Na penúltima jornada da liga, o Complexo Desportivo de Alverca registou uma boa casa, com os adeptos locais e os visitantes do Estoril a marcarem forte presença nas bancadas para apoiar as suas equipas. O encontro terminou com um empate a uma bola (1-1), um desfecho que espelha de forma exata a realidade global destas duas formações: ambas entraram em campo com 38 pontos na tabela classificativa e saíram do jogo a partilhar exatamente a mesma igualdade pontual. Mais do que a divisão dos pontos e a posição idêntica na tabela, o jogo ficou marcado por uma simetria perfeita no rendimento coletivo ao longo dos 90 minutos, com o Alverca a mostrar-se claramente superior na primeira parte e o Estoril a assumir as despesas e o controlo do jogo na segunda.
Os primeiros 45 minutos revelaram um Alverca mais perigoso, capaz de dominar territorialmente através de dinâmicas ofensivas bem definidas. A equipa da casa entrou melhor no encontro e, aos 12 minutos, conseguiu traduzir essa superioridade no marcador: Figueiredo fez o golo inaugural após uma boa combinação com Nabil Touaizi.
Nesta fase, o plano tático do Alverca baseou-se numa procura constante por combinações, tanto no corredor central como nas faixas laterais. Lincoln assumiu um papel fulcral no meio-campo, movimentando-se para descobrir espaços e ligar o jogo com o ponta de lança, Sandro Lima. A intenção destas combinações passava por explorar as costas da linha defensiva do Estoril. O objetivo era criar indefinição tática e dúvidas sobre quem deveria controlar o espaço à frente e nas costas dos defesas centrais e dos laterais adversários.


Do outro lado, o Estoril procurou responder através de um ataque posicional direcionado para explorar as costas dos alas do Alverca. Inicialmente, a equipa de Ian Catho apresentou dinâmicas assimétricas nos corredores: na direita, Sanchez posicionava-se de forma mais interior, deixando a largura entregue a Amaral. Com o passar dos minutos, as dinâmicas ajustaram-se. Guitane começou a baixar mais no terreno para assumir a primeira fase de construção, o que permitiu a Sanchez abrir na ala. No flanco esquerdo, João Carvalho fixou-se junto à linha, empurrando Amaral para corredores mais interiores. Apesar do maior ascendente local nesta primeira metade, o Estoril deixou um aviso sério perto do intervalo, atirando uma bola ao poste.
O reatamento trouxe uma alteração radical no cenário do jogo, acompanhada por uma grande chuvada que se abateu sobre o relvado. O Estoril regressou dos balneários focado em canalizar o seu jogo ofensivo pelo corredor central, o que tornou a equipa substancialmente mais perigosa. Esta adaptação tática teve efeitos imediatos: logo aos 47 minutos, André Lacximicant, que havia acabado de entrar na partida, descobriu espaço nas costas da defesa do Alverca e, na sequência de uma combinação, surgiu isolado para fazer o golo do empate.


A partir desse momento, e debaixo de chuva intensa, a balança do jogo pendeu definitivamente para a equipa visitante. O Alverca acusou um desgaste físico evidente, perdendo a capacidade de manter as linhas curtas e de ganhar as segundas bolas, dois fatores que tinham sido fundamentais para o controlo posicional que a equipa exibira na primeira parte.
Esta quebra do conjunto de Custódio Castro foi potenciada por várias condicionantes. O relvado tornou-se cada vez mais pesado devido à chuva, exigindo um maior esforço físico. Além disso, a defesa lidou com adaptações difíceis no lado esquerdo, devido à ausência de Isaac e à necessidade de utilizar Spencer até ao seu limite físico. Obrigado a baixar o bloco, o Alverca abdicou do ataque continuado e focou-se quase exclusivamente em tentar saídas rápidas em contra-ataque.
Aproveitando o recuo e a fadiga do adversário, o Estoril instalou-se no meio-campo ofensivo. Com paciência e maior volume de jogo, tentou chegar à vitória sobretudo através de remates de longa distância. João Carvalho esteve perto de marcar e Guitane somou situações de perigo perto da área do Alverca, mas a defesa local e a falta de eficácia visitante ditaram que o marcador não voltaria a sofrer alterações.
No apito final, a igualdade a uma bola confirmou-se como o resultado mais lógico. Num embate entre duas equipas com 39 pontos, assistiu-se a uma partida dividida de forma salomónica: o Alverca reinou na primeira parte através da sua organização e dinâmica combinativa, e o Estoril dominou a segunda metade impulsionado pelas alterações ao intervalo e pela capacidade de explorar a quebra física adversária.
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na rede: Na primeira parte, vimos um Alverca mais perigoso, a tentar criar perigo tanto pelas zonas centrais como pelos corredores. Pergunto o que é que faltou na segunda parte para conseguir manter essa intensidade.
Custódio Castro: Eu senti – e não é que tenha sentido noutros jogos, pois vínhamos de um jogo no Dragão em que fomos muito competentes a este nível físico -, mas senti que hoje acabámos por não estar tão fortes a esse nível. A verdade é que o Isaac acabou por não jogar, tivemos de utilizar o Spencer à esquerda e ele jogou bem dentro do limite físico que conseguiu, mas a verdade é que isso depois acaba por ter algum impacto na duração da equipa durante os 90 minutos. Sinto que foi um bocadinho a questão física. No entanto, se olharmos para quando colocámos em campo o Ikker e o Filipe, eles deram energia. Mesmo assim, com o Cédric, tivemos duas possibilidades de entrar na área e de poder criar perigo, o que me deixa feliz. Mas sim, acho que foi um bocadinho a parte física que nos faltou. Jogar contra equipas como o Estoril acaba por nos exigir muito em termos defensivos, nós sabemos que isso desgasta, e depois o nosso relvado acaba também por estar um bocadinho pesado [quando chove]. Acho que foi tudo isto que teve impacto na segunda parte. Mas eles lutaram como sempre, são muito competitivos e unidos, e isso sente-se. Por isso estou muito feliz pelo trabalho deles. Não estou feliz pelo resultado – vocês já me conhecem, sabem como é que eu sou quando não ganho -, mas estou feliz pela atitude deles. Criámos aqui um grande grupo de jogadores e de homens.
Bola na Rede: Vimos o Estoril procurar muito as costas dos alas do Alverca, por exemplo, com João Carvalho encostado mais à linha e Amaral mais em jogo interior. O que é que pretendia com estas combinações?
Ian Cathro: Sim, o que nós tentámos fazer foi criar dificuldades e dúvidas sobre quem é que ia controlar o espaço à frente do central e nas costas do central, ou das alas, nesse sentido. Simplesmente isso, tentar criar essa dúvida, porque nós temos todas as pessoas disponíveis neste momento. Mas para fazer isto melhor, tens de ganhar mais segundas bolas, tens de assumir posições mais efetivas para manter essa posição em campo com menos distância entre a equipa. E acho que, não durante a primeira parte toda, mas durante demasiado tempo na primeira parte, as distâncias entre nós foram demasiadas e nós tivemos a capacidade física para as controlar.

