O mesmo problema de sempre | Portugal 1-1 RD Congo

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Há jogos que deixam a sensação de que algo está a crescer. Este não foi um deles. O empate frente à RD Congo serviu para reforçar uma ideia que acompanha Portugal há demasiado tempo: a equipa continua presa aos mesmos comportamentos, aos mesmos problemas e, muitas vezes, às mesmas escolhas. Houve momentos de qualidade, sobretudo enquanto o ritmo foi elevado, mas bastou a seleção recuar alguns metros e reduzir a intensidade para o encontro voltar a expor fragilidades que dificilmente podem ser ignoradas num Campeonato do Mundo.

A entrada portuguesa foi competente e revelou algumas dinâmicas interessantes. Pelo corredor direito, Bernardo Silva apareceu frequentemente em zonas interiores, permitindo a João Cancelo explorar o espaço exterior e atacar uma das fragilidades da estrutura congolesa. A partir daí, Portugal conseguiu criar superioridades e aproximar-se da área adversária com relativa facilidade.

Também no último terço existiram movimentos que deram qualidade ao ataque nacional. Cristiano Ronaldo e Bruno Fernandes procuraram ligar o jogo por dentro, enquanto Pedro Neto e Nuno Mendes atacavam constantemente o espaço nas costas da defesa. A presença de João Neves em zonas de finalização voltou a ser um argumento importante, oferecendo mais um elemento na área e criando problemas adicionais aos centrais adversários. Durante largos minutos, Portugal pareceu confortável e em controlo.

João Neves Portugal
Fonte: FPF

O problema é que Portugal e os jogos tranquilos têm uma relação peculiar. Marca cedo, encontra vantagens posicionais e, pouco depois, reduz drasticamente o ritmo. A circulação torna-se mais lenta, a agressividade desaparece e a equipa entra numa espécie de gestão prematura que raramente corre bem. Foi exatamente isso que aconteceu. A seleção baixou demasiado a intensidade, deixou de pressionar com a mesma eficácia e permitiu à RD Congo crescer no encontro.

Quando o adversário começou a acreditar, voltaram a surgir problemas já demasiado conhecidos. Portugal sofreu em transição defensiva, concedeu espaço para ataques rápidos e revelou fragilidades em momentos de bola parada. São aspetos que se repetem de forma quase sistemática e que dificilmente permitirão uma caminhada ambiciosa num Campeonato do Mundo. Nenhuma seleção candidata a chegar longe pode continuar a oferecer tanto sempre que perde o controlo emocional ou estratégico de um jogo.

Individualmente, Tomás Araújo foi uma das melhores notícias da noite. O central português realizou uma exibição muito completa, destacando-se sobretudo nas coberturas defensivas e na capacidade para compensar alguns erros posicionais de Renato Veiga. Com bola mostrou a serenidade habitual, sem complicar processos nem assumir riscos desnecessários. Não foi uma exibição exuberante, mas foi um jogo muito sólido e provavelmente um dos mais completos que já realizou ao serviço da seleção.

Portugal Jogadores
Fonte: FPF

As alterações promovidas por Roberto Martínez também levantam algumas questões. Em momento algum se procurou alterar verdadeiramente a natureza do ataque português. As substituições reforçaram uma lógica de jogo exterior, apostando novamente em jogadores de aceleração e profundidade nas alas.

A verdadeira questão surge quando Portugal enfrenta blocos baixos e organizados e continua sem explorar alternativas como João Félix ou Francisco Trincão, jogadores que poderiam acrescentar criatividade e associação em espaços curtos.

E é precisamente aí que reside a maior crítica ao atual momento da seleção. Não existe propriamente algo de novo no futebol de Portugal. Os comportamentos repetem-se, os problemas mantêm-se e as soluções continuam a ser procuradas nos mesmos locais. A equipa tem talento para dominar adversários de perfil semelhante ao da RD Congo, mas continua a demonstrar dificuldades para controlar os jogos.

Yoane Wissa RD Congo Portugal
Fonte: FIFA

O capitão segue a oferecer presença na área e capacidade de aparecer em zonas de finalização, embora seja legítimo questionar se continua a ser solução para os 90 minutos.

No final, fica a sensação de que Portugal voltou a fazer a mesma coisa à espera de um resultado diferente. Continua a haver escolhas muito influenciadas pelo estatuto e menos pelo rendimento ou pela adequação ao contexto do jogo. E enquanto assim for, as exibições continuarão a oscilar entre momentos de qualidade evidente e períodos de desconcentração que acabam por custar caro.

O empate não compromete nada de forma definitiva. Mas também não oferece razões para acreditar que os problemas crónicos da seleção estejam mais próximos de ser resolvidos.

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