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Os salpicos da chuva miúda transtornam quem circula pelas ruas. Perante o risco de intempérie, o Estádio José Gomes abre portas para oferecer abrigo à conversa com Ricardo Chéu. O tricolor das bancadas destoa do cinzento do céu e ao relvado aparam-se-lhe as pontas para que fique na medida certa. Com 40 anos, o treinador do CF Estrela da Amadora consegue ser dos elementos mais velhos da estrutura de um clube revitalizado, que vai ao passado buscar inspiração para o presente. Fluente em futebolês e fã incondicional de dinâmicas, abre o jogo para explicar as ideias que tem para o clube da Segunda Liga sobre o qual lança perspetivas ambiciosas.
– Pensar o jogo –
«O jogador está sempre à espera que aconteça algum tipo de incoerência para ter a razão do lado dele»
Bola na RedeVeio valorizado do estrangeiro enquanto treinador?
Ricardo Chéu: Estive três anos fora do país. Se me perguntassem se estaria à espera de ter o mercado aberto de uma forma mais clara, estava. Tive uma experiência fantástica em Itália, uma experiência na Eslováquia – que é pouco visível em Portugal, mas que tem qualidade ‑, depois, estive numa equipa de Liga Europa. Às vezes, precisamos de passar por essas experiências para nos tornarmos mais ricos, vermos as coisas de uma forma diferente e darmos valor a coisas que, enquanto estamos no mercado português, não damos. Sinto-me valorizado, em termos pessoais. Fora daquilo que é o aspeto individual, não tenho tanta certeza que me tenha aberto portas. Tive uma possibilidade forte de treinar uma equipa de Primeira Liga. Não se concretizou e, entretanto, tive apenas algumas de Segunda Liga. De qualquer maneira, continuo focado naquilo que é o meu caminho. Ainda sou um treinador jovem, independentemente de já ter muitos jogos como treinador profissional, quer em Portugal, quer fora de Portugal, acredito muito que posso dar um passo ainda maior e chegar a outros patamares no futebol português.
Bola na RedeEm 2020/21, não esteve no ativo. Essa paragem deu-lhe tempo para estudar o jogo?
Ricardo Chéu: Estive de fora por opção muito própria. Primeiro, por questões pessoais. Depois, porque achei que os projetos que me apareceram não foram aliciantes para aquilo que queria em termos de continuidade para a minha carreira. Vinha de um projeto de Liga Europa, o FC Spartak Trnava, e sentia que estava preparado para um projeto mais sustentado. Deu para fazer uma reflexão sobre estes anos em que estive sempre no ativo, nunca parei. Consegui pensar sobre a forma como vejo e entendo o jogo. Também serviu para ver outras ideias. Como disse um colega meu, um treinador é um ladrão de ideias.

Bola na RedeNesse período de reflexão, onde é que foi roubar mais ideias?
Ricardo Chéu: Sou fã de treinadores que ganham mais vezes. Existem alguns treinadores com quem me identifico muito. Começando pelos portugueses, temos o caso do Luís Castro, que é alguém que admiro muito pelo discurso e pela forma como subiu na carreira, o Paulo Fonseca, que tem um ADN muito vincado no que pretende para as suas equipas, e o Carlos Carvalhal, que consegue transpor para o campo aquilo que são as vertentes universitárias. Em termos de treinadores estrangeiros, o Bielsa, que é alguém que admiro ao nível do treino, pois faz um treino fragmentado. Gosto de seguir treinadores italianos devido à experiência que tive em Itália. Passei a ser um amante do futebol italiano pelo detalhe, pela forma como os treinadores trabalham as equipas em termos defensivos.
Bola na RedePara um treinador ter sucesso, o que é mais importante? Bases académicas, experiência como jogador, ser apenas treinador…
Ricardo Chéu: É tudo importante. Não existem bons nem maus treinadores por serem antigos jogadores, por serem professores, por serem outro tipo de profissões. Acredito muito que a competência e a forma como vivenciamos as experiências nos torna melhores treinadores. Não sou daqueles que pensa que apenas ex-jogadores podem ser treinadores. Cada vez mais percebemos que o treino tem um papel fundamental, mas cada vez mais somos uns gestores do que são as expectativas dos jogadores. Os jogadores são todos diferentes. Não acredito que devam ser todos tratados por igual. Temos que perceber que uma abordagem funciona para um jogador, mas para outro não. O mais difícil para um treinador é manter a coerência ao longo de uma época desportiva. O jogador está sempre à espera que aconteça algum tipo de incoerência da parte do treinador para ter a razão do lado dele. Esse é o aspeto mais difícil para se manter um plantel animado, unido e a defender a ideia do treinador.
Bola na RedeCapacidade agregadora?
Ricardo Chéu: Exatamente. Antigamente, dizia-se que o treino tinha uma percentagem muito importante naquilo que queremos ver no jogo. Isso é verdade, mas cada vez mais temos que perceber que quem interpreta as nossas ideias são os jogadores e se eles não estiverem connosco será muito difícil passarmos a matriz que queremos para a nossa equipa.
– Estrela guia a ambição –
«No Estrela consegui encontrar uma linha orientadora»
Bola na RedeO que o atraiu no projeto do Estrela da Amadora?
Ricardo Chéu: Costumo dizer que no futebol é difícil encontrar projetos. Na semana em que vim para cá, tinha tido uma oportunidade de ir para outra equipa de Segunda Liga, mas acabei por optar pelo Estrela pela forma como me foi apresentado o projeto pela pessoa do presidente André Geraldes. No Estrela consegui encontrar uma linha orientadora. É difícil encontrar isto no futebol português. Nós vivemos única e exclusivamente de resultados. Sabemos para onde estamos a caminhar.
Bola na RedeE para onde é que estão a caminhar?
Ricardo Chéu: O Estrela está a caminhar a passos largos para chegar à Primeira Liga, embora, neste momento, o nosso objetivo seja crescer enquanto equipa e solidificarmos a nossa posição nos campeonatos profissionais para, no futuro, podermos disputar outro espaço. Não existe a responsabilidade de subir o Estrela imediatamente. Existe uma ambição enorme e uma linha orientadora que queremos seguir, mas não pomos a subida como principal objetivo. O que tenho a certeza é que, o Estrela da Amadora estará de volta à Primeira Liga nos próximos anos.
Bola na RedeE em termos de potencialização de jogadores?
Ricardo Chéu: No Estrela, isso está mais do que visível. Temos maioritariamente jogadores que não tinham experiência de campeonatos profissionais. Alguns dos jogadores que já tinham jogado na Segunda Liga, estão a aparecer melhor do que nunca agora. Temos jogadores como, por exemplo, o Diogo Pinto que no ano passado teve dificuldades em afirmar-se no UD Vilafranquense e que este ano é um jogador de destaque na Segunda Liga. É claramente dos melhores, se não o melhor jogador jovem desta Liga, tem um futuro brilhante. Temos o caso do Paulinho que há bem pouco tempo estava no distrital, e que, hoje em dia, é dos melhores marcadores da Segunda Liga. Podia falar de inúmeros jogadores jovens com um potencial enorme que estão neste plantel e que podem aparecer rapidamente ao mais alto nível em Portugal ou até lá fora.

Bola na RedeNão ter sido o mister a construir este plantel dificultou-lhe a tarefa na chegada ao clube?
Ricardo Chéu: Não dificultou. Fiz um estudo prévio individual e coletivo da equipa. Percebi que existiam jogadores que não estavam a jogar e que eu sabia que iam ter um papel importante na minha forma de jogar. Naturalmente, não dá para jogarem todos. Num plantel, existem sempre jogadores que vão jogar mais do que outros, mas isso não significa que os outros sejam menos importantes. Os que jogam menos ajudam a que a equipa cresça no processo de treino.
Bola na RedeCom a velocidade do mercado, a partir do momento em que se recebe uma proposta de um clube, há tempo para analisar os jogadores e se é possível implementar a ideia do treinador naquela equipa?
Ricardo Chéu: Quem estiver à espera de um projeto sem estudar essa possibilidade, está atrasado no futebol. Antes de vir para o Estrela da Amadora, tinha um conhecimento total daquilo que eram as minhas prioridades, quer das equipas da Primeira Liga, quer das equipas de Segunda Liga. Logo aí, tinha um conhecimento geral de todos os plantéis. Nós sabemos o tipo de perfil de jogador que existe em quase todas as equipas. Conhecemos 95% dos jogadores que estão neste nível. Existe sempre 5% que podem aparecer de patamares inferiores que são desconhecidos para nós, mas que acabamos rapidamente por identificá-los e perceber em que patamar estão. Acredito que o treinador tem que fazer essa preparação prévia. Não pode estar à espera única e exclusivamente que o telefone toque para ir para uma equipa e acreditar que apenas com a sua forma de liderar vai dar a volta ao processo. Tem de haver essa identificação com o plantel.
Bola na RedeAtravés do mercado de jogadores livres, conseguiu adaptar o plantel um pouco mais às suas ideias?
Ricardo Chéu: Sim e mesmo com alguns jogadores que estavam aqui, mas a jogar noutras posições. Acabei por adaptá-los a uma forma diferente de ver o jogo. Temos o caso, por exemplo, do Mamadou Traoré que, no passado, foi um jogador que jogava como médio defensivo e que nos últimos anos estava a jogar como defesa-central. Ao fim e ao cabo, foi potenciar um jogador que é uma mais-valia na posição de médio defensivo. Acabou por acontecer esse reajuste. Olhámos para dentro e vimos o que os jogadores nos podiam dar noutras posições e noutras dinâmicas.
– Dinâmicas, controlos e pressões –
«No futebol é preciso introduzir sempre algo novo. Se formos estáticos no processo, vamos ser facilmente anulados»
Bola na RedeSe tivesse que caracterizar estruturalmente a equipa do Estrela, como é que o faria?
Ricardo Chéu: No futebol, não acredito em sistemas, acredito em dinâmicas. Quando falamos em sistemas táticos, falamos em peças numa estrutura parada. Acredito que o futebol é comportamental e, por isso, temos que influenciar os jogadores a interpretar essa dinâmica. O Estrela começou a jogar comigo numa estrutura de 4-3-3, mas num processo defensivo em que mantinha quatro defesas, três médios na mesma linha – não tínhamos médios assimétricos, um seis, um oito e um dez, como é normal – os três da frente com um ponta de lança mais posicional, com os alas a fazerem movimentos circulares para pressionarem de fora para dentro. Se calhar, em termos defensivos falaríamos em 4-3-3. No entanto, rapidamente, nos desdobrávamos, em termos ofensivos, num 3-4-3. Construímos a três, com um lateral metido por dentro. Aí, já estávamos a falar numa estrutura diferente, por isso, é que acredito muito nas dinâmicas.
Bola na RedePorquê optar por esses três médios em linha? Por um lado, maior controlo da largura, mas, eventualmente, mais vulnerabilidade face ao jogo entre linhas do adversário?
Ricardo Chéu: Pode ser visto de várias formas. Um dos motivos para se jogar dessa forma será garantir essa largura em termos de meio-campo. Temos que ter três jogadores extremamente concentrados e inteligentes na abordagem ao jogo nos diferentes momentos. Os jogadores que jogavam nessa dinâmica tinham, em termos defensivos, uma competência muito grande. Mesmo quando tivesse que sair um em pressão, os outros dois estavam num trabalho de cobertura constante. Não senti, naquilo que eram as nossas análises, que as equipas nos tentassem explorar o espaço entre linhas. O que nós queríamos com a dinâmica de meio-campo tinha muito a ver com aquilo que eram os movimentos circulares dos nossos alas na perspetiva de condicionar o jogo dos nossos adversários para dentro, de modo a termos superioridade interior no nosso meio-campo. Quando condicionávamos para dentro, encontrávamos a equipa adversária mais exposta para a nossa possível saída em transição. Um dos grandes princípios que tínhamos era no momento de recuperação de bola ler imediatamente a profundidade. Foram dinâmicas que foram criadas e que tiveram o seu efeito. Em termos estruturais, estamos a mudar um pouco a nossa forma de jogar, o que também tem a ver com as características dos jogadores que temos disponíveis. Já não estamos com a mesma dinâmica com que estávamos no início, porque acredito que no futebol é preciso introduzir sempre algo novo. Se formos estáticos no processo, vamos ser facilmente anulados.
Bola na RedeEssa adaptação é feita consoante o adversário ou devido à evolução da ideia do treinador?
Ricardo Chéu: Da ideia. Não podemos andar em função do adversário. Existem pontos que não podemos dizer que o que conta é única e exclusivamente a nossa ideia. Temos que explorar os pontos fracos do adversário. Há alturas em que achamos que é pertinente que os nossos movimentos, que os nossos referenciais de pressão, que a forma como estamos a condicionar sejam feitos de forma diferente, mas essa é a parte do plano estratégico que temos para o jogo. E não tem a ver com a nossa dinâmica, nem com aquilo que pretendemos em termos de equipa.

Bola na RedeMencionou também a ideia de pressionar de fora para dentro. Como a baliza está no corredor central e é aí que se pode fazer golo, normalmente, procura-se orientar a pressão para fora?
Ricardo Chéu: O problema é que, muitas vezes, só pensamos no momento. Temos que pensar sempre também no momento a seguir do jogo. O jogo não é uma verdade absoluta, em que nós queremos direcionar o adversário para um lado e vão acontecer determinadas coisas. A nós interessa-nos atacar o corredor central, que é onde está a baliza, e não os corredores laterais. Eles não jogam onde querem, nós vamos direcioná-los para onde queremos que eles joguem. Queremos direcioná-los para ali, porque achamos que temos vantagem em fazê-lo. Se estamos a convidar o adversário a jogar para dentro, é porque o momento da recuperação vai acontecer no corredor central, que é o nosso principal alvo. Já estou a pensar no momento em que vou ganhar a bola e no que vou fazer. Dá para ler a profundidade? Lemos, de uma forma objetiva, para atacar a baliza. Não dá? Vamos gerir a bola.
Bola na RedePor exemplo, no primeiro jogo que fez ao comando do Estrela recorreu a dois homens móveis na frente. Entretanto, noutros jogos, já optou por utilizar um ponta de lança de referência. Que estímulos é que o fazem, de um jogo para o outro, alterar essa situação?
Ricardo Chéu: Temos que situar as coisas no tempo. No primeiro jogo que fiz no Estrela da Amadora, tive apenas três treinos. O que quis nesse jogo foi dar um pouco de continuidade aos jogadores. O conhecimento que nós temos é muito, mas no processo de treino começamos a testar as nossas ideias. A equipa que jogou os dois primeiros jogos não tem nada a ver com esta equipa em termos de dinâmica.
Bola na RedeOnde é que evoluiu?
Ricardo Chéu: Evoluiu a partir do momento em que temos tempo para treinar. Com um microciclo normal, conseguimos testar e treinar aquilo que queremos. Quando isso não acontece, temos que ser muito cirúrgicos, olhar para o processo de recuperação e treinar em baixas intensidades. A equipa mudou muito em termos de intensidade. Somos muito mais intensos e temos muito mais posse de bola. Acredito que o Estrela da Amadora, desde a minha chegada até agora, será das equipas que tem sempre mais posse de bola que o adversário. Fomos sempre uma equipa dominadora que conseguiu controlar o processo com bola e sem bola. Não é só ter bola que nos permite ter esse controlo. Muitas vezes, sem bola, também conseguimos estar a controlar o jogo.
Bola na RedeMas em que pontos concretos é que a equipa melhorou?
Ricardo Chéu: Em termos de golos marcados. Acabamos sempre por fazer muitos golos, através de um futebol ofensivo. Sentimo-nos confortáveis em ter bola, temos boas dinâmicas e estamos a valorizar ativos. Perceber que, jogo após jogo, os jogadores do Estrela são destaque é bastante importante para mim enquanto treinador. Ver uma equipa equilibrada, uma equipa que tem sempre os controlos do jogo, uma equipa que tem alternativas na sua dinâmica, que tem um plano A e um plano B, deixa-me extremamente feliz. Os jogadores passam o que fazemos no treino para o jogo, o que é sinal de que estão focados no processo.
– Tesouros da Amadora –
«A direção sabe que há grandes equipas que querem os nossos jogadores»
Bola na RedeUm dos destaques individuais tem sido o Diogo Pinto. O que é que o mister considera que o Diogo é?
Ricardo Chéu: É claramente um médio ofensivo. Mesmo que possa jogar num corredor, terá sempre as características de vir para dentro, onde se sente confortável. Explora e sabe ler muito bem o espaço interior. É um jogador de eleição do ponto de vista do requinte técnico e definição. Também tem muito golo. Não é por acaso que é um dos melhores marcadores da Segunda Liga. Tem essa capacidade de inventar e reinventar situações. Acima de tudo, o Diogo é um jogador competente e focado. Isso é algo muito positivo e que o fará dar outros passos. Tem um foco enorme no compromisso coletivo. O individual de nada vale se não houver esse compromisso coletivo.
Bola na RedeUtilizar um lateral tão ofensivo como o Sérgio Conceição beneficia a dinâmica de procura de jogo interior do Diogo Pinto, pois o jogo pelo corredor também está assegurado?
Ricardo Chéu: Sim. O Sérgio Conceição tem uma intensidade muito grande. É capaz de ir e vir durante o jogo todo. Estamos sempre à espera que um jogador com a rotação do Sérgio Conceição nos acelere e rompa o corredor, como ele o faz tão bem. É um lateral extremamente influente na dinâmica da equipa. Por isso é que quando contruímos a três o fazemos, por exemplo, com o Afonso Figueiredo por dentro e com o Sérgio responsável pelo corredor, porque tem capacidade física para o fazer e capacidade técnica para cruzar muito bem. Isto também é um pouco do que eu pretendo para as minhas equipas. Comigo, os laterais saem sempre muito valorizados.
3️⃣ golos em doze minutos é obra 🏗😯 (E é 𝗠𝗼𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 @sabsegseguros 🎞 da 𝗝𝗼𝗿𝗻𝗮𝗱𝗮 também!)
Coloca toda a tua atenção neste post e desfruta do ℍ𝔸𝕋-𝕋ℝ𝕀ℂ𝕂 ✨ de Diogo Pinto!@vsports_pt #LigaPortugal #MinhaCidadeMeuClube #criatalento pic.twitter.com/zEPeF6f5lR
— Liga Portugal (@ligaportugal) October 14, 2021
Bola na RedeNão acaba por ser um pouco contraproducente com a ideia de apostar no corredor central para visar a baliza contrária?
Ricardo Chéu: Não é, porque normalmente quem joga nos corredores são jogadores tecnicamente evoluídos, com capacidade de romper, de explorar espaços interiores, de forçar o um contra um, de forçar o último passe. Temos que perceber que o lateral, quando se envolve no ataque pelo corredor, está a ver o jogo de trás para a frente, consegue ler o jogo todo. O extremo muitas vezes está de costas para a linha defensiva e tem de explorar o espaço interior e criar espaço para outro aproveitar ou ele aproveitar. Essa é uma das dinâmicas que muitas vezes crio nos treinos. Um jogador tem que ser capaz de aclarar espaços para receber a bola e se não for para ele receber, para outro receber. É o jogo do gato e do rato.
Bola na RedeOs destaques individuais podem levar à saída de jogadores no mercado de janeiro? Se isso acontecer, as aspirações do Estrela subir na classificação podem ser hipotecadas?
Ricardo Chéu: Sabemos que isso é um risco que corremos, mas é um risco que todas as equipas correm quando têm bons jogadores. O Estrela tem um plantel jovem, com muitos jogadores de valor e que têm ambições próprias de poderem dar outros passos na carreira. A direção sabe que há grandes equipas que querem os nossos jogadores. A nós cabe-nos encontrar soluções para, caso existam essas saídas, colmatar. Claro que o processo precisa de tempo para crescer e, se calhar, poderá haver um retrocesso na evolução, porque terão que vir outros jogadores que necessitam de fazer uma adaptação à nova ideia. Não é algo que me preocupa enquanto treinador. Se eles saírem, temos pessoas capazes dentro do grupo que estão à espera dessa oportunidade e que trabalham diariamente para a terem. O futebol cada vez mais é um negócio e os clubes também precisam dessas vendas para, no futuro, darem passos mais consistentes e poderem apostar um bocadinho mais forte.
Paulinho 🤝 @diogopinto_99, uma dupla que dá 🍊🍍 𝗚𝗢𝗟𝗢𝗦! ⚽
Dos 13 tentos registados pelo CF Estrela Amadora esta época, na #LigaPortugalSABSEG, 𝟭𝟭 saíram da conta 📝 de Paulinho (4) e Diogo Pinto (7)!
Irão prolongar o bom momento na próxima jornada? 👀#LigaPortugal pic.twitter.com/s0OTMlIBjq
— Liga Portugal (@ligaportugal) October 21, 2021
Bola na RedeTendo em conta a ideia de jogo, onde é que um Diogo Pinto ou um Paulinho encaixariam bem numa equipa de Primeira Liga?
Ricardo Chéu: O Diogo tem características que permitem atuar em diferentes perfis. Naturalmente, é um jogador que tem uma melhor identificação numa equipa que tenha uma elevada percentagem de posse de bola e que seja dominadora. No entanto, também pode jogar numa equipa do meio da tabela para baixo na Primeira Liga que aposte mais na transição. Uma das características em que ele melhorou muito foi a questão defensiva. A solidariedade e o compromisso fazem-me crer que está preparado para jogar numa equipa que tenha menos bola e está preparado para depois, quando tiver a bola, definir bem o último passe ou sair do adversário de um para um. Acredito que pode chegar a um patamar extremamente elevado. O Paulinho tem características diferentes. É um jogador que vem num processo de maturação diferente de aprender o jogo. Tem um potencial enorme também. Os números são muito interessantes para a idade dele. Sabemos que um ponta de lança precisa de tempo para ser consistente nos números, mas a verdade é que o Paulinho tem vindo a provar que tem números suficientes para poder contribuir com bons números na Primeira Liga. É um ponta de lança mais móvel, precisa de mais espaço para decidir melhor, porque são as características dele. Ainda assim, tem vindo a trabalhar para ter essa variabilidade no seu jogo: ser posicional ou a jogar no espaço.
Bola na RedeNa análise que faz aos seus pontas de lança, que valor dá aos números?
Ricardo Chéu: Os números são sempre importantes para o jogador. Os pontas de lança vivem de golos. É um aspeto motivacional importante. Um ponta de lança, se fizer golos, sente-se mais motivado para a tarefa. Passar largos jogos sem fazer golos, por muitas assistências que faça, por muito que trabalhe, será sempre algo que deixa o jogador desmotivado. Acreditamos que os números são importantes para a evolução deles. Dizemos sempre que queremos um ponta de lança bom, barato e que faça golos. No entanto, se for um jogador que tenha a capacidade de criar muitas oportunidades para a equipa finalizar e a equipa tenha sucesso ofensivo, aí o número de golos passa para um plano secundário.
– Futebol de valores –
«Se virmos que o Estrela tem condições para lutar por algo mais, não viraremos a cara»
Bola na RedeComo é que perspetiva o resto da época do Estrela?
Ricardo Chéu: O mais importante é o próximo jogo. Estamos inseridos num campeonato muito competitivo. A Segunda Liga é dos campeonatos mais difíceis do mundo. Uma equipa ganha dois ou três jogos e está no topo, perde dois ou três jogos e está no fundo. Vamos entrar na segunda metade do campeonato. Tirando o Benfica B que não conta para a subida, vemos que existem cerca de dez equipas separadas por poucos pontos. Basta uma equipa perder dois jogos e cai do primeiro lugar para o décimo. Queremos sempre ser competitivos no próximo jogo. Se entrarmos no último terço do campeonato e virmos que o Estrela tem condições para lutar por algo mais, não viraremos a cara. Temos que ter os pés bem assentes no chão. Este é o ano zero do Estrela nos campeonatos profissionais. Somos uma equipa que veio de um campeonato inferior e que se está a adaptar a uma nova realidade. O Estrela tem uma massa associativa de Primeira Liga e isso traz-nos responsabilidade.
Bola na RedeA competitividade da Segunda Liga traduz-se em espetáculo?
Ricardo Chéu: Em alguns jogos sim, não em todos. Há jogos que são muito pragmáticos, porque ainda existe a ideia de se jogar para o resultado, o que faz com que o espetáculo não seja valorizado. Aos poucos isso está a desaparecer. O perfil do jogador de Segunda Liga é diferente do perfil do jogador de Primeira Liga. A Segunda Liga é muito mais agressiva, parece que há menos espaço no campo, por causa dessa agressividade. Por vezes, a agressividade tira a espetacularidade ao jogo, porque o torna menos técnico.
Bola na RedeQue papel tem que desempenhar o treinador nesse ano zero do Estrela?
Ricardo Chéu: Cada vez mais o treinador tem que pensar de uma forma macro. O processo de treino é importante, mas o trabalho do treinador não é única e exclusivamente o treino. Existe uma série de variabilidades na dinâmica do clube que se devem ajustar ao que nós queremos. Felizmente, encontrei dentro da estrutura pessoas com experiência de outros patamares que percebem o papel do treinador na formação e desenvolvimento da equipa. Há abertura total para o treinador mudar algumas coisas.
Bola na RedeHá pouco tempo, o mister esteve com Álvaro Pacheco numa conferência de imprensa conjunta. O que é que isso diz da postura que gosta de adotar dentro do futebol?
Ricardo Chéu: Uma coisa que gosto sempre de transmitir são os valores. Os valores humanos são mais importantes do que tudo. Temos que admitir que muitas vezes o adversário é mais forte. Se o admitirmos com fair-play, só temos a ganhar. Nesse jogo, o FC Vizela foi superior a nós. Perdemos e perdemos bem. Acima de tudo, é dar uma transparência maior ao que envolve o futebol.
Isto é de louvar! 👏
Álvaro Pacheco e Ricardo Cheu analisaram lado a lado a partida desta tarde entre Vizela e Estrela a contar para a Taça de Portugal.
É de mais momentos como este que o futebol precisa.
Parabéns aos intervenientes! 🙌 pic.twitter.com/L98kfb0FBY
— Remate Digital (@RemateDigitalpt) November 20, 2021
Bola na RedeFalta transparência ao futebol português?
Ricardo Chéu: Em alguns momentos, sim. Tenho que admitir que um dos motivos que me fez sair do país, emigrar e procurar outras realidades, foi perceber que existiam algumas coisas com que eu não me identificava no futebol português. Quando voltei, percebi que a falta de transparência que existe aqui também existe lá fora. No futebol, ganhar está acima de tudo. O futebol, às vezes, é muito mais do que ganhar. Temos que perceber que se soubermos formar homens com valor vamos estar mais próximos de ganhar. Se os treinadores são muitas vezes a cara do fracasso, também têm que ser a cara dos valores que querem transmitir.
Bola na RedeCom que treinador gosta ou gostava mais de se sentar à mesa para falar de futebol?
Ricardo Chéu: Já tive essa experiência com alguns treinadores de renome. Gostaria de estar à mesa com José Mourinho e perceber o porquê de ser tão titulado, algo diferente tem que haver. Podíamos falar de treinadores como Jorge Jesus, Sérgio Conceição, Rúben Amorim ou Carlos Carvalhal, que são os treinadores dos clubes grandes. Aprendemos sempre com todos. Serem mais conhecidos ou menos conhecidos é pouco importante nesta perspetiva. Quer seja com um treinador de topo, quer seja com um treinador de um clube mais humilde, estamos sempre a aprender. Aprendemos sempre na vida, nem que seja como não se faz. Já aprendi com outros treinadores como não se faz e retirei coisas positivas disso.
Bola na RedeQue treinador lhe dá mais dores de cabeça na preparação do jogo?
Ricardo Chéu: Em Itália, todos eles eram difíceis, porque eram muito pragmáticos. As equipas jogavam muito no erro. Muitas vezes, tínhamos que tentar desbloquear as dinâmicas defensivas que eles tinham. Existem treinadores em Portugal que, pela sua variabilidade no jogo, nos obrigam a ter uma abordagem ao jogo diferente, porque sabemos que do outro lado vai sempre existir um plano B.
Bola na RedeComo por exemplo…
Ricardo Chéu: Lembro-me de jogar contra o Abel Ferreira, que era um treinador que tinha essa variabilidade no jogo. O Paulo Fonseca e o Luís Castro também. Se olharmos para a realidade da Segunda Liga, percebemos que existem equipas como o SL Benfica B que, pela sua dinâmica individual, nos obriga a estar muito concentrados na leitura que fazemos durante o jogo para dar sinais à equipa de que é preciso mudar algo. Outra equipa é o Casa Pia AC, que tem uma dinâmica muito bem assimilada, são muito fortes nas transições, o mínimo erro defensivo coloca-nos em dificuldades. Mesmo assim, temos um conhecimento tão grande dos nossos colegas que eu digo aos elementos da minha equipa técnica que sei perfeitamente qual vai ser a abordagem dos treinadores. Jogamos muitas vezes uns contra os outros e percebemos o que é que está do outro lado. O treinador português é diferente dos restantes, mas vamos percebendo internamente o que é que cada um pretende.












