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Os problemas físicos proporcionaram que, mais cedo do que a duração normal de uma carreira de jogador fizesse prever, Pedro Duarte se tornasse treinador. O cartão de cidadão indica-lhe 42 anos, mas esconde que 15 foram passados a orientar equipas de futebol. A mais recente foi a Académica/OAF, num ano que culminou com a descida da Briosa à Liga 3. Assinou ainda trabalhos no Estoril-Praia SAD, Académico de Viseu FC e AD Sanjoanense, além dos trabalhos realizados nos escalões de formação. Uma conversa com a elegância de Daniel Bragança e o rasgo de Miguel Crespo sobre o percurso e as ideias de um treinador que tem marcado presença assídua na Segunda Liga.
– O chumbo dos estudantes –
«Havia condições de continuar a treinar a Académica/OAF»
Bola na RedeDepois de ter deixado a AD Sanjoanense, esperava que houvesse interesse de uma equipa de Segunda Liga?
Pedro Duarte: Estive no SC Covilhã, como adjunto, no Estoril-Praia SAD e no Académico de Viseu FC na Segunda Liga. A AD Sanjoanense era diferente por ser um projeto de raiz. Ter ido para a Académica/OAF acho que não tem relação. Admirou-me mais ter tido um convite da Liga 3, porque, sem vaidade, mas com orgulho, o meu trajeto nos últimos anos tem sido feito na Segunda Liga.
Bola na RedeComo foi estrear a Liga 3?
Pedro Duarte: Foi uma competição que se revelou extremamente interessante pela qualidade dos intervenientes. A própria Federação Portuguesa de Futebol deu muito acompanhamento à competição. Aproxima as equipas ao patamar de exigência da Segunda Liga. Fomos vendo jogos muito acima da média ao longo de toda a competição e que preparam os jogadores e os treinadores para o nível de exigência seguinte. Obviamente que, sendo este o primeiro ano, há muito por onde crescer, mas foi um passo importante de aproximação às ligas profissionais.
Bola na RedeEsperava um nível tão alto?
Pedro Duarte: Pela constituição dos plantéis e pelos treinadores que os lideravam, percebemos que podia ser uma competição de qualidade. Com o passar do tempo, isso veio a confirmar-se.
Bola na RedeFoi o terceiro treinador da Académica/OAF na temporada. Que ambiente encontrou em Coimbra?
Pedro Duarte: Era uma equipa que estava em último e descrente. Quando não se ganha, a cara dos jogadores e dos responsáveis não é igual. O facto de ter sido o terceiro treinador também não ajudou. Foi dito aos jogadores que não ia ser fácil para ninguém. Para além da questão da classificação, iam ter um novo líder com uma forma de trabalhar diferente e iam ter que se adaptar. Ao mesmo tempo, não ia ser fácil para mim, porque ia ter que dar os passos certos na transmissão do conteúdo.
Bola na RedeAcaba por deixar Coimbra ao fim de 13 jogos. A equipa acaba por cair para a Liga 3. O que sentiu quando viu a Académica/OAF descer?
Pedro Duarte: Deixou-me extremamente triste pelo peso que a Académica/OAF tem em termos nacionais. Vê-se muita gente a falar da Académica/OAF, porque é um clube histórico. O momento em que saí não foi fácil, porque entendia que havia condições de continuar. Mesmo dentro das dificuldades que tínhamos, e eram muitas, a equipa foi sempre dando respostas positivas. Estávamos longe da manutenção e tivemos sempre que andar atrás dos adversários. As três vitórias que conseguimos acabaram por ser insuficientes. O dia em que a Académica/OAF desceu foi um dia triste para quem trabalhou no clube durante o ano.
A Associação Académica de Coimbra/OAF vem por este meio informar que chegou a acordo com o treinador Pedro Duarte, para a rescisão do contrato que o ligava à Académica até ao final da presente temporada. ⚫️⚪️#TuCoimbra pic.twitter.com/khE1RCAI0G
— Académica / OAF (@academicaoaf) March 3, 2022
Bola na RedeNo meio de tudo o que correu mal, o ponto positivo foi que a Académica/OAF teve no plantel o melhor marcador da Segunda Liga, mesmo terminando no último lugar e tendo conseguido uma pontuação bastante reduzida. Vê características diferenciadoras no João Carlos?
Pedro Carlos: Quando cheguei à Académica/OAF, o João Carlos não vivia um momento muito feliz, porque a equipa não ganhava. O jogador vive do momento e da confiança. No primeiro jogo que eu faço, o João Carlos marca um hat-trick. Mas também houve pontos positivos para o Pedro Duarte treinador, tais como o regressar a uma liga que já conhecia e que gosto muito, o orgulho de, apesar das dificuldades, trabalhar numa instituição como a Académica/OAF e conhecer pessoas novas.
Bola na RedeQuais foram as maiores dificuldades que sentiu em Coimbra?
Pedro Duarte: Faltou-nos ter uma sequência de vitórias que nos permitisse aproximar da manutenção.
Bola na RedeAlguma vez a Académica/OAF esteve em incumprimento salarial para consigo?
Pedro Duarte: São questões que ainda não estão resolvidas, por isso, não me posso alargar muito sobre isso. Mas sim, houve problemas financeiros durante o ano.
Bola na RedeJá sabe onde vai estar na próxima temporada?
Pedro Duarte: Ainda não. O meu objetivo é regressar ao trabalho. Gostaria muito de continuar na Segunda Liga. Neste momento, não há nada em concreto. Estou a preparar-me para quando a oportunidade chegar. O treinador está sempre pronto a andar de um lado para o outro. Não fecho portas a uma oportunidade que possa surgir vinda do estrangeiro.
– Primeira vez na Segunda –
«Crespo e o Atlético de Madrid podia ser o casamento perfeito»
Bola na RedeQuando vai para o Estoril-Praia SAD assume a equipa de sub-23, equipa essa que tem conquistado vários títulos e lançado vários jogadores para o futebol profissional. O que é que encontrou no clube que propicie a potenciação dos jogadores jovens?
Pedro Duarte: Mesmo com dificuldades em termos de espaços de treino – treinávamos em sintético e jogávamos em relvado natural -, encontrei muita organização. Os diferentes departamentos estavam em contacto uns com os outros. Havia uma ligação muito forte entre a equipa sub-23 e a equipa A. O trabalho de scouting era muito bem feito e permitia identificar com relativa facilidade atletas com qualidade. Depois, era o trabalho diário. Já na altura tínhamos o Chiquinho, o Bernardo Vital, o Dani Figueira… Era um espaço onde muitos jogadores podiam competir. Nesse ano, até houve jogadores dos sub-23 que acabaram por ser vendidos, o que não é fácil.
Bola na RedeA prova dessa relação é que depois o mister acaba por subir à equipa principal. Sentiu o peso de assumir pela primeira vez uma equipa de Segunda Liga que até estava em posição de poder lutar por subir até a prova ser terminada precocemente devido à pandemia?
Pedro Duarte: O meu objetivo era ser treinador de Segunda Liga. Quando fui para o Estoril-Praia SAD, para a equipa sub-23, foi com a ideia de mostrar o meu trabalho. Quando vou para a equipa principal, o campeonato acaba por ser interrompido. Acaba por saber a pouco.
Bola na RedeNão teve oportunidade de continuar?
Pedro Duarte: O meu contrato acabava no final desse ano. Os responsáveis consideraram que a relação entre o Pedro Duarte e o Estoril-Praia SAD não era para continuar, com pena minha. É a vida de treinador. Gostava de ter continuado, mas a vida segue.
Pedro Duarte assume o comando técnico da equipa principal do Mágico Estoril Praia.
Boa sorte Mister! #centrodeexcelenciadoestoril #amagiaacontece #aquinaoesmaisum #estorilpraia #craquesdofuturo #starsoftomorrow pic.twitter.com/O6l4dtpN45— Estoril Praia SAD (@estorilpraiasad) January 7, 2020
Bola na RedeCom o mister, o Daniel Bragança jogava como médio interior. Acha que ele consegue render mais partindo de trás para iniciar a construção ou no espaço entre linhas?
Pedro Duarte: Na altura, no Estoril-Praia SAD, jogávamos com uma estrutura de um médio mais defensivo, o Tembeng, e quase sempre com dois interiores. O Bragança baixava muito para a fase de construção. O Bragança tem uma capacidade de ler o jogo muito grande. Muitos dos problemas que o jogo tem, o Bragança resolve-os devido à cultura que ele tem. Aliado à qualidade individual e à capacidade de decidir, tem inteligência para antecipar cenários. Rouba bolas não pela forma rápida como chega ao adversário, mas pela forma rápida com que antecipa. Muitas vezes, o Sporting CP joga com dois homens e o Bragança sente-se confortável a baixar, quer seja para o meio dos centrais, quer seja para os corredores. Pode jogar em todas as posições do meio-campo, independentemente da estrutura.
Bola na RedeApesar disso é um jogador que precisa de ajustes no sistema para poder ser enquadrado?
Pedro Duarte: É mais importante ter uma equipa que goste e tenha muito tempo a bola, que jogue curto e apoiado, do que propriamente a forma como o meio-campo se posiciona. Quanto mais tempo tiver a bola, mais fácil vai ser para o Bragança, porque se vai desgastar menos no processo defensivo e, com bola, a qualidade dele vai sobressair.
Bola na RedeO Miguel Crespo também tem que se enquadrar nessa forma de jogar?
Pedro Duarte: O Crespo é diferente. É um jogador que gosta de movimentos de rutura, gosta de aparecer no corredor. Acelera o jogo, transporta muito bem a bola. Também é forte no momento de pressionar e a chegar à área. Depois, remata muito bem. Estas características permitem-lhe jogar mais perto da linha ofensiva, como também baixar para construir e transportar. Esta variabilidade torna-o num jogador muito mais rico.
Bola na RedePode enquadrar-se bem numa equipa tão particular como o Atlético de Madrid, à qual tem sido associado?
Pedro Duarte: Podia ser um casamento quase perfeito. O Atlético de Madrid é uma das equipas da Europa que mais vai ao encontro daquilo que são as características do Crespo. É competitivo e demonstra agressividade, mas depois acrescenta a isso a qualidade do passe e da condução de bola.
– Moldado pelo contexto –
«Quando não se ganha, o jogador até desconfia da própria sombra»
Bola na RedeÉ mais adepto de uma equipa ao estilo de Simeone ou Guardiola?
Pedro Duarte: Temos que encontrar um equilíbrio. Quanto mais tornarmos o jogo imprevisível, mais difícil é para o adversário nos condicionar. Acima de tudo, é importante fazermos perceber aos jogadores o que é que eles têm que fazer em determinado momento, em vez de sermos só uma equipa de posse ou uma equipa de transição. Temos que fazer ver aos jogadores que todos os momentos são importantes e eles têm que estar prontos. Gosto quando o jogo se torna diferente. Uma, duas relações curtas e depois meter uma aceleração com um passe vertical. É a forma que temos de surpreender o adversário. Não quero ser conhecido apenas como um treinador só de posse, só de transição ou só de organização defensiva. O nosso papel é fazer ver aos jogadores qual é o momento para as diferentes situações. É preciso ter em conta o contexto, o momento da época, as características dos jogadores ou o tempo de trabalho.
Bola na RedeDeduzo por essas palavras que está disposto a alterar as suas ideias em função do contexto.
Pedro Duarte: As ideias do treinador são fundamentais, mas se me fechar só nelas a probabilidade de ter sucesso vai ser muito pouca. A equipa técnica também tem que ter essas mesmas ideias bem vincadas. É preciso arrumar as gavetas. Há a gaveta das meias, a gaveta das cuecas e a gaveta das t-shirts. No futebol, tenho que ter bem estruturado na cabeça o que quero para o momento defensivo e o que quero para o momento ofensivo. Essa é a ideia do Pedro, mas depois tenho que perceber as características dos meus jogadores. Não temos que fazer o que os jogadores gostam, mas eles têm que estar confortáveis no que fazem. Damos as ferramentas aos jogadores para que eles possam ter confiança para tomar decisões. Depois, o contexto. Tenho que perceber se estou a trabalhar em Portugal, se estou a trabalhar na China, se entro no início da época, se entro a meio. As ideias que tenho, os jogadores e o contexto são três coisas que têm que estar sempre ligadas.

Bola na RedeNa sua carreira já várias vezes teve que entrar a meio da época. Devido a isso, já alguma vez conseguiu implementar a sua ideia de jogo na plenitude?
Pedro Duarte: Nunca o conseguimos a 100%, porque a nossa ideia de jogo está em constante crescimento. Durante o ano vão aparecendo dificuldades. Há quase sempre a necessidade de acrescentar mais qualquer coisa ao jogo, porque os adversários começam a conhecer-nos melhor. Entrar a meio condiciona sempre. Entrei em Coimbra, Viseu e Estoril a meio. No entanto, o treinador português é muito forte a preparar-se para as coisas. Temos que fazer um estudo do contexto para onde vamos. Entrei em Coimbra em outubro e vi todos os 11 jogos da Académica/OAF e dos outros clubes. Mesmo assim, o dia a dia traz-nos muitas respostas que não temos. O facto de conhecermos muito bem os jogadores e a equipa permite-nos não ter que passar pela fase de reconhecimento. Quando entramos a meio de um processo, as ideias têm que estar muito claras na nossa cabeça. Numa fase inicial, temos que tentar ser o mais simples possível para, com o tempo, irmos conseguindo implementar coisas diferentes. Como quando há uma mudança da equipa técnica é quase sempre por maus resultados, aproveitamos a motivação dos jogadores, porque, quando entra um treinador novo, o jogador está aberto a ouvir e a fazer as coisas bem para ter a possibilidade de jogar mais vezes. Temos que capitalizar essa abertura dos jogadores sabendo que, quando não se ganha, o jogador até desconfia da própria sombra.
Bola na RedeQual é o primeiro conteúdo de treino que tenta aplicar numa equipa quando entra a meio?
Pedro Duarte: É percebermos o que são as necessidades da equipa. Este ano, quando entrámos em Coimbra, demos muita importância ao trabalho de finalização individual dos jogadores do setor ofensivo, para se sentirem confortáveis com o golo. Nem era uma questão relativa à dinâmica ofensiva da equipa. Com o tempo, fomos incluindo questões mais específicas ligadas às relações de corredor ou de jogo interior.
Bola na RedeQue tipo de dinâmicas não podem faltar a uma equipa treinada por si?
Pedro Duarte: Em termos ofensivos, uma característica das minhas equipas é a dinâmica de corredores laterais. A ligação lateral/extremo e a ligação lateral/extremo/médio interior. No Académico de Viseu FC fazíamos muito golos de cruzamento atrasado.
– Da formação ao alto rendimento –
«Na China, o trabalho em quantidade é muito valorizado»
Bola na RedeO Pedro é um treinador jovem, tem 42 anos. No entanto, leva já uma carreira de 15 anos como treinador. Como é que passou a ter mais gosto pelo futebol fora das quatro linhas do que dentro delas?
Pedro Duarte: Tive uma carreira curta como jogador. Deixei de jogar aos 24 anos. Ainda cheguei a profissional na equipa B do SC Braga. Fiz treinos com frequência na equipa A, mas nunca me cheguei a estrear. Há uma altura em que tive algumas lesões. Em dois anos fui operado quatro vezes. As minhas duas últimas épocas foram um sofrimento muito grande. Comecei a perceber que não tinha condições de ter uma carreira dentro daquilo que perspetivava. Optei por deixar de jogar. Fui convidado por uma equipa aqui de Braga, o Arsenal da Devesa, para trabalhar como treinador na formação. Entretanto, no SC Braga houve uma mudança na coordenação da formação. Fui convidado para trabalhar lá. Os sub-17 foram o único escalão que não treinei no SC Braga. A determinado ponto, convidaram-me para treinar os sub-19, já como profissional. Acaba por ser aí que percebo que era o caminho que queria seguir. Licenciei-me em Gestão de Desporto, tirei o Mestrado de Ensino de Educação Física e fui tirando os cursos de treinador de futebol. A paixão pelo treino sempre esteve presente. Dá-me mais gozo ser treinador do que ser jogador.
Bola na RedeO auge do trabalho no SC Braga terá sido a conquista do título de campeão nacional de juniores em 2013/14. Numa altura em que o SC Braga não tinha as condições que tem hoje, esse foi o primeiro passo para o clube estar hoje no patamar em que está em termos de formação e aproveitamento de jogadores na equipa profissional?
Pedro Duarte: O SC Braga deu um salto muito grande ao nível das infraestruturas. Isso é fundamental para o trabalho de formação e para o crescimento sustentado de um clube. Na altura, tínhamos dificuldade em ter espaço de treino. O local de treino era dividido por três equipas, em horários diferentes. Estávamos muito condicionados. Hoje em dia, o SC Braga já não tem essa dificuldade. O título de campeão nacional é um marco importante, embora isso não fosse um objetivo. Acabámos por aproveitar a janela de oportunidade. Entendo que na formação também se tem que ganhar, embora não a todo o custo. É importante para transmitir valores de competitividade e de querer ser melhor aos atletas. É um marco muito importante na minha carreira e na carreira dos jogadores. Acabámos por fazer história dentro do clube. O título marca, mas depois ficam também as amizades. Dá-me um prazer muito grande encontrar na rua um jogador que tenha feito parte dessa equipa.
Bola na RedeO título abriu-lhe portas?
Pedro Duarte: Abriu. A possibilidade de ter ido para a China também tem a ver com a conquista desse título.

Bola na RedeComo é que o Tianjin Teda levou o mister para treinar na formação?
Pedro Duarte: A formação do SC Braga tinha um acordo com o Tianjin Teda que envolvia a troca de informações e de atletas. Conheci os responsáveis do Tianjin Teda. Tivemos uma reunião em Portugal e depois foi-me feita uma proposta. Passei uma semana em Tianjin para conhecer o clube e acabei por assinar um contrato de dois anos. Os portugueses e os europeus levaram para lá a forma como se trabalha na Europa, respeitando aquilo que é a cultura deles. Na altura, em qualquer torneio que tivéssemos, encontrávamos sempre portugueses. O facto de, quando fui para lá, o Tianjin Teda ter um treinador português, Jaime Pacheco, na equipa principal ia ao encontro dessa necessidade que eles tinham de beber um bocadinho da Europa. A Europa, no que ao futebol profissional diz respeito, está muito à frente da China.
Bola na RedeNa China há uma forma muito diferente de olhar para a gestão de um clube e para a forma como veem o jogo ou é algo semelhante ao que acontece em Portugal?
Pedro Duarte: É muito diferente. Ao início é um choque. Tem a ver com a cultura. O trabalho em quantidade, para eles, é muito valorizado. Eles entendiam que o processo de treino tinha que ter um número de horas que não usamos em Portugal. Havia equipas de formação que chegavam a treinar duas horas seguidas por dia. Temos uma forma de trabalhar completamente diferente, principalmente na formação. Nós pensamos em valorizar o jogador e dar-lhe condições para ter um crescimento sustentado. Muitas vezes, não temos como orientação a carga de treino e os chineses olham muito para isso. Eles perguntaram-me como é que trabalhávamos em Portugal nos escalões de formação. Disse que nos sub-14, sub-15 se treinava três vezes por semana, com um volume de treino de 70/75 minutos e um jogo ao fim de semana. Isso para eles era muito pouco. Para eles, os jogadores tinham que treinar todos os dias. Como os jogadores vivem em regime de internato, a ideia deles é que mesmo atletas de 14/15 anos tinham que treinar todos os dias de manhã e de tarde. Fizemos-lhes ver quais eram as vantagens de ter um treino mais orientado. Tivemos que encontrar um equilíbrio dentro do que é a cultura chinesa e o que eram as minhas ideias.
Bola na RedeOs jogadores lidaram bem com essa mudança?
Pedro Duarte: A aceitação dos atletas foi muito grande. No treino estava sempre presente aquilo que os jogadores mais gostam, que é a bola. Normalmente, na China, isso não acontece. Muitas vezes, dedicam 50/60 minutos à questão física e só depois entra a bola. Quando chegámos, a presença da bola foi uma constante. As lacunas que eles tinham em termos de relação com bola, coordenação e destreza eram muito grandes. Como a nossa proposta de treino tinha a bola 99% do tempo, muito através de jogos em campo reduzido, de exercícios de um contra um, dois contra dois, três contra três, os jogadores sentiam-se muito mais satisfeitos. A parte física está inerente a esse trabalho de espaços reduzidos. Em Portugal, atletas de 14 anos já têm competição há seis ou sete anos. Na China, encontrámos jogadores com 14 anos que nunca tinham feito um jogo oficial.
Bola na RedeA adaptação à vida quotidiana foi fácil?
Pedro Duarte: Fácil não foi. O trânsito, por exemplo, era uma coisa infernal. Não há respeito pelo sinal vermelho. Não há respeito pela passadeira. O carro, se tiver que passar em cima do passeio, passa sem problemas nenhuns. Ao início faz alguma confusão. Na brincadeira até dizíamos “quando vamos atravessar a rua temos que olhar para a esquerda, para a direita, para trás e para o ar”, nunca sabíamos de onde é que os carros vinham. Como eles são tantos, há pouco respeito pelo ser humano. Ao início causa alguma dificuldade, mas é uma questão de nos habituarmos.
Bola na RedeO que é que é diferente na liderança de uma equipa de futebol de formação e numa equipa de futebol profissional?
Pedro Duarte: A formação e o alto rendimento são mundos diferentes. Na formação, temos tempo para trabalhar uma ideia, é um processo a longo prazo. É possível fazer asneiras e corrigir essas asneiras. No alto rendimento, temos que ganhar ontem. Não há tempo para erros. Há um ponto comum quando trabalhamos na formação e no alto rendimento: a gestão de expectativas. É a maior dificuldade que temos. Um miúdo da formação tem como expectativa ser profissional de futebol e, por vezes, percebemos que o jogador vai ter poucas condições de o ser. É difícil eles perceberem que não jogam, porque não são bons. Quando chegamos ao mundo profissional também tem que haver esta gestão de expectativas. O jogador assina contrato profissional e quer ser o melhor jogador, o melhor marcador, o melhor guarda-redes, o melhor defesa… quer fazer uma boa época para, na próxima época, melhorar o contrato e ir para outro clube.
Bola na RedeÉ mais fácil gerir as expectativas de um jovem ou de um jogador mais maduro?
Pedro Duarte: Depende da individualidade. Os jovens, normalmente, têm sonhos e percebem que o mundo do futebol lhes pode dar uma vida diferente. O jogador de alto rendimento já tem noção das dificuldades e do patamar que pode atingir ou não.












