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No passado mês de outubro, Gonçalo Resende tornou-se no primeiro português de sempre a participar na modalidade de voo de asa, no âmbito dos Campeonatos do Mundo de Paraquedismo. O paraquedista de 21 anos falou ao Bola na Rede, sobre o percurso até ao paraquedismo e mais concretamente, até ao Mundial. Faz um balanço dos resultados que alcançou nos Mundiais do Arizona, assim como do que é preciso para singrar na modalidade. Gonçalo Resende aborda ainda os objetivos para o futuro
«Neste ano por exemplo eu fui o único português a participar nos campeonatos do Mundo, eu pensei: se vai um português, que vá fazer o mais difícil, o melhor, o mais disputado»
Bola na RedeComo nasceu esta paixão pelo paraquedismo?
Gonçalo Resende: Foi mais ou menos na altura do meu nascimento. O meu pai fez o curso de paraquedismo. E ele viu uma oportunidade de negócio e muito, muito cedo na sua própria carreira de paraquedismo decidiu “Opá, eu vou investir algum dinheiro nisto” e efetivamente comprou a escola de paraquedismo. Não comprou bem a escola, mas comprou o espaço e o nome e as coisas foram crescendo um pouco por aí. Eu desde pequeno que sempre tive interesse no paraquedismo. Quando era mais novo, tinha mais interesse em pilotar aviões e assim, mas perdi um bocado interesse por isso e comecei a dedicar-me mais ao paraquedismo, também numa de poder trabalhar, ganhar dinheiro e assim, mas trabalhar na parte de formação e na parte de desenvolvimento da tecnologia e das coisas relacionadas com o paraquedismo. Foi um pouco quando comecei ali a ter 12 anos, 13 anos, que me comecei a interessar pela parte comercial do paraquedismo. E depois pronto, comecei a trabalhar e tal, e foi assim.
Bola na RedeE é então por volta dessa idade que o paraquedismo deixa de ser apenas um hobby, mas ganha também uma vertente competitiva?
Gonçalo Resende: A parte da vertente competitiva, diria que não foi bem aí. Eu, quando comecei no paraquedismo mesmo, era andar aqui de um lado para o outro, na zona de saltos e tal, sendo uma criança, não digo a brincar, mas a passar o meu tempo. Quando comecei mesmo a trabalhar, foi a editar vídeos de paraquedismo e depois, a dobrar paraquedas. Quando comecei na parte competitiva foi aos 16 anos, quase 17, que fiz a minha primeira competição aqui em Portugal, de forma nacional, foi mais uma coisa por diversão. Foram amigos com quem eu tinha o hábito de saltar, juntámo-nos, fizemos uma competição e ficámos em terceiro lugar, o que não é uma participação superforte, mas também tínhamos muito pouco treino, foi uma coisa feita um bocado ali, em cima da hora. Quando eu comecei a competir de forma mesmo séria, foi com o meu amigo Diogo Ferreira e também com o nosso colega, André e aí começámos mesmo a treinar, a fazer temporadas inteiras de treino. Até vivíamos juntos, treinávamos juntos, comíamos as mesmas coisas, fazíamos os mesmos exercícios, tudo igual. E claro, tínhamos muitos, muitos saltos de treino. Então foi ali mais ou menos aos 17 anos que comecei a competir ali mesmo a sério, a nível nacional. A nível internacional, faço o treino sozinho porque o voo de asa é uma disciplina que se trabalha sozinho. Foi aos 18 anos e já carecia de treino. Desde os 16 anos, sempre, sempre, sempre a treinar, mas o voo de asa é uma modalidade que já requer muito mais dedicação e treino para sequer se conseguir competir, quanto mais competir a nível mundial.
Bola na RedeE porquê essa escolha do voo de asa como modalidade de eleição?
Gonçalo Resende: É assim, o voo de asa, neste momento, e já desde que foi introduzido, cresceu de uma forma exponencial. Todas as outras disciplinas são relativamente antigas, digamos. É claro que no paraquedismo nada é antigo, o paraquedismo não é um desporto que exista propriamente há muitos anos, mas são disciplinas bastante antigas. Por exemplo, o “freefly” é uma disciplina que já se pratica de forma competitiva, desde os anos 2000. O que dentro do paraquedismo, já é algum tempo e já existe o conceito de “freefly” para aí desde os anos 80 se calhar. Enquanto que o voo de asa foi inventado, as primeiras pessoas a fazer voo de asa, a parte de aterragem mesmo do SUP, que nos chamamos voo de asa. Voo de asa é andar de paraquedas, mas claro que todos os saltos envolvem mesmo o voo de asa, mas a parte mesmo de acelerar o paraquedas e fazer aterragem de alta performance, já só foram sequer começadas se calhar nos anos 2000. Ou seja, na altura em que o “freefly”, que é outra disciplina que eu faço, já estava a nível competitivo e já era uma disciplina assentada, o voo de asa (o SUP ou o “canopy piloting”). Eu interessei-me porque lá está, como eu disse, aquilo nos primeiros 10 anos cresceu de uma forma brutal mesmo e ganhou muita atração. E quando estamos numa zona de saltos, seja grande ou seja pequena, há sempre os gajos do voo de asa, os gajos do SUP que são sempre os mais velhos, os mais experientes, que são ali os mais cobiçados, quase. E epá, sempre me interessou porque partilha tanto um aspeto de proficiência e habilidade com o aspeto de compreender a disciplina e de ensinar e dissecar o conjunto de coisas que tornam a disciplina o que é para progredir. Ou seja, no “freefly” se calhar, tu tens de treinar muito e passar ali muitas horas para ficares bom e para seres bom a fazer os eventos artísticos. No SUP, não é bem assim. Tu podes treinar, treinar, treinar muito, mas se não compreenderes da forma física como é que tudo funciona para que o SUP aconteça, não vais ter uma carreira com sucesso e então como misturava ali duas coisas que eu gostava, interessou-me muito Como sou dos poucos atletas que participa por Portugal nos campeonatos do Mundo, neste ano por exemplo eu fui o único português a participar nos campeonatos do Mundo, eu pensei: se vai um português, que vá fazer o mais difícil, o melhor, o mais disputado. Só para terem uma noção: o “freefly que deve ser neste momento a disciplina mais praticada do Mundo teve 6 equipas a participar no campeonato do Mundo, o que é pouquíssimo. São 3 atletas por equipa, dão 18 atletas no total. No entanto, no SUP tinhas 70 atletas a competir. Houve um ou dois que não conseguiram por não terem visto, mas tinhas 70 gajos a competir. Facilmente numa competição, tens mais de 80 gajos a competir e tudo no mesmo nível, ou seja, o nível está muito mais elevado, mas também como é um desporto individual, acaba também por ter mais tração porque em vez de terem de se juntar uns aos outros, podem ir só eles próprios, então foi um bocado por causa disso.
Bola na RedeUm bocado, então, por causa dessa exigência que (o voo de asa) requer?
Gonçalo Resende: Era a maior proficiência que é necessário ter, ou seja, eu queria fazer a coisa que fosse “a melhor”. Claro que é uma coisa subjetiva, não há nenhum desporto melhor que o outro, mas era o que eu gostava mais e também porque se eu vou fazer sozinho, quero fazer o que traga a Portugal o maior conhecimento à volta do Mundo
Bola na RedeNuma entrevista ao canal “Skydive em Português”, referes que a queda que te dá prazer é apenas aquela que faz de forma correta e segura e como pude reparar, tens de facto uma grande exigência em relação ao teu trabalho. Consideras esta exigência essencial para quem quiser fazer carreira no paraquedismo?
Gonçalo Resende: Considero que é uma coisa essencial, essas exigências ao nível do que é que nós colocamos ou não como barreira da nossa progressão porque há muitos desportos onde nós temos de sair da nossa zona de conforto. Eu já pratiquei “n” desportos e a maioria, se nós estivermos a sair da nossa zona de conforto, estamos a progredir e ajuda-nos a progredir. No paraquedismo, não acho que seja propriamente uma coisa boa, mas isto tem muitos asteriscos. Por exemplo se nós estivermos num nível extremamente elevado, onde a nossa capacidade de acessar o risco que nós estamos a correr já é muito, muito boa, aí estarmos a colocar-nos a nós próprios em risco é benévolo para a nossa progressão ou entrar ali fora da nossa zona de progressão é benévolo. Porquê? Porque o nosso cérebro está tão habituado a fazer as coisas em segurança, que qualquer coisinha fora do normal, mesmo que seja para o bom, vai-nos trazer medo. Mesmo que até seja uma coisa mais segura do que aquilo que fazemos normalmente, pode nos trazer muito, muito medo e não nos permitir progredir, ou seja, quando estamos num nível muito, muito elevado de proficiência, sair da nossa zona de conforto sim, faz sentido. Agora, quando estamos a começar até essa super-mega experiência, sair dessa zona de conforto normalmente, resulta em morte. Uma pessoa faz uma coisa para a qual não está propriamente preparada e pode-se matar ali à vontade.
Bola na RedeE de uma forma mais geral, que características é que um atleta de paraquedismo deve ter?
Gonçalo Resende: Normalmente, uma coisa que as pessoas pensam sobre o paraquedismo é que é um desporto. Como o futebol, como o voleibol. Quando o paraquedismo em si não é bem… é um desporto, certo. Mas devia ser mais considerado como um Mundo do que propriamente só como um desporto. Por exemplo, se nós falarmos de ciclismo, tens as bicicletas de estrada, as bicicletas de montanha, BMX, tens várias ramificações. E cada atleta tem um tipo de personalidade diferente, um tipo de perfil diferente. No paraquedismo é exatamente a mesma coisa, no paraquedismo é sair de um avião, saltar, aterrar, está feito. Tens paraquedistas que fazem as coisas por desporto, outros fazem por profissão, outros fazem porque querem saltar com principiantes, outros fazem porque simplesmente estão na tropa e precisam de aterrar numa zona que está a ser invadida e não podem chegar lá de avião ou de carro. Ou seja, há várias coisas diferentes. Dentro do paraquedismo desportivo, ainda assim, também há vários tipos de personalidades diferentes. O que eu normalmente digo é que se estiveres a afazer uma das modalidades que é artística, nota-se perfeitamente isso quando conheces pessoas que são boas nesse tipo de áreas. São pessoas criativas, são pessoas não ligadas tanto a matemáticas e a coisas direitinhas, são mais pensadores livres, pessoas que gostam de inventar e de explorar conceitos novos. Enquanto que o pessoal que faz as disciplinas que já estão bem definidas como o voo de formação a quatro, ou como as formações de calote também, são pessoas que gostam mais de método, de que tudo tenha uma metodologia e não de fazer coisas novas mas aprofundar conceitos anteriores. Um atleta de paraquedismo, independentemente da disciplina que faça, deve ser uma pessoa muito bem apresentável a nível físico e a nível de personalidade, uma pessoa que consiga interagir muto bem com os outros atletas, até com outras pessoas, que consiga partilhar muito bem as suas experiências, que consiga partilhar muito bem os seus valores e também conseguir pegar em conteúdos, imagens e coisas pessoas e conseguir apresentar muito bem não só aos outros paraquedistas como ao Mundo porque ao contrário, por exemplo, do futebol ou assim, onde se veem que tu és mesmo muito bom, pegam em ti e levam-te para o estrelato, no paraquedismo não é assim. Tu podes ser o melhor do Mundo, ter muita capacidade de aprender rápido e de fazer as coisas de forma muito segura e bem feita. No entanto, se não souberes vender a tua imagem aos patrocinadores, às pessoas e assim, nunca vais conseguir suceder porque nem sequer vais ter forma de ganhar dinheiro. Podes ganhar a maior competição do Mundo, ganhas zero. Nem o campeão do Mundo vai ganhar dinheiro no campeonato do Mundo. Há competições privadas onde há prémios e às vezes até são relativamente bons, 5 mil euros ou uma coisa assim, mas isso aí só um é que ganha e esses 5 mil euros, se calhar gastou nas viagens, no hotel e nos saltos para treinar para essa competição. Ou seja, o dinheiro vai estar a vir de onde? Vai estar a vir de tu venderes a tua formação, tu formares pessoas, as pessoas vão querer pagar para aprender contigo, vai vir dos patrocinadores que até podem não te dar dinheiro, mas dão-te as coisas onde não vais ter gastar dinheiro. Basta teres um patrocinador de paraquedas e zonas de saltos, logo aí são milhares de euros que poupas por ano. E por fim, conseguires partilhar bem a tua própria imagem e a imagem das coisas que tu fazes, faz com que tenhas crescimento na comunidade e que toda a comunidade te fica a conhecer muito melhor, ou seja, oportunidades de trabalho, oportunidades de participar em eventos ou assim ficam muito mais acessíveis porque as pessoas sabem “Ah, aquele gajo de Portugal ou da França é muito bom a falar, as pessoas gostam dele, uma pessoa simpática, uma pessoa bem-parecida, apresentável. Vamos chamá-lo a ele para fazer este evento”, acho que são essas partes são essenciais.
«Como o voo de asa é uma disciplina muito nova, há muitas nações que ainda não têm campeonato nacional de voo de asa, nomeadamente Portugal»
Bola na RedePois, existe aqui uma vertente de “networking” forte no desporto.
Gonçalo Resende: Muito, muito forte. Conheço até bastantes pessoas que têm poucos contactos e patrocínios porque não estão muito dentro da área de “networking” e assim, são pessoas muito mais fechadas, não ligam a redes sociais. Acabam por ter um bocadinho mais de dificuldades de crescimento. Não vale a pena estar a falar de pessoas específicas, mas há gajos que antes de serem campeões do Mundo, já tinham montes de patrocínios, já eram famosos por tudo e por nada, enquanto que há outros gajos que só quando foram campeões é que começaram a ver a vida crescer. Ou seja, o processo até chegarem a campeões foi muito mais complicado e demorou muito mais tempo.
Bola na RedeE passando a falar do Mundial, esse foi um objetivo que já tinhas traçado desde o início da carreira?
Gonçalo Resende: Sim, já há muitos anos que eu queria ir ao Mundial de voo de asa, especificamente. Eu já tive oportunidade de ir ao campeonato do Mundo de “freefly”, porque para ir ao campeonato do Mundo de “freefly” é um pouquinho diferente do voo de asa. Como o voo de asa é uma disciplina muito nova, há muitas nações que ainda não têm campeonato nacional de voo de asa, nomeadamente Portugal, não há campeonato nacional de voo de asa em Portugal. Não há, digamos que local, pessoas também para participar, ou seja, acaba por não ser feito em Portugal. Há muitos países que ainda fazem o campeonato noutros países. Na República Checa, que também estive este ano, são lá feitos na mesma competição, acho que 3 ou 4 campeonatos nacionais, que é o da República Checa, da Alemanha, da Áustria e às vezes, Reino Unido, este ano foram estes quatro. Porquê? Porque nem todos os países têm onde fazer campeonato de SUP, é preciso ter o lago, é preciso ter muitos júris, ou seja, requer muitas pessoas, muita infraestrutura, ou seja fazem todos os campeonatos juntos e como é um desporto muito jovem ainda, acabam por fazer todos os campeonatos, ali no mesmo sítio, o que é engraçado porque é se calhar a disciplina com mais participantes, no entanto é a que tem me nos campeonatos e competições e assim, Por exemplo, no freefly a forma de nós irmos ao campeonato do Mundo é diferente. Tu competes em campeonato nacional de freefly e aí tens vários competidores, várias equipas. A melhor equipa vai ao campeonato do Mundo. Mas tem um “quê”. Por exemplo, em Portugal, nós não temos muitas equipas, temos pouquíssimas até. Ás vezes até temos de andar a fazer equipas à última da hora que é para conseguir sequer fazer o campeonato. Para além de ser o primeiro lugar ou o segundo, imagina, uma federação com muito dinheiro pode enviar as três equipas de primeiro lugar, a França costuma mandar duas ou três equipas, os Estados Unidos a mesma coisa.

Fonte: Federação Portuguesa de Paraquedismo
Não é só preciso seres do primeiro lugar, também tens que pontuar pontos mínimos, que acho que em Portugal são 7,5. É verdade que cada federação quantos pontos é que é, mas nenhuma federação vai decidir tipo 2 pontos ou assim, claro, não faz sentido. A média é de 0 a 10. Se conseguires pontuar, penso que são 7,5, mas não vale a pena estar a dizer, que eu não tenho a certeza, estás apto a ir a campeonato do Mundo. Cada país tem pelo menos um júri que é especializado no freefly e nós temos um júri que até é membro do quadro de júris da FAI, que é o órgão internacional que faz as competições e assim, a Federação Aeronáutica Internacional, chama-se Manuel Almeida. O nosso júri Manuel Almeida como tem o estatuto de júri da FAI, avalia também a nossa performance nas competições de “freefly” e inclusive em 2021 e 2022, foram os primeiros anos em que nós conseguimos pontuar o suficiente para ir a um campeonato do Mundo, eu estou a dizer em 2020, mas não, foi em 2021. Nós pontuámos o suficiente, ou seja, se nós quiséssemos, nós éramos equipa de primeiro lugar, como tínhamos feito mais de 7,5 pontos, acho que foi 7,6. Nós, se quiséssemos, podíamos ter ido ao campeonato do Mundo. Claro que a nossa federação não tem propriamente grandes verbas para nos mandar assim ao campeonato do Mundo assim e pagar tudo que, outras federações, por acaso, fazem. Mas, se nós quiséssemos, a nossa inscrição estava garantida. Só não participámos porque o meu colega de euipa estava mesmo para começar a trabalhar como piloto de linha aérea, sabem como é que é, uma pessoa está ali a começar o trabalho, não vai estar a pedir logo duas ou três semanas de férias para ir passear a um campeonato do Mundo, ou seja, escolhemos não ir, escolhemos só o Nacional, fazemos sempre. Mas campeonato do Mundo não fizemos no ano passado nem neste ano que estávamos (qualificados nos dois anos). Se calhar no futuro, não sei, depende do que ele queira. A nível de voo de asa, que é o campeonato do Mundo a que eu realmente fui, eu sempre quis ir. Já estou quase para ir desde 2019. Tem sido complicado… não digo complicado, mas uma luta quase para conseguir ir ao campeonato do mundo às vezes porque é complicado as inscrições e assim. São várias pessoas que têm de pegar num papelinho de nada e assinar e autorizar, digamos, para eu ter podido lá ir. E como o voo de asa acaba por ser a disciplina mais perigosa, das que há competição, é sem dúvida a mais perigosa porque existe mesmo o risco de uma pessoa se magoar a sério, enquanto que num campeonato do freefly ou assim, não há grande risco de haver um acidente. Os gajos estão a fazer a competição em queda livre, a menos que batam um contra o outro com grande força ou que o paraquedas tenha algum problema, não vai haver nenhum acidente. Enquanto que no voo de asa, em quase todas as competições pelo menos uma pessoa magoa-se. Nem que seja só um bocadinho, é quase garantido que alguém se magoa sempre. Ainda neste campeonato do Mundo, houve um rapaz que se aleijou infelizmente no joelho. Não foi nada de sério, mas foi o suficiente para ele não conseguir fazer a competição e ter de ir de ambulância para o hospital. Ou seja, como é uma disciplina que já tem essa fama, não vou dizer má fama porque não é uma coisa má, é uma coisa que acontece simplesmente. É um pouco complicado um miúdo menor de idade, em 2019, eu ainda tinha 17 anos quando o campeonato do Mundo ia acontecer e é um bocado complicado um miúdo de 17 anos, 18 anos, ainda por cima com a autorização da Federação, iam dizer “Porque é que vai ele e não outro fulano qualquer?” porque não sou a única pessoa com asas pequenas em Portugal, nem sou o único a fazer voo de asa em Portugal. Porque é que vou eu e não vai outra pessoa qualquer, se calhar mais velha e mais experiente? Como não há campeonato nacional, não dá para ver quem é o melhor, então porque é que havia de ir eu? Não faz sentido absolutamente nenhum ir eu a um campeonato do Mundo. Ainda por cima, ia ser a minha primeira competição e as competições de SUP são coisas complicadas, aquilo é muito psicológico, requer muito treino, muita dedicação e então optei por nem sequer fazer nenhuma competição em 2019, internacional ou não. Esperei até 2020. Em 2020, já estava com asas bastante boas, já estava a voar quase na “performance” máxima com que podia estar, ou seja, já não era o equipamento que me estava a abrandar, ou seja, já era mesmo eu próprio que tinha que aprender, ainda assim, eu não estava a usar pesos extra que é uma coisa que nos ajuda a ir mais rápido. Mesmo assim, consegui ter uma performance. Fiquei em 14º lugar numa competição que costuma ter 70-80 competidores e foi a minha primeira competição em 2020. A partir daí eu já me sentia preparado para ir ao campeonato do Mundo. E pensei “ok, vou-me inscrever, vou tentar ir ao campeonato do Mundo no próximo ano”, que era em 2021. Em 2021, fiz a temporada de competições, o campeonato do Mundo ia ser depois da temporada acabar e foi na Rússia. Quando comecei a temporada, mudei um pouco todo o meu sistema: os meus paraquedas eram diferentes, tinha peso extra, havia muitas coisas novas ali para mim. Eu fiz uma temporada de competições, fui à Itália, fui à República Checa, fui à Dinamarca, essas coisas todas, mas o campeonato do Mundo em si acabei por perceber que não tinha interesse em ir, que achava que era muito cedo, eu pensei e foi o que o meu mentor me disse: “Se vais lá, mais vale ires para fazer um bom trabalho, se vais para lá passar vergonha; chegas lá, estás a falhar ou ainda não tens a proficiência que eles têm, não vás para lá fazer vergonhas. Se vais para lá pela primeira vez, ao menos que seja logo para fazer um bom trabalho”. Então, em 2021 não fui, fui a uma competição internacional que é da FAI também, o DIPC, “Dubai International Parachutting Championships”. Infelizmente no último dia de treinos, desloquei o cotovelo. Não foi nada de especial. Eu estava a aterrar normal, tropecei, caí para a frente, meti a mão em vez de me deixar reboar, o meu braço apanhou-se ali um bocado na queda e desloquei o cotovelo. Eles meteram-me o cotovelo no sítio, mas aquilo ainda ficou com um calo dorido e eu não pude fazer a competição.
Bola na RedeSó para destacar então que existe muito cuidado dos órgãos tutelares em garantir que a participação nos Mundiais é feita com a maior segurança possível e com maturidade, ou seja, com objetivos específicos.
Gonçalo Resende: Tal e qual. Cada federação tem “x” número de pessoas que podem participar, tem mais ou menos a ver com quantos paraquedistas existem naquele país. Depende muito da decisão da própria federação. Algumas federações dão 3 lugares pagos, em que eles pagam tudo e até dão um bocadinho de dinheiro, para saltos, para treinos e viagens. E há federações que, no caso dos Estados Unidos, tens de ser do top 10 ou uma coisa assim para poder representar os Estados Unidos. Outras federações em que existem 3 atletas que são a equipa nacional, depois se tu pagares a tua inscrição, a federação deixa-te ir lá fazer o que quiseres e pode ser a tua primeira competição. Não é o caso nos Estados Unidos, em Portugal… sinceramente, (o paraquedismo) como é uma coisa tão pequena em Portugal, se alguém quisesse ir, se pedisse, bastava falar com os órgãos da federação. A federação provavelmente ia deixar. Agora, não há nada escrito a dizer que toda a gente pode ir, nem que ninguém pode ir. É um bocado uma opinião em aberto e é a Federação a decidir. Eu acho bom ser a Federação a decidir porque assim previne que uma pessoa chegue lá a dizer “Eu quero fazer a competição”. Se uma pessoa chega lá, portuguesa, que não tenha grande experiência, e a Federação tem que o inscrever porque não o pode discriminar ao ponto de não discriminar essa pessoa, a pessoa não tem qualquer valência no voo de asa, a pessoa chega lá, mata-se, não é propriamente bom para o nome de Portugal e pronto a Federação não me escolheu a mim, fui eu que quis ir e demonstrei interesse, já demonstrei interesse há muitos anos em ir. Pedi à Federação, a Federação fez a inscrição e eu fui lá e fiz o melhor que podia fazer e cheguei inteiro, acho que só por aí, já é benévolo para Portugal e a partir de agora é sempre para cima, mas sim, a Federação tem atenção e todas as federações têm e devem ter atenção a quem mandam porque não é propriamente uma disciplina onde qualquer um pode ir, nem que seja só para fazer presença. Às vezes ir só fazer presença pode correr mal.
«Fiz o percurso mais rápido do que outros atletas que estavam a voar normalíssimo, sem travar, daí que até são bastante proficientes. Ou seja, o meu pior tempo foi melhor que o melhor tempo de muitos gajos muito bons»
Bola na RedeE falaste agora de que ficaste contente por chegar inteiro até, que balanço fazes da tua participação no Mundial?
Gonçalo Resende: Estou feliz com a minha participação, eu sou uma pessoa que sempre disse “O que está feito, está feito”, nunca na vida vou dizer mal do meu próprio trabalho, mesmo que não tenha corrido da forma ideal. Aquilo tem 3 disciplinas, neste caso até teve 4 porque aquilo também tem o Freestyle. Em cada disciplina, correu-me pelo menos uma ronda mal, no total são 12 rondas, ou seja, 1 ronda má a multiplicar por 4 disciplinas, dá 4 rondas bastante más. As minhas “performances” se compararem números individuais com as outras pessoas, dá para perceber que consigo fazer performances, que penso que são boas, tanto na precisão como na distância, como no Freestyle, como no “speed”. Consigo fazer boas prestações, só que às vezes, um pouco por causa de eu ter muito medo de me magoar e assim, já tive muitos familiares, muitos amigos, tanto da minha idade como mais velhos, a magoarem-se, a morrerem, etc. Acabo por ter um tipo de respeito pela disciplina que às vezes me faz ter de abortar a agressividade que estou a levar, a ter de reduzir ali um bocado. Por exemplo, se nós estivermos a fazer uma corrida de fórmula 1, mesmo que o piloto tenha medo a fazer a volta, ele vai acabar na mesma a volta. Ele mesmo que abrande um bocadinho porque está com medo, vai fazer na mesma a volta, mas no voo de asa não é assim. Se nós estivermos com medo ou falharmos uma das rondas, é zero pontos. No máximo o que podes ter é 900 pontos, sem contar com o Freestyle. Claro que é muito raro, nem sei se alguma vez aconteceu, alguém ter os 900 pontos todos, porque basicamente, quem tem a melhor pontuação, recebe 100 pontos e depois faz-se uma regra de três simples para as outras pontuações, para saber se vai ter 99, se vai ter 80. Por exemplo, um gajo faz 200 metros, eu faço 100, ele vai ter 100 pontos, eu vou ter 50, é basicamente. E se eu falhar uma ronda, por exemplo, são 0 pontos, ou 3 que às vezes se passarmos lá pelo circuito, dão-nos 3. Pá, não é nada. Ou seja, é logo aí uma penalização muito grande só por ter falhado e o que me aconteceu foi isso. Foi numa ronda de distância, primeira ronda correu bem, segunda ronda pensei “Ok, vou dar-lhe um bocadinho mais, vou tentar fazer aqui uma boa distância” e tinha dito a mim próprio que se conseguisse fazer mais de 150 metros, tentava homologar um recorde nacional, que não existe um recorde nacional nem na distância, nem no “speed” e eu pensei para mim próprio: se vou fazer um recorde, eu podia fazer um recorde com a minha distância mais curta, mas se vou fazer um recorde, quero fazer com uma distância respeitável e o recorde neste momento são de 201.57metros, que foi batido nessa competição.

Fonte: Federação Portuguesa de Paraquedismo
Gonçalo Resende: Se eu fosse homologar um recorde nacional, queria que fosse mais de 150. Fiz 136 logo na primeira e pensei que na segunda dava para fazer 150 na boa. Como ia com muito “power”, com muita velocidade e terminei um bocadinho a volta baixo, tive de passar para manobradores, que é para a asa como meter os travões naquilo e como meti os travões naquilo, estava um bocado nervoso, tentei tocar na água porque tem de se tocar na água que é para a distância contar e por um bocadinho de nada, não toquei na água. Ou seja, o que na minha cabeça ia ser uma boa distância de 150 metros ou uma coisa assim, passou a ser menos, para tipo 70 e quando se vai para manobradores, a asa nunca faz mais de 70, 80 metros, vá e depois, pior ainda foi não ter tocado na água, passou os meus não sei quantos pontos para 3, neste caso. Ou seja, passou de poder ser a minha melhor ronda para ser a minha pior de todas e nem foi a pior de todas com poucos pontos, foi a pior de todas com zero pontos. Depois, no “speed”, a primeira ronda correu-me um bocadinho mal. O “speed” é a disciplina em que eu costumo ter melhor pontuação, porque o “speed” não envolve tocar na água e o problema a da competição de voo de asa para mim e para muitos atletas é que não temos um lago, não temos água para treinar. E é preciso água para treinar de forma realista. E então o que eu me safo melhor acaba por ser no “speed” porque no “speed”, não há água. A água está lá, mas eu não preciso de lhe tocar, a água não está lá a fazer nada. Ou seja, é só voar o meu paraquedas de forma normal, como eu estou habituado a voar nos meus saltos do dia a dia e acaba por ser a disciplina em que eu me comporto melhor, é no “speed” até porque a minha técnica é um bocado diferente do que o resto das pessoas fazem. Há várias pessoas que fazem uma técnica parecida comigo e a minha asa também é uma asa muito boa para o “speed”. Tenho uma asa muito pequena e uma asa muito pequenininha assim para o “speed” acaba por fazer com que ela vá muito mais rápido, que tem menos resistência ao ar, ou seja no “speed” é onde eu consegui recuperar muitos pontos. E se forem ver, na minha pontuação do “speed”, estava sempre ali nos trintas nas outras disciplinas, no Speed consegui ficar nos vinte e tal e mesmo com uma ronda que me correu super mal porque foi logo a primeira ronda, lá está como a asa é muito pequena, é muito rápida, é uma asa tão difícil de voar que se não for perfeitamente ao milímetro, a asa não vai ter a performance que necessita para completar o circuito de forma segura. E na primeira ronda, a asa estava a voar bem, mas eu assustei-me um bocadinho tive que ir para o meio, tive que ir para manobradores, lá está, meter outra vez os travões. Mesmo assim, fiz o percurso mais rápido do que outros atletas que estavam a voar normalíssimo, sem travar, daí que até são bastante proficientes. O meu pior tempo foi melhor que o melhor tempo de muitos gajos muito bons. Os meus dois outros tempos, 2.6, foram muito bons, especialmente para o vento de frente, para a condição que estava e correu bem. Na precisão, também, tive uma ronda que me correu mal, que foi a última ronda por acaso. Estava durante a volta e a minha passada, o meu grupo de atletas, nós saímos em grupos de quatro, tivemos todos vento de costas e o resto do pessoal teve vento de frente, ou seja, é uma desculpa, entre aspas, não é bem uma desculpa foi má sorte, mas o vento mudou quando eu já estava a começar a volta, ou seja já meio que não podia fazer quase nada. Ainda travei ali ao máximo e tal, mesmo assim, não foi terrível. Em vez de ter tido oitenta e tal pontos que é o que tive no salto anterior, tive 62, ou seja, são alguns pontos, mas não é o fim do Mundo. No Freestyle, a primeira ronda e a última ronda, considero que foram boas. A do meio, o que aconteceu foi: eu em vez de sair do lago e ficar de pé, como tinha os manobradores numa mão só a fazer uma manobra de Freestyle, a asa andou um bocadinho para a direita e eu fiquei todo molhado e se tu ficares dentro de água, não saíres da água com a asa a voar, são zero pontos, ou seja, tive também zero pontos nessa, que tirou-me ali alguns pontos do total, mas as outras rondas que me correram bem, estou feliz com o que fiz.
Bola na RedeOu seja, existiram alguns azares, mas, em geral, foram bons resultados?
Gonçalo Resende: Eu considero que foram bons resultados. Se fôssemos a fazer as pontuações com as melhores três rondas de todos, ou seja, a melhor ronda de todos em cada disciplina, penso que a minha pontuação ia estar muito mais acima, ou seja, significa que a minha performance já está a um nível que considero bastante elevado. Só falta um bocadinho ali a consistência, que ainda estou a trabalhar nisso, também não tenho onde treinar aqui em Portugal, só consigo treinar mesmo antes das competições.
«Cabe-nos a nós compreender que às vezes Federação tem algum tipo de limitações, mas eu considero que a Federação faz o melhor trabalho que pode»
Bola na RedeE a nível de logística, como é que foi a experiência? A Federação cobriu algum custo?
Gonçalo Resende: A nível de logística, é sempre complicado a Federação tem pessoas a trabalhar competentes e tal, mas às vezes como são um pouquinho mais velhas, têm mais dificuldade com coisas de computadores e assim, o que não é maus de todo, só requer um pouco de trabalho da minha parte. Às vezes, é um bocado complicado, umas “dores de cabeça”. Por exemplo, a querida Senhora Dona Dulce, às vezes manda-se para ela um documento, por exemplo, em Excel com várias páginas e ela diz que não está lá nada, porque está na segunda página e depois tenho de estar a explicar ao telefone como é que se muda a página, para ela poder imprimir para assinar à mão, depois colocar outra vez no computador, digitalizar. É engraçado, não digo que seja frustrante porque nunca fiquei mesmo chateado com nada. Cabe-nos a nós compreender que às vezes Federação tem algum tipo de limitações, mas eles fazem o melhor que podem. Eu considero que a Federação faz o melhor trabalho que pode. Às vezes, muitas pessoas gostam de reclamar porque reclamar é gratuito e fácil e dizer que os outros têm as coisas porque têm sorte ou porque têm um tacho, uma ajudinha. Não é ficando em casa à espera que nos tragam a comida à boca, nunca dá nada a ninguém e é exatamente isso que eu tento não fazer. Quis me inscrever no campeonato, ajudei a Federação com tudo o que precisavam, a assinar os boletins, a entrar em contacto diretamente com a organização para enviar os meus documentos e assim, ou seja, eu garanti que nada ficou para trás, ou seja, não deixei que nada do meu futuro ficasse nas mãos de outra pessoa. Não vou dizer “Eu não consegui ir porque aquela pessoa não assinou nada por mim”. Não, eu peguei e disse: ok, eu quero ir ao Campeonato do Mundo, nem que tenha de ir para o edifício da Federação fazer o preenchimento com a Secretária da Federação, eu faço isso, nem que seja preciso. E já me aconteceu, ter de ir lá, pessoalmente. Por acaso, a Federação é mesmo ao ladinho da minha casa, numa casa que eu vim morar há pouco tempo quando vim estudar para Évora. Podia serem qualquer sítio do país, mas é mesmo aqui pertinho. Mas mesmo que fosse no Norte e eu morei muitos anos no Norte, eu tivesse que ir até Évora para ir à Federação, eu ia lá para conseguir fazer as coisas pessoalmente, eu ia lá para me poder conseguir fazer as coisas pessoalmente, que foi exatamente o que eu às vezes tive de fazer e desta vez foi a mesma coisa, fiz o boletim todo. Foi só enviar o boletim, a Federação assinou-o e enviou aos responsáveis.
Bola na RedeMencionaste a questão do Freestyle há bocadinho, qual é o próximo grande objetivo da tua carreira?
Gonçalo Resende: Eu gostava muito de participar numa das competições que existem de Freestyle, que é o SUP Challenge que até aparece na televisão, onde eles saltam para rios mesmo, em que os saltos são feitos para rios e tem lá o que parece um colchão a boiar no meio do rio e é uma competição muito fixe porque ajuda muito a demonstrar o desporto ao Mundo todo. Também existem os World Games que é o mais próximo que o paraquedismo está de se chegar a Jogos Olímpicos onde há vários tipos de desportos diferentes e os desportos juntam-se todos, há natação, há canoagem, é desportos olímpicos e o voo de asa está a chegar perto disso e fazem, acho que é de 4 em 4 anos, tal como houve este ano. Este ano, os júris das competições, claro que são eles em conjunto com outros júris, naturalmente, que decidem quem é que vai e a decisão é que os atletas que ficam apurados são o top 30, top 40, uma coisa assim, do Campeonato Mundial. Neste caso, no ano passado, eu até tinha uma carta de recomendação de um dos júris principais do voo de asa que até conheço para ir a essa competição, mas como não participei no campeonato do Mundo da Rússia, não pude participar na competição. Vai ter de ficar para a próxima vez que for. Certamente, da próxima vez, já sou apurado. Mas esses dois são os meus próximos objetivos nas competições

Fonte: Federação Portuguesa de Paraquedismo
Bola na RedeTens participado em várias provas internacionais, como já referiste. Portugal também participou no Mundial de Precisão de Aterragem. O paraquedismo em Portugal está a crescer, é possível dizer isto?
Gonçalo Resende: Penso que sim, que o paraquedismo nunca regrediu em Portugal. Tem sempre vindo a crescer. Eu, como trabalho numa escola, consigo objetivamente dizer que existem mais pessoas a saltar, existem mais pessoas a querer aprender a saltar, ou seja, a querer fazer o curso e existem mais pessoas diariamente a querer fazer um salto só, por diversão. Ou seja, sim pode-se dizer que o paraquedismo em Portugal está a crescer. Ao nível de competições e assim, às vezes as pessoas que saltam sozinhas e assim, têm vindo a saltar um bocadinho menos, até porque a situação económica de Portugal está um bocadinho mais complicada do que estava há uns anos atrás. Se calhar, se fôssemos a ver antes da recessão económica que tivemos em 2008, antes disso havia muito mais paraquedismo desportivo, no sentido de saltar só por diversão, porque as pessoas tinham um pouco mais de rendimentos livres para gastar nesse tipo de coisas. Hoje em dia, já é um pouco mais complicado, as pessoas terem os rendimentos para vir só divertir-se e fazer só um salto. Ainda existem várias pessoas que o fazem, mas, se calhar o número de pessoas total que o faz é um bocadinho inferior. E uma coisa que se nota muito é que, e eu lembro-me de ser mais novo e havia muitos mais paraquedistas com bastante experiência a saltar sozinhos do que agora. Agora, parece que há menos paraquedistas que saltam sozinhos mas com muita experiência. Por exemplo, se calhar antigamente, quando eu digo antigamente, é antes, se calhar de 2010, havia em qualquer fim de semana, grupos de 10 ou 15 paraquedistas com mesmo muita experiência, ao ponto de estarem a fazer coisas que é preciso um grande nível de experiência para fazer. Hoje em dia, se calhar, há o mesmo número de paraquedistas a saltar sozinhos, mas as já são pessoas se calhar, com menos experiência. Se calhar a média de um atleta desportivo, neste momento são 50 saltos, a média, sendo que a maioria são alunos com poucos saltos e estão um ou dois que ajudam a média a chegar aos 50. Se fizermos a média de um gajo com 10 ou 15 saltos com um gajo com 4 mil saltos, sobe muito a média. Se calhar, antes a média eram para aí 500 saltos, haviam muitas pessoas a saltar com 4, 5 mil saltos, a saltarem só por diversão. Hoje em dia, existem um bocadinho menos, mas existem em contrapartida mais alunos, mais pessoas com 0 saltos, 1, 2, 3, até aos 50, existem muitos mais. Eu conheço pessoas que já estão há anos e anos a saltar, só que saltam menos, com mais calma, fazem menos saltos. Se calhar antes, por exemplo uma pessoa gastava quase 25 euros por salto, agora já tem que gastar 30 e tal. E havia também muito mais o pensamento do querer meter é “fun jumpers” a saltar, “fun jumpers” são pessoas que saltam sozinhas e já têm experiência, e começou-se a querer fazer muito mais os “tandems “porque lá está como eu disse, o desporto começou a ganhar muito mais fama. Começaram muito mais pessoas querem saltar, mas que não querem saltar sozinhas, querem saltar acompanhadas. Então, por haver também muito mais número de pessoas que querem saltar acompanhadas, acaba por reduzir a vaga para pessoas que querem saltar sozinhas. Se bem que ainda há e nós temos oferta para quem quiser saltar sozinho. Temos sempre vaga no avião para isso, às vezes é preciso é esperar um bocadinho, mas temos as vagas e penso que é exatamente por causa disso, por causa do facto do paraquedismo ser um pouquinho caro para se ter experiência, as pessoas acabam por pensar “Opá, eu estou aqui a treinar, a saltar, a saltar, sou sempre um beginner”. Lá está, requer muito investimento financeiro, que é uma das desvantagens, se calhar, do paraquedismo.
Bola na RedeA nível de cobertura mediática sentes que poderia existir uma cobertura melhor do paraquedismo?
Gonçalo Resende: Penso que poderia haver muito, muito melhor. É claro que se nós perguntarmos a um jogador de xadrez se acha que havia de haver um campeonato de xadrez ao vivo, ele também vai dizer que sim. Acho que podia haver até porque é um desporto que tem muita nuance e é uma coisa muito única e penso que as pessoas iam conseguir aproveitar. Agora, tem havido mais o crescimento, dentro de desportos radicais, haver um ou dois praticantes mega famosos que as pessoas seguem veem os vídeos, veem as explicações, só porque a pessoa faz realmente vídeos que interessam a todo o mercado, seja uma pessoa paraquedista ou não. Dentro do paraquedismo, o que acaba por acontecer é que os sucessos do paraquedismo não têm grande interesse para pessoas de fora. As pessoas pensam: “Ok, és o melhor do paraquedismo, ninguém quer saber”. Precisamente por haver pessoas que conseguem pegar no desporto, contar boas histórias através de vídeos, através de imagens, seja o que for, acabam por ganhar um bocadinho mais de fama e eu acho bom isso, cada desporto acaba por ter uma ou duas pessoas que são instintivamente reconhecidas por estarem associadas a esse desporto. Não estamos a falar, por exemplo, dos canais de YouTube de paraquedismo. Um canal de YouTube que faça vídeos só sobre paraquedismo especificamente para paraquedistas, se tiver 10 mil subscritores, já é muito, já é ui, meu Deus! Enquanto que uma pessoa que tenha uma conta de Instagram, que seja tipo um “influencer” de paraquedismo, mas que esteja a fazer coisas para o público geral e não só para paraquedistas acaba por conseguir ter milhões de subscritores ou de seguidores, seja o que for. E pegando, nessa parte, é que consegues chegar à parte da televisão, Media, seja o que for.
Bola na RedeVai um bocado de encontro àquilo que disseste até à um bocado, da questão do “networking” e da utilização das redes sociais.
Gonçalo Resende: Tal e qual, tal e qual. Eu penso que quem conseguir pegar nisso e ficar conhecido pela parte do paraquedismo vai realmente conseguir partilhar um pouco o Mundo do paraquedismo, como trazer isso um pouco mais aos olhos do público geral. Se nós pensarmos em desportos muito específicos, há sempre um gajo que é bom no desporto, que faz vídeos para o YouTube que tem milhões, milhões de subscritores e então tu dizes “O quê, mas existem 10 milhões de pessoas a ver vídeos deste gajo?” Não. São 10 milhões de pessoas a ver, se calhar meia dúzia são paraquedistas ou ciclistas ou seja que desporto for. Para o paraquedismo ainda não existe nenhum, existem algumas pessoas no base, se calhar. O base (“base jumping”) é um desporto que se calhar puxa mais público. No paraquedismo, não estou a ver assim ninguém que imediatamente me venha à cabeça, mas no base por acaso temos muitas pessoas. Penso que a nível de cobertura mediática, penso que programas de televisão e assim. Acho que era giro se pegassem nalgum atleta português, por exemplo, se pegassem em mim, claro, que era ótimo, não é? Mas há vários atletas que podiam ir por aí, mas eu penso que não vale a pena andar a pedinchar e a dizer “Ah, façam uma reportagem sobre mim”. Mais vale fazer as coisas, ter as valências próprias que as oportunidades hão de aparecer. Já houve bastantes atletas portugueses que tiveram bastantes oportunidade de aparecer em programas de televisão, de ter esse tipo de reportagem porque até tinham algumas conexões, tinham familiares ou amigos que trabalhavam na imprensa. Eu por acaso, não tenho, infelizmente ou felizmente, não sei, mas não sei, portanto, o que me calhar vai ter que ser mesmo por partilhar, tentar meter nas redes sociais, tentar mostrar ao Mundo o que é o paraquedismo. Vou tentar o meu melhor, se conseguir, acho que será muito benévolo para o paraquedismo, porque neste momento, temos pouca cobertura nesse tipo de meios.
«Podes ser o melhor e ter o máximo de talento, fazer coisas inacreditáveis, se não sabes vender a tua imagem, se não dedicaste parte do teu tempo a desenvolver as tuas capacidades sociais e tudo o que está à volta, não vais conseguir chegar a lado nenhum»
Bola na RedeNa mesma entrevista ao “Skydive em Portugal”, referes que a queda livre te tornou uma pessoa mais passiva. É algo, portanto, que serve de escudo ou coador para uma certa ansiedade?
Gonçalo Resende: Sim, eu penso que quando comecei a saltar, me fez ter uma coisa na minha vida que era quase mais importante que tudo o resto. E eu digo a isto a alguns amigos meus, são poucos mas, eu tenho alguns que eram pessoas que não tinham nada a ver com o paraquedismo, que vieram trabalhar para o paraquedismo, às vezes por eu fazer a recomendação, outras vezes porque se interessaram e quiseram entrar no meio e eu digo-lhes sempre: nós podemos estar a sair à noite e querer ir falar com umas meninas e tal e eles estão com medo que corra mal. Podemos estar a planear alta cena que vamos fazer e eles estão nervosos ou quando éramos mais novos com os exames da escola e assim eu dizia assim, olha man, tu és um paraquedista, meu. Achas que isso aí é algum assunto para estares nervoso, quando sais de um avião e vens quase ali a morrer e depois abres o paraquedas para te salvar e acho que foi isso que a queda livre me trouxe, foi conseguir, tanto a nível prático, estar calmo como por exemplo se eu visse um acidente de carro à minha frente, eu ficava calmo, não ficava “Ai meu Deus!”, ajudava se fosse necessário, tanto como coisas psicológicas. Por exemplo, enquanto andava na escola, eu dava aulas. Estava na escola a aprender no 11º e no 12º ano e ao fim de semana e até depois das aulas, vinha para aqui dar aulas e tinha turmas inteiras a ouvir-me. Se fosse preciso, tinha muitos amigos preocupados com uma apresentação oral e para mim, uma apresentação oral era o meu trabalho. Era estar ali a falar de uma coisa que entendo, por isso ajudou-me a ter muito mais calma. Eu nunca fui uma pessoa que tivesse ansiedade em nada, zero, nenhuma. Tenho amigos meus que têm muita ansiedade ou amigas, seja o que for que sofrem com ansiedade, eu nunca tive ansiedade nenhuma. Podes mandar-me fazer o que for preciso, eu vou com calma, na boa. Desde que não seja uma coisa que me vá magoar, não fico nervoso. Sempre pensei que eu viesse a ter ansiedade em competições, no dia antes das competições, no dia antes de coisas muito importantes, em que estou a colocar a minha vida em risco. Nunca tive uma noite mal dormida por estar com nervos para a competição do dia seguinte, sempre fui uma pessoa muito calma, mas quando vim para o paraquedismo, comecei a dar menos importância a coisas assim mundanas e simples. Não estou a dizer “ah, saltaste e agora já não queres saber de nada, já não ligas a nada”, não, não é bem assim. Agora, ficar nervoso porque isto ou por aquelas coisinhas que deixam uma pessoa nervosa.
Bola na RedePassou a existir um equilíbrio maior na balança emocional, não é?
Gonçalo Resende: Tal e qual, tento estar sempre mais calmo e pensar sempre, podia estar aqui a saltar e a magoar-me vou estar aqui a magoar-me por causa disto, não.
Bola na RedeQual seria o maior conselho que darias a uma criança que quisesse fazer carreira no paraquedismo?
Gonçalo Resende: No paraquedismo, especificamente para dar atenção tanto a competências sociais como competências práticas. Por exemplo, lembro-me da minha mãe a dizer que o Cristiano Ronaldo era aquele tipo de pessoa que se fosse preciso não saía à noite com os amigos para ir treinar e só queria saber de treinar, treinar, treinar. Não estou com isto a dizer que em vez de treinar mais, vai sair à noite. Estou a dizer é que no paraquedismo as competências sociais têm quase tanta influência como passar tempo a gastar dinheiro e a treinar e que até podem ser feitas fora do aeródromo, nem têm nada a ver com o paraquedismo, que se for preciso, vão-te ajudar mais na tua carreira do que saltar muito e treinar muito. Eu treino muito e treino de forma muito rigorosa, quando estou a treinar ninguém me distrai, ninguém fale para mim, ninguém venha à minha beira, nada. Mas se eu tenho a carreira que tenho, que pode até não ser nada, não é grande carreira, é uma carreira, muito jovem, começou há muito pouco tempo, mas já consegui ser convidado para ir aqui, para fazer aquilo, para fazer esta competição, para dar a opinião sobre bastantes tópicos, também já me foi pedido para fazer “reviews” de produtos, produtos sérios, coisas sérias, foi porque eu perdi tanto tempo a saltar, que é o que é “fácil” para mim, porque é só entrar no avião e fazer o salto, mas também perdi muito, muito, muito tempo a construir uma personalidade e uma série de competências psicológicas que me permitem interagir muito melhor com as pessoas, ter muito mais competências a escrever, a ler, a demonstrar, a gravar, a editar, a fazer tudo o que na minha carreira não envolva tudo à volta do salto em si. Por exemplo, um rapazinho chega à minha beira e diz que quer ser o piloto de voo de asa campeão do Mundo. Eu não lhe vou dizer olha, tu pegas em milhões de euros e gastas e vais ser o melhor do Mundo. Porque eu lembro-me de estar a falar com um rapaz que foi campeão do Mundo por cinco vezes, não vale a pena estar a dizer o nome porque só um é que foi campeão do Mundo cinco vezes e ele a dizer-me que uma vez esteve na brincadeira com a mulher, a fazer as contas, e gastou acho que foi quase 2 milhões em treinos, paraquedas e essas coisas a vida toda dele. Mesmo tendo bué de patrocinadores, gastou quase 2 milhões. Claro que se não tivesse os patrocinadores, se calhar tinham sido 4 milhões. Mesmo que sejas o melhor do Mundo, ninguém te vai oferecer tudo. Se fores o melhor do Mundo a jogar futebol oferecem-te tudo, não precisas de pagar nada, levam-te até ao campo, se for preciso, ao colo. No paraquedismo não é assim. Podes ser o melhor e ter o máximo de talento, fazer coisas inacreditáveis, se não sabes vender a tua imagem, se não dedicaste parte do teu tempo a desenvolver as tuas capacidades sociais e tudo o que está à volta, nomeadamente aprender a trabalhar com “networking”, como estávamos a falar há bocado, não vais conseguir chegar a lado nenhum ou se chegares, é porque alguém te pagou tudo e mais alguma coisa.










