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Enquanto se debela com um arranque de época delicado na Segunda Liga, o Torreense vai usando a Europa League como uma diversão cada vez mais competitiva.
O Sunderland é uma das equipas mais românticas desta edição da Europa League. Não pelo futebol, mais próximo da ideia genérica do futebol inglês e britânico e pouco dado a estéticas e modernidades, mas pela história de um clube tradicional que, aos olhos de todo o mundo, desceu à 3.ª Divisão, fez o caminho das trevas e, à primeira, garantiu o acesso às competições europeias. Nesta caminhada, a série «Sunderland ‘Til I Die» ajudou o clube do Nordeste de Inglaterra a tornar-se mais global, solidarizando e sensibilizando adeptos de todo o mundo. No que toca a ter as ruas do seu lado, há poucos clubes mais bem posicionados do que o Sunderland. Um deles, ainda assim, é o Torreense.
Por mais que seja interessante olhar para lá do óbvio, não nos podemos esquecer, em qualquer análise, que a competição para o emblema de Torres Vedras é altamente desigual. Enquanto se debela com um arranque de época delicado na Segunda Liga, o Torreense vai usando a Europa League como uma diversão cada vez mais competitiva, como uma montra de luxo para se publicitar enquanto clube e como uma recompensa merecida a um feito extraordinário. Este carinho natural para com o outsider roubou algum do protagonismo à primeira deslocação europeia do Sunderland em 53 anos. E, mais do que os dados lançados antes do jogo, o rumo dos 90 minutos ajuda a ganhar um sentimento de identificação com o Torreense.
Num jogo de animais domésticos, os underdogs bem eriçaram o pelo dos black cats. Há méritos evidentes que justificam que um clube da Segunda Liga tenha conseguido chegar ao intervalo a vencer um emblema da Premier League, somente a mais poderosa competição local do mundo. O resultado, esse, acabou por ser natural e altamente cruel. A crueldade, quase vil, é o maior elogio à exibição da formação de Torres Vedras.

É impossível dissociar a capacidade do Torreense se impôr estrategicamente da rotação e abordagem descomplexada que o Sunderland teve durante largos e longos minutos. Ainda assim, não há qualquer tipo de desvalorização do modus operandi e da resistência do conjunto do Oeste. Primeiro, porque não tem nada que ver com o assunto. Era o que mais faltava imputar responsabilidades ou condicionantes a um jogo baseadas nas opções (e não obrigações) do adversário. Depois, porque as segundas linhas do Sunderland desfilariam na Primeira Liga Portuguesa. A diferença continuava a ser gigante.
O jogo também ajuda a dotar Luís Tralhão e restante companhia na equipa técnica de responsabilidade no planeamento estratégico. Não há, propriamente, uma escola de pensamento do treinador português no sentido lato da expressão. Ainda assim, se for preciso identificar uma característica comum, esta passará sempre pela adaptação estratégica, pelo estudo do adversário e pela ação-reação. Este jogo foi mais um exemplo, principalmente enquanto as pernas aguentaram, das adaptações estratégicas.
O Sunderland, até começar a lançar a «artilharia pesada», como conotou Carlos Simões as primeiras linhas dos saints, teve muitas dificuldades para lidar com a organização defensiva do Torreense. É curioso e sintomático do equilíbrio e competitividade da Segunda Liga, que uma equipa pensada para ter tração à frente consiga montar teias tão interessantes. Desta vez, retirou o peso e influência dos laterais com o posicionamento dos extremos e colocou os extremos adversários, destinos da maioria das jogadas, em constantes 2×1 e inferioridades. Por dentro, usou os médios para ter coberturas constantes e retirar a influência e peso criativo de Chris Rigg. Sem Enzo Le Fée e Granit Xhaka, Noah Sadiki e Jules Ahoka foram forçados a ficar mais baixos e posicionais e a tarefa defensiva fez-se.

Em simultâneo, o Torreense conseguiu crescer. Pelo posicionamento mais subido de Pozo, para impedir que Dayann Methalie se juntasse por dentro, o espanhol era o destino para pensar transições e ataques. Sem ser dominador neste aspeto, o Torreense foi equilibrando saídas mais longas e diretas com posses mais pensadas, juntando Amine Oudrhiri e Alejandro Alfaro aos defesas para hibridizar saídas e variar posicionamentos. A solução, ainda assim, passou bem além de qualquer estratégia. Por mais que se pense, o futebol joga-se. E Volnei Feltes jogou-o.
De resto, é quase poético que uma das maiores lacunas do jogo do Torreense se tenha, por momentos, convertido na sua maior benção. Felizmente, para a história não ficarão propriamente as lacunas do defesa, central mais por adaptação, com um pé direito restringido ao lado esquerdo e que, por estes dois motivos, se torna algo errático nos posicionamentos e abordagens. Antes do golo, uma maravilha de cinema, o central comprometeu num passe bem medido e numa condução rumo a um beco sem saída. No momento do êxtase coletivo, apanhou a A8, fez Torres Vedras – Leiria sem paragens e, quando se percebeu tão perto da baliza, puxou a bola para o pé direito, onde é mais feliz. A celebração das bancadas, dos jogadores, da equipa técnica, é sintomática. Que momento bonito.
A segunda parte conta duas narrativas em simultâneo. O Sunderland meteu os pesos-pesados em campo e ganhou outra capacidade para jogar. Os laterais começaram a ganhar influência, principalmente Nordi Mukiele pela direita, e as situações de inferioridade transformam-se em igualdades ou mesmo superioridades. O meio-campo foi reforçado com a organização criteriosa de Granit Xhaka e com o perfume de Enzo Le Fée e Noah Sadiki e Jules Ahoka, a dupla congolesa, ganhou altura e deslocação. Não é inocente que tenham sido os dois médios a pisar a área e a marcar os golos da reviravolta.

Em simultâneo, as pernas acabaram. Do banco, chegou a reação, com a mudança estrutural para um 5-4-1 que procurava dar conforto a um bloco mais baixo, chegaram os extremos novos com características semelhantes – um a acelerar, outro a pausar – e veio alguma energia. Ainda assim, a energia e fisicalidade do jogo do Sunderland foi-se fazendo sentir e sentir, as pernas cansaram-se e a capacidade de prolongar posses, adormecendo o jogo e obrigando o adversário a ter calma na agressão da baliza, também foi menor. Lucas Paes fez o que podia, mas o Sunderland chegou à baliza por duas ocasiões, a última já nos descontos. O delírio dos ingleses, pouco habituados a uma deslocação do Sunderland, muito menos a uma quinta-feira de sol em outubro, contrastou com um sabor agridoce, um misto de orgulho e frustração, do lado de Torres Vedras. A isto se chama morrer na praia. Em inglês, die on the beach.
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Do ponto de vista tático, quais os maiores desafios que o Torrense provocou, especialmente a encontrar espaços?
Régis Le Bris: Era claro para nós. Nos últimos jogos da Premier League cometemos vários erros na nossa saída de bola, quando tínhamos a posse. O primeiro objetivo era estar segurar, estar seguro e conseguir precaver transições. Sabíamos que o Torreense era forte nesse aspeto. Acho que estivemos bem. Podemos falar do golo concedido, mas é mais mérito do que um grande erro. Depois, tivemos de entrar num bloco baixo. Trabalhámos diferentes conceitos durante a semana. A equipa está a ficar melhor, mas demora tempo a ajustar, a corrigir pequenos detalhes. A intenção estava lá.
Bola na Rede: Principalmente em alguns momentos da primeira parte, o Torreense foi capaz de ter bola. Já destacou aqui a vontade do Torreense não se esconder. Qual a importância do papel dos dois médios, o Amine [Oudrhiri] e o [Alejandro] Alfaro, em muitos posicionamentos híbridos para superar a marcação do Sunderland e, num segundo momento, sentiu que a equipa teve a tendência de chegar muito rápido à frente, acabando por penalizar estas posses prolongadas?
Carlos Simões: Sim. O nosso modelo de jogo é ter bola e ferir com bola. É isso. Sabíamos que ia ser muito difícil pela oposição que temos à frente, mas estávamos convictos que, em muitos momentos, o iríamos conseguir. E conseguimos na primeira parte. Obviamente que com o cansaço, com os duelos, com a diferença no banco do Sunderland e de quem entrou, que mete a artilharia toda, temos de ir adaptando. Sabendo que estavam com uma organização mais à frente e com mais jogadores à frente, na nossa última linha, a única possibilidade que a gente tinha, porque é uma equipa que reage muito rápido à perda de bola, era procurar o espaço nas costas. Era essa a única possibilidade de os poder ferir. O nosso modelo foi evoluindo ao longo do jogo por questões físicas dos nossos jogadores. Fazia parte do nosso plano. Sabíamos que não íamos estar permanentemente em cima do Sunderland. Não tínhamos essa ilusão. Acreditávamos muito que em alguns momentos podíamos ter bola porque é disso que nós gostamos, é nisso que acreditamos e é para isso que trabalhamos.










