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«Houve contactos tanto do SL Benfica como do FC Porto» – Entrevista BnR com Filipe Teixeira

Redação BnR · 23 min

«Houve contactos tanto do SL Benfica como do FC Porto» – Entrevista BnR com Filipe Teixeira
Foto: Facebook de Filipe Teixeira

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Filipe Teixeira, atualmente com 39 anos, nasceu em França, no centro de Paris numa clínica do Parque dos Príncipes. Filho de pais emigrantes entrou no mundo do futebol na vinda para Portugal, mas quis o destino que ele voltasse ao Estádio que o viu nascer. Teve uma carreira promissora, com passagens por Portugal e Inglaterra, abalada por duas graves lesões em momentos cruciais do seu crescimento. Filipe não desistiu e, já depois dos 30, deixou a sua marca na Roménia e no mundo do futebol. Em mais uma entrevista Bola na Rede, entra em campo Filipe Teixeira, um jogador que é como o vinho do Porto: quanto mais velho melhor.

Foto de Raquel Fernandes

– Os primeiros passos da carreira no Felgueiras de Jorge Jesus e a chegada à Ligue 2 –

“Tive tudo encaminhado para assinar pelo Marselha”

Bola na Rede [BnR]: Nasces em França, filho de pais emigrantes, jogaste num pequeno clube da terra, mas é só quando vens para Portugal que começa a tua aventura no futebol?

Filipe Teixeira [FT]: Sim, mas só passados dois anos. Chego com 10, lembro-me que fui ver se existia escalões de formação no FC Felgueiras, mas não havia, era só a partir dos 12 anos. Cheguei a treinar durante uns meses com os mais velhos e fiz alguns torneios pela escola. Quando já tinha 12 anos finalmente entro no FC Felgueiras e faço praticamente toda a minha formação lá.

BnR: Com que idade assinas o teu primeiro contrato profissional?

FT: Assino aos 16 anos quando começo a treinar pelos séniores, na altura treinados pelo Jorge Jesus. Não jogava, apenas treinava com eles de vez em quando, mas tive de deixar os estudos para segundo plano. Aos 17 anos, aposta de Diamantino Miranda, Jorge Castelo e com ajuda do Rui Luís, que era o meu treinador no Felgueiras, começo a fazer uns treinos para colmatar saídas do plantel. Lembro-me bem, estava na bancada a assistir ao treino e precisavam de um jogador para de tarde, o meu treinador dos juniores sugeriu-me, fiz o treino e no fim disseram-me logo que queriam que eu continuasse. Fiquei contentíssimo.

BnR: Rapidamente começaste a ser titular e a jogar com regularidade na segunda Divisão portuguesa…

FT: Fui uma das apostas do Diamantino Miranda. Recordo-me que no meu primeiro jogo entro no decorrer da segunda parte, mas acho que de resto fui titular praticamente em todos os jogos.

BnR: Nesse ano entras na convocatória para representar Portugal no Europeu de sub-18 na Suécia, onde venceram a competição. Como foi lidar com o facto de teres sido campeão europeu e titular na Segunda liga com 17/18 anos?

FT: Para ser sincero, acho que não tive muita noção na altura (risos). Eu sempre gostei de futebol e o meu objetivo sempre foi tornar esta paixão no meu trabalho e acabou por acontecer naturalmente. Não tive tempo de assimilar tudo.

BnR: Entretanto deixas o Felgueiras por empréstimo e regressas a França para representar o Istres na Segunda Divisão Francesa.

FT: Assinei, mas antes tive tudo encaminhado para assinar pelo Marselha. Era um contrato de quatro anos, mas as coisas acabaram por não correr bem e assinei por empréstimo com o Istres.

BnR: Como surgiu o Marselha?

FT: O Marselha surge porque me observaram no Europeu de sub-18 na Suécia e no fim da época disseram-me que estavam interessados. Na altura o meu empresário tinha comprado o meu passe ao Felgueiras, ou seja, o negócio dependia simplesmente do seu aval. Estive duas semanas em Marselha a treinar com o plantel, mas devido a questões burocráticas e financeiras o negócio acabou por não se concretizar.

BnR: Acabas por ir para o Istres. Como é que lidaste com o facto de não teres assinado pelo um grande da Ligue 1 e acabar na Ligue 2?

FT: Eles aparecem nos últimos dias de fecho do mercado de transferências, assinei, mas já estava a pensar em ficar só seis meses. Como é óbvio fiquei descontente por não assinar com o Marselha, mas pronto, na altura era novo e a minha preocupação era jogar e tendo em conta as circunstâncias foi a minha segunda melhor opção.

BnR: Visto que nasceste em França e sabes falar a língua, a adaptação foi fácil?

FT: Nesse aspeto foi. O que não foi fácil foi o facto de aos 19 anos ter que ir para França sozinho e estar longe da família. Mas como falava a língua adaptei-me bem, foi uma boa experiência e acabei por ficar lá um ano.

“Houve contactos tanto do SL Benfica como do FC Porto”

– Os anos divididos entre Paris e Leiria, até à afirmação na Briosa – 

BnR: Até que finalmente vais jogar para a Ligue 1, numa equipa grande, com as cores do PSG, no estádio que o viu nascer.

FT: Volto onde nasci. Nasci na clínica do Parque dos Príncipes, no estádio, foi um regresso a casa. Estava muito contente, mas é óbvio que para um miúdo da minha idade era tudo muito novo e diferente. Apesar de ter ido para a segunda divisão o interesse dos grandes sempre se manteve, desta vez não foi o Marselha, mas foi o PSG.

BnR: Encontras um plantel recheado de craques e qualidade…

FT: É verdade, mas já na altura quando jogava no Felgueiras tive um plantel assim, com o Fernando Meira, o Pedro Mendes, Lima Pereira… Isso também só me fez crescer e amadurecer rápido no meio deles para competir pelo meu lugar. Eu era visto como uma esperança e trabalhei muito, assim como assimilei muita coisa com os grandes jogadores com quem partilhava balneário. Sabia que por causa dessa qualidade toda do plantel do PSG que se calhar não ia jogar tanto quanto gostaria.

BnR: Nesse plantel jogas com outro português: Hugo Leal. Ajudou-te na adaptação ao plantel?

FT: Ajudou sim, nesse plantel também tínhamos muitos brasileiros, argentinos e espanhóis. Ali toda a gente se entendia bem, falava-se mais um “português/latino” do que Francês (risos). Quando tens vários idiomas que consegues perceber e falar,, a adaptação torna-se muito mais fácil.

BnR: Ainda fazes alguns jogos em Paris, mas acabas por regressar a Portugal, desta vez na Primeira Liga, por empréstimo à União de Leiria. Foste à procura de jogar com mais regularidade?

FT: Isso, sinceramente nem sei bem como surge, sei que o meu empresário na altura, o Jorge Mendes, me liga e diz que em Paris vou jogar pouco, mas que a UD Leiria estava interessada. Eu queria jogar, sabia que ali não ia ter muitas oportunidades e como nunca tinha jogado na Primeira Liga Portuguesa acabei por aceitar.

BnR: Voltas a encontrar um bom plantel, recheado de jovens como Hugo Almeida, Luís Filipe, Douala, João Paulo, que no ano seguinte assinam pelos grandes de Portugal. Jogas ainda com jogadores experientes como Emílio Peixe ou Tiago, que vinha de ganhar a Liga dos Campeões pelo FC Porto…

FT: Sim, tínhamos um bom equilíbrio, o Hugo Almeida era uma grande promessa e o Peixe um grande homem. Portugal sempre teve equipas com muito bons jogadores. Curiosamente faço quase todos os jogos do campeonato a titular, menos contra os grandes, FC Porto, Sporting CP e SL Benfica…

BnR: E sabes o porquê?

FT: Acho que sim. Na altura eram os únicos jogos que tinham transmissões televisivas e, como eu estava emprestado e não fazia parte dos quadros do Leiria, acho que eles aproveitavam esses jogos como “montra” para mostrarem os jogadores da casa e mais tarde conseguir vendê-los.

BnR: No fim da época regressas a Paris. Desta vez foste com a mentalidade que era desta que ganhavas o teu lugar?

FT: Sim, sempre tive essa mentalidade mesmo quando lá cheguei no primeiro ano. Lembro-me de uma conversa que o treinador desse ano teve comigo, o Luís Fernández, a dizer que eu merecia ter jogado mais, só não o fez porque tinha de pôr outros a jogar, mas isto são assuntos que mexem com muitos interesses e não vale a pena falar. Nestes anos ganhamos a Taça de França fui fazendo mais alguns jogos pelo PSG, mas já estava com ideias de sair, para ter mais minutos. Entretanto o treinador veio falar comigo a dizer que eu ia ser aposta, comecei a jogar, marquei um golo só que mudaram de treinador e veio o da equipa B. Conhecia-me bem e gabava o meu estilo de jogo, pensei que este seria o meu momento, mas curiosamente, com ele, joguei ainda menos (risos). Entretanto tive problemas com o meu contrato, tinha umas coisas feitas pelo meu empresário que não eram muito legais, a polícia andava a investigar e a rever todos contratos do clube e tive que me desvincular e vir embora.

BnR: Outro regresso à Primeira Liga Portuguesa, desta vez a representar as cores da Académica.

FT: Exatamente. Fui uma aposta deles, foi um regresso que correu lindamente, mas que foi um bocado manchado por uma lesão no tornozelo, a minha primeira lesão grave, mas acabou tudo por correr bem. Fiz boas épocas pela Briosa e foi um clube que me acolheu muito bem.

Fonte: Académica Sempre

BnR: Essas boas épocas em Coimbra levaram-te a ser muitas vezes associado ao SL Benfica e ao FC Porto, chegando mesmo a sair na imprensa. O que é que aconteceu para nunca ter havido uma transferência?

FT: Houve contactos tanto do SL Benfica como do FC Porto. Primeiro foi o SL Benfica. Estava bem encaminhado, mas, entretanto, por causa da lesão, tiveram medo e disseram-me que preferiam esperar para ver como eu recuperava para decidir se avançavam com a minha contratação. Nunca mais me contactaram. O FC Porto apareceu quando já estava recuperado, era o mister Jesualdo Ferreira que já me conhecia da seleção de sub-20 portuguesa. Sei que na altura tinham vendido o Anderson ao Manchester United e demonstraram interesse em mim. Pediram-me para ir remover os ferros que tinha na perna devido à lesão e que depois iria assinar um contrato de quatro anos. Entretanto muitos interesses se atravessaram no negócio e a transferência acabou por não acontecer.

– A chegada à Premier League com a problemática das lesões pelo caminho –

“Tenho o meu jogo de estreia contra o Liverpool”

BnR: Aparece o West Bromwich, equipa que militava no Championship e paga à Académica perto de um milhão de euros pelo teu passe. Novo país, novo clube e um grande desafio na tua carreira. Como é que reagiste a esta mudança?

FT: Uma liga muito competitiva. Lembro-me que recusei a primeira proposta por ser a segunda divisão, mas depois os meus empresários ligaram-me muitas vezes a convencer-me que estava a perder uma grande oportunidade. Sabia que tinham razão e acabei por aceitar. Foi um dos melhores campeonatos onde joguei e onde se sente por parte dos adeptos a verdadeira paixão pelo futebol.

BnR: Foste campeão do Championship, eleito um dos melhores jogadores do plantel e chegas à tão aclamada “melhor liga do mundo”: a Premier League.

FT: Fomos campeões e foi uma grande época tanto a nível coletivo como individual, só que no fim da época no Champioship, voltei a lesionar-me, agora no joelho. Foi a pior lesão da minha carreira. Recordo-me até que no penúltimo ou último jogo do campeonato que os meus colegas de equipa entraram para o aquecimento com uma camisola com o meu nome, num género de agradecimento. Voltei a Portugal, a Coimbra para recuperar e regresso a Inglaterra mais ou menos em outubro/novembro…

Fonte: Facebook de Filipe Teixeira

BnR: E estreias-te na Premier League.

FT: Tenho o meu jogo de estreia contra o Liverpool. Uma liga incrível, muito competitiva, agressiva, diferente de todas as outras. Temos seis ou sete equipas de topo que praticam muito bom futebol, mas depois temos o resto das equipas, que confesso, na altura me desiludiram um pouco. Praticavam muito futebol direto, sem qualidade e pouco atrativo. Contudo todos os clubes têm grandes planteis e isso deve-se muito ao facto da maior fatia financeira vir dos direitos televisivos. Só para dar uma ideia, uma equipa que desce de divisão recebe um valor a rondar os 40 Milhões ou mais e tem hipótese de voltar a reforçar-se para subir outra vez de divisão.

BnR: Infelizmente é isso que acontece ao West Bromwich que não consegue a manutenção e volta ao Champioship. Nesse ano fazes meia época com eles e a outra metade por empréstimo ao Barnsley. O que é que aconteceu?

FT: Ainda a lesão. Em Inglaterra, eles levam este tipo de lesões muito a sério, pelo facto de ser uma liga de muito confronto físico. Dão-te o prognóstico de regressares passados seis meses, mas avisam-te que nunca são bem esses seis meses. Para voltares quase a 100% demora mais ou menos um ano. E talvez tenham alguma razão. Outro fator foi o treinador ter outros planos para a minha posição. Apreciava jogadores com características diferentes das minhas e é quando surge o Barnsley. Como estava em final de contrato e em toda a minha carreira sempre preferi jogar, aceitei a proposta.

–  Da Ucrânia ao Dubai, até à consagração no futebol romeno –  

“Sempre que havia os sorteios da Liga Europa, torcia para que nos calhasse uma equipa portuguesa”

BnR: Terminas assim a aventura em “terras de sua majestade” e surge a Ucrânia. Assinas pelo Metalurh Donetsk. Um novo campeonato e uma nova realidade. Como foi a experiência?

FT: A maldita Ucrânia. Foi a pior experiência que tive em toda a minha carreira, em todos os aspetos. Um idioma complicado, pessoas um bocado frias, rotinas diferentes, tudo diferente daquilo que estava habituado. A minha família nunca quis ir para lá e depois a nível desportivo não correu bem e quando assim é, dificilmente te vais dar bem num clube. Fiz muito poucos jogos, ainda hoje não percebo muito bem o que aconteceu. Durante duas semanas recusei as suas propostas, eles continuaram a insistir e a insistir para que eu assinasse e, no entanto, depois de aceitar, senti-me desvalorizado o que não fazia sentido devido a toda a insistência na minha contratação. Não sei bem o porquê, quer dizer se calhar até sei, mas pronto….

BnR: O que aconteceu?

FT: Chegou-me aos ouvidos, mas nunca tive a certeza absoluta se era verdade, que o treinador recebia dinheiro dos jogadores para jogarem. Se foi por isso que joguei pouco ou não, não sei, mas na altura foi um jogador ucraniano que me contou. Foi uma experiência para esquecer.

BnR: Surge o seu primeiro contacto com a Roménia, um dos campeonatos onde tiveste mais sucesso. És emprestado ao Brasov e juntas mais uma nova liga no currículo.

FT: Na altura o que tinha mais em mente era um regresso a casa depois daquela má experiência. Ia assinar pela Académica, mas por umas horas eles não conseguiram inscrever-me a tempo. Infelizmente não aconteceu. Entretanto, naquela época o António Conceição treinava o Brasov, viu a notícia e como lá o mercado fecha uns dias mais tarde ele ligou-me. Aceitei e foi uma adaptação muito fácil. Achei um país muito parecido ao nosso, com pessoas muito simpáticas, parecido connosco em todas as coisas boas. Joguei por isso correu bem. (risos)

BnR: Consegues despertar interesse na Liga Romena e surge o interesse de um grande: o Rapid Bucareste. Uma equipa que lutava para ser campeã e assim, disputar a Liga Europa.

FT: Um dos maiores clubes da liga, tendo talvez os melhores adeptos da Roménia. Tínhamos condições de trabalho muito boas, um bom coletivo e disputávamos a Liga Europa, que é uma das grandes montras no mundo do futebol e era mais uma conquista pessoal para a minha carreira.

BnR: Contudo, passados dois anos no Rapid, surge uma mudança repentina para o Dubai, em que assinas pelo Al-Shaab. O que é que origina esta mudança para os Emirados Árabes Unidos?

FT: Na altura houve uma possibilidade de ir para o Steaua de Bucareste (atual FCSB). Os dois clubes chegaram a acordo, a notícia saiu na imprensa, só que eu não sabia de nada e quando fomos discutir os termos de contrato acabou por correr mal e preferi ficar onde estava. Porém o Rapid entrou em insolvência financeira, já não nos podia pagar e foi isso que originou a minha ida para o Dubai. Tinham um treinador romeno e foi a solução encontrada.

BnR: Um país com temperaturas muito elevadas e com uma realidade desportiva completamente diferente da Europa. Foi difícil a adaptação?

FT: Foi muito difícil. A minha família veio comigo, como é óbvio, era o Dubai (risos). Mas a nível desportivo e profissional custou muito. É um clube que só tem direito a contratar três estrangeiros, a maior parte do plantel é constituído por jogadores locais e todos eles ou são policias ou militares. Devido a este facto e de ser um país muito quente os nossos treinos eram só à noite, porque quase todo o plantel trabalhava durante a manhã, à tarde iam dormir e depois vinham treinar. Foi esta a grande complicação a que tive de me adaptar, tive que alterar todas as minhas rotinas de trabalho, descanso …

FT: E a nível financeiro, foi o melhor contrato que tiveste?

FT: Não, não foi. Eu percebo que as pessoas associem esta minha saída para um país árabe ao fator financeiro, mas no meu caso não foi verdade. O clube pelo qual assinei estava a subir pela primeira vez à primeira divisão, pagava dentro das possibilidades que tinha, mas não rondava os valores exorbitantes que os outros clubes da primeira divisão ofereciam.

BnR: A tua carreira foi feita de regressos e depois do Dubai acontece mais um e voltas à Roménia, desta vez para jogar no Petrolul. A nível estatístico (jogos, golos, assistências) foi onde tiveste das melhores épocas se não a melhor da tua carreira.

FT: É verdade, mais um grande da Roménia, mais uma vez a lutar pelo título e a disputar a Liga Europa. Um clube muito bom a todos os níveis, com uma cidade inteira a apoiá-los, assim como acontece com o Vitória de Guimarães aqui em Portugal. Tínhamos estádio novo, condições excelentes, adeptos incríveis que enchiam sempre o estádio, treinador e equipa técnica muito boa, coletivo espetacular e foi talvez devido a estes fatores que realizei as melhores épocas da minha carreira.

BnR: Outra mudança na Roménia, desta vez para o Astra Giurgiu, onde finalmente foste campeão e ganhas a Supertaça Romena. Que melhorias encontrou e quais os fatores chave para finalmente conseguires conquistar estes títulos?

FT: E foi aquele em que tive menos condições para ser campeão (risos). Digo isto, mas não a nível de equipa, é mesmo em relação às condições de trabalho. Eram muito inferiores às dos outros clubes que representei na Roménia. É um clube com pouca história e poucos adeptos. Festejamos o título e a Supertaça com pouco menos de 400/500 adeptos. Mas foi um clube incrível, eliminamos dois anos seguidos o West Ham nos playoff’s da Liga Europa.

Fonte: Facebook de Filipe Teixeira

BnR: No segundo ano até és tu que marcas o golo em Inglaterra que os elimina.

FT: Sim, é verdade, sou sim senhor. Apesar de todas as dificuldades que tivemos ao longo das duas épocas que estive no Astra, fomos sempre, plantel e equipa técnica, muito motivados e unidos. Estivemos sem receber durante quatro meses, mas o presidente sempre garantiu que mal entrasse o dinheiro no clube que nos ia pagar e foi o que aconteceu. Nada disso abalou a confiança do grupo e conseguimos conquistar o que ninguém esperava. Foi um espírito de equipa incrível. Só não fomos campeões no ano a seguir porque o presidente não quis, não melhorou as condições de treino e preferiu manter aquilo que tinha.

BnR: Entretanto o FCSB (antigo Steaua de Bucareste), volta a sondá-lo e faz mais duas épocas até aos 38 anos ao mais alto nível, a lutar pelo título e a marcar presença nas competições europeias.

FT: O caso deles da mudança de nome e símbolo é idêntico ao do Belenenses aqui em Portugal. O Steaua teve que começar de novo na quarta divisão e o FCSB ficou na primeira liga, mas perdeu os direitos ao nome e emblema. O pior foi que os adeptos decidiram apoiar os da quarta divisão e nós ficamos com muito poucos apoiantes. Em relação à minha mudança, sempre foi um desejo antigo do presidente a minha contratação. Em todos os anos que estive na Roménia demonstrou sempre interesse, desta vez concretizou-se. É um grande clube, fisicamente o meu corpo continuava a responder da melhor maneira e foi uma grande experiência com um nível competitivo muito bom.

BnR: Chegas até a regressar a Portugal para defrontar o Sporting CP na Liga Europa.

FT: Sim, sempre que havia os sorteios da Liga Europa, torcia para que nos calhasse uma equipa portuguesa (risos). Em primeiro lugar porque tinha uma desculpa para regressar a Portugal e ver a minha família e em segundo para ser visto no meu país para quem sabe depois poder regressar e terminar carreira cá.

Fonte: Facebook de Filipe Teixeira

-Fim de carreira, balneários de luxo, referências e conselhos para as gerações mais jovens- 

“Não apoio nenhum dos “grandes”, pelas más experiências que tive com eles. Permitiu-me ver qual era a realidade do futebol e que mexe com muitos interesses”

BnR: Terminas a carreira com 38 anos no FCSB. Era isto que tinhas planeado ou preferias ter terminado em Portugal?

FT: Não, eu sinceramente não tinha nada pensado nem planeado. As épocas corriam-me bem e eu não pensava muito no assunto. Mas se calhar há dois clubes que eu poderia ter vindo para Portugal e dizer que eram aqueles onde queria terminar a carreira: a Académica e o Felgueiras. O primeiro foi porque foi um clube especial, onde fui acompanhado por excelentes profissionais, onde fiz boas épocas e vivi lá dois bons anos com a minha família, foi a cidade onde nasceu o meu primeiro filho. O segundo porque foi o clube que me formou, o clube da minha terra e terminar onde tudo começou seria muito especial.

BnR: Nunca houve contactos nesse sentido?

FT: Houve alguns, mas da parte da Académica não senti aquela vontade e empenho na contratação por parte dos dirigentes e do treinador, então decidi não ir. Do Felgueiras houve convites, mas nada de especial. Tive também ofertas de contrato de dois anos de clubes da Roménia, com opção de ocupar funções nos clubes depois de terminar carreira, mas não aceitei, nunca tive interesse de ficar lá a viver. Em conversa com a família e por causa da escola dos meus filhos, optei por terminar na Roménia. Por mim, sentia-me bem e tinha continuado a jogar futebol.

BnR: Sempre foste um jogador que, com o passar dos anos ficou cada vez melhor. Quando se pensava que estavas a entrar em idade de pendurar as botas, surpreendias toda a gente com mais uma grande época. O seu último golo pelo FCSB mostra bem isso. Um jogador de 38 anos marcar um golo assim de pontapé de bicicleta tem de estar muito seguro da sua forma física?

FT: Foi o meu último golo no meu último jogo. Estava confortável com a minha forma física e sempre tive esse cuidado com o meu corpo desde muito novo. Nunca fui um jogador que saía muito à noite, que bebia, sempre tive essa preocupação e não cedia a vícios. O golo acaba por demonstrar que estava bem e que apesar da idade continuava em grande forma. Sempre gostei de me sentir útil.

BnR: Ao longo da tua carreira partilhaste o balneário com grandes nomes do futebol atual e mundial, como Ronaldinho, Heinze, Pochettino, Yepes, Pauleta (PSG); Borja Valero e Scott Carson (West Brom), Trippier (Barnsley); Mkhitaryan (Metalurh) e Adrian Mutu (Petrolul), são apenas alguns exemplos. Sempre lhes reconheceste esta qualidade?

FT: Sim sem dúvida. O Trippier não me lembro bem, sinceramente já nem sabia que fazia parte do plantel, estava no início da carreira não deve ter jogado muito (risos). O Mkhitaryan lembro-me muito bem. O tempo que estive na Ucrânia passávamo-lo praticamente sempre juntos, íamos muitas vezes durante a tarde, quando não tínhamos nada para fazer, treinar livres para o centro de treinos. Entendíamo-nos bem, ele sabia falar português do tempo em que esteve no Brasil e já se notava a sua qualidade, aliás, ele a seguir assina por um grande da Ucrânia, o Shakhtar Donetsk. O Borja Valero tinha muita qualidade naqueles pés, o Scott Carson era um grande guarda redes, muito seguro. O Mutu, já estava em final de carreira, mas continuava um craque, muito inteligente …

BnR: Houve algum que te impressionou mais?

FT: Sem dúvida o Ronaldinho. Ainda hoje brinco com o meu filho e digo-lhe que ele foi o melhor do mundo. Tinha uma alegria enorme a jogar e acho que é o que falta ao futebol atualmente. Era uma qualidade incrível, nunca vi um jogador com tanta técnica, passe e finalização. Era muito bom!

BnR: Ao longo da tua carreira, quais foram as tuas referências?

FT: O Rui Costa, que era praticamente da minha posição e o Figo pela qualidade e forma que geriu a sua carreira e naquilo que se tornou nos dias de hoje. O Figo é um senhor.

BnR: Atualmente há algum jogador que te impressione?

FT: Os dois que “dominam o futebol atual”: o Cristiano Ronaldo e o Messi. O Ronaldo pelo trabalho e tudo aquilo que conquistou e o Messi, pronto é de outro planeta, não há muito a dizer (risos).

BnR: Em toda a tua carreira quem foi o teu “melhor amigo” no futebol?

FT: O Geraldo Alves. Foi dos poucos jogadores que consegui jogar durante quatro anos seguidos (Petrolul e Astra). Fazíamos viagens juntos, íamos para o treino juntos, nos estágios acho que acabei por dormir mais com ele do que com a minha esposa (risos). Tenho também o Peçanha, jogamos três anos juntos e partilhei muita coisa com ele. Ainda hoje mantenho relação com os dois.

Fonte: Facebook de Filipe Teixeira

BnR: Há algum treinador que te tenha marcado?

FT: Tive alguns, desde os da formação que me ajudaram muito e que apostaram em mim, como o Rui Luís e o Diamantino Miranda (Felgueiras). Nesse aspeto tive alguma sorte, tive o Nelo Vingada, Manuel Machado, Vitor Pontes…

BnR: O melhor plantel com quem trabalhaste? Não me refiro ao que tinha mais “estrelas”, mas aquele onde te sentiste melhor.

FT: Provavelmente o do Petrolul e do Astra, era onde havia mais união. Se calhar destaco o Astra, porque foi o plantel que conseguiu ser campeão mesmo tendo passado por todas aquelas dificuldades.

BnR: Em Portugal, tens algum clube que apoies e assistas aos jogos?

FT: Tenho, a Académica e o Felgueiras. Estou a torcer para que brevemente subam de divisão. Não apoio nenhum dos “grandes”, pelas más experiências que tive com eles, permitiu-me ver qual era a realidade do futebol e que mexe com muitos interesses.

BnR: Representaste as seleções jovens de Portugal, desde os sub-18, sub-20 e sub-21. Alguma vez te sentiste frustrado por nunca teres chegado à seleção principal?

FT: Não. Só houve uma única vez que se falou disso e que cheguei a fazer parte de uma pré-convocatória, que foi quando estava na Académica. Era uma época muito difícil para ir à seleção, só eram convocados os jogadores que jogavam nos grandes clubes da Europa e nos “três grandes”. Partilhei balneário com alguns deles, como o Pauleta e o Hugo Leal e olhava para eles e para mim e pensava: será que tens oportunidade de chegar à seleção? Se calhar não (risos).

BnR: Em toda a tua carreira, partilhaste o balneário com muitas jovens promessas, mais recentemente no FCSB, com o Dennis Man e o Florinel Coman, que pelo que consta, têm muito mercado. Se pudesses, qual era o conselho que davas a estes jovens em inicio de carreira ou qual era o conselho que gostavas de ter recebido na sua altura?

FT: Nunca esqueci de muita gente me dizer, “aproveita que passa rápido”, mas na altura não dei o devido valor e respondia “tu é que estás velho” (risos). O problema é que essa frase é bem verdade e adequa-se aos jogadores de futebol. Se calhar era o conselho que lhes dava, para aproveitarem, mas sempre com cabeça! Ter bem definido o que querem e para não se deslumbrarem. Acho que o futebol para as novas gerações está muito diferente do meu tempo! Está tudo muito modernizado e eles agora têm muitas oportunidades, precisam é de saber aproveitá-las. Antigamente o futebol era aquilo que jogávamos em campo, era o que viam na hora, agora não, os jogadores podem ter vídeos com os seus highlights e graças às redes sociais muita mais gente pode ver e ter acesso àquilo que fizeram num determinado jogo. Para não falar que atualmente há muitos jogos com transmissão televisiva, como por exemplo o Campeonato de Portugal. O conselho que se pode dar é não se acomodarem com o nível e o clube que atingirem ainda em idade jovem, trabalhar para não dar nada como garantido. É isso que jovens como o Dennis Man e o Coman têm de ter presente no seu crescimento. Acho que o Dennis, com a qualidade que tem, vai chegar a um clube bom da Europa e o Coman tem uma margem de progressão enorme, é muito bom, sei que já foi associado a um clube português porque me chegaram a ligar. É um jogador que se tiver cabeça pode atingir o topo.

BnR: Para terminar, qual vai ser o futuro do Filipe Teixeira? Pretendes continuar no mundo do futebol?

FT: Não sei, estou a ver. A única certeza é que quero continuar ligado ao futebol, mas ainda não sei a fazer o quê ao certo. Há funções no mundo do futebol que são um bocado frias e que vão contra a minha maneira de ser, por isso estou a estudar todas as possibilidades. Em princípio deve haver alterações nos anos que são precisos para tirar um curso de treinador. Acho um absurdo! Sete anos é demasiado tempo para quem conhece este mundo, a sua realidade e já viveu tudo de perto. Precisas de mais anos para ser treinador do que para ser médico. Se isso acontecer mesmo é uma possibilidade.

BnR: Obrigado Filipe, votos de muito sucesso nesta nova etapa.

Entrevista realizada por Flávio Fernandes

Redação BnR

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