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Lionel Messi e o sonho de um país | Argentina 3-2 Egito


Quando o jogo terminou, Lionel Messi desabou num pranto de lágrimas como raramente se viu. Depois de uma vitória, é raro ver emoções tão vincadas na face de um jogador, mas o contexto importa. O jogo beirou a eliminação dramática e terminou com uma reviravolta épica. O Egito deu luta e foi melhor na maioria da partida, a Argentina repetiu vários dos problemas que já havia demonstrado diante de Cabo Verde. Em poucos minutos, tudo se inverteu e os campeões vão defender, pelo menos por mais uma eliminatória, o título conquistado há quatro anos. As lágrimas de Lionel Messi não foram de tristeza como as de Cristiano Ronaldo ou Neymar, também eles na Last Dance. Foram de alívio.
Aos 15 minutos, Lionel Messi teve nos pés a oportunidade de inverter o resultado – o Egito já ganhava por 1-0 – e de começar, desde cedo, o que esperava como uma reviravolta. Pela segunda vez neste Mundial, o melhor marcador da competição vacilou quando chegou a altura de pegar na bola nos 11 metros. Desde aí, tudo se complicou para a Argentina, que chegou aos 78 minutos a perder por 2-0 diante de uma seleção egípcia bem competente na ocupação dos espaços defensivos e com válvulas claras para chegar ao ataque. O sonho argentino esteve muito perto de acabar e foi fortemente equacionado. Até Lionel Messi, o mesmo que minutos antes desperdiçou um penálti, apareceu para resolver.
Se em 2022 a fluidez do jogo argentino envolvia Lionel Messi numa teia de combinações, em 2026 tem no 10 o grande destino, numa relação de maior dependência que, futebolisticamente falando, torna a Argentina uma equipa mais fraca. Individualmente falando, aumenta a responsabilidade, mas também a força de Lionel Messi. Impressionante como, já a partir da direita, assumiu para si a responsabilidade e empatou o jogo, com uma assistência calibrada e um remate pleno de violência, mas também de técnica. As lágrimas são boas para o futebol. Os ET’s também são, no fim do dia, humanos. Entre a preocupação e o alívio, a água que escorreu dos olhos de Lionel Messi foi abraçada por adeptos, colegas e mimetizada pelo próprio treinador. Ou é por ele, ou dificilmente a Argentina repetirá a conquista.


Da fase de grupos à fase a eliminar, aumentaram as preocupações para a seleção albiceleste e Lionel Scaloni ainda procura o melhor encaixe para as peças. A dependência da criatividade do craque maior do futebol argentino cresceu e cresce de forma proporcional às dificuldades do jogo. Mesmo com opções mais naturais para a imposição do jogo – Nicolás Tagliafico no corredor esquerdo, Leandro Paredes como médio mais posicional – a capacidade para agredir o último terço está condicionada. Até por isso, Lautaro Martínez tem dado bem mais que Julián Álvarez. Não é o avançado mais consensual, algo ligado a uma tendência para marcar poucos golos pela seleção, mas o que batalha com os centrais aproxima a equipa da vitória. Também Enzo Fernández, da esquerda para dentro, ganha capacidade para influenciar o jogo argentino, passando perto da bola, mas também atacando a área e relacionando-se com Nicolás Tagliafico. Falta a Scaloni repetir 2022 e envolver os novos nomes na seleção. Há muito pouco de Nico Paz e Valentín Barco nesta Argentina.
Ao Egito, é natural que a sensação que tenha acudido a equipa no final do jogo seja de injustiça. Não pela influência da arbitragem no jogo (nem é esse o tema deste espaço), mas pelo roteiro escrito, profundamente penalizador para com a boa exibição do conjunto egípcio. Depois de tanto tempo em vantagem, da construção de uma diferença de dois golos no marcador e de um monumento tão grande como as Pirâmides invalidado por uma falta no início da jogada, não há espaço para outros sentimentos que não a frustração. Ainda assim, friamente o Mundial 2026 do Egito é muito interessante e uma visão de alento para o futuro. Os faraós são a maior seleção africana do ponto de vista histórico e deixam bases para, pelo menos, alimentar o sonho em regressar a este patamar (de onde nunca saíram verdadeiramente) de forma consolidada.
A exibição egípcia do ponto de vista defensivo, roçou a perfeição. Desde cedo que Emam Ashour compôs a linha de cinco para evitar a chegada dos laterais e reduzir problemas. Na segunda parte, com o crescimento argentino em volume ofensivo, passaram a ser dois nomes (Mostafa Ziko e Haisssem Hassan) a permitir controlar tudo, num 6-3-1 que deixava apenas Mohamed Salah na frente. De resto, o enquadramento coletivo dado ao principal jogador da equipa, permitiu retirar-lhe o maior rendimento, sem que a sua presença em campo significasse menores índices de combatividade. Defensivamente, trabalhou bastante, mas sempre como o elemento mais avançado da equipa. Ofensivamente, foi sempre enquadrado como um jogador de ligação e definição e nunca como o destino final. Esse, passou, e principalmente depois da lesão de Emam Ashour, por dois nomes que, curiosamente, só mais tarde no Mundial viriam a ganhar protagonismo. Haissem Hassan entrou bem diante da Austrália e foi recompensado com uma titularidade justa e que justificou na plenitude. Impressionante a forma como conduz a bola próximo do pé esquerdo, como encara adversários e conquista dribles e como define. Medindo bem as palavras, deixou pequenas lembranças do outro esquerdino em campo. Quem duvidar, que vá ver o golo anulado. Com um perfil diferente, Mostafa Ziko é a grande revelação egípcia no Mundial 2026. É um avançado de ruturas ataque ao espaço, surgindo na área para finalizar e permitindo aos elementos mais criativos liberdade para jogar sabendo que há alguém na área. Para que não fique esquecido entre os destaques ofensivos, atenção ao que Mostafa Shobeir fez, não só contra a Argentina, mas no torneio no geral, onde nem chegou como titular indiscutível. Entre tantas coisas boas, Hossam Hassan cimentou o estatuto como treinador. Há muitos detalhes com dedo claro do técnico, o ainda melhor marcador da seleção egípcia.
A história das balizas a zeros | Suíça 0-0 (4-3 g.p) Colômbia


Ninguém previu um 0-0 na história do futebol. Pode ter havido um ou outro comportamento desviante, mas o cenário de um 0-0 é recusável à partida. Nem um adepto de futebol nem um perfeito comum, que apenas olha para a televisão quando o narrador começa a subir a tom de voz, assinariam um 0-0 à partida. Foi isso que se sucedeu no Suíça x Colômbia e, embora as previsões nem apontassem nesse sentido, há algo de normal neste 0-0. Como se tudo apontasse nessa direção, mas, por obra da vontade mais que por obra do destino, os avisos fossem ignorados.
A Colômbia foi menos feliz e competente nos penáltis e é eliminada demasiado cedo para as expectativas que deixava e pelo futebol que praticava. Ainda assim, e antes do compêndio das maravilhas colombianas, há um destaque no Mundial 2026 que tem passado despercebido, algures entre os pingos da chuva de oportunidades. Os cafeteros são eliminados sem nunca ter estado em desvantagem num jogo e com apenas um golo sofrido, na estreia diante do Uzbequistão. Números que se refletem no Mundial dos defesas colombianos. Para lá de Camilo Vargas e Jhon Lucumí, um patamar acima, é impressionante a regularidade das exibições de um central como Davinson Sánchez. Assenta-lhe bem a definição de algo errático, pelo que foi o nível apresentado nos últimos anos, mas tem condições físicas e técnicas para o topo. Não cedendo aos erros, faz exibições como as deste Mundial. Absolutamente dominante.
Lá para a frente, a Colômbia teve alguns dos jogadores mais entusiasmantes da competição. Gustavo Puerta é a grande revelação. Para lá das compensações de James Rodríguez, apresentou-se como um médio de perfil quase total, quer do ponto de vista defensivo, quer ofensivo, podendo funcionar mais posicional ou mais liberto, mais pela esquerda ou pela direita, mais influente no passe ou na condução. O regresso ao futebol brasileiro permitiu a Jhon Arias recuperar a alegria. Não vingou na Europa e não foi por falta de qualidade. Impressionante a multiplicidade de recursos técnicos para proteger a bola e pensar o remate. De James Rodríguez e Juan Quintero, há poucas palavras. O futebol fica mais pobre sabendo que, muito provavelmente, fizeram a despedida dos Mundiais. Faltou outra afirmação a Luis Díaz e a Luis Suárez (a lesão de Jhon Córdoba impediu a rotação) para a Colômbia ser mais capaz de traduzir tudo o que produziu em golos. Ou isso ou que Jaminton Campaz tivesse acertado na baliza quando o destino lhe deu essa chance.


Se o jogo a zeros da Colômbia só respeitou a tendência do torneio, o jogo a zeros da Suíça é mais característico. É uma daquelas seleções europeias meio aleatórias, como também o é a Croácia, por exemplo. Raramente despertam atenções, amores ou desamores, mas estão quase sempre revestidas de competências capazes de basear atuações longas nas grandes provas. Do nada, a Suíça está nas oito melhores seleções do Mundial 2026. E a explicação é muito simples.
Onde mais reina a atração pelo espetáculo ou pelo diferente, pela liberdade total ou pelo posicionalismo máximo, pelo descalabro ou pelo rolo compressor, a Suíça situa-se, como no mapa geopolítico do mundo, numa zona neutra. Não que isso signifique uma ausência de convicções, de intenções ou de ideias ou seja interpretado como algo negativo. Pelo contrário, tem sido um percurso marcado pela regularidade e consistência. Tem sido difícil – a menos que se chamem Gonçalo Ramos – eliminar a Suíça das grandes competições. A competência tem vários jeitos de ser medida. No caso helvético, algum cinismo mascarado pela capacidade de ter intérpretes como Manuel Akanji ou Granit Xhaka a definir é chave. Há pouca variabilidade e espetacularidade. Mas os 6 ou 7 em 10 não precisam disso, mas da consistência e competência.
É essa a história da Suíça. Sem ninguém dar bem por isso, já está nos quartos de final do Mundial. Contou, no jogo decisivo, com uma exibição inspirada de Gregor Kobel, com um ajuste ao intervalo que aproximou a equipa da melhor versão (com Rieder nas costas de Embolo e Djibril Sow a passar para o corredor direito) e com exibições sólidas lá atrás. Quando foi necessário, Murat Yakin trocou os laterais e voltou a retirar peso a uma Colômbia que mudou o pensamento pensador para acelerador. Nunca se destaca suficientemente o peso que o método, a regularidade e a capacidade de fazer o simples podem ter em torneios deste tipo. Até porque a Suíça tem Johan Manzambi no plantel para romper com todos estes dogmas. Que recupere a tempo do próximo jogo. Porque, por vezes, ser comum não chega. E o jovem de 20 anos é tudo menos comum.

