«As negociações já estavam todas feitas para eu ir para o FC Porto» – Entrevista BnR com Gaúcho

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Professor Neca entrevista À BnR

Numa conversa muito animada, Gaúcho fala-nos desde a sua barbearia, em Santa Maria da Feira, dos seus tempos gloriosos no futebol português, da sua veia goleadora, que continuava a ter mesmo no final da carreira, dos golos que marcou – crê lembrar-se de todos –, das suas passagens no Estrela da Amadora, no Marítimo e da sua quase contratação pelo FC Porto, que acabou por assinar com um avançado muito menos goleador. Foi treinado por Jorge Jesus, Fernando Santos e Nelo Vingada e tem histórias e palavras simpáticas para todos. Sempre com a boa disposição que diz viver todos os dias, Gaúcho abre o véu sobre uma das carreiras mais marcantes do Campeonato Português ao redor do virar do século.

“Todos os miúdos vão embora, vou ficar só com um garoto” e eu “Pronto, só joguei 10 minutos, não sou eu”. Estava de cabeça baixa e ele tocou no meu ombro e falou “Pode levantar a cabeça, vou ficar contigo”

Bola na Rede: Olá, Gaúcho, muito obrigado por aceitares o convite do Bola na Rede para fazer esta entrevista. Antes de falarmos da tua carreira e dos seus feitos no futebol, quero te perguntar primeiro qual é a memória mais antiga que tens deste desporto que tanto nos apaixona?

Gaúcho: A memória mais antiga? Caramba. A minha memória mais antiga, estou falando de quando comecei a jogar futebol, e quando eu comecei a jogar futebol eu fui fazer um teste no Sport Recife, com 15 anos. Então eu não era ponta-de-lança, eu era um 10, então quando eu cheguei lá para fazer o teste, a experiência, tinha mais de 100 garotos para fazer a experiência. Então o treinador começou a perguntar as posições, assim “quem é lateral-direito? Quem é central? Quem é lateral esquerdo?” e quando ele fez a pergunta “quem é trinco?” que lá se chama volante, ninguém levantou a mão e eu, que era um 10, levantei logo a mão [risos]. Aí eu falei assim “pronto eu já estou na equipa, já vou começar a jogar”. E quando ouvi “e quem é o 10?”, 99 miúdos levantaram a mão, naquele tempo todos queriam ser um 10, que era o Zico, o Maradona. E começou o treino e eu de trinco, realmente começou muito bem na minha cabeça, mas passados 10 minutos de treino ele me tira, o treinador, me tirou e colocou outros miúdos na minha posição e eu fiquei sentado lá no muro, encostado, uma hora, duas horas e eu não entrava mais. Duas horas e meia e lá acabou o treino e eu não entrei mais, só joguei 10 minutos, e eu falei para mim “o que é que eu estou aqui a fazer? Se só joguei 10 minutos então eu não fiz nada”. Aí ele juntou toda a malta no meio do campo, começou a falar e eu já nem olhava para o treinador, aí ele começou: “todos os miúdos vão embora, vou ficar só com um garoto” e eu fui “pronto, só joguei 10 minutos, não sou eu” e eu estava de cabeça baixa e ele tocou no meu ombro e falou “pode levantar a cabeça, vou ficar contigo”. Em 10 minutos, eu fiz o que ele queria e depois eu fiquei, a malta toda foi embora e depois eu comecei a jogar, e como eu ia muito à frente finalizar e tal, o treinador virou “você não é trinco” e eu “pois não, eu sou um 10”, e ele “eu sabia”. Depois me colocou a 10 e como eu fazia muitos golos, ele falou assim “tu não é um 10, tu é ponta-de-lança. Quer entrar de ponta-de-lança?” e eu “pode colocar” e eu fiquei de ponta-de-lança. Incrível, não é? É uma memória que ficou guardada.

Bola na Rede: Pelo que consegui descobrir, corrige-me se estiver enganado, nasceste em Barreiros, no estado de Pernambuco, é mais conhecido por Gaúcho, mas esse não é o teu nome verdadeiro, é sim Eric Freire Gomes. Assim, como é que surgiu a alcunha de Gaúcho?

Gaúcho: Tu lembra, já ouviu, tu é jovem, acho que não conseguiu alcançar o treinador que foi substituir o Jorge Jesus, o Renato Gaúcho. Antes, quando ele jogava no Flamengo e no Grêmio, o Renato Gaúcho usava muito uma fitinha no cabelo e o meu cabelo era muito parecido com o dele e eu usava uma fita no cabelo. Então os meus amigos começaram a me chamar de Gaúcho e ficou. Eu depois queria trocar, queria botar o meu nome Eric, já não deu.

Bola na Rede: Entretanto já se habituou às pessoas chamarem-te mais de Gaúcho do que Eric?

Gaúcho: Sim, sim, só me chama de Eric os meus amigos de infância e a minha mãe. De resto é só Gaúcho.

Bola na Rede: Ainda antes de vires para Portugal, jogaste no Sport, um clube histórico e muito titulado no futebol brasileiro. Que memórias tens de jogar nesse clube, desde a formação à estreia como profissional?

Gaúcho: O Sport Recife é um grande clube, é um clube que dá oportunidade aos jovens, aposta muito nos miúdos da formação, tem uma estrutura espetacular. Foi onde aprendi a ser o que eu sou hoje, como pessoa também e como jogador e tenho recordações espetaculares do Sport. Eu não passei muito tempo como sénior porque eu vim para cá muito novo, vim com 20 anos para Portugal. Fui campeão Pernambucano, que é o campeonato estadual, disputei dois Campeonatos Brasileiros e depois vim para cá, para o Estrela da Amadora. Foi muito rápida a minha passagem pelo Sport como sénior.

Afonso Viana Santos
Afonso Viana Santoshttp://www.bolanarede.pt
Desde pequeno que o desporto faz parte da sua vida. Adora as táticas envolvidas no futebol europeu e americano e também é apaixonado por wrestling.

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