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«Não tive a estrutura ideal para o meu crescimento no SL Benfica» -Entrevista BnR com Ricardo Esteves

Afonso Viana Santos · 28 min

Ricardo Esteves
Foto: Sindicato dos Jogadores

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Professor Neca entrevista À BnR

Fez toda a formação no SL Benfica e 53 jogos pelas camadas jovens da Seleção Portuguesa. Foi treinado por alguns dos treinadores mais conhecidos do futebol português, mas o seu espírito explorador e sem medo do desconhecido não lhe permitiu permanecer em Portugal. Jogou em vários campeonatos, em diferentes continentes e apanhou algumas surpresas pelo meio, não tendo dúvidas que isso contribuiu para a sua aprendizagem e crescimento como jogador e como pessoa. Pelo caminho, concretizou muitos dos seus sonhos e revela-nos tudo nesta entrevista.

«Devemos fazer as coisas com divertimento, só assim conseguimos aproveitar ao máximo aquilo que estamos a viver»

Bola na RedeFizeste a tua formação no SL Benfica, num clube reputado pela qualidade dos jogadores que forma, como é que foi todo esse processo?

Ricardo Esteves: Fazer a formação toda no Benfica é de facto algo que me orgulha porque, para além de ser formado como jogador no Benfica, aqueles treinadores todos que estavam naquela altura, e penso que neste momento também é o mesmo caminho que têm, para além de formarem jogadores, formavam homens. Porque na vida não é só o desporto, mas sim também como podemos viver no nosso dia-a-dia e acho que acima de tudo, aquilo que tive depois de tantos anos, porque foram 15 anos ligados ao Benfica (comecei no Benfica com seis anos, saí com 21), mas aquilo que tiro acima de tudo, para alem da aprendizagem que tive como jogador, e se calhar tive os melhores treinadores de formação, foi sobretudo também na qualidade humana, aquilo que nos ensinaram para sermos melhor como jogadores e como homens sobretudo. E acho que isso é de louvar porque, como disse há pouco, não é só o desporto que importa, mas também a pessoa que se torna.

Bola na RedeAntes de falar do teu percurso como profissional, ainda fizeste 53 jogos pelas camadas jovens de Portugal e venceste inclusive o Campeonato da Europa de seleções sub-16, ao lado de jogadores como Simão Sabrosa, Petit e Hugo Leal; que recordações tens desta competição e dos jogadores com quem jogaste?

Ricardo Esteves: Eu tive o prazer de fazer parte de uma geração de jogadores que tiveram grande sucesso na carreira, nomeadamente como o Hugo Leal, o Simão Sabrosa, foram de facto jogadores com quem tive o prazer de jogar com eles no Benfica. Por exemplo, joguei com o Hugo Leal na formação, com o Simão Sabrosa na equipa principal do Benfica, como outros como o Caneira, que também jogou comigo nas seleções e no Benfica, na equipa principal. Mas sobretudo foi uma seleção de grandes jogadores que fizeram carreira muitos boas, e tínhamos uma grande seleção. Fomos campeões da Europa sub-16, fomos vice-campeões da Europa sub-18, tivemos um Campeonato do Mundo onde as coisas não nos correram bem, mas tínhamos uma grande seleção. Acima de tudo, para além da competição em si, de jogarmos em clubes diferentes, éramos uma Seleção unida e de grandes amigos, que até hoje essa amizade perdura.

Bola na RedeEm 1998/99 és emprestado pelo Benfica ao Clube Oriental de Lisboa, que na altura estava na II Divisão B, e és treinado por José Peseiro. Que memórias tens deste teu primeiro campeonato a nível sénior e de trabalhares com um treinador tão conhecido como o José Peseiro?

Ricardo Esteves: O José Peseiro nessa altura também estava no início da carreira, estava a dar os primeiros passos como treinador. Para mim foi importante porque eu vinha de uma realidade totalmente diferente, vinha do Benfica, era a transição de júnior para sénior, e encontrei uma realidade totalmente diferente. Vinha de um clube grande, onde tínhamos todas as condições de treino, para uma realidade totalmente diferente, para um clube muito humilde, embora com um excelente treinador, que era o José Peseiro e depois vemos a carreira que ele tem feito, mas foi importante para o meu crescimento. Eu vinha a jogar em competições com jogadores da minha idade e fui pela primeira vez jogar com jogadores muito mais velhos que eu, numa competição muito mais dura e obviamente, para um jovem, é sempre bom jogar nestas competições para o seu crescimento, para ficar com outra atitude em campo, com mais maturidade, e para mim, com a idade que fui, era importante dar este passo para poder crescer.

Bola na RedeNa época seguinte começas no Benfica B, mas na segunda metade época és emprestado ao Vitória de Setúbal e fazes a tua estreia aí na Liga Portuguesa; como é que encaraste esse momento, foi o concretizar de um sonho de infância?

Ricardo Esteves: Sim, foi. Eu estive no Oriental com 18 anos, depois passei para a equipa B do Benfica porque eu fui para o Oriental emprestado no intuito de crescer como jogador. Depois regressei ao Benfica para a equipa B, onde já jogámos numa competição de seniores e depois, por ter jogado nas seleções e por ter estado num Torneio de Toulon pela Seleção, tive o convite para ir para o Vitória de Setúbal, onde o treinador era o Rui Águas, que estava interessado em que eu fosse emprestado ao Vitória de Setúbal. Para mim foi gratificante e foi uma hora de felicidade porque era o concretizar de um sonho, apesar da minha estreia não ter sido no Benfica como sénior na I Liga, o meu sonho, de alguma forma, foi concretizado. Jogar a I Liga com 19 anos onde fiz todos os jogos no Vitória de Setúbal desde a altura em que fui emprestado até sair, onde tive algum protagonismo naquela equipa, onde tinham grandes jogadores como Chiquinho Conde, como Hélio, como o Mamede, como Marco Tábuas, nomes que fizeram carreira no futebol internacional e nacional. Era gratificante estar numa equipa de jogadores conhecidos, e para um jovem, jogar na I Liga com 19 anos era de facto um sonho concretizado. Agradeço muito com míster Rui Águas que, apesar da minha idade, de ser um jovem, apostou, sem qualquer receio, nas minhas qualidades, e apostou muito em mim na equipa e a jogar sempre.

Bola na RedeApós uma breve passagem pelo FC Alverca e pelo Benfica B, fazes finalmente a tua estreia pela equipa principal do Benfica. Após a formação no clube, e diferentes experiências a nível sénior noutros clubes, como descreves aquele momento em que fazes a estreia pelo Benfica?

Ricardo Esteves: Aí foi o concretizar do sonho que sempre tive. Eu sempre tive o sonho, desde de pequeno, de vestir a camisola do Benfica na equipa principal e quando o fiz foi de facto uma alegria imensa porque foi o concretizar de todos os anos que trabalhei para aquele momento. Não foi a melhor altura para entrar no Benfica, para um jovem entrar num clube grande que estava a ter muitas dificuldades financeiras, dificuldades internas, de estrutura, muitos treinadores a entrar e a sair, muitos jogadores a entrar e a sair, a instabilidade que havia naquele clube naquele momento, não era a melhor altura para eu entrar no Benfica. Mas havendo a oportunidade de poder jogar no clube que me formou, onde eu estive ligado durante 15 anos, eu não poderia deixar de apanhar aquela oportunidade. Não só na vida, mas no futebol sobretudo, o comboio só passa uma vez, e o comboio passou de porta aberta e eu tinha que entrar porque de facto era a minha oportunidade.

Fonte: Blog Conversas Redondas

Bola na RedeO treinador que te concedeu essa estreia foi Toni, uma lenda do Benfica, recordas-te daquilo que ele te disse quando te anunciou que ias jogar?

Ricardo Esteves: Para já, dar a oportunidade de jogar a qualquer jovem numa equipa principal e nomeadamente no Benfica, uma equipa grande, sabemos que acredita em nós e aquilo que ele disse era para me divertir em campo. Obviamente, sabendo a responsabilidade que é jogar num clube grande, mas acima de tudo, para fazer aquilo que sabia e para me divertir em campo porque, para além da concentração, para além da atitude que se tem de ter em campo, devemos fazer as coisas com divertimento, só assim conseguimos aproveitar ao máximo aquilo que estamos a viver.

«Não tive a estrutura ideal para o meu crescimento na equipa principal do Benfica»

Bola na RedeFalando agora no momento da altura do Benfica, foi na época 2000/2001 que fizeste a tua estreia, o Benfica ficou em 6º lugar do campeonato. Achas que esta época desapontante do clube teve alguma influência no teu crescimento enquanto jogador, pelo facto de ser um clube aquém das expectativas, achas que isso te afetou?

Ricardo Esteves: Não me afetou. Agora, é verdade que, não é mágoa, mas de alguma forma me deixa triste ter a oportunidade de jogar num clube grande como o Benfica e entrar numa altura em que o clube estava numa fase muito difícil, tanto financeira como estruturalmente. E saber que, por não haver a estrutura forte que o Benfica tem neste momento, o elo mais fraco são sempre os jovens e naquela altura havia alguns jovens na equipa principal, e que depois de tanta perturbação que o clube vivia, por tantas fases que o clube passou, obviamente que os jovens que estavam naquela altura saíram do Benfica e essa se calhar é a mágoa, é a tristeza que me deixa, por não ter a estrutura ideal para o meu crescimento na equipa principal do Benfica. Não tenho dúvidas nenhumas que, se o Benfica estivesse nesta fase que está neste momento, se calhar as oportunidades que eu tive naquela altura seriam muitos mais neste momento que o Benfica atravessa. Por isso de alguma forma me deixa triste por o momento do Benfica naquela altura, mas orgulhoso por ter estado ligado àquela casa e ter concretizado o meu sonho desde pequeno.

Bola na RedeNa época seguinte fazes menos jogos pelo Benfica e és emprestado ao SC Braga, em janeiro; que memórias tens da tua passagem pelo clube minhoto, onde também trabalhaste com um treinador conhecido do futebol português, que era o Manuel Cajuda?

Ricardo Esteves: Neste momento é um clube grande e consolidado no futebol português e naquele tempo o SC Braga também era um excelente clube. Apesar de triste por deixar o Benfica, sabia que ia para um clube importante no campeonato português e também com história e lá está, para um jovem, foi mais uma fase de crescimento. Nós na vida estamos sempre a aprender e no futebol não é diferente, cada clube tem a sua mentalidade, cada clube tem os seus jogadores e estamos sempre a aprender. Foi mais uma fase de crescimento para mim, continuava a ser um jovem a jogar na I Liga, com uma equipa que também tinha nomes conhecidos no futebol português, com um treinador diferente, com outros métodos de trabalho e acho que isso foi importante para mim, para a minha carreira, ter crescido em vários sítios e ter aprendido com todos eles.

Bola na RedeNo verão de 2002 fazes o teu adeus definitivo ao Benfica, essa despedida foi algo que encaraste com alguma dificuldade?

Ricardo Esteves: Não, tristeza sim, mas no futebol temos que estar habituados a isto mesmo. Um dia estamos num clube, amanhã podemos não estar, por isso temos que estar sempre preparados e para mim o mais importante, como jovem, era jogar, porque um jovem sem jogar não se mostra e depois é difícil, aí sim, de alguém o querer. Achei que era o momento ideal, não estava a ter a oportunidades que queria, precisava de jogar e eu tinha que agarrar um clube e continuar a minha carreira, não sendo o Benfica, tinha que ser outro.

Bola na RedeEsse clube acabou por ser o CD Nacional, onde voltas a trabalhar com José Peseiro, isso influenciou a tua decisão na escolha do clube?

Ricardo Esteves: O Peseiro tinha subido o Nacional à I Liga e desde que conseguiu esse feito demonstrou interesse em que eu fosse para a equipa dele. Sabia que era uma equipa que vinha da 2ª Divisão, mas, pelas contratações que o Nacional estava a fazer naquele momento, por conhecer o treinador e saber que poderia ser uma aposta dele, não tive receio em aceitar. O contrato que me propuseram também era importante e tudo junto, achei que era uma boa oportunidade para poder vir para o Nacional.

Bola na RedeNa época seguinte sais do CD Nacional e vais pra o FC Paços de Ferreira e és treinado por José Mota, também ele um treinador bem conhecido do futebol português, como é que foi essa experiência de trabalhares neste clube e com este treinador?

Ricardo Esteves: O Paço de Ferreira é dos clubes onde eu mais gostei de jogar. Tive o prazer de jogar em todos os clubes por onde passei, gostei muito, mas de facto o Paços de Ferreira foi um clube que me marcou sobretudo pela maneira como me trataram. Joguei quatro meses no Vitória de Setúbal, estive uma época e meia no Nacional, depois com alguns problemas com a direção derivados ao meu contrato, deixei o Nacional para ir para o Paços de Ferreira até ao final da época. E encontrei um clube humilde, de gente muito séria, com um treinador carismático no futebol português. Gostei muito de jogar no Paços de Ferreira sobretudo pela maneira como me trataram, pelas pessoas que o clube tinha, pela cidade em si de tratar muito bem das pessoas vindas de fora, e depois pelos jogadores, por todo o ambiente que se vivia naquele clube. Apesar de não ter feito uma boa época, o Paços de Ferreira desceu de divisão nesse ano, mas tinha um grupo muito unido, de muita amizade e com um treinador que era amigo dos jogadores, muito próximo de nós e por isso tudo junto foi um clube que me marcou.

Bola na RedeNesta fase da tua carreira, tens 24 anos, já foste treinador por nomes como José Peseiro, José Mota e Toni, todos eles treinadores reputados do nosso futebol. Sendo exposto a tanto conhecimento quando ainda eras um jogador relativamente jovem, dirias que isso influenciou de forma positiva a tua carreira?

Ricardo Esteves: Sim, sem dúvida. Foram treinadores, todos eles com ideias diferentes, joguei em realidades diferentes e isso faz-te crescer como jogador, faz-te estar preparado para qualquer clube que possa surgir à tua frente. No Benfica foi o Toni, no Braga foi o Manuel Cajuda, José Peseiro no Nacional, José Mota, todos eles com as suas ideias, métodos de trabalho diferentes e obviamente que fui bebendo um pouco de cada treinador para o meu crescimento e para ter outra maturidade enquanto jogador.

«Foi mais o concretizar de um sonho poder jogar na Serie A, com nomes como Maldini, Costacurta, Rui Costa, Kaká, Shevchenko»

Bola na RedeEm 2004 vais para o futebol italiano, para o Reggina, que na altura estava na Serie A. O que esteve por trás dessa decisão?

Ricardo Esteves: O Reggina já era um clube que me andava a seguir já há algum tempo, enquanto eu estava ligado ao Benfica, e surgiu a oportunidade de eu ir para Itália quando o Reggina me contactou, eu estava livre e obviamente que aceito logo a proposta porque Itália naquela altura (e o futebol italiano está neste momento a voltar a ser um dos grandes campeonatos), era dos melhores campeonatos do mundo, onde tinham os melhores jogadores do mundo. Apesar de eu ter o sonho de jogar no Benfica, enquanto jogador jovem sempre tive o sonho de jogar em Itália e lá está, foi mais o concretizar de um sonho poder jogar no futebol italiano, na Serie A, com nomes, por exemplo do AC Milan, como Maldini, Costacurta, Rui Costa, Kaká, Shevchenko, Inzaghi, Seedorf, entre outros de outros clubes. Era um orgulho enorme e um jogador de 24 anos, português, onde poucos jogadores portugueses tinham passado em Itália, era um orgulho enorme poder estar no futebol italiano.

Bola na RedeQuando estiveste em Itália, onde jogaste dois anos na Serie A, pelo Reggina, e um na Serie B, pelo Vincenza Calcio, eras sempre o único português do plantel; achas que isso afetou a tua integração nas equipas, ou sempre sentiste que foste recebido de braços abertos?

Ricardo Esteves: Sempre fui recebido de braços abertos, sempre fui muito bem tratado, sempre acreditaram em mim e nas minhas qualidades, e apesar de ser o único português tinha colegas brasileiros, pelos menos no Reggina tinha. Carlos Paredes jogou comigo no Reggina, um jogador que esteve no FC Porto, depois passou pelo Sporting CP. Mas acima de tudo fui muito bem acolhido em Itália e nos clubes por onde passei porque, lá está, acreditavam nas minhas qualidades e quando assim é, sabemos que temos o apoio de todos eles.

Bola na RedeOs adeptos italianos são conhecidos pela forma como demonstram a sua paixão pelo futebol, quer seja de modo positivo ou negativo. Achas que os italianos vivem o futebol duma forma mais intensa do que os portugueses, e já agora recordas-te de alguma história caricata dos teus anos em Itália?

Ricardo Esteves: Sem dúvida, os adeptos italianos, como são apelidados, os tifosi, sem dúvida que notei uma diferença muito grande, no sentido de ver os estádios todos cheios. Em Portugal as equipas grandes enchem os estádios, mas as equipas pequenas não enchem os estádios e acho que qualquer jogador gosta de ver o estádio cheio e uma grande diferença eu vi foi que qualquer equipa a jogar no campeonato italiano tinha o estádio cheio. E para além do estádio cheio, tínhamos os tifosi e a claque, a que chamam a curva, sempre a cantar o jogo todo, qualquer equipa tinha a sua claque e com grandes coreografias. E isso para um jogador que não estava habituado a ver, ainda me incentivava mais para jogar, porque de facto aquilo era diferente para mim naquela altura e estar a viver aquilo era um sonho. Uma história caricata, que acaba por não ser caricata, mas que foi muito conhecida foi, na minha altura, ter passado o Calciopoli, que foi quando a Juventus FC desceu de divisão e alguns clubes começaram o campeonato com pontos negativos, nomeadamente o Reggina começou o campeonato com menos 11 pontos e isso sim foi uma altura caricata porque nunca tinha visto uma equipa começar um campeonato com menos 11 pontos e de facto foi diferente. Foi um problema que se gerou em Itália e onde acaba por, nessa altura, o futebol italiano cair muito na reputação e depois também muitos jogadores conhecidos que saíram de Itália. De facto, foi um problema que houve em Itália e que coincidiu com a altura em que jogava lá.

Bola na RedeEm 2007 despedes-te do futebol italiano e voltas para o português para representares o Marítimo, o que motivou este teu regresso ao futebol nacional?

Ricardo Esteves: Eu acabava contrato com o Reggina, havia o interesse de um clube inglês na minha contratação, que depois acaba por não dar certo por algumas ideias em que não estávamos de acordo e depois tive a oportunidade de vir para Portugal porque tive o convite do Marítimo para jogar lá. O meu filho tinha nascido em Itália e achei que era uma boa oportunidade de voltar a Portugal para também o meu filho poder estudar, poder ir para o colégio e assim eu também estava ao pé da família. O Marítimo naquela altura era um clube que estava sempre nos seis primeiros lugares, tinha um treinador brasileiro que tinha sido treinador da Seleção do Brasil, que era o míster Lazaroni. Estavam a fazer uma equipa que me dava garantias de fazer uma boa época e achei que, tudo junto, poderia ser uma boa oportunidade voltar a Portugal, pensando no clube, pensando na família, achei por bem voltar a Portugal.

Bola na RedeNessa época de 2007/2008 és titular em 25 jogos do campeonato, fazes 6 assistências e o Marítimo termina no 5º lugar. Como recordas esta época, tanto a nível pessoal como a nível coletivo?

Ricardo Esteves: Foi uma grande época, tanto a nível coletivo como a nível pessoal. Até àquele momento, o Marítimo tinha feito a melhor época de sempre no campeonato, tínhamo-nos apurado para a Liga Europa, tínhamos chegado ao quinto lugar. Em termos pessoais, foi um campeonato onde estive muito bem, com muitas assistências, recordo que fui o terceiro melhor assistente da época, atrás de Lucho González e de Di María, por isso posso dizer que foi uma época muito conseguida da minha parte, mas também pela equipa que nós tínhamos, conduzidos por um grande homem, um grande treinador, que era o míster Lazaroni, que foi de facto importante para toda a época do Marítimo.

«O futebol grego não era um futebol atrativo, não era um futebol de todo, daquele que eu mais gostava»

Bola na RedeNa época seguinte mudas-te para o futebol grego, para o Asteras Tripolis, o que motivou esta mudança de cenário?

Ricardo Esteves: Houve essa oportunidade pela época que fiz no Marítimo, como disse foi uma época boa, não só em termos pessoais, mas também em termos coletivos. Há a entrada do míster Caravalhal para treinar o Asteras Tripolis e foi o míster Carvalhal que me propôs a ida para o Asteras Tripolis. Era um contrato também que me aliciava e havendo essa oportunidade, lá está, eu nunca tive medo de fazer mudanças, sabendo sempre que poderia ser melhor, nunca tive esse receio, e por isso deu o trajeto da minha carreira, que nunca tive receio de poder jogar noutros campeonatos, campeonatos desconhecidos ou ir para algo desconhecido, sempre fui destemido nessa parte e havendo a oportunidade de poder jogar noutro campeonato, com um treinador que eu conhecia e depois também com a proposta de trabalho que tinha pela frente, optei por ir para a Grécia.

Bola na RedeComo é que descreverias o futebol grego, comparando-o ao português, e como foi a tua adaptação a esse campeonato?

Ricardo Esteves: Não foi um campeonato onde eu, ou não foi um país … quer dizer em termos de país sim, um país com história e onde gostei de viver, em termos competitivos e pessoais não foi uma época onde eu mais gostasse de jogar. Não era um futebol atrativo, não era um futebol de todo, daquele que eu mais gostava, lá está, tive algumas dificuldades na adaptação, apesar de ter jogado, mas não foi um clube onde eu me senti bem para estar. E por isso também ter estado apenas uma época e meia no Asteras, e depois também com um problema com a direção (mais um com a direção) por causa do contrato que tinha, dos valores do contrato que tinha, fiz uma época e meia e saí do Asteras.

Bola na RedeFalando agora dessa saída, foste para o Campeonato da Coreia do Sul, para o FC Seoul. A equipa era treinada por um português, Nelo Vingada, esse foi um fator decisivo que te convenceu a ir para este clube, aliado ao teu espírito de gostar de explorar outros campeonatos?

Ricardo Esteves: Sim, sem dúvida. Foi uma decisão fácil porque era um treinador que eu conhecia muito bem e lá está, apesar de ter jogado na Europa, saber mais ou menos como eram os campeonatos, quando fui para a Coreia fui propriamente para o desconhecido. Sabia que era um país desenvolvido, um país autónomo, de grande qualidade de vida, acima de tudo tinham feito um Campeonato do Mundo na Coreia, onde tinham praticamente estado excelentes. Mas depois era um campeonato que eu não sabia nada, em termos de futebol não tinha a noção daquilo que poderia encontrar e foi de facto uma surpresa enorme porque foi dos melhores sítios que eu estive até terminar a minha carreira, foi dos melhores sítios onde passei para jogar futebol e viver um futebol e uma vida que pensava que não poderia existir nesse país.

Bola na RedeNessa campeonato contribuíste para muitos golos, fizeste quatro golos e quatro assistências em 11 jogos no campeonato. Nesse ano, e depois de saíres do clube, o FC Seoul ainda conquistou esse mesmo campeonato. Como foi a tua adaptação, se puderes detalhar, não só ao futebol, mas também ao estilo de vida na Coreia do Sul?

Ricardo Esteves: A adaptação foi fácil porque tinha gente que conhecia, tinha um jogador brasileiro, tinha um jogador da Sérvia e que me ajudaram muito na adaptação. Mas acima de tudo também, os jogadores sul-coreanos também eram pessoas que se tornaram amigas e me trataram bastante bem, por isso a adaptação, nesse sentido em termos de clube, foi boa. Tive que me adaptar ao fuso-horário, porque era um fuso-horário de oito horas e que passado um mês e meio tive dificuldades em termos físicos por causa do jet-lag e tive de me adaptar nesse sentido. Passado um mês e meio sofri desse jet-lag que me deixou fisicamente em baixo. E depois tive de me adaptar a uma realidade diferente em termos de jogo porque eu fui para a Coreia com 30 anos, e em Portugal e nos outros sítios da Europa, considerava-me um jogador rápido e quando fui para a Coreia com 30 anos, eles eram todos mais rápidos que eu e o meu futebol, lá está, ganhava pela experiência que tinha, pela maturidade que tinha como jogador e tive de perceber que em termos de velocidade eu não conseguia ser melhor ou mais rápido que eles, então tive que me adaptar a um futebol mais maduro e menos de velocidade, que eu não ia tirar partido nenhum disso. Nesse sentido sim, tive que fazer a adaptação e tive que perceber aquilo que eu poderia melhorar para poder ter um melhor rendimento, mas sim a velocidade e a qualidade dos jogadores coreanos, eu não tinha noção e fiquei surpreendido pela qualidade que eles tinham.

Bola na RedeA meio de 2010 voltas para o Marítimo e jogas as eliminatórias da Liga Europa; nunca tinhas jogado numa competição europeia e na altura, quando já tinhas 30 anos, era um objetivo que querias cumprir?

Ricardo Esteves: Sim, sem dúvida. Volto novamente para a Europa, também pensando no meu filho, que tinha estado sempre fora e esteve fora comigo, ele na altura ia completar seis anos e precisava de estar na escola e havendo novamente a oportunidade de voltar para o Marítimo e para a Europa, para perto de casa e o meu filho poder estudar, isso contribuiu para a minha vinda para o Marítimo. Tinha sido um clube onde eu tinha estado e onde as coisas me tinham corrido muito bem, optei por voltar ao Marítimo, ia fazer a qualificação para estar presente na Liga Europa e obviamente que isso também foi um fator de decisão para eu voltar ao Marítimo.

Bola na RedeNessa época ainda fazes 26 jogos pelo Marítimo, muitos deles a titular, mas depois acabas por sair do clube e no final da época fazes cada vez menos jogos. O que é que aconteceu a meio da época e porque é que acabaste por sair do clube?

Ricardo Esteves: Os jogadores são sempre os elos mais fracos no clube e tenho alguns problemas com a direção do clube e depois também venho a jogar menos. Lá está, digo sempre isto, o jogador deve pensar sempre em si e fazer sempre o seu melhor porque o jogador nunca pode estar à espera que o clube o proteja sempre. O jogador é como se fosse uma mercadoria, no momento em que estamos a jogar menos bem, os clubes normalmente não pensam no trajeto que o jogador teve, mas pensam em despachá-lo para ir buscar outro e naquela altura tive alguns problemas com o presidente do Marítimo e decidimos depois, no final da época, rescindir o contrato e segui a minha vida.

«Na China, se eu me sentasse numa mesa ao pé de um jogador para tomar o pequeno-almoço, ele levantava-se e ia para outra mesa»

Bola na RedeFicaste depois uns meses sem clube, até que em janeiro de 2012 foste contratado pelo Dalian Shide, do Campeonato Chinês. Mas primeiro, queria saber como é que encaraste esse tempo em que não tiveste clube? Continuaste a treinar, mesmo que fosse sozinho?

Ricardo Esteves: Depois de ter saído do Marítimo, apesar de não ter um contrato com o clube, eu já estava na China a treinar. Não estava inscrito, mas estava a treinar no Dalian Shide até para me adaptar ao futebol chinês, à vida na China, apesar de não ter contrato, estava no clube. As épocas na Ásia são diferentes da Europa e quando eu fui para a China não podia estar inscrito e então tive essa fase de dois ou três meses de adaptação ao clube e depois sim, assinei contrato para a época seguinte. Foi uma adaptação muito difícil, eu quando vou para a China pensava que era uma realidade igual à da Coreia do Sul e encontrei uma realidade totalmente diferente e em termos de adaptação foi difícil. Foi difícil viver na China, foi difícil adaptar-me ao jogador chinês e acima de tudo ao colega chinês, não foi fácil. Para dar um exemplo, eu fui para a China, lá está, pelo contrato que também que me ofereceram, mas o jogador chinês, se eu me sentasse numa mesa ao pé dele para tomar o pequeno-almoço, ele levantava-se e ia para outra mesa. Em termos de amizade, daquilo que tive na China, não foi fácil. Para um jogador que já tinha jogado na Europa, em vários clubes, tinha 33 anos, e estar naquele momento a viver aquela realidade não foi fácil como jogador nem foi fácil como homem e como pai estar naquela situação, mas lá está, na vida estamos sempre a aprender e foi mais uma aprendizagem para mim.

Bola na RedeO Dalian Shide acabou por ser o último clube pelo qual jogaste. Como é que lidaste com a tua retirada do futebol profissional?

Ricardo Esteves: Eu acabei a minha carreira depois de ter saído da China, eu não referi que tinha gostado de estar na China porque de facto nunca foi feliz a minha estadia na China.

Eu acabo a minha carreira com uma lesão que tive na China, uma fratura simples no tornozelo que originou um problema mais grave. Eu tive uma lesão dois ou três meses depois de ter começado o campeonato, tive a fratura onde, se fosse operado, estaria dois meses de fora, com a recuperação em dois meses estava a jogar, e aquilo que eu vivi foram seis meses sem jogar, derivado a uma fratura simples, naquela altura, mas depois estive seis meses sem jogar porque acharam sempre que eu não tinha nenhuma fratura, acharam sempre que tinha uma entorse. Nunca tive o pé engessado, nunca fiz nenhuma cirurgia, aquilo que eu fazia era estar duas semanas parado, voltava a correr, mas depois doía, voltava a parar e aquilo que era uma cirurgia simples quando fiz a fratura. Depois, nesses seis meses o campeonato para, eu termino o contrato com o Dalian Shide, venho para Portugal, passado uma semana sou operado, a articulação do pé estava toda estragada e aquilo que eram dois meses de recuperação na altura em eu fraturei, quando fiz a cirurgia passou a quatro meses de recuperação. Para um jogador de 33 anos, no final da recuperação tinha 34, um jogador de 34 anos, praticamente um ano parado, onde o pé também não ficou no melhor estado em termos de poder jogar numa competição de alto nível, é sempre complicado alguém apostar em ti, é sempre um risco apostar em ti. Como tinha jogado sempre num nível alto, achei que naquela altura, sabendo, vendo e percebendo que o pé não estava nas melhores condições, percebendo também que os contratos que me estavam a chegar não eram contratos que me aliciavam e atendendo à idade que tinha, achei por bem naquela altura terminar a minha carreira.

Bola na RedeFinalmente, em jeito de conclusão, queria-te pedir que contasses alguma história caricata ou engraçada que te tenha marcado a carreira.

Ricardo Esteves: Uma história caricata, na Coreia do Sul, no dia que fui fazer exames médicos, porque eu nunca tinha visto aquilo, e quando vou à clínica fazer exames médicos e o exame à urina, eu vou para a casa de banho para fazer o teste à urina, para o copinho, e vejo a sanita cheia de botões. Eu faço a urina para o copo e depois faço o resto para a sanita e queria puxar o autoclismo e eu não sabia como porque eu vi tantos botões, aquilo tudo em coreano e eu não sabia (risos) como é que descarregava o autoclismo e vejo o desenho de um repuxo e pensava, como aquilo era o mais parecido com água, pensava que aquilo era para descarregar a água. Eu carrego nesse botão e vejo um tubinho a sair da sanita, por baixo, muito devagarinho, e a parar a meio da sanita e eu começo a aproximar-me com a cara para saber o que é que era aquilo. E então, assim que eu me aproximo, aquilo deita um jato de água, porque aquilo era, lá está, na Coreia têm essas sanitas onde tu fazes as tuas necessidades e aquilo limpa, lava, seca, tudo assim. E eu nunca tinha visto aquilo e estava a ver aquele tubo a sair do meio da sanita (risos) e comecei a olhar com a cara e então fiquei, aquilo mandou-me um repuxo para a cara, fico todo molhado e saio da casa de banho, onde está o tradutor à minha espera e eu saio da casa de banho todo molhado e foi, de facto, um momento caricato porque, lá está, nunca tinha visto aquilo e foi muito muito engraçado.

PASSES CURTOS

Bola na RedeAgora, para ultimar, segue-se um jogo de resposta rápida. Preparado?

Ricardo Esteves: Ok.

Bola na RedeTreinador mais marcante ou influente da tua carreira?

Ricardo Esteves: Walter Mazzarri, no Reggina.

Bola na RedeMelhor jogador com quem jogaste na mesma equipa?

Ricardo Esteves: Shunsuke Nakamura.

Bola na RedeQual foi o Jogador mais complicado que tiveste de enfrentar?

Ricardo Esteves: Tive vários, mas digo Di María.

Bola na RedeAtualmente qual é o teu treinador de futebol favorito, ou aquele cuja equipa mais gostas de ver jogar?

Ricardo Esteves: Eu vou dizer um português, como português que sou gosto de elogiar os portugueses, eu vou falar do Rúben Amorim.

Bola na RedeE, já agora, o que é que te atrai no estilo de futebol dele?

Ricardo Esteves: Aquilo que me atrai no Rúben Amorim, pelo jovem que é ainda como treinador, acima de tudo, a transmissão da palavra dele para os jogadores, de conseguir ter um balneário unido, não ter receio de pôr qualquer jogador a jogar, nomeadamente o Sporting tem jogadores muito jovens e foram campeões nacionais no ano passado com jogadores jovens, que nunca tinham jogado na I Liga e só perderam um jogo, que foi com o Benfica no final da época. Todo o trabalho que ele tem feito e desenvolvido, não só no Braga, mas depois consolidado no Sporting, faz dele um treinador que, neste momento, já começam na Europa a olhar para ele com alguns olhos de ver porque, de facto, é um grande treinador. Com as ideias muito fixas, que mudou um sistema de jogo, onde em Portugal pouco se jogava e onde ele apostou, sem receio, no clube onde estava, que era o Sporting, um clube grande, que vinha de uma realidade complicada por ter um presidente novo, os sócios todos divididos e o Rúben Amorim, com a estrutura técnica dele, conseguiu revitalizar o Sporting, unir o Sporting e no primeiro ano, com jovens, sem dinheiro para contratarem, apostou nos jovens e foram campeões nacionais, por isso tem todo o mérito.

Bola na RedeQual é o campeonato nacional que mais gostas de seguir?

Ricardo Esteves: O futebol inglês.

Bola na RedeTreinador favorito de sempre?

Ricardo Esteves: José Mourinho.

Bola na RedeJogador favorito de sempre?

Ricardo Esteves: Rui Costa.

Afonso Viana Santos

Redação Bola na Rede · ver artigos

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Antevisão GP Singapura: Max Verstappen conquista a 50.ª pole position da carreira

A ANTEVISÃO: MAX VERSTAPPEN CONQUISTA A PRIMEIRA POLE EM SINGAPURA, OS FERRARI PROMETEM DAR LUTA E A MERCEDES FICA AQUÉM DAS EXPETATIVAS Está a ser um fim de semana perfeito para Max Verstappen. Depois da vitória na corrida Sprint, o tetracampeão mundial foi o mais rápido no circuito de Marina Bay e conquistou a sua primeira pole position em Singapura e a 50.ª da carreira na Fórmula 1. Será que o Max Verstappen do final de 2025 está de volta?

Gonçalo Carneiro · 3 min de leitura
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Opinião

Lamber as feridas do Dragão | Benfica x Vitória SC

Quase três semanas depois, e com muita polémica em torno da seleção nacional, as emoções do campeonato estão de volta. O Benfica é o último dos três grandes a apresentar-se nesta jornada. Após os triunfos de Sporting e FC Porto os encarnados estão obrigados a vencer para não se atrasarem ainda mais na corrida pelo título. As águias vão defrontar o Vitória SC, que tem estado a realizar um campeonato aquém das expetativas, e este poderá ser o adversário ideal para sarar as feridas provocadas no Estádio do Dragão. Marco Silva tem algumas dores de cabeça para esta partida, mas nada que não se resolva. O treinador encarnado não vai poder contar com os lesionados Daniel Banjaqui, Alexander Bah, Jaden Umeh, Jakub Kaminski e Enzo Barrenechea. Georgiy Sudakov é o único do departamento médico que está em dúvida. Clément Lenglet também não vai a jogo por estar a cumprir castigo após a expulsão frente ao FC Porto. Oportunidade para Alessandro Circati estrear-se como titular no eixo da defesa.  Com Banjaqui e Bah indisponíveis, Fredrik Aursnes irá ocupar o lado direito da defesa. Nada que o médio norueguês já não esteja habituado, pois recentemente desempenhou essa função ao serviço da sua seleção. Em relação a Sudakov, mesmo que entre na convocatória não será titular. Andreas Schjelderup deverá ocupar novamente a posição 10 atrás de Vangelis Pavlidis.

Rui Alves Maria · 5 min de leitura
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