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«Treinar o Neymar foi muito fácil» | Entrevista Bola na Rede a Pedro Caixinha

Manuel Nascimento · 7 min

Pedro Caixinha RB Bragantino
Foto: RB Bragantino

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Pedro Caixinha falou com o Bola na Rede, onde abordou vários temas da atualidade, entre os quais a Seleção Nacional e o trabalho com Neymar Jr.

Em conversa com o Bola na Rede, Pedro Caixinha revelou o desejo de regressar ao futebol europeu e a Portugal, sublinhou a facilidade de treinar Neymar no Santos e o sucesso de Paulinho no México, elogiando ainda a estreia de Jorge Jesus na Seleção Nacional e a estabilidade do FC Porto.

Bola na RedeOlá, Pedro. Queria começar por abordar a tua carreira e a tua experiência recente no México: como correu, quais são os teus planos para o futuro e o que nos podes dizer sobre esta etapa?

Pedro Caixinha: Não correu bem. E não correu bem na medida em que aquilo com que mais me identifico nos momentos de maior sucesso da minha carreira tem a ver com uma relação muito direta com a estrutura, onde há total transparência e identificação com o projeto, quando todas as áreas estão ligadas, há uma visão compartilhada e um caminho comum a percorrer. Quando as coisas não são assim, não há um prazer total e elas acabam por não correr da maneira como perspetivamos. Já estou um pouco cansado de estar longe de casa e da família, do outro lado do Atlântico onde o futebol acontece; quero voltar para o continente europeu e tenho também o objetivo de regressar a Portugal. Neste momento, o que quero é ter essa reflexão muito clara e aproveitar tempo de qualidade com a família, algo que perdi muitíssimo e quero recuperar, para depois abraçar um novo projeto, desta vez já no continente europeu

Paulinho Toluca
Fonte: Toluca

«O Paulinho chegou muito humilde, trabalhador, profissional e conhecedor do jogo»

Pedro Caixinha

Bola na RedeFalando do campeonato mexicano e da presença do Paulinho: qual foi o impacto dele e como é que viste a sua chegada e afirmação no México?

Pedro Caixinha: Não diria que foi impactante logo à chegada, embora o Paulinho tenha chegado com um cartaz diferente daquele com que nós chegámos. Veio de uma grande equipa como o Sporting, onde teve um grande trajeto e ajudou a conquistar títulos fundamentais. Mas o público mexicano é um bocadinho cético quando não se trata de um nome totalmente consolidado. O Paulinho chegou muito humilde, trabalhador, profissional e conhecedor do jogo. Tive o prazer de o conhecer lá. Teve de trilhar o seu caminho numa equipa que já não ganhava títulos há 12 anos. Desde que ele chegou, é a equipa com mais títulos num curto espaço de tempo, quer a nível doméstico quer internacional. Além do impacto na representatividade do clube e da liga, alcançou dados históricos ao ultrapassar o goleador paraguaio Cardoso na história do Toluca. Apesar de ter estado quase meio semestre lesionado, já superou esses números e vai deixar a fasquia muito alta. Além disso, está a desfrutar com a família em Santa Fé, e sentir-se bem no trabalho e em casa é fundamental.

Bola na RedeTendo em conta o desempenho do Paulinho, achas que merecia ter tido uma oportunidade mais clara ou ter sido chamado à Seleção Nacional para o Mundial?

Pedro Caixinha: Seria uma opinião muito pessoal e descontextualizada por não conhecer a realidade toda. Conheço as características dos avançados que foram, nomeadamente para a posição nove, como o Cristiano e o Gonçalo Ramos. Os outros que foram não eram propriamente da posição nove. Pelo contexto e pelo que fez naquela área geográfica, penso que existiu o mérito de, por ter saído um companheiro, ele ter integrado a chamada aquando da reinauguração do Estádio Azteca. Foi um prémio e um reconhecimento do futebol mexicano. Eu estava lá, vi o jogo e acompanhei a imprensa; foi uma oportunidade de estar às portas do processo do Mundial.

Bola na RedeFalando da Seleção Nacional, qual é a tua opinião sobre a chegada de Jorge Jesus e a convocatória realizada?

Pedro Caixinha: Na convocatória penso que não existiram grandes alterações, até porque não houve muito tempo de trabalho. Acho que o Jorge Jesus teve uma coerência muito grande entre a convocatória, o 11 inicial e o jogo. Tive oportunidade de estar no estádio a ver e já se viram dinâmicas muito interessantes. Ele foi coerente ao apostar num 11 com jogadores com quem já tinha trabalhado no passado, facilitando as dinâmicas e interações. É um treinador exigente, vitorioso e conhecedor do futebol português e dos jogadores. Só não posso concordar com o facto de ter dito na conferência de imprensa que treinar uma seleção é igual ao dia a dia de um clube, porque não é. Ter o treino diário é diferente de ter muito tempo de preparação e depois um período reduzido de treino e jogo. Mas começámos bem, com uma orientação diferente. O Bruno Fernandes acabou por ser um pouco mais sacrificado fora da posição habitual, mas gostei do que vi e desejo o melhor à Seleção.

Jorge Jesus
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Bola na RedeEstiveste no Santos. Quão competitivo é o Brasileirão e como o comparas com a Liga portuguesa?

Pedro Caixinha: É difícil comparar. Em Portugal, a área geográfica é limitada e as deslocações logísticas são facilitadoras. No Brasil, a logística e o tempo de deslocação têm de ser enquadrados no próprio processo de recuperação dos atletas. Assistia recentemente a uma apresentação de analistas da federação que mostrava exatamente isso: as equipas que viajam para o Nordeste ou para o Sul sofrem muito com o fator deslocação. Isso gera um enorme equilíbrio competitivo. Os plantéis são fortes e têm jogadores que fazem a diferença, fazendo com que uma equipa num ano lute pela Libertadores e no outro pela manutenção. Há equilíbrio financeiro e estrutural, mas o fator distâncias torna o campeonato imprevisível, onde qualquer equipa pode vencer qualquer uma.

«Quando estamos a começar achamos que os grandes jogadores são difíceis, mas na verdade são os mais fáceis»

Pedro Caixinha

Bola na RedeComo foi a tua experiência no Santos e, em particular, como foi treinar o Neymar?

Pedro Caixinha: Treinar o Neymar foi muito fácil. Quando estamos a começar achamos que os grandes jogadores são difíceis, mas na verdade são os mais fáceis. Houve abertura, transparência e o alinhamento claro sobre o objetivo do seu regresso ao Santos: ter a possibilidade de jogar o Mundial e ser campeão do mundo pela seleção brasileira. Depois, por vários fatores, isso não se concretizou. A história do Santos foi muito diferente da minha experiência no Red Bull Bragantino. O Bragantino é um clube super estruturado com uma filosofia transversal bem organizada. Tivemos um mês e meio de preparação prévia e quando nos apresentámos a 3 de janeiro parecia que já lá estávamos há anos. No Santos foi o oposto. Não é SAF nem empresa; é um clube onde quem dirige procura em primeiro lugar a reeleição, criando um vínculo com a torcida difícil de desligar. Nós tínhamos estado 10 dias a negociar com o Grémio. Deixo um alerta aos treinadores portugueses que vão para o Brasil: o contrato tem de ser super blindado, senão em dois dias mandam-te para casa. Não aceitámos as condições do Grémio e, quando o Pedro Martins nos contactou a 23 de dezembro para o Santos, fechámos o acordo. Apresentei-me a 3 de janeiro com pouquíssimo tempo de preparação para organizar um plantel numa realidade muito diferente, apesar de ser o clube histórico de Pelé e Neymar.

Bola na RedePassaste também pela Escócia. Como foi treinar o Rangers e viver a experiência do clássico Old Firm?

Pedro Caixinha: Eu estava no Catar prestes a renovar quando surgiu a proposta do Rangers através do Pedro Mendes. Era uma oportunidade fantástica de voltar à Europa e treinar o clube onde tinha feito formação. O Rangers vinha do castigo do Fair Play Financeiro, tinha subido recentemente e a estrutura ainda era deficitária e sem diretor desportivo, cabendo-nos organizar muita coisa. O Old Firm é um jogo único e fantástico. Nunca senti a rivalidade religiosa na cidade, exceto uma vez num táxi em que o condutor me disse de forma agressiva que achava inconcebível um católico treinar os protestantes. Foi a única abordagem desse género. Guardo essa aprendizagem e um orgulho tremendo por ter treinado o Rangers.

Bola na RedeQue balanço fazes do campeonato português até à 7.ª jornada, com a vantagem do FC Porto e a prestação de promovidos como o Académico e o Marítimo?

Pedro Caixinha: Tenho visto muito bem o Académico e o Marítimo, com treinadores de quem tenho excelente opinião. O Marítimo é historicamente da Primeira Liga e o Académico construiu uma estrutura sólida. Quanto aos três grandes, o FC Porto ganha vantagem e as sete vitórias em sete jogos demonstram-no. Mantêm a estrutura, o mesmo treinador, a mesma base de jogadores e a ideia de jogo. Quando precisam de se organizar em bloco médio ou baixo, sabem exatamente defender para a frente e atacar a bola. O Sporting é uma equipa praticamente nova, com muita qualidade, mas que exige tempo de entrosamento. No Benfica, a expulsão no clássico condicionou a abordagem do jogo. Cinco e seis pontos de avanço já têm expressão e o FC Porto está muito próximo de se revalidar bicampeão.

Bola na RedeE sobre o Benfica na Liga Europa após a vitória frente ao AC Milan, consideras a equipa candidata?

Pedro Caixinha: Pode ser. Há sempre equipas surpresa como o Bodo/Glimt, mas gostei muito do Benfica contra o AC Milan, tanto do ponto de vista estratégico como coletivo e na forma como geriram a partida. Foi apenas a primeira jornada, mas é fundamental para o futebol português ter equipas a vencer numa competição tão importante como a Liga Europa.

Benfica Jogadores
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede
Manuel Nascimento

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