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O nome dispensa apresentações: José Mota atravessou gerações de futebolistas e adeptos, dentro e fora do campo, habituados a lidar com a personalidade frontal e direta daquele que é o treinador mais resistente do Futebol português em actividade. Ao Bola na Rede, José Mota recorda os primeiros passos de chuteiras ao serviço do Aliado do Lordelo, a passagem pelas camadas jovens do FC Porto e a carreira fiel (e rara) ao serviço do Paços de Ferreira. Figura icónica, treinador de sucesso, escreveu a partir do banco um dos mais recentes “contos de fadas” do no nosso Futebol – ao levar o modesto Desportivo das Aves à glória com a conquista da Taça de Portugal. Uma conversa que nos fala do passado, mas também dos sonhos e objetivos que ainda alimentam uma das mais bem-sucedidas carreiras do desporto-rei em Portugal.
«A ligação ao Paços de Ferreira marcou-me muito. Não era só o José Mota como jogador, era também o José Mota “capitão”. Depois, também me fui preparando para dar seguimento à minha carreira como treinador».
Bola na RedeOlá, José Mota. Começa a dar os primeiros passos no Futebol no Aliados do Lordelo, que é o clube da sua terra. Como é que o Futebol entrou na sua vida?
José Mota: Começou tudo exatamente no Aliados do Lordelo. Na altura, fui jogar para os iniciados. O Futebol já tinha entrado lá em casa através de um irmão mais velho, que começou a jogar também no Aliados do Lordelo. Depois, acabei por também ir para lá. O Futebol era uma paixão de toda a família e apenas dei seguimento a isso. Fui aos treinos de captação e fui seleccionado. Foi assim que comecei a minha carreira no Futebol.
Bola na RedeSe era uma paixão de toda a família, teve o apoio dos seus pais?
José Mota: Esse irmão mais velho é que me abriu as portas para o Futebol. Ele, na altura, teve algumas dificuldades para poder jogar. O meu pai tinha uma pequena fábrica de móveis e precisava de toda a ajuda possível e seria natural que os filhos o ajudassem. Mas, neste caso, o meu irmão “fugiu” a essa regra e começou a ir treinar ao Aliados do Lordelo. O meu pai, depois, acabou por gostar de ver o meu irmão jogar e, portanto, quando chegou a minha vez de jogar Futebol, já não tive tantas dificuldades em convencê-lo. Acabei por seguir os passos do meu irmão mais velho.
Bola na RedeO seu irmão também chegou a ser profissional de Futebol?
José Mota: Chegou aos seniores do Aliados do Lordelo, na 2.ª divisão, zona norte, mas acabou por abandonar o Futebol devido a várias dificuldades… Esteve dois anos nesse patamar, mas não chegou a ser profissional.
Bola na RedeNo Aliados do Lordelo, o José Mota dá nas vistas. E acaba por mudar para a formação do FC Porto. Como é que surgiu essa oportunidade?
José Mota: Sim, destaquei-me com a camisola do Aliados do Lordelo. A nossa equipa de iniciados e juvenis era muito interessante, acabou por disputar várias finais, uma delas contra o FC Porto. Nesses jogos acabei por me destacar e os responsáveis do FC Porto mostraram interesse para que fosse jogar nos juvenis e juniores do clube. E foi assim que se fez essa passagem.
Bola na RedeE, na altura, jogava em que posição?
José Mota: Jogava como médio, na posição de 10. Era um jogador que costumava aparecer bem nas zonas de finalização, e finalizava bem. Foi sempre essa a posição em que joguei durante as camadas jovens.
Bola na RedeCom que treinadores se cruzou na formação do FC Porto?
José Mota: Fui treinado pelo “Magriço” [Alberto] Festa e pelo senhor [António] Feliciano, que foram treinadores carismáticos da formação do FC Porto.
Bola na RedeE tinha alguma referência? Algum jogador que admirasse e que lhe servia de modelo?
José Mota: Tinha várias referências, em Portugal e no estrangeiro. Havia um por quem sempre tive muita admiração – até porque convivia com ele muitas vezes –, que era o Jaime Pacheco. O Jaime era da minha terra e costumava dar-me boleia todos os dias para os treinos. Para mais, já jogava no FC Porto e na seleção nacional, portanto, era um craque. E alguém que sempre admirei muito. Depois, o outro era, obviamente, o Michel Platini, que na altura brilhava na Juventus. Mas havia vários jogadores com grande talento no Futebol mundial naquela altura e por quem tinha grande admiração.
Bola na RedeNo FC Porto, o Futebol tornou-se mais sério… Como ficou a escola?
José Mota: Tive bastantes dificuldades em conciliar o futebol e a escola. Na altura, estava no liceu em Baltar (Paredes), porque na minha terra ainda não havia liceu. Acabei por ter de deixar a escola para trás, porque os treinos no FC Porto já eram de manhã e de tarde… Não era possível conciliar tudo.
Bola na RedeE quando é que teve consciência de que podia, de facto, fazer carreira ao mais alto nível? Quando era jovem tinha consciência de que podia ser jogador profissional e fazer uma carreira tão longa na 1.ª Divisão?
José Mota: Tinha consciência de que tinha qualidades para isso, mas também sabia que era muito difícil. Na altura, era muito difícil chegar à 1.ª Divisão, porque não havia grande aposta nos jovens portugueses, os clubes eram menos, não havia Liga de Honra, e havia grandes jogadores. Era extremamente complicado lá chegar. Até porque depois do FC Porto – e fui campeão nacional de juniores –, regresso ao Aliados do Lordelo para jogar nos seniores e, na altura, o clube estava na 1.ª Divisão distrital da Associação de Futebol do Porto… Mas, mesmo nessas divisões, o Futebol era muito competitivo e havia boas equipas e bons jogadores.
Bola na RedeOs grandes jogadores do Futebol português da época – e tirando algumas exceções – faziam carreira em Portugal, não saíam para o estrangeiro. Havia menos vagas disponíveis?
José Mota: Sim, é verdade. Os grandes jogadores pura e simplesmente não saíam. E, portanto, havia muita competitividade cá dentro. Para se chegar à 1.ª Divisão portuguesa, era preciso ter um grande talento e também alguma sorte. Acabei por ir para o Aliados do Lordelo e ficar no clube durante quatro épocas. Mas foi uma experiência muito importante para mim…
Bola na RedeFoi difícil passar do FC Porto para a distrital?
José Mota: Foi difícil… Em cada época que passava, pensava que, se calhar, afinal não conseguiria chegar lá… Era um jogador que trabalhava muitíssimo bem, tinha humildade, atitude, mas as coisas acabavam sempre por não surgir. Tinha sempre convites, claro, mas de clubes dos distritais ou da 3.ª Divisão, nunca convites que me permitissem dar o salto para o topo do Futebol português, que era o que pretendia. Cheguei a pensar que já não conseguiria atingir o sonho de atingir a 1.ª Divisão.
Bola na RedeMas chegou à 1.ª Divisão e acabou por fazer carreira no Paços de Ferreira… Ainda assim, ficou com alguma mágoa por não ter representado como sénior um clube de maior dimensão? Um “grande” do futebol português, por exemplo?
José Mota: Não ficou mágoa nenhuma. Nem vejo as coisas dessa forma. É claro que todos tínhamos o sonho de menino de chegar a um clube “grande”, mas não ficam mágoas. Pelo contrário, aceito perfeitamente que nem todos lá conseguem chegar. Tinha, isso sim, consciência de que, durante a minha carreira, teria de ser sempre sério, digno e de ter uma atitude muito forte… Só assim poderia surgir uma oportunidade. A minha saída do Aliados do Lordelo para o Paços de Ferreira foi crucial para o meu futuro naquele momento, não só como jogador, porque atingi o principal patamar do Futebol português, mas também como profissional.
Bola na RedeChega ao Paços de Ferreira em 1987… Na altura, o Paços de Ferreira ainda está na 2.ª Divisão…
José Mota: Sim, mas depois sagramo-nos campeões da 2.ª Divisão [em 1990/1991]. Em poucas épocas salto da distrital para a 1.ª Divisão.
Bola na RedeO José Mota dá um salto, mas depois recua no terreno. Acabou por se adaptar a outra posição: como defesa-direito. Como foi essa mudança?
José Mota: Sim, exatamente. É nessa posição que as pessoas me recordam. Costumava atuar como defesa-direito e, às vezes, como defesa-esquerdo. E isso deve-se ao mister Vítor Oliveira. Houve um momento em que lhe faltou um lateral e que achou que eu tinha condições para ocupar a vaga. Apostou em mim para aquela posição e a verdade é que me fixei como defesa-direito. Às vezes, também jogava do lado esquerdo. Acabei por cumprir o resto da minha carreira nessas posições. E dei-me bem. Era fundamentalmente um jogador de equipa.
Bola na RedeNão é muito comum um jogador cumprir tantas épocas consecutivas num clube (foram nove ao serviço do Paços de Ferreira). É um motivo de orgulho?
José Mota: Sim. A ligação ao Paços de Ferreira marcou-me muito. Não era só o José Mota como jogador, era também o José Mota “capitão”, a figura que se criou, a grande exigência que colocava no meu trabalho e que transmitia para os outros – essas características permitiram que as coisas se proporcionassem. Depois, também me fui preparando para dar seguimento à minha carreira como treinador. Concluí o quarto nível de treinador quando ainda era jogador, portanto, fiquei logo habilitado para treinar. Tudo se conjugou de forma natural para que se fizesse essa transição de jogador para treinador.
Bola na RedeQual foi o jogador com que partilhou o balneário que mais o impressionou?
José Mota: Sem dúvida, o jogador com quem partilhei balneário, e depois ainda foi meu treinador, que mais me impressionou foi o Jaime Pacheco. Era um jogador de seleção nacional, que depois foi treinador campeão nacional. Partilhei com ele vários anos de balneário, somos amigos… Foi ele a figura que mais me marcou. Depois, também joguei no Paços de Ferreira com o Radi Zdravkov [em 1990/1991], internacional da Bulgária, que era um jogador com uma qualidade técnica acima da média e uma personalidade muito forte… Tive vários jogadores que me influenciaram de forma muito positiva, numa fase muito importante da minha carreira, e que foram sempre excelentes colegas e me ensinaram muito.
«Tive vários treinadores que me influenciaram: Vítor Oliveira, Jaime Pacheco e Henrique Calisto».
Bola na RedePode concluir-se, pelo que já me disse, que cedo tomou consciência de que queria ser treinador?
José Mota: Tinha essa perceção. A forma como liderava o balneário na qualidade de “capitão” fez-me pensar que tinha condições para liderar e exercer as funções de treinador. E, depois, também tive treinadores que me influenciaram bastante, que me transmitiam que tinha condições para poder ser treinador. E tudo acabou por se conjugar.
Bola na RedeQuais foram as suas principais influências para seguir a carreira de treinador?
José Mota: Tive vários treinadores que me influenciaram. Já falei do Vítor Oliveira e também do Jaime Pacheco, com quem sempre tive uma excelente relação, com quem conversava sempre muito, sobre as questões da liderança, do trabalho, de coisas que considerávamos fundamentais. Estes dois treinadores portugueses emblemáticos foram, sem dúvida, os que mais me marcaram. E há também uma pessoa que não posso esquecer, quando iniciei a minha carreira como treinador, que foi o Henrique Calisto, uma pessoa muito aberta e digna. Foi exatamente o Henrique Calisto que substituí quando iniciei a minha carreira como treinador principal no Paços de Ferreira [em 1999/2000]. E foi sempre uma pessoa que me ajudou e me fez ver que tinha capacidades para exercer a profissão.
Bola na RedeComeça como treinador adjunto de José Alberto Torres, Eurico Gomes e Henrique Calisto. Também foi difícil ficar na sombra antes de conseguir assumir-se como treinador principal?
José Mota: Não, muito pelo contrário. Sempre respeitei muito os meus colegas. Quando acabei a minha carreira como jogador, em 1996, o presidente do Paços de Ferreira convidou-me para ser treinador adjunto e coordenador da formação de todo o futebol do clube, e foi nessas funções que fiquei durante dois anos. E muito satisfeito. Fiquei como treinador adjunto do José Alberto Torres, do Eurico Gomes e do Henrique Calisto… E aprendi muito com todos eles.
Bola na RedeO José Mota nunca teve empresário…
José Mota: Não, nunca tive.
Bola na RedeAlguma vez se sentiu prejudicado por essa opção?
José Mota: Claro que sim. No mundo do futebol, muitas vezes, é preciso ter pessoas que nos tratem da carreira. Mas nunca deixei de ter trabalho, aliás, nos meus 22 anos de carreira sempre trabalhei, e quem me convidou sempre foram os presidentes dos clubes…
Bola na RedeSão sempre os presidentes que o abordam?
José Mota: Sim, sempre foi assim. E isso é um motivo de grande orgulho para mim, porque, no fundo, são os presidentes que mandam e são essas pessoas que me contactam e convidam. O trabalho das pessoas vai, naturalmente, sendo valorizado e a verdade é que, durante estes anos todos, fui conseguindo fazer carreira, e sem atropelar ninguém. Mas também percebo que nem toda a gente tem as oportunidades que tive – embora julgo também ter feito por merecê-las – e, por isso, precise de um representante. E agora também não vale a pena estar a lamentar sobre o que poderia ou não ter sido a minha carreira se tivesse empresário. O futebol é mesmo assim.
«Vitória da Taça de Portugal foi lindo de ver e foi unânime que o Desportivo das Aves mereceu aquela conquista».
Bola na RedeÉ um dos treinadores com mais jogos na 1.ª Divisão portuguesa. Fala-se, muitas vezes, de um choque geracional entre treinadores – de treinadores considerados “ultrapassados”. Existe, hoje, o caso do Rúben Amorim, talvez, o treinador que melhor representa o que podemos chamar de nova geração. O José Mota tem 57 anos. Sente algum preconceito em relação aos treinadores mais jovens?
José Mota: É claro que sim. Percebo a sua pergunta: para uns foi tudo muito fácil e para outros foi tudo muito difícil. Mas a verdade é que a vida é mesmo assim. Há um aspeto que é muito importante: os jovens treinadores têm sabido aproveitar a oportunidade, estavam preparados para aproveitá-la e, às vezes, o Futebol proporciona-nos este tipo de situações, o que é muito diferente da maioria das outras profissões onde se decide por contratar quem tem mais experiência, mais currículo… No Futebol português existe, neste momento, uma forte aposta em jovens treinadores, mas também há treinadores que continuam há muitos anos no Futebol e conseguem dar sinal do seu valor. Mas, de facto, em Portugal faz-se uma aposta muito forte nos jovens treinadores. O que tem acontecido é que alguns deles não conseguem agarrar a oportunidade e, salvo raras exceções, depois acabam por se perder pelo caminho. E isso é que é mau…
Bola na RedeAcha que têm havido apostas precipitadas em alguns treinadores?
José Mota: Não vale a pena estarmos aqui a enumerá-las, mas sabemos que há muitas decisões no Futebol português que acabam por não ser benéficas para ninguém: nem para os clubes, nem para os próprios treinadores. A alguns treinadores foi-lhes dada uma oportunidade, mas, entretanto, já foram esquecidos. A verdade é que, neste momento, há muito poucos treinadores de carreira a trabalhar, principalmente nos campeonatos profissionais. E quando digo treinadores de carreira, digo treinadores com dez, 15, 20 anos de Futebol… Há muito, muito poucos… E sabemos porquê.
Bola na RedePorquê?
José Mota: Primeiro, porque é preciso ter muitas qualidades para se manter ao mais alto nível; segundo, porque os treinadores são facilmente descartados independentemente do currículo que tenham. E ainda são apelidados de estarem “ultrapassados”, quando o futebol nem sequer é isso. Em todas as outras carreiras pensa-se ao contrário, não é? Quando queremos contratar um advogado, o que fazemos? Procuramos um que seja experiente. Quando temos de ir para o hospital, para fazer uma cirurgia, queremos o cirurgião mais experiente, não é? Isso é importante, não é? No Futebol, parece que é um bocadinho ao contrário, mas pronto… Não estou a dizer que os jovens treinadores não têm valor, mas parece-me que se está à procura de novos talentos de uma forma, se calhar, desorganizada.
Bola na RedeTambém não se instalou uma dinâmica de mercado de treinadores, que antes não existia? Os clubes, hoje, também fazem apostas que, mais tarde, permitem vender treinadores por milhões…
José Mota: Também, também. Já começa a existir esse tipo de estratégia. Muitas vezes, a frase que os presidentes utilizam é: “Olha, pode ser que dê certo”. E, se der certo, não há problema nenhum… E, depois, há ainda uma série de fatores financeiros, porque, normalmente, estes jovens treinadores também são mais acessíveis, mais baratos. Claro que, por vezes, o barato sai caro.
Bola na RedeOs treinadores têm a difícil tarefa de liderar um grupo de trabalho cheio de vedetas… Lembra-se do jogador que mais “dores de cabeça” lhe deu?
José Mota: Tive alguns jogadores difíceis… Lembro-me de um que era muito irreverente, que até acabou por fazer uma grande época comigo no Paços de Ferreira [em 2000/2001] e, por isso, no ano seguinte acabou por se transferir para o FC Porto. Era um jogador com muita qualidade, mas que não aceitava muitas vezes as regras do próprio Futebol: o Rafael. Muitas vezes, queria fazer as coisas à maneira dele e nós sabemos que o Futebol não pode ser assim. E os treinadores também não podem deixar que isso aconteça. Era um jogador que era muito irreverente, mas, naturalmente, com as lideranças exercidas, ele lá acabava por cumprir as regras.
Bola na RedeAinda mantém objetivos e sonhos por cumprir?
José Mota: Claro que sim. Tenho 57 anos, mas também sei que ainda tenho muito para dar. A minha carreira tem sido sempre alicerçada de forma sustentada. Não sou pessoa de me deslumbrar, bem pelo contrário. Sei o percurso que fiz, sei que tenho mais de 400 jogos na 1.ª Divisão, mais de 700 no futebol profissional, sei que isso é tudo importante, mas não me deixo adormecer. O que conquistei – quatro subidas à 1.ª Divisão, dois títulos de campeão nacional da 2.ª Divisão, uma Taça de Portugal, o apuramento para a Liga Europa –, faz-me olhar para trás e ter orgulho. Já houve colegas seus que fizeram essa estatística e sei que sou o treinador que deu a oportunidade a mais jogadores de atuarem na 1.ª Divisão, muitos deles jovens, que depois chegaram à seleção A. E isso dá-me muito gosto… Mas continuo a olhar em frente. A pensar no dia de amanhã, motivado como no primeiro dia de carreira.
Bola na RedeTeve uma experiência no estrangeiro, embora curta, ao serviço do CS Sfaxien (da Tunísia). Gostava de repetir uma aventura lá fora?
José Mota: Gostava. E tenho esse objetivo. Gostei muito da experiência na Tunísia, o único problema é que tivemos dificuldades financeiras e comecei a ter salários em atraso. Acabei por ter de vir embora, apesar de, em termos de resultados, as coisas estarem a correr de forma muito positiva. Em meio ano, cheguei às meias-finais da Taça das Confederações da CAF e, em termos de campeonato, também estávamos muito bem. Mas as dificuldades financeiras que o clube atravessava na altura – criando muitas dificuldades não só à equipa técnica, mas também aos jogadores – acabaram por ditar o meu regresso a Portugal.
Bola na RedeRegressa a Portugal para fechar a época 2017/2018 no Desportivo das Aves e acaba por conquistar a Taça de Portugal de forma completamente surpreendente. É o momento alto da sua carreira?
José Mota: Sim, claro. Se é muito difícil chegar a uma final da Taça de Portugal para um clube como o Desportivo das Aves, então vencê-la… ainda mais difícil é. Chegar à final da Taça de Portugal foi sempre um sonho de menino… Vencê-la foi simplesmente deslumbrante. É um momento único e foi o maior momento que tive na minha carreira no Futebol. Foi muito bonito. Aquela final será sempre histórica, a qualidade que demonstramos naquele jogo, tudo resolvido em 90 minutos, sem prolongamento, sem grandes penalidades, contra uma equipa com a qualidade do Sporting… Foi lindo de ver e foi unânime que o Desportivo das Aves mereceu aquela conquista.
Bola na RedeE como vê o que aconteceu ao Desportivo das Aves apenas um ano depois? Depois do céu, o inferno… Acredita no conceito de sucesso das SAD no futebol português?
José Mota: Acho que sim. Aliás, por esse mundo fora vemos que muitos dos grandes clubes estão organizados dessa forma. Vamos a Inglaterra e quase todos os clubes são acompanhados por investidores… Agora, as pessoas que entram para dirigir essas SAD têm de perceber as necessidades dos clubes e aquilo que tem de ser feito. O que acontece, muitas vezes, é que os investidores são estrangeiros e entrega-se as SAD a meia dúzia de pessoas que não têm qualidades para gerir a própria casa, quanto mais um clube. E o que se passou no caso do Desportivo das Aves foi um bocado isso… Quando não sabemos gerir a nossa própria casa, como vamos gerir a casa dos outros? Temos de compreender os aspetos que fazem com que as SAD não funcionem… E o Desportivo das Aves acabou por ser isso que aconteceu. Era um clube que estava em crescimento, que se estava a cimentar e, depois, acaba por acontecer isto… Basta recordar a falta de inscrição nas competições europeias, quando ganhamos a Taça de Portugal, o que acabou por ser uma mancha naquele momento. É algo que não pode acontecer num clube que ganha a Taça de Portugal, uma situação inacreditável. Essa falta de organização acabou por ditar a queda do clube. A culpa é das pessoas que estiveram à frente da SAD do Desportivo das Aves que acabaram por fazer ruir um projeto muito interessante, que poderia ter futuro.
José Mota é o novo treinador do Leixões. O técnico, de 56 anos, está de regresso ao Mar, depois de ter orientado o clube entre 2008 e 2010. Em 2008/09 conduziu o Leixões ao sexto lugar na Liga.
José Mota assinou contrato até junho de 2022.
Bem-vindo, José Mota 💪 pic.twitter.com/wkBkVVGCZG
— Leixões SC – Futebol, SAD (@leixoessad) January 5, 2021
Bola na RedeO José Mota vive agora outra fase da sua carreira num clube que conhece bem: o Leixões. Quais são os objectivos neste momento?
José Mota: O que me trouxe ao Leixões foi uma questão afetiva. Tive aqui dois anos muito bons, na altura, na 1.ª Divisão. As pessoas trataram-me sempre muito bem, foram sempre muito importantes para mim. O Henrique Calisto e o presidente André [Castro] fizeram-me vir para o Leixões para tentar ajudar. Acho que cumpri o meu papel. E, neste momento, estamos já a pensar na próxima época. Vamos ver o que é possível fazer. Temos que ser mais competitivos. Mas lutar sempre fez parte da forma de ser destas gentes de Matosinhos, que vão de certeza querer ter uma equipa forte para fazer uma melhor campanha no campeonato da próxima época.
Artigo revisto por Gonçalo Tristão Santos











