito orgulho. Foi o percurso. Lembro-me sempre do meu percurso. Então não tenho direito a não ser humilde. Venho de lado baixo. E tudo aquilo que vamos conquistando é visto como mais um passo que damos. Mas não… Por exemplo, tivemos a fazer um estágio na Polónia. Um campeonato até pelos estádios. O estilo de jogo não é tanto o nosso.Mas tem uma grande dimensão física ao jogo. Os clubes muito bem aperfeiçoados em termos físicos. Centros de treino fantásticos. Foi um campeonato que nos despertou agora um bocadinho mais de atenção. Apesar de não ser dos grandes campeonatos. Acho que podemos deixar ali uma marca. Tal como tentámos fazer desde o primeiro momento aqui no Chipre. Toda a gente na 2ª divisão dizia que era impossível ganhar em ataque apoiado e a controlar os jogos. E nós viemos com esse foco e vim com essa ideia: Vou criar aqui um estilo de jogo que nunca se fez aqui na 2ª Liga e vou provar que é possível ganhar e jogar bem, ou da forma como eu mais gosto em qualquer contexto, desde que tenhas os jogadores para jogar dessa forma. E foi isso que nós fizemos. Acho que há uma quantidade enorme de bons treinadores em Portugal. Se calhar não sou assim tão necessário (risos).

Bola na Rede: Para terminar, gostaria de perguntar sobre os objetivos que traçou para o AEL esta temporada.

Hugo Martins: Já há alguns anos que o clube não atinge o top 6. Esse tem que ser o primeiro grande objetivo. É entrar e competir com os melhores na segunda fase da temporada. Esse é o nosso primeiro grande foco. Fruto da campanha do Pafos na Champions League, há 5 equipas que poderão entrar nas competições europeias, ou pelo menos nas pré-eliminatórias. Depois de estarmos no top 6, que é o primeiro objetivo, podemos apontar para uma classificação para as competições europeias. E depois há um grande objetivo, que acho que é mais interno, que é ganhar a Taça. Depois daquilo que fizemos no ano passado, este ano com melhores jogadores. Dentro daquilo que é a minha perceção, com melhores jogadores. Também conseguimos reforçar a equipa técnica e temos que fazer mais e melhor. Pelo menos ir à final e ganhar. E as finais são para se ganhar. Temos a ambição da Taça, Top 6 e competições europeias. Isto é o que guia a nossa ideia. Depois em termos de futuro, o AEL é um clube com muita pressão. Há muitos anos que o clube não ganha. É um clube que tem história e os adeptos são de altos e baixos. Ou seja, quando ganhámos ao Anarthosis, éramos uma excelente equipa e um excelente treinador. Quando perdemos com o Apoel, eu já era o pior treinador e os adeptos já diziam: ‘Mandem-no embora. Os jogadores não jogam nada’. Depois ganhámos em casa e ao Pafos e já somos dos melhores. Gostava de ficar no AEL, porque é um clube com o qual eu me identifico. Principalmente com a paixão que os adeptos têm ao jogo. E muitas das vezes aquilo que eles pedem é uma coisa simples: É o nosso esforço, o nosso sacrifício. Eu acho que isso é a parte mais fácil. Eu queria lhes dar mais do espírito do sacrifício, da resiliência, da transcendência e dar-lhes também mais qualidade de jogo. Controlarmos os jogos, dominarmos os jogos com a bola, sem passarmos grandes sobressaltos, mesmo com as grandes equipas. Mas é difícil prever os altos e baixos do clube. Mas, indiscutivelmente, se não for no AEL, queremos dar um passo em frente. Queremos fazer aqui um bom trabalho. Seja no AEL ou noutro clube. Começar a lutar para sermos mesmo candidatos a ganhar qualquer coisa.

Hugo Martins, AEL Limassol 5
Fonte: AEL Limassol

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