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«Ainda sonho com a Seleção» – Entrevista a José Moreira

Guilherme Anastácio · 11 min

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O guarda redes do GD Estoril-Praia demonstrou que não é só nos relvados que brilha. Numa conversa em que se falou de tudo um pouco, José Moreira pronunciou-se sobre o futebol em geral. De Trapattoni a Ter Stegen, e do Chipre a Olhão, Moreira deu um pouco a conhecer de si mesmo e dos seus princípios enquanto profissional. Vem saber o que é a “ festa do futebol” na ótica de um experiente guarda redes que já muito singrou no mundo do futebol e de que forma é que tornamos o futebol  num desporto ideal.

Bola na Rede [BnR]: Moreira, começamos com o atual momento do Estoril. Agora com o novo treinador, como é que as coisas estão a correr e o que é que espera para o futuro e para o resto da época?

José Moreira [JM]: Com a chegada do mister Ivo, deu-se o ponto de viragem que nós estávamos a necessitar. Felizmente conseguimos pontuar logo no primeiro jogo dele, na Madeira, o que foi importante. Depois mantivemos essa linha em casa e infelizmente perdemos na Luz, mas no regresso à nossa casa, e no último do ano, conseguimos vencer o Aves. Era a vitória que nos faltava para das mais ânimo e mais vontade e para começar 2018, respeitando o Setúbal, com uma vitória.

BnR: O Estoril voltou a vencer e inclusive a marcar, algo que já não fazia há alguém tempo. Sente que a equipa está agora a jogar mais livre e a praticar um futebol mais positivo?

JM: Vocês melhor do que nós conseguem ver isso. Acho que estamos a jogar um futebol mais positivo, mais de ataque. Estamos a tentar jogar no meio campo adversário e estamos com uma equipa muito coesa. A equipa técnica trouxe-nos muita vontade em jogar um futebol positivo e mais motivação para conseguir bons resultados. O último jogo de 2017 foi já uma vitória e queremos continuar com essa senda vitoriosa porque o Estoril e os seus adeptos merecem.

BnR: O Moreira é já um guarda redes com uma vasta experiência, com passagens por Inglaterra, Chipre e até mesmo pelo Benfica. Sente que o seu papel no Estoril é ainda mais elevado por isso mesmo?

JM: Não só por ser o jogador mais velho, mas também por ter já uma vasta experiência como disse, é óbvio que a minha experiência pode ajudar certos “meninos” a adaptarem-se ao futebol europeu, ao Estoril, à vila do Estoril e a esta envolvência toda porque o Estoril é um clube especial. Só quem está cá dentro consegue ver e respirar tudo aquilo que é o Estoril. É um clube com várias vertentes. E eu, sendo dos mais velhos, tento passar o que é o Estoril e o que é o futebol português.

BnR: O Estoril é um clube que, como se pode ver pelas redes sociais, toma várias iniciativas (tanto lúdicas como pedagógicas). Acha que essas iniciativas fortalecem o espírito de equipa e criam laços entre os jogadores?

JM: Acho que sim! Nós aqui somos jogadores que estamos envolvidos na sociedade através de iniciativas da SAD e da estrutura. Fazemos visitas pedagógicas e tentamos também interagir com toda a zona aqui envolvente do Estoril para que possamos ter cada vez mais adeptos. O futebol é bonito com espetáculo na bancada e hoje em dia fala-se tanto de programas televisivos, mas a beleza do futebol são os jogadores e os adeptos. Isto é que é a festa do futebol e o Estoril tenta fazer isso mesmo: um futebol positivo, de fair play, tanto dentro como fora do campo.

BnR: Falando agora da temática que mencionou, a forma como hoje se vive o futebol em Portugal, que conselho é que dá aos mais jovens e o que perspetiva para o futuro do futebol português?

JM: Eu acho que é importante trazer os mais jovens aos estádios e fazer com que ele desfrutem dos jogos. Sabemos que muitas vezes os horários não são os mais convenientes para crianças e jovens irem porque, por exemplo, há escola no dia seguinte, mas ver um jogo na televisão é uma coisa, ver no estádio é outra. Eu cresci a ir ver o jogo da equipa da minha vila ao estádio e é isso mesmo que faz crescer o bichinho e que faz parte do futebol. O facto de poderes ir ao estádio é que te faz apoiar a tua equipa local, não é ver o jogo na televisão. Na televisão vês jogos de todo o mundo, a envolvência que o futebol provoca é que é o bonito.

BnR: Falámos há bocado da sua experiência. Com passagens pelo Benfica, Olhanense, Chipre e Inglaterra, que diferenças é que encontra em termos do futebol?

JM: A maior diferença que eu noto, por exemplo, de Portugal para Inglaterra é que em Inglaterra 85/90% dos jogos são todos à mesma hora e no mesmo dia e, por isso mesmo, esses jogos lá não dão na televisão. Conclusão: se eu quero ver o jogo das 15H ao sábado, eu tenho de ir ao estádio. Não passa nenhum jogo na televisão. As pessoas que gostam de futebol e das suas equipas têm de ir ao estádio ver. Era o que eu gostava de ver em Portugal: jogamos à tarde, em que pessoas almoçam junto do estádio, vêm a sua equipa e depois ficam a conviver e a lanchar ainda perto do estádio. Fazem sempre a festa, a festa do futebol. Cria-se uma envolvência muito bonita. Em relação ao Chipre, a grande diferença que notei passa pelo fanatismo dos adeptos. Lá as claques e os grupos organizados são mesmo fanáticos e apoiam a equipa do princípio ao fim. Se for preciso, depois de um resultado negativo, vão ao campo de treinos puxar pelos jogadores. Às vezes até nem num bom sentido, fazem mesmo um puxão de orelhas. Falando do futebol português, já esteve melhor, já esteve pior. Eu espero é que haja paz neste desporto e que nos concentremos no que é bonito: a festa do futebol e passar uma mensagem positiva aos jovens de irem aos estádios. Tudo o resto são outras águas.

BnR: Há dois anos, numa entrevista, disse que ainda alimentava o sonho de voltar à seleção e de jogar na Liga dos Campeões. Ainda vai treinar todos os dias com isso em mente?

JM: Claro que sim. O sonho comando a vida e se tu sonhas alto podes não conseguir alcançar o teu sonho, mas vais chegar lá perto. Se sonhares baixo, a única coisa que podes atingir é esse sonho baixo. É óbvio que eu tenho esse sonho e que vou continuar a tê-lo até ao último dia que jogue futebol porque é esse o meu objetivo. Sei que hoje está mais difícil do que aquilo que estava há dois anos, mas vou continuar a levantar-me da cama todos os dias para lutar por esse meu sonho.

José Moreira é o dono da baliza do GD Estoril-Praia
José Moreira é o dono da baliza do GD Estoril-Praia

BnR: Tendo em conta que é um ícone já histórico na baliza do SL Benfica, ainda pensa em voltar a defender a baliza dos encarnados?

JM: Eu neste momento sou jogador do Estoril Praia, tenho contrato até junho de 2018 e é só no Estoril que eu me vou focar. Como se costuma dizer, “o futuro a Deus pertence” e isso são coisas para pensar noutra altura. Neste momento, estou focado no Estoril e em fazer um bom ano de 2018 para conseguir os nossos objetivos e fugir da situação em que estamos.

BnR: E, pegando agora na questão já mais do que debatida da baliza do Benfica, como vê a atual disputa entre os guarda-redes encarnados e toda esta polémica que se gerou?

JM: Eu encaro isso com normalidade, tal como encaro na baliza das outras equipas. Cada plantel é constituído por 3 ou 4 guarda redes, acho que o futebol português hoje em dia está muito bem fornecido de guarda-redes e isso é uma disputa natural. Infelizmente, nesta posição só pode jogar um de inicio e é óbvio que essa luta irá sempre existir. Se existe essa discussão é porque todos têm muito valor e quanto mais competição houver, melhor para todos.

BnR: Na entrevista que deu recentemente, falou do Trapattoni. É, de facto, o treinador que mais o marcou e que mais fica marcado na sua carreira?

JM: Não. Acho que os todos os treinadores me marcaram muito e todos me deram algo que eu ainda hoje tenho e que faz parte da minha experiência. Houve uma vez que estava a fazer o meu currículo e estava a pontar os treinadores com quem já treinei: Jupp Heynckes, José Mourinho, Trapattoni, Ronald Koeman, Brendan Rodgers, Scolari, Jorge Jesus, Carlos Queiroz. Já trabalhei com muitos treinadores e de todos eles absorvi muitas coisas que levo na minha bagagem, tanto boas como más. É isso que eu tento absorver de todos os meus treinadores. Na altura, Trapattoni foi o treinador que me deu o primeiro título de campeão nacional, mas tive situações muito boas com ele, muito más, de frontalidade, mas sempre nos respeitámos, tal como sempre respeitei os meus treinadores e os meus treinadores me respeitaram a mim. E já agora, visto que estamos a falar dos treinadores principais, é também importante falar dos treinadores de guarda-redes. Todos eles me deram algo que moldou o que eu sou hoje, tanto como ser humano como guarda redes. Só tenho é de agradecer a todos, sem riscar nenhum da lista. E espero ter ainda mais treinadores de guarda redes porque quero jogar muitos mais anos.

BnR: Se pudesse escolher um jogo que o marcou, aquele que não lhe sai da memória, que jogo escolhia?

JM: Eu gosto muito de me lembrar do jogo do Rosenborg porque é um jogo que me marcou e que marcou muitos adeptos e muitos dos meus fãs. Hoje em dia ainda passo pelas pessoas na rua e falam-me desse jogo. Contudo, eu costumo dizer que o jogo que eu mais recordo é o último que eu faço. Portanto, recordo o do Rosenborg e o jogo contra o Aves que foi o último que fizemos. São os dois jogos que eu mais recordo: o último para poder melhorar e o do Rosenborg como ícone e para ficar guardado lá na história.

José Moreira acredita no sucesso dos canarinhos no campeonato
José Moreira acredita no sucesso dos canarinhos no campeonato

BnR: Se pudesse dar um conselho aos jovens que ambicionam ser guarda redes, o que lhes diria?

JM: Neste momento, posso dizer que hoje em dia todos esses jovens já são afortunados só por terem treinadores de guarda-redes. Portugal evoluiu muito nesse aspeto. Eu lembro-me de que o meu primeiro treinador de guarda redes foi aos 15 anos quando fui treinar à equipa principal do Salgueiros. Primeiro foi o Madureira e depois o Silvino, que está agora com o Mourinho. Hoje em dia, vejo meninos com 8 e 9 anos que já têm esses treinadores. Dir-lhes-ia que é já uma sorte poderem adquirir esses conhecimentos e para não se esquecerem que são jovens. Eles não têm de fazer o que o Ter Stegen ou o Keylor Navas fazem. Eles primeiro têm de se focar nos princípios básicos do futebol. Tu não podes ser jornalista sem saber escrever, tiveste de andar na primeira e na segunda classe para o aprenderes. É esse o principal conselho que dou aos jovens: não saltem etapas, não queriam ser já, por exemplo, o Rui Patrício ou Buffon a fazer defesas ao ângulo. Foquem-se no básico e desfrutem do futebol porque é nestas idades que a verdadeira paixão vem ao de cima. Quando se chega ao nível profissional já é diferente. Divirtam-se a jogar, joguem futebol na rua, na escola e nunca se esqueçam dos estudos porque infelizmente isto não dá para todos. Se conseguirem conciliar a escola com o futebol, ponham a escola sempre em primeiro ligar.

BnR: Disse que o futebol português evoluiu no aspeto dos treinadores de guarda-redes. Se tivesse de comparar, por exemplo, o futebol português atual com o futebol de há uns anos, que diferenças abismais é que encontra?

JM: O futebol evolui de ano para ano. Basta, por exemplo, um treinador ter uma ideia diferente que vão logo começar a trabalhar em volta dessa mesma ideia. Acho que o futebol evoluiu muito, comparativamente há quinze anos atrás, em termos de bolas paradas e nos jogos psicológicos. São os aspetos em que encontro mais diferenças. Sem esquecer, como é óbvio, a formação dos jogadores. Acho também que o futebol português vai continuar a evoluir. As novas tecnologias ajudam os árbitros, que são seres humanos iguais a nós que têm o direito de errar.

BnR: Falando ainda da evolução do futebol, mas desta vez num panorama mais global, e tocando no aspeto das transferências e dos milhões, achas que o facto de o futebol ser cada vez mais negócio tira a essência e paixão da festa do futebol?

JM: Se tudo tiver o seu certo peso e medida acho que não. O problema é que às vezes existem loucuras. Eu costumo dizer: beber um copo de vinho não tem problema, agora beber uma garrafa já é problemático. É como no mundo do futebol, tem de se ter peso e medida para fazer as coisas. Nessas áreas as pessoas certas e competentes saberão decidir. Eu só acho que dentro de campo nós devemos dar sempre o máximo para dignificar o clube que representamos. Compete-nos tornar o futebol um desporto bonito e positivo para vocês aí de fora gostarem cada vez mais disto.

BnR: O Moreira já experimentou um pouco de tudo, pelo menos em Portugal. Que diferenças é que encontra entre clubes com dimensões diferentes?

JM: As diferenças existem, não só por causa dos orçamentos, mas também por causa da situação e da dimensão do clube. Por exemplo, quando estive no Benfica, o clube detinha a SAD. Conclusão: o clube era o dono da SAD e mandava nela. Por sua vez, no Olhanense encontrei uma situação completamente diferente: a SAD era autónoma perante o clube e não tinhas boas relações. Vim para o Estoril e existe harmonia entre os dois. Três clubes em Portugal e três realidades completamente diferentes. Não quer dizer que uma ou outra seja melhor, existem realidades e vivências, existem adeptos. Eu aqui vejo adeptos que estão sempre presentes, faça chuva ou faça sol. No Olhanense via a mesma coisa e no Benfica também. Cabe-nos a nós jogadores praticar um futebol positivo dentro do campo e chamar mais adeptos aos estádios e ao mundo do futebol. Em todos os clubes que passei consegui sentir a paixão dos adeptos e dos sócios. Hoje em dia posso dizer que estou no Estoril Praia, um clube diferente, em que a SAD e a direção vivem em harmonia, em que os adeptos gostam da equipa e nós gostamos dos adeptos.

Artigo revisto por: Ana Ferreira

Guilherme Anastácio

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