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Numa conversa muito animada, Gaúcho fala-nos desde a sua barbearia, em Santa Maria da Feira, dos seus tempos gloriosos no futebol português, da sua veia goleadora, que continuava a ter mesmo no final da carreira, dos golos que marcou – crê lembrar-se de todos –, das suas passagens no Estrela da Amadora, no Marítimo e da sua quase contratação pelo FC Porto, que acabou por assinar com um avançado muito menos goleador. Foi treinado por Jorge Jesus, Fernando Santos e Nelo Vingada e tem histórias e palavras simpáticas para todos. Sempre com a boa disposição que diz viver todos os dias, Gaúcho abre o véu sobre uma das carreiras mais marcantes do Campeonato Português ao redor do virar do século.
“Todos os miúdos vão embora, vou ficar só com um garoto” e eu “Pronto, só joguei 10 minutos, não sou eu”. Estava de cabeça baixa e ele tocou no meu ombro e falou “Pode levantar a cabeça, vou ficar contigo”
Bola na RedeOlá, Gaúcho, muito obrigado por aceitares o convite do Bola na Rede para fazer esta entrevista. Antes de falarmos da tua carreira e dos seus feitos no futebol, quero te perguntar primeiro qual é a memória mais antiga que tens deste desporto que tanto nos apaixona?
Gaúcho: A memória mais antiga? Caramba. A minha memória mais antiga, estou falando de quando comecei a jogar futebol, e quando eu comecei a jogar futebol eu fui fazer um teste no Sport Recife, com 15 anos. Então eu não era ponta-de-lança, eu era um 10, então quando eu cheguei lá para fazer o teste, a experiência, tinha mais de 100 garotos para fazer a experiência. Então o treinador começou a perguntar as posições, assim “quem é lateral-direito? Quem é central? Quem é lateral esquerdo?” e quando ele fez a pergunta “quem é trinco?” que lá se chama volante, ninguém levantou a mão e eu, que era um 10, levantei logo a mão [risos]. Aí eu falei assim “pronto eu já estou na equipa, já vou começar a jogar”. E quando ouvi “e quem é o 10?”, 99 miúdos levantaram a mão, naquele tempo todos queriam ser um 10, que era o Zico, o Maradona. E começou o treino e eu de trinco, realmente começou muito bem na minha cabeça, mas passados 10 minutos de treino ele me tira, o treinador, me tirou e colocou outros miúdos na minha posição e eu fiquei sentado lá no muro, encostado, uma hora, duas horas e eu não entrava mais. Duas horas e meia e lá acabou o treino e eu não entrei mais, só joguei 10 minutos, e eu falei para mim “o que é que eu estou aqui a fazer? Se só joguei 10 minutos então eu não fiz nada”. Aí ele juntou toda a malta no meio do campo, começou a falar e eu já nem olhava para o treinador, aí ele começou: “todos os miúdos vão embora, vou ficar só com um garoto” e eu fui “pronto, só joguei 10 minutos, não sou eu” e eu estava de cabeça baixa e ele tocou no meu ombro e falou “pode levantar a cabeça, vou ficar contigo”. Em 10 minutos, eu fiz o que ele queria e depois eu fiquei, a malta toda foi embora e depois eu comecei a jogar, e como eu ia muito à frente finalizar e tal, o treinador virou “você não é trinco” e eu “pois não, eu sou um 10”, e ele “eu sabia”. Depois me colocou a 10 e como eu fazia muitos golos, ele falou assim “tu não é um 10, tu é ponta-de-lança. Quer entrar de ponta-de-lança?” e eu “pode colocar” e eu fiquei de ponta-de-lança. Incrível, não é? É uma memória que ficou guardada.
O treinador Hélio dos Anjos conversa com o atacante Gaúcho (1996). O atleta jogou pouco tempo pelo Leão. Marcou seis gols vestindo a camisa do Sport. Depois, Gaúcho fez carreira internacional. Atuou em várias equipes de Portugal, entre elas, o Estrela Amadora e o Marítimo. pic.twitter.com/GxIiZh8Y81
— Baú do Leão (@BaudoLeao) March 1, 2019
Bola na RedePelo que consegui descobrir, corrige-me se estiver enganado, nasceste em Barreiros, no estado de Pernambuco, é mais conhecido por Gaúcho, mas esse não é o teu nome verdadeiro, é sim Eric Freire Gomes. Assim, como é que surgiu a alcunha de Gaúcho?
Gaúcho: Tu lembra, já ouviu, tu é jovem, acho que não conseguiu alcançar o treinador que foi substituir o Jorge Jesus, o Renato Gaúcho. Antes, quando ele jogava no Flamengo e no Grêmio, o Renato Gaúcho usava muito uma fitinha no cabelo e o meu cabelo era muito parecido com o dele e eu usava uma fita no cabelo. Então os meus amigos começaram a me chamar de Gaúcho e ficou. Eu depois queria trocar, queria botar o meu nome Eric, já não deu.
Bola na RedeEntretanto já se habituou às pessoas chamarem-te mais de Gaúcho do que Eric?
Gaúcho: Sim, sim, só me chama de Eric os meus amigos de infância e a minha mãe. De resto é só Gaúcho.
Bola na RedeAinda antes de vires para Portugal, jogaste no Sport, um clube histórico e muito titulado no futebol brasileiro. Que memórias tens de jogar nesse clube, desde a formação à estreia como profissional?
Gaúcho: O Sport Recife é um grande clube, é um clube que dá oportunidade aos jovens, aposta muito nos miúdos da formação, tem uma estrutura espetacular. Foi onde aprendi a ser o que eu sou hoje, como pessoa também e como jogador e tenho recordações espetaculares do Sport. Eu não passei muito tempo como sénior porque eu vim para cá muito novo, vim com 20 anos para Portugal. Fui campeão Pernambucano, que é o campeonato estadual, disputei dois Campeonatos Brasileiros e depois vim para cá, para o Estrela da Amadora. Foi muito rápida a minha passagem pelo Sport como sénior.
«O Fernando Santos foi um treinador que me ajudou bastante quando eu cheguei no Estrela da Amadora»
Bola na RedeEm 1996 chegas ao CF Estrela da Amadora, como é que surgiu a oportunidade de vires para Portugal? E havia outros clubes em Portugal interessados na tua contratação?
Gaúcho: Antes de eu vir para Portugal, eu estive – muitas pessoas não conhecem essa história – eu estive no FC Famalicão, à experiência. Passei lá uns 15 ou 16 dias, mas o treinador, o Francisco Vital (ele até chegou a treinar o Sporting CP), ele falou para mim que não ia ficar comigo porque eu não era um ponta-de-lança “trombador” e realmente eu nunca fui um ponta-de-lança “trombador”. E eu falei “então míster, contrate aí um touro”, eu fiquei tão chateado que eu fiquei 16, 17 dias lá, estava tão bem e ele não queria ficar comigo. Pronto, tenho que respeitar a opinião. Então eu voltei para o Brasil e estou a fazer um jogo lá no Brasil, fui um dos melhores jogadores em campo, quando vejo da bancada chamar meu nome, quem era?
Bola na RedeO Francisco Vital?
Gaúcho: É, estava lá na bancada e queria-me contratar para o Famalicão, eu falei “agora míster? Agora é tarde, agora não tem como” [risos]. Para você ver como é a história. O futebol às vezes é… você tem ali um jogador à sua disposição e você não quer. Depois, o tempo muda até o jeito de você pensar. Depois passados cinco meses, seis meses, ele me foi lá contratar e eu “agora não posso”.
Bola na RedeDepois é que surgiu a oportunidade de vires para o Estrela da Amadora e então é que vieste para Portugal?
Gaúcho: Sim, vim como empréstimo para o Estrela da Amadora, com opção de compra, e graças a Deus as coisas correram muito bem, fui o terceiro melhor marcador nesse ano e o Estrela fez questão de comprar o meu passe ao Sport.
Bola na RedeNas tuas duas primeiras épocas na Amadora, o Estrela fica em 8º e depois em 7º na I Liga, fazes 62 jogos pela equipa e és treinado por Fernando Santos, o atual selecionador de Portugal. Como é que foi ser treinado por alguém que se veio a tornar numa figura muito importante do futebol português?
Gaúcho: O Fernando Santos foi um treinador que me ajudou bastante quando eu cheguei no Estrela da Amadora. Cheguei e era um miúdo, e também o grupo que o Estrela tinha naquele tempo era um grupo excelente de grandes jogadores e grandes homens acima de tudo, o balneário era muito forte e eu me adaptei rapidamente ao campeonato. E mesmo o clima, que eu vim de Recife, 40 graus, vim para Portugal, fui muito bem recebido pelo plantel, pela comissão técnica, pela diretoria do Estrela também, foi excelente.
«Falei com o presidente do Estrela da Amadora para ser emprestado, porque ia ser muito difícil trabalhar com o Jorge Jesus»
Bola na RedeA época 1998/99 é um pouco atípica porque começas no Estrela, fazes 11 jogos e não marcas nenhum golo, e depois vais para o CD Ourense, de Espanha, por empréstimo. O que é que motivou esse teu empréstimo e como foi a experiência de jogares em Espanha?
Gaúcho: Foi assim, foi quando o Jorge Jesus assumiu o Estrela da Amadora, então eu não concordava muito do jeito, do estilo dele trabalhar, de “descomunicar”, sabe? Então foi um choque muito grande, do jeito dele falar com os jogadores, eu não aceitava, não dava para mim e também nunca falou comigo como falava com outros jogadores, com todo o respeito. Então aquilo foi um choque muito grande e eu, cheguei a um momento que falei com o presidente para arranjar um clube para mim, para ser emprestado, porque assim vai ser muito difícil para a gente trabalhar, eu e o Jorge Jesus, claro. Então veio uma proposta do Ourense, em janeiro, para fazer os últimos seis meses, e eu fui para o Ourense, pronto para sair um pouco, para relaxar um pouco a cabeça, conhecer outro clube, conhecer outras pessoas, então fui para o Ourense.
Bola na RedeEm 1999/2000 voltas ao Estrela e com Jorge Jesus a equipa fica no oitavo lugar da I Liga, com 40 golos marcados e tu marcas 21 desses golos – sentes que esta foi a época em que deste verdadeiramente a conhecer as tuas qualidades ao futebol português?
Gaúcho: É assim, minha qualidade foi logo no começo quando eu cheguei, depois, pronto. Depois, quando eu voltei para o Estrela, tivemos uma conversa, eu e o míster Jorge Jesus, a conversa foi muito positiva e também a equipa que nós tínhamos também ajudou bastante e graças a Deus fiz 21 golos. Sabe que não é fácil fazer 21 golos no Estrela. Apareceu muitas oportunidades nesse ano, mas infelizmente o presidente que lá estava não aceitou nem uma proposta, depois, no ano a seguir, eu acabei acho que indo para o Marítimo, acho que foi.
MATADOR | Futebol de luxo na época de 1999/2000, com Gaúcho a sagrar-se como o 3.º melhor marcador do campeonato. Porquê? Uma verdadeira equipa do CF ESTRELA DA AMADORA – e – óbvio! – o instinto matador de Gaúcho. A prova aqui, frente ao SC Braga, 17.Dez.1999! pic.twitter.com/rZrfaDdosT
— Estrela da Amadora (@cfeamadora) March 28, 2020
Bola na RedeFalaste aí de algumas oportunidades, podes revelar alguns dos clubes que estavam interessados em ti?
Gaúcho: É assim, quando nós íamos jogar contra o FC Porto, até era o Estádio das Antas, ainda, e o Jorge Andrade, que é um grande amigo e um grande irmão que eu tenho na vida, ele me ligou, falou assim “se tu tiveres sorte se você fizer um golo no FC Porto não comemores”, “mas e porquê?”, “o presidente Pinto da Costa veio falar comigo e tal”, “está bem, não vou comemorar, espetáculo!” e eu pronto, já tinha tudo, as negociações já estavam todas feitas para ir para o FC Porto. Então fomos jogar, primeiro lance do jogo, eu faço o golo, 1-0. E eu não comemorei e as coisas estavam a correr muito bem para nós. Até o Jorge Costa dizia “para de correr, eu já sei que tu vais assinar pelo Porto”, “ainda não tenho nada certo ainda, Jorge Costa”, e ele “não, já sei”. O capitão a falar aquilo! O jogo a rolar e nós a conversar. E chegou um momento que as coisas foram para trás, porque o Fernando Santos não deu o aval para me contratar, ele teve outra solução que foi o Pizzi.
Bola na RedeAntigo jogador do FC Barcelona, certo?
Gaúcho: Certo. E eu acho que no final do ano, o Pizzi fez cinco ou seis golos, eu fiz 21. Não preciso falar mais [risos].
«Quando o Pepe começou a treinar connosco no Marítimo eu falei para o míster Nelo Vingada: “Temos central”»
Bola na RedeVoltando à tua relação com Jorge Jesus, já disseste um pouco como é que foi a tua experiência, mas, no geral, gostaste de trabalhar com ele?
Gaúcho: Sim, sim, sim. Um dos melhores treinadores que eu tive na minha carreira, taticamente ele é fora de série e pelo trajeto dele está aí, e ele merece tudo aquilo que ele conquistou, ele mereceu.
Bola na RedeE já agora, se puderes, podes contar uma história engraçada ou caricata que tenhas vivido com Jorge Jesus?
Gaúcho: Foram tantas, tantas [risos]. Teve uma altura que estava numa palestra e ele colocou lá o quadrozinho dele da palestra e as pecinhas no quadro. E ele estava a falar da equipa adversária e tal, e uma peça cai no chão e quando ele vai a apanhar a peça, no chão, ele escorrega e cai no chão, na palestra [risos]. E nós não queríamos rir, todo o mundo não mostrava e ele colocou lá a peça e começou a falar e tal, passados dois minutos, ele pega a mesma peça e a peça cai no chão. E ele falou para a peça “quer me f****?” Ninguém aguentou, foi uma risota [risos].
Bola na RedeNa época seguinte, em 2000/01 o Estrela fica em último no campeonato e desce à II Liga, foi muito difícil encarar esse momento de descida de divisão?
Gaúcho: Sim foi muito difícil porque acho que mudamos de 80 para 8, estivemos tão bem, no ano seguinte foi uma desilusão completamente… olha eu nem sei explicar o que foi que aconteceu, não sei. Mal organizado, planejamento muito diferente da época passada, depois o Jorge Jesus saiu ali e tal e as coisas complicaram bastante.
É SÓ CONTAR ATÉ 3… | A época 2000/2001 correu pelo pior: o ESTRELA DA AMADORA desceu à 2.ª Liga. Mas quem visse os tricolores no Restelo (23. FEV.2001), nunca acreditaria que a equipa estava no último lugar.
Resultado? Uma vitória fora por 3-0, com direito a Gaúcho Show! pic.twitter.com/7N2HKb3Shl— Estrela da Amadora (@cfeamadora) April 1, 2020
Bola na RedeNa época seguinte segues para o CS Marítimo onde tens a tua segunda melhor época em termos de golos marcados – 19 em 41 jogos – e jogas inclusive na Taça UEFA. Esta foi a única vez que jogaste numa competição europeia, quão importante foi esse momento para ti?
Gaúcho: Jogar nas competições europeias é um marco, é espetacular, gostaria de jogar mais. Foi uma sensação espetacular, estar ali no Marítimo com uma equipa espetacular. Foi por isso que eu fui para o Marítimo, porque desci de divisão. Descemos de divisão e eu acho que eu fiz 11 ou 12 golos, não sei muito bem…
Bola na RedeFez 11 golos nessa época.
Gaúcho: Fiz 11 golos, numa equipa que desce de divisão eu ainda fiz 11 golos, eu acho que não é fácil. Eu fiz o meu trabalho, sabe? Eu tenho consciência tranquila que eu fiz o meu trabalho. É por isso que eu fui para o Marítimo. Em dezembro, já tinha contrato feito com o Marítimo, então joguei até junho já negociado com o Marítimo. Então nessa reunião, no final da época, quando eu chego para me apresentar lá no Marítimo, o Nelo Vingada falou assim: “caramba, tu desceste de divisão e fizeste 11, o Pena, foi campeão, fez 21”, ele falou “não tem diferença nenhuma isso” e realmente não tem diferença nenhuma. E o Nelo Vingada, nesse aspeto ele é um senhor, eu tiro o chapéu, treinador espetacular.
Bola na RedeComo foi então a experiência de trabalhares com o Nelo Vingada?
Gaúcho: Caramba, é um senhor, nem tem forma como dizer, é um senhor que nunca falou palavrão, bom treinador taticamente e ele à frente do Marítimo fizemos grandes jogos, grandes épocas, tivemos dois anos a trabalhar juntos, foi espetacular.
Bola na RedeEstiveste três épocas no Marítimo, ajudaste a equipa a alcançar boas classificações no campeonato, a equipa ficou em 6º duas vezes e outra em 7º, também treinaste com o Manuel Cajuda. Com isto tudo, como é que olhas para a tua experiência no clube da ilha da Madeira?
Gaúcho: É engraçado, quando eu cheguei no Marítimo e os jornalistas, todos perguntaram quantos golos eu ia fazer, e eu falei assim “eu vou fazer 15 golos”. E no último jogo do campeonato eu tinha 13 e o último jogo era Marítimo e Benfica. Fazer dois golos ao Benfica não é fácil. Então o Benfica tinha uma grande equipa, então ganhámos esse jogo de 3-2, eu fiz dois, fiz 15 golos no total. Esse jogo dependia para a gente ir para a Liga Europa e ganhámos e fomos para a Liga Europa. E fiz 15 golos. E no próximo ano, quando acabou o jogo eu fui para a sala de imprensa e os jornalistas estavam a perguntar “e no próximo ano, quantos vai fazer?” e eu “vou fazer 15”. Engraçado, não é? “Eu vou fazer mais 15, não 16 nem 17, vou fazer 15” [risos]. Ninguém acreditava e no ano seguinte, estava com 15 golos já, faltavam cinco jogos para o fim do campeonato e eu sofri uma lesão e não joguei os cinco jogos. E foi nesse ano que o Fary foi o melhor marcador com 18. Eu era o melhor marcador, com 15 eu era o primeiro e eu sofri uma lesão e perdi quatro jogos, mas fiz 15 [risos].
Bola na RedeAinda no Marítimo, foste colega de um jovem Pepe, o central que depois viria a fazer marca no FC Porto, no Real Madrid e na Seleção Portuguesa. Sendo um jogador tão marcante do futebol português, tenho de te perguntar que memórias tens de partilhares o balneário com Pepe?
Gaúcho: O Pepe foi um rapaz, quando ele chegou no Marítimo, quem veio assim tipo com moral, mais, foi Ezequias, o lateral-esquerdo, mas o Pepe veio no bolo, mas o Pepe veio lesionado, veio com o tornozelo inchado e passou um mês sem treinar, mas quem veio com a moral toda foi o Ezequias. Quando o Pepe começou a treinar connosco no Marítimo eu falei para o míster Nelo Vingada: “Temos central” e ele “tu achas?” e eu assim “temos central”, ele olhou assim para mim “fogo, espetáculo”. E o Pepe foi crescendo, foi crescendo, começou a jogar e teve um aqui no FC Porto, que o Jorge Mendes queria falar com o Pepe, e o Pepe “Gaúcho, o Jorge Mendes quer falar comigo, tu pode estar presente?”, falei assim “claro, porque não?”. Eu estive presente lá na reunião, o Pepe se calhar não se lembra disso, e hoje está aí.
«Fui o melhor marcador do Santa Cruz com 38 anos»
Bola na RedeEm 2004 fazes as malas e viajas para a Coreia do Sul, onde jogas no Busan IPark. Porque é decidiste viajar para a Coreia e como foi a experiência de jogares nesse país?
Gaúcho: Pronto, foi assim, foi uma proposta muito boa, financeiramente, eu também já estava com 32 anos, fiz ali três anos de contrato na Coreia do Sul e eu achava que era uma oportunidade boa de seguir outros trajetos, outros caminhos. E fui e passei nem seis meses, eu acho, e eu estava a ser um dos melhores marcadores do campeonato, mas, com a alimentação já tinha perdido quatro quilos, não estava bem. Então eu falei assim para a minha esposa “é melhor voltar para Portugal porque aqui não vai dar para mim”. Então eu voltei para Portugal, voltei até sem clube.
Bola na RedeComo disseste, depois ainda voltas a Portugal e jogas em clubes como o Rio Ave, o Feirense, Beira-Mar e Moreirense, e terminas a tua carreira no Brasil. Como é que descreverias esta fase final da tua carreira, e a tua retirada do futebol foi algo difícil de encarar?
Gaúcho: É assim, quando eu fui para o Brasil em 2009, eu tinha contrato até com o Moreirense FC, depois rescindi o contrato e fui para o Brasil. Fui para o Brasil, é uma notícia triste porque o meu irmão sofreu um acidente de mota e acabou por falecer.
Bola na RedeLamento.
Gaúcho: Obrigado. Era um irmão muito próximo a mim e eu acabei por ir para o Brasil, resolvi voltar de vez com a família para o Brasil e eu não queria mais jogar. Então, eu fazia parte de um grupo de amigos, de empresários e tive um empresário chamado Nivaldo, muito conhecido aqui em Portugal, jogou no Benfica. E o Nivaldo falou “Gaúcho, tu não queres jogar no Santa Cruz?” e eu falei para o Nivaldo “não, eu estou com 37 anos, já não quero” e ele “está bem, pronto”. Numa segunda-feira, ele me liga, o Nivaldo, eram umas 11 horas da manhã: “a tua apresentação é hoje no Santa Cruz, às três horas da tarde”. “Está maluco?”, “Já falei aqui com o treinador, com o presidente” e eu “Estás maluco, Nivaldo? Eu com 37 anos?”, “tens que vir, tens que aparecer”. Então fui, me apresentei e fui para o Santa. E o jornalista lá tipo “como é que é possível? Ó Gaúcho, com 37 anos, o que você tem a dar ao Santa Cruz?” eu falei “o que é que eu vou dar? Vou dar o meu melhor, vou tentar fazer golos”, sabe que a imprensa no Brasil não é fácil. Então comecei a treinar. No meu primeiro jogo, na minha estreia, eu fiz quatro golos, e os jornalistas “ah porque o jogo foi em casa, sei lá e tal”. No jogo fora, num campo difícil, eu fiz dois, aí começou a bola de neve, fui o melhor marcador ainda do Santa Cruz, com 38 anos.
Bola na RedeJá alguma vez tinhas feito quatro golos num jogo na tua carreira?
Gaúcho: Já, aqui em Portugal.
Bola na RedeEm que jogo, lembras-te?
Gaúcho: Foi para a Taça, Estrela e Vila Real. Demos 4-0.
Bola na RedeMarcaste 103 golos na I Liga, és inclusive o sexto jogador estrangeiro com mais golos na história do campeonato português, de todos esses golos, tens algum que seja o teu favorito, ou algum que te tenha ficado na memória?
Gaúcho: Eu acho que esses 103 golos está errado, eu acho que esse número está errado, sabe porquê? Quando eu faço 100 golos, eu estou no Rio Ave, no primeiro ano, no segundo ano no Rio Ave eu faço 10 golos. O meu golo 100 faço contra o Boavista, de cabeça. O meu primeiro golo é contra o Leça, de cabeça, e o golo 100 é contra o Boavista, de cabeça também. O meu treinador era o Carlos Brito, no primeiro ano, no Rio Ave, e no segundo ano acho que era o Eusébio, e eu faço 10 golos pelo Rio Ave nesse ano.
Bola na RedeE desses todos, tens algum favorito que te tenha ficado na memória?
Gaúcho: Eu acho que me lembro de todos, mas o que ficou mais na memória foram dois golos em Alvalade, contra o Sporting, no Porto também. Eu tenho um golo assim, que gosto mais de falar, é aquele golo com que nós ganhamos ao Porto, Marítimo 2-1 Porto, que o Porto vinha com 29 jogos sem perder, com o Mourinho. Então eu fiz um grande golo, ganhámos de 2-1, fiz um grande golo nesse dia.
Bola na RedeNos muitos anos que passaste no futebol português, estiveste várias épocas no nosso campeonato, qual foi ou quais foram os defesas centrais mais complicados que tiveste de enfrentar?
Gaúcho: Eu não gosto de citar, mas foram todos, porque aqueles centrais naquela época eram centrais ex-internacionais, eram grandes centrais, o Jorge Costa, o Aloísio, não é? Eram grandes centrais, então tu tinhas que ser bom para fazer golo. Eram grandes centrais. Depois eu peguei com o Jorge Andrade, o Jorge Andrade era um chato do caraças, meu amigo, meu irmão, mas ele metia porrada em mim [risos]. Foram tempos espetaculares.
Bola na RedeEm 2018, num programa da Sport TV, o Bar Sport TV, disseste, e passo a citar “quando jogava, eu me divertia, eu brincava”, esta foi sempre a mentalidade que tiveste em relação ao futebol e à tua carreira?
Gaúcho: Sim, sim. Quando eu ia jogar eu me divertia, para mim aquilo era uma diversão, agora assim, com responsabilidade sabe? Eu conversava com os centrais, perguntava como estava a família, os filhos, eu estava sempre a rir, depois eu levava porrada. Eu fui sempre assim, até na vida eu sou assim, sou uma pessoa que gosta de brincar, que gosta de estar, sabe? Fui sempre assim.
Bola na RedePara os adeptos de futebol mais jovens, que não te viram jogar, como é que descreverias o teu estilo de jogo? Eras um avançado que às vezes descia no terreno para ajudar a jogar ou ficavas mais a grande área?
Gaúcho: Eu costumo dizer, até falo isso para o Jorge Andrade, eu digo sempre “Jorge, nesse tempo eu acho que eu não jogava”, “mas porquê?”, “Ó Jorge, hoje defendem ali os 11 jogadores na entrada da área, eu quando jogava não passava da linha do meio-campo”. Não passava, fui sempre assim, se eu ficasse ali, os centrais não me iam deixar ali sozinho do jeito que eu era, eu era matador mesmo, era muito eficaz, eu tinha uma oportunidade e eu fazia. Então o que é que eu fazia? Eu ficava ali, eu segurava dois centrais comigo, dava certo. Eu quando vejo um ponta-de-lança ali a defender na entrada da área eu fico doido, eu fico louco, fico “como é que é possível cara?”. Mas pronto, o futebol de hoje está mudado.
Bola na RedeNuma entrevista que concedeste ao Maisfutebol, em 2018, deste a conhecer que tinhas dois salões de cabeleireiro, um em Recife, no Brasil, e outro aqui em Portugal, em Santa Maria da Feira. Esses dois negócios ainda continuam ativos, mesmo com a pandemia, conseguiste mantê-los ativos?
Gaúcho: Não, hoje só tenho aqui mesmo em Santa Maria da Feira, a minha barbearia “Brotherhood”. Tem que vir aqui cortar o cabelo [risos].
Bola na RedeSou de Lisboa, mas um dia passo por aí. Nessa mesma entrevista, disseste que o teu mundo era o futebol, que querias ser treinador e que até já tinhas tirado o segundo nível do curso de treinador. Mas, para além da equipa B do União de Lamas, não treinaste mais nenhuma equipa, continuas a ter esse objetivo?
Gaúcho: Sim, sim, sim, eu sou adjunto do Jorge, quando o Jorge Andrade arranjar um clube eu sou adjunto dele, eu vou com ele. Mas eu gosto de treinar, gosto de ajudar, gosto de estar por dentro. O cheiro da relva, não posso perder esse cheiro da relva, desde miúdo então, isso foi minha vida e é muito importante para mim, fazer parte de uma comissão técnica, eu gosto.
Passes Curtos
Bola na RedeAgora, para fecharmos esta entrevista, segue-se um jogo de resposta rápida. Preparado?
Gaúcho: Vamos lá ver, vamos lá, vamos.
Bola na RedeQual é o teu clube de coração?
Gaúcho: Hoje, Estrela da Amadora.
Bola na RedeCostumas ver os jogos do Estrela?
Gaúcho: Sim, às vezes sim, eu sou um dos embaixadores do Estrela, às vezes vou lá ver os jogos e aqui no Norte também.
Jorge Jesus é agora embaixador do Estrela da Amadora!
E junta-se a uma lista de nomes históricos do clube, como Rebelo, Kenedy, Chaínho, Calado, Jorge Andrade, Abel Xavier e Gaúcho. pic.twitter.com/ZcjhubIiNs
— bwin_pt (@bwin_portugal) October 12, 2021
Bola na RedeTreinador com quem mais gostaste de trabalhar?
Gaúcho: Fernando Santos, Jorge Jesus e Nelo Vingada.
Bola na RedeAtualmente qual é o teu treinador de futebol favorito, ou aquele cuja equipa mais gostas de ver jogar?
Gaúcho: Rúben Amorim.
Bola na RedeJá agora, o que é que te atrai no futebol das equipas dele?
Gaúcho: Ele é um treinador que aposta muito nos jovens e admiro o jeito dele enfrentar as coisas, de enfrentar os adversários, do estilo de jogo que o Sporting joga, eu gosto.
Bola na RedeQual é o campeonato nacional que mais gostas de seguir?
Gaúcho: Eu gosto muito de seguir o campeonato inglês.
Bola na RedeTreinador favorito de sempre?
Gaúcho: Atual, de hoje em dia, o Pep Guardiola.
Bola na RedeJogador favorito de sempre?
Gaúcho: Ronaldo “O Fenómeno”.
Bola na RedeMuito obrigado, Gaúcho, por nos teres concedido o teu tempo! Da tua parte, correu tudo bem?
Gaúcho: Sim, sim, agradeço pela entrevista, pela lembrança acima de tudo, que isso é importante também para mim.









