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«O maior desafio foi semiprofissionalizar o amadorismo e dar uma identidade a Timor-Leste» | Entrevista Bola na Rede a José Pedro

Manuel Nascimento · 8 min

José Pedro, Timor-Leste
Foto: MDA Now

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Em conversa com o Bola na Rede, José Pedro, selecionador nacional de Timor-Leste, faz o balanço do seu primeiro ano no comando da equipa timorense.O técnico abordou as carências do futebol local, a experiência de trabalhar com atletas amadores e a aposta numa seleção jovem, recordando ainda a sua passagem pelo Sporting, a aprendizagem com Jorge Jesus e a análise ao campeonato português.

Bola na RedeGostava de começar pelo teu atual desafio e perceber que balanço fazes de como tem sido este percurso na seleção de Timor-Leste.

José Pedro: É um excelente desafio. Um dos grandes objetivos da minha carreira era representar uma seleção nacional, independentemente de estar muito abaixo no ranking. Quando houve esta possibilidade, quase que nem olhei para trás. Faço um balanço de muito trabalho. Ao longo deste ano foram encontradas muitas deficiências que tentámos ao máximo ultrapassar no período em que aqui estamos, fez em setembro um ano, o que nos permitiu crescer em pontos fulcrais que eram inexistentes e quase irreais. Neste momento estamos quase a dar o primeiro passo.

José Pedro
Fonte: Zerozero

«O grande desafio foi mesmo treinar a seleção»

José Pedro

Bola na RedeRecuando até antes de seres selecionador, porquê aceitar este desafio em Timor-Leste? Porquê uma seleção num patamar tão baixo do ranking FIFA e o que é que despertou o teu interesse?

José Pedro: Já estava há algum tempo parado desde a minha saída do Alverca, que foi o meu último projeto. Foi no sentido de treinar uma seleção, não sabendo quando é que isso poderia acontecer. Houve essa oportunidade e depois também um pouco a história entre nós, Portugal, e Timor. Era um contrato de um ano. Havia essa minha ambição principal de querer treinar uma seleção, sabendo que, estando muito abaixo no ranking, iria ter muito trabalho e ser um desafio muito desafiante. A língua também ajudou, praticamente falo português e um pouco de inglês. O grande desafio foi mesmo treinar a seleção.

Bola na RedeQuando chegaste, o que é que encontraste e o que é que mais te surpreendeu?

José Pedro: A minha ideia era de que num país ainda em desenvolvimento eles não tivessem praticamente nada. Passados dois meses criei um regulamento porque nem um regulamento havia. A minha maior surpresa não foi deceção, mas ver como é que não havia um regulamento interno. Acreditava sempre que a Federação de Futebol de Timor-Leste pudesse estar noutro patamar, mas encontrei uma seleção a zero. Entrei logo numa competição em que a seleção já tinha feito dois jogos. Num breve espaço de tempo, tentei perceber ao máximo a realidade e semiprofissionalizar o que é completamente amador aqui.

Bola na RedeComo é que se tenta profissionalizar um futebol que ainda se mostra tão amador?

José Pedro: No fundo é a minha experiência enquanto jogador, a minha experiência enquanto treinador, viver num país europeu evoluído e tentar ao máximo enquadrá-los na realidade do futebol atual, até porque jogamos com outras seleções que já estão noutro patamar e temos de as acompanhar na evolução. O próprio regulamento foi das primeiras coisas, porque era um bocadinho ‘vir à seleção e faço o que quero e bem me apetece, vou quando quero’. Houve coisas culturais que podemos adaptar e fazer crescer. É um processo de dar o primeiro passo.

Bola na RedeComo vês o campeonato timorense e que conexão consegues fazer entre a seleção e a liga? Dá para aproveitar jogadores para as tuas convocatórias?

José Pedro: A nível desportivo foi o pior que encontrei aqui. Quando cheguei num domingo, era o último jogo da Liga Timorense. A Liga Timorense tem dois meses. Por isso, estes jogadores ficam dez meses sem competir. Em 2026, por exemplo, iniciou em março/abril e finalizou em abril. A partir daí, até dia 9 de outubro, não temos campeonato. Os dois últimos torneios em que a seleção participou (Asian Cup e FIFA) foram com jogadores locais que não competiam. Duas ou três semanas antes, quando convoco, tento fazer um microciclo dentro da minha identidade. Quanto aos jogadores que estão fora, jogam nas quintas, quartas ou sétimas divisões dos países onde estão. Desportivamente, para mim, a pior coisa foi ir para competições de alto nível com jogadores sem ritmo competitivo.

Arábia Saudita Coreia do Sul Taça Asiática 2023
Fonte: Asian Cup

Bola na RedeA maioria dos jogadores tem outros empregos. Como é que isso afeta a condição física e como geres os desafios de trabalhar com atletas que por vezes te dizem ‘Mister, não consigo ir ao treino porque tenho de trabalhar’?

José Pedro: É um bocadinho como a nossa distrital em Portugal. Há alguns casos aqui, nem todos; a maior parte são estudantes. Em relação aos jogadores que trabalham, tem sido fácil porque é um povo louco por futebol. Qualquer instituição facilita e permite que o trabalhador-atleta se junte à seleção. Mas às vezes o treino é às 5 da tarde e tenho jogadores a dizer: ‘Professor, vou chegar às 17h15 ou 17h20, um bocado atrasado’. Nós temos de ter essa flexibilidade e perceber o contexto.

«Somos a seleção mais jovem da Ásia»

José Pedro

Bola na RedeTimor-Leste apresenta quase sempre a seleção mais jovem das competições. É uma escolha tua ou uma necessidade?

José Pedro: É uma escolha. Quando falaram comigo no início, o grande objetivo era disciplina e dar uma identidade ao nosso futebol. O presidente tinha ganho as eleições com um mandato de quatro anos. Daqui a quatro anos, no término do mandato do presidente, quer uma equipa a competir com outras do nosso ranking (ali entre os 190 e 200) e ter resultados positivos. Optámos por miúdos jovens. Somos a seleção mais jovem da Ásia. Daqui a quatro anos estes miúdos têm 22, 23, 26 ou 28 anos e estão na idade certa para competir. Se estiverem comigo, melhor; se não estiverem, ficam com uma boa bagagem.

Bola na RedeComo é que afeta a equipa o facto de não conseguirem jogar em casa, em Díli?

José Pedro: É um povo apaixonadíssimo pelo futebol. Tem sido a minha luta, falando com a direção no sentido de o Ministério do Desporto, a federação e a liga se unirem. Era importante, em vez de dois meses de campeonato, termos no mínimo oito. Outro grande desafio era jogar em casa. Em Díli, a jogar com seleções do nosso ranking, o público seria o 12.º jogador. Mas não temos um lugar único para jogar: durante este ano já jogámos a nossa condição de ‘casa’ na Austrália, na Malásia e na Tailândia. Tudo isto se transfere depois para a equipa.

Jorge Jesus
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Bola na RedeFazendo a ponte com o teu trabalho com o Jorge Jesus, que diferenças notas entre o Jorge Jesus de clube e o de seleção, e o que podemos esperar do seu trabalho?

José Pedro: Para mim em Timor é mais fácil porque consigo ter duas a quatro semanas com os jogadores locais. Em relação ao Mister Jorge Jesus, acho que para ele é muito mais fácil: tem jogadores de alto nível, dos melhores do mundo. Tem menos tempo, mas já tinha trabalhado com 12 ou 13 jogadores desta convocatória, que já estão identificados com o que ele pretende. Tivemos quatro jogos muito bons com quatro vitórias e um nível exibicional significativo. O Mister tem tudo na mão para continuar o excelente trabalho.

Bola na RedeComo foi trabalhar com o Jorge Jesus no Belenenses e o que retiraste desse trabalho diário?

José Pedro: Muito bom. A nível tático e defensivo, foi um treinador exemplar. Ficámos em 5.º lugar no primeiro ano e em 8.º no segundo. Depois o Mister deu o salto para o Braga e fez a carreira que toda a gente sabe. É de extrema exigência e rigor. Para mim foi uma referência. A nível tático e defensivo, é um treinador de excelência.

Bola na RedeComo viste a situação de tensão entre o Jorge Jesus e o Cristiano Ronaldo? Achas que o Cristiano pode voltar a ter espaço?

José Pedro: Fiquei um pouco desagradado, queria que as coisas corressem de maneira diferente. Mas percebo os dois lados: a dimensão do Cristiano Ronaldo e a do Mister Jorge Jesus. Acredito que foi um mal-entendido entre duas pessoas inteligentes. O Mister Jorge Jesus disse que se o Cristiano quiser voltar, tem a porta aberta. Não conheço o Jorge Jesus como um treinador rancoroso ou teimoso. Acho que o caminho está aberto para tudo se resolver da melhor forma.

Bola na RedeNo comunicado, o Cristiano refere que iam dar um guião ao Jorge Jesus para ler. Como vês isto?

José Pedro: Acho que o Mister não vai ligar muito a isso. O que tiver a dizer, diz sem precisar de guião nenhum. Falando e reunindo, facilmente chegam ao melhor entendimento. São dois adultos e figuras maiores do futebol português que vão resolver isto da melhor forma.

Bola na RedeComo foi a tua experiência no Sporting como adjunto do Silas?

José Pedro: Entrámos num momento de caos após o ataque à Academia, mas foi uma época muito positiva. Entrámos em 6.º lugar e deixámos a equipa em 3.º. Fomos à Final Four da Taça da Liga e passámos a fase de grupos da Liga Europa. Foi uma experiência que me deu muita bagagem e trouxe coisas muito positivas.

Bola na RedeEstás a acabar contrato com Timor-Leste. Regressar a treinar em Portugal é uma possibilidade para ti?

José Pedro: As portas de Portugal têm de estar sempre abertas. Termino o contrato em dezembro. Vou falar com o presidente para saber se há vontade de continuidade e condições para o crescimento desta equipa jovem. Mas claro que tenho vontade de trabalhar num quadro competitivo com outros objetivos.

Bola na RedePara terminar, tens acompanhado o campeonato português esta época? Que balanço fazes deste início de prova?

José Pedro: Vai ser uma luta a três pelo título (FC Porto, Benfica e Sporting), apesar de o FC Porto ter nesta altura uma vantagem pontual. O Benfica com o Marco Silva e o Sporting vão estar na luta. Destaco ainda equipas como o Santa Clara e o Arouca em lugares europeus. É um campeonato competitivo e interessante.

Prestianni e Bednarek FC Porto Benfica
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede
Manuel Nascimento

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