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«No Sporting os jogadores achavam que estávamos a curto prazo» – Entrevista BnR com Zé Pedro

Frederico Seruya · 25 min

«No Sporting os jogadores achavam que estávamos a curto prazo» – Entrevista BnR com Zé Pedro
Foto: Belenenses

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José Pedro Alves Salazar. O seu estilo é inconfundível: cabelo comprido ao vento e daqueles pés a bola saía sempre mais redonda. E em excesso de velocidade. Em entrevista exclusiva ao Bola na Rede, revela as dificuldades na passagem pela equipa técnica do Sporting CP, onde sentiu resistência por parte dos jogadores e falta de liderança de Frederico Varandas e Hugo Viana na relação com o plantel. Dos tempos de jogador no Belenenses, recorda os golos ao SL Benfica de Trapattoni no famoso 4-1 e um episódio caricato no dia a seguir ao jogo, assim como o impacto de JJ, que idolatrava Zé Pedro e Silas. No regresso ao clube enquanto treinador, destaca a “tremenda confusão” em que o clube se encontrava e o sentido de missão com que encarou este regresso.

– Um leão indomável –

Bola na Rede [BnR]: Olá Zé Pedro. Começamos pelo passado recente: como é que soubeste do interesse do Sporting?

Zé Pedro [ZP]: O Silas tinha acabado de rescindir com o Belenenses e nós restantes membros da equipa técnica ainda estávamos por resolver. Foi muito rápido, o Silas rescindiu, ouviu-se que o Leonel Pontes não ia ficar no Sporting e que havia interesse em Pedro Martins, Abel Ferreira, Leonardo Jardim e depois nós vínhamos em quarto. Pensei: não estou a ver o Abel a sair de onde está, o Pedro Martins também não. Ou o Leonardo Jardim vai e faz as coisas como ele quer ou não pega no Sporting como as coisas estão. Entretanto estou a pensar nisto e liga-me o Silas “Eh pá, preparem-se que eu acho que é mesmo”.

BnR: E tu?

ZP: Eu disse “Se é para ir, então vamos já!”. Depois foi uma questão de dois dias.

BnR: Foi fácil chegar a acordo?

ZP: Sim. Nós estávamos desempregados e depois uma oportunidade de treinar o Sporting… só poderia ser fácil. Até mesmo em termos de valores seria fácil nós chegarmos a acordo. Foi muito rápido, o Silas na 3ª-feira diz-nos para estarmos preparados porque podia ser a qualquer momento e na 4ª-feira antes do almoço ligou-me, porque eu conheço o Hugo Viana, e disse “Zé, o Hugo Viana ligou-me e é para irmos os dois a seguir ao almoço a casa dele.” E eu perguntei se era mesmo preciso eu ir, porque normalmente o treinador-adjunto não vai. E o Silas diz-me que o Hugo Viana falou que me conhecia bem e queria que eu fosse. E assim foi.

BnR: Como correu a conversa?

ZP: Falámos, acertámos logo ali. Depois na 5ª-feira fomos acertar as rescisões no Belenenses e na 6ª-feira fomos apresentados.

BnR: O que é que Frederico Varandas conversou convosco quando chegaram?

ZP: Acho que o presidente já tinha falado com o Silas antes pessoalmente. Ficaram muito agradados porque achavam que a equipa técnica tinha muita capacidade e uma das razões de nós termos sido uma das escolhas é porque tínhamos uma linha de três muito bem trabalhada no Belenenses e eles achavam que o plantel tinha condições e estava preparado para jogar num sistema de três defesas.

BnR: Houve resistência do plantel àquilo que vocês queriam impor na forma de jogar?

ZP: Sim, houve um pouco de resistência por parte de alguns. Não digo a maioria mas alguns jogadores. Um ou outro podia não se sentir confortável em jogar num sistema de três defesas e via-se isso nos treinos. Principalmente num ou noutro exercício notava-se alguma resistência. Mas no fundo eu também fui um bocadinho assim enquanto jogador, havia exercícios que não gostava e também torcia um bocadinho o nariz mas depois fazia o exercício.

BnR: Como é que vocês treinadores lidaram com isso?

ZP: Falámos entre equipa técnica mas não foi um problema porque depois a nossa prestação foi boa. Agora, outras coisas que nós queríamos que funcionassem, da forma como um plantel profissional deve funcionar, não estava a funcionar e depois com os resultados da eliminatória da Taça da Liga, a eliminação depois de uma boa vantagem que tínhamos na Liga Europa e depois coisas pontuais que aconteciam durante a semana e que nós queríamos agir e não era feito como nós queríamos.

BnR: Por exemplo?

ZP: Às vezes chamar à atenção ou mesmo castigar com uma ida aos sub-23 durante uma semana, para o grupo principal ver “Ou nós fazemos ou seguimos estas regras e princípios e o que está delineado pela equipa técnica ou então não há hipótese”. Outra coisa pontual que acontecia no treino, nós chamávamos à atenção no final do treino ao Hugo Viana e ao Varandas e perguntávamos se eles tinham visto. Eles diziam que sim e nós dizíamos que achávamos que eles deviam agir de determinada maneira, punir o infrator e não falávamos mais sobre isso. Mas as coisas continuavam a correr da mesma forma e assim não dá.

BnR: Quem eram os jogadores que mais faziam esse “braço de ferro” convosco?

ZP: Eram jogadores, eu acho que a maioria, que sentiam que nós estávamos a curto prazo. E nós tínhamos isso no contrato, se conseguíssemos atingir objetivos até ao final da época isso levava à renovação de contrato. Nós começámos a ver que o primeiro lugar era quase impossível, em segundo dificilmente vamos estar porque estávamos a alguma distância e percebemos que por objetivos não íamos lá chegar. Depois, por exemplo, eu se estivesse no Belenenses queria que o Silas jogasse sempre. Se tivesse um treinador que não quisesse que o Silas jogasse eu ficava “Então ele não põe o Silas e vai meter aquele gajo?”. Mas o jogador não tem que fazer isso e não tem que baixar o seu rendimento em função de uma decisão do treinador, eu tenho que trabalhar nos meus limites e depois o treinador decide.

BnR: Notaram isso no Sporting?

ZP: Sim, num ou noutro jogador mas não vou referir nomes. Outro exemplo foi a nossa chamada dos miúdos dos sub-23. Nós achávamos que se faltasse um defesa esquerdo e quiséssemos um defesa esquerdo dos sub-23, era um jogador que o Leonel Pontes também teria alguma necessidade de utilizar. Não íamos “queimar” o Leonel, levar um jogador dos sub-23 e ele ficar prejudicado. Foi a equipa principal e os sub-23 estarem em sintonia. Também isso foi posto em causa, de que deviam vir os melhores miúdos dos sub-23, mas não são os jogadores que têm que definir quem é que vem ou quem é que não vem. Por exemplo, agora estão uma série deles dos sub-23 a treinar com a equipa principal e isso não se passa com o Rúben Amorim. Porquê? Porque ele ainda tem mais dois anos de contrato. Se nós tivéssemos nem que fosse mais um ano de contrato as coisas não iriam ser feitas da mesma forma.

BnR: Referiste que quando havia algum problema no treino reportavam ao Frederico Varandas e ao Hugo Viana e pediam para eles tomarem medidas, só que não havia ação do lado deles. Sentes que do lado deles houve essa inércia por sentirem que vocês estavam a prazo e por isso não valia a pena eles criarem atrito com os jogadores?

ZP: Sim, não tenho dúvidas nenhumas que o primeiro pensamento foi esse. E os jogadores também se apercebiam disso em relação à direção, da direção não dizer nada nem fazer nada. Eu consigo analisar a pessoa e o outro lado. Se acontecesse alguma coisa no treino, e por acaso eles até estavam quase sempre presentes, e viam com os seus próprios olhos as coisas a acontecer…

BnR: Tendo em conta o contexto, era difícil fazer melhor do que o que vocês fizeram?

ZP: Havendo a resistência que houve, ia sempre ser difícil. Depois o ter o contrato só até ao final da época e o jogador aperceber-se disso, mais difícil ia ser. Mas eu achava que com a qualidade individual que o Sporting tinha, com a nossa maneira de ser, estar e lidar, porque fomos jogadores de futebol sabemos muito bem lidar com o grupo de trabalho, que iríamos potenciar ainda mais a equipa. Nós acreditávamos mesmo que íamos agarrar naquele grupo de trabalho, mesmo perante as dificuldades financeiras, o ambiente que há entre sócios, simpatizantes e administração, tudo o que está a envolver o Sporting, e dentro de campo ter capacidade. Não pensávamos que iria haver esta resistência e estes detalhes todos que expliquei foram travando aos poucos tudo aquilo que podíamos ter potenciado. Não poderíamos ter feito melhor. Eu hoje estava a ver uma percentagem, vale o que vale porque eu também não ligo demasiado a isso, que se o Amorim não ganhar ao Benfica, nós temos a percentagem mais alta de vitórias. Apesar de o Rúben acabar por ter menos jogos, isto diz bem do trabalho que fizemos.

BnR: JJ vaticinou uma carreira brilhante para ti e Silas. Qual será o próximo passo na tua carreira para se cumprir esse dito?

ZP: Eu não queria muito baixar o nível ehehe. Já que saí do Sporting… sair do Sporting não é a mesma coisa que sair do Belenenses, sem desprimor para o Belenenses como é lógico. Porque já disse e volto a dizer, para mim o Belenenses foi quem me deu tudo em termos desportivos e fez-me crescer muito enquanto ser humano. Mas a maneira como sais do Belenenses é uma coisa e a maneira como sais de um dos grandes é outra. Eu não faço muitos projetos mas uma coisa é certa: eu leal ao Silas vou ser. Por exemplo, se o Silas e eu estamos num clube e ele sai, eu não vou assumir o lugar dele. Se o Silas sai, eu também saio.

– Um chavalo “vira-casacas” –

BnR: Quais são as primeiras memórias que tens do futebol?

ZP: Há uns tempos, creio que tinha acabado de sair do Belenenses e estava no desemprego na altura, aproveitei para fazer uma visita aos Ídolos da Praça, que foi onde eu iniciei. Futebol de 5 na altura, com seis anos. Fui lá à sede e assim que lá cheguei, mesmo não sendo as mesmas pessoas da altura, vieram logo “Então Zé Pedro, por aqui?”. E eu disse “Sim, iniciei aqui com os meus seis anos e até aos meus 34, até terminar a carreira, nunca mais parei.” Como moro no Montijo e vivi em Setúbal durante 10 anos, passei ali pelos Ídolos da Praça e pelos Pelezinhos, é a primeira lembrança.

BnR: Como é que chegas às camadas jovens do Benfica?

ZP: Os meus pais separaram-se quando eu tinha dois anos e eu vivi com a minha mãe desde essa altura até aos 12 anos, em Setúbal. Depois a minha mãe foi viver para o estrangeiro e eu fui viver com o meu pai para o Montijo. Nessa altura eu já era uma das referências dos Pelezinhos e um dos amigos do meu pai trabalhava lá no Benfica. No início da pré-época ele perguntou ao meu pai o que é que achava de eu ir com ele e fazer uns testes ao Benfica. O meu pai, como era benfiquista, disse que sim e eu fui, com 12 aninhos. Deram-me uma semana para eu mostrar o que valho e eu em três dias mostrei qualidades que na altura o José Paisana me perguntou o nome e falou com o meu pai, a dizer que queriam que eu ficasse.

BnR: Ficaste quanto tempo?

Três anos, dois de iniciado e um de juvenil.

BnR: Ias e vinhas de transportes do Montijo para a Luz?

ZP: Sim. Nos primeiros dois meses o meu pai acompanhou-me e fez o trajeto comigo mas depois “largou-me” e passei eu a ir sozinho.

BnR: Não devia ser fácil fazer essa viagem de transportes…

ZP: Não, não era ehehe. À 4ª-feira era o dia mais complicado porque eu tinha o barco às 17h25 e só acabava as aulas às 16h30. Tinha que sair rápido da escola, ir a casa dos meus avós deixar a mochila e pegar nas coisas do treino. Na altura a viagem de barco era 55 minutos, depois ia a pé até à Praça da Figueira ou ao Rossio para apanhar o metro até ao Colégio Militar. Daí ia a pé até ao Estádio.

BnR: Tinhas algum ídolo de infância?

ZP: Ohhh pá, tive tantos… Stoichkov, Ronaldo Fenómeno, Romário, Gullit.

BnR: Frederico Varandas disse que a primeira vez que viu Silas ao vivo, na altura jogador da UD Leiria, foi em 2002, na Praça do Rossio, a festejar o título do Sporting. É possível que alguém te tenha visto quando eras mais novo a festejar algum título de campeão?

ZP: Não, porque eu fui um bocado vira-casacas enquanto chavalo. Os meus pais são benfiquistas e depois tenho dois irmãos mais velhos e quatro mais novos do que eu. Os mais novos, um é ferrenho pelo Porto, o outro é ferrenho pelo Sporting. Na altura, ainda os três grandes ganhavam campeonatos e então eu quando um ganhava, festejava com o meu irmão que fosse adepto desse clube. Eram os meus exemplos na altura, as minhas referências, e eu seguia-os. Na minha infância fui dos três grandes eheh. Mas em miúdo nunca fui assim ligado a um clube em especial.

– Marcar ao Benfica e ir de barco para o treino –

BnR: Como foste recebido na chegada ao Belenenses?

ZP: Dou sempre este exemplo quando se fala que os miúdos atualmente chegam à equipa sénior e é uma facilidade tremenda. Nós na altura não. Eu tinha acabado de subir de divisão com o Vitória de Setúbal e tinha ido com o Carvalhal para o Belenenses. Normalmente a imagem que passa quando vais com o treinador é que é quase um lugar no onze certo.

BnR: Lembras-te do primeiro dia?

Perfeitamente. Lembro-me de entrar no balneário e agora é curioso teres-me feito essa pergunta porque ainda ontem liguei para o Sousa, que trabalha na SportTV. Liguei-lhe por saudades e por o ter visto na televisão e ele foi uma das primeiras pessoas com quem me cruzei quando cheguei ao Belenenses. Quando cheguei, pedi o meu cesto, com a minha roupa, a toalha, etc, e quando chego ao balneário era enorme. Pensei “Onde é que eu me vou sentar?”. Já tinha 25 anos na altura, não era um chavalinho, mas decidi esperar para ver onde os jogadores se sentavam. Então chego, fico junto à porta e ponho o cesto no chão. O Sousa estava ali a dois metros de mim e perguntou-me porque estava ali. E eu expliquei-lhe que estava à espera que chegasse a malta toda para ver onde me sento.

BnR: E ele?

ZP: “Então olha, já que estás com essa humildade toda vais-te sentar aqui ao pé de mim”. Então sentei-me ao pé dele e do Marco Paulo. Aquilo era um banco corrido e nesse banco estava também Tuck, Wilson, Marco Aurélio, Andersson…

BnR: O sueco do Benfica?

Sim, estava emprestado.

BnR: Ficaste ao lado da “velha guarda” no balneário.

ZP: É, eu sempre tive tendência para me aproximar de jogadores mais velhos, já no Barreirense também foi assim. Fiquei ao lado do Sousa e do Marco Paulo. O Marco Paulo já era uma “carcaça”, o Sousa também já tinha um estatuto, jogador do Porto e do Benfica, e já estava no Belenenses como uma grande referência. Eu entrei ali com estatuto por ter vindo com o Carvalhal mas era o meu primeiro ano de afirmação de Primeira Liga. Essa foi uma das coisas importantes para mim, ter essa recetividade de jogadores importantes no clube. Depois na pré-época, quando vamos para Quiaios, o Carvalhal escolhe para ficar como meu parceiro de quarto o Tuck.

BnR: Eish, histórico do Belenenses.

ZP: É, o Tuck era o capitão e era a figura-mor do plantel.

BnR: Ouviste “bocas” por teres vindo com o treinador?

ZP: Lógico que ouvi. “És filho do homem” ehehe. Mas foi sempre naquele espírito de grupo e eu aceitei isso de forma natural.

BnR: Que condições encontraste?

ZP: Boas, felizmente. Temos saudades quando são essas direções em que tudo funciona e há uma boa ligação. Na altura o presidente era o Sequeira Nunes e o Rui Casaca era o diretor desportivo. Tínhamos todas as condições, tínhamos o campo principal, ainda tínhamos o campo nº2. Era perfeito para o Belenenses na altura, tínhamos condições mais que ótimas daquilo que eu considero essencial para um clube da Primeira Liga.

BnR: Um dos teus jogos mais marcantes pelo Belenenses é uma vitória categórica sobre o Benfica de Trapattoni.

ZP: Siiiim, 4-1 no Restelo.

BnR: Marcas dois golos e esta derrota dá origem à troca de guarda-redes nos encarnados.

ZP: Lembro-me perfeitamente, foi um jogo muito importante porque fazendo golos a um grande, a dimensão que a própria imprensa põe sobre ti é diferente. Esse jogo foi maravilhoso para mim, vai ficar na história. 4-1, onde é que o Belenenses irá outra vez derrotar o Benfica por números destes? Foi muito bom.

BnR: Na semana seguinte, está-se “nas nuvens”? Há mais pessoas a abordarem-te na rua?

ZP: Posso contar isto sem problema…

BnR: Vem aí história…

ZP: [Zé Pedro sorri] É. Foi uma coisa que me deixou um bocado preocupado e intimidado. Na altura eu ainda não tinha a carta de condução e ia de barco e autocarro para o treino. Demos 4-1 ao Benfica, eu fiz dois golos e o jornal A Bola a seguir veio fazer-me uma grande entrevista no Montijo. Depois desse jogo, nessa semana sou confrontado por um adepto do Benfica. Eu levei aquilo mais ou menos na brincadeira mas sinto hoje que não foi na brincadeira.

BnR: Insultou-te?

ZP: Não, mas no meio daquela gente toda no barco, quando vínhamos a sair ele começou “Estes gajos também só fazem golos ao Benfica” e assim. Às vezes há situações destas que surgem mas com malta conhecida, que desfazem essa questão e com um sorriso aquilo passa. Eu senti isso daquela forma. Agora conforme fui andando, senti que ele estava a vir atrás de mim e intimidou-me com aquilo. Eu fiquei com um ar… não vai haver aqui desaguisados, não o vou confrontar nem nada, vou ignorá-lo. Foi um episódio que me fez pensar que tinha que tirar a carta o quanto antes para no futuro não voltar a ter situações destas.

BnR: O que é que as pessoas mais te dizem quando te encontram na rua?

ZP: Como jogador põem-me no patamar lá em cima, dizem-me que poucos jogadores portugueses com o pé esquerdo e com a minha qualidade não chegaram a um grande. Dizem também que eu podia ter chegado à seleção, que a minha carreira podia ter sido outra, que cheguei tarde à Primeira Liga, que não tive um empresário capaz de…

BnR: O que é que representa para ti ouvires isso?

ZP: Um bocadinho de tudo. Acho que as pessoas têm um bocado de razão naquilo que dizem. A verdade é que eu chego ao Belenenses quase a fazer 26 anos, nunca tive empresário. Quer dizer, tive empresário na altura da transferência do Barreirense para o Boavista, mas depois não houve uma continuidade. Enquanto jogador olho para plantéis de grandes, na altura, e sinto que com um bocadinho de sorte era capaz de caber lá. Tinha capacidade para ter mostrado o meu potencial. Não estou a dizer que chegava a um grande e era titular indiscutível, mas pelo menos fazer parte do plantel e discutir o lugar com alguém. Mas depois também olho o que fiz e já foi com 28 anos, com essa idade já fica um bocado curto para chegar a um grande, não tendo empresário então…

BnR: Nunca foste abordado por um grande ou algum clube estrangeiro?

ZP: Só tive duas propostas para sair. Uma do Cluj, em que um empresário português me deu a conhecer o interesse deles e reuni num hotel em Lisboa com dois diretores do clube.

BnR: A proposta não era boa?

ZP: A proposta financeiramente era boa mas eu tinha ainda dois anos de contrato com o Belenenses, era uma das maiores referências do clube e eles queriam que eu fosse como jogador livre. E eu disse-lhes “Como é que vocês querem que eu vá como jogador livre se eu tenho contrato com o Belenenses e sou uma das maiores referências?”. E expliquei-lhes que eles é que tinham que falar com a direção do clube e tentar chegar a um acordo. Eles acabaram por não falar com a direção e eu achei que não me ficava bem ser eu a ir falar, ainda por cima sendo um dos capitães. Na altura era a direção do Cabral Ferreira. Mas ainda tenho lá em casa a folha com a proposta, vencimentos, prémios de jogo, prémios de irmos à Liga Europa, tudo.

BnR: E o outro clube que te abordou?

ZP: Foi a Reggina. Foi a seguir à nossa primeira época com o Jesus, nessas duas épocas eu estive super bem. Na altura tinha ido também o Miguel Garcia.

BnR: Sei bem, entrevistei-o há uns tempos e ele contou-me os pormenores.

ZP: Exato. Era para ter sido eu e ele a irmos nessa vaga. Estávamos em estágio na Beloura e fomos fazer uma visita ao Cabral Ferreira no hospital e o presidente da Reggina foi ao hospital de propósito para se cruzar comigo. Como estávamos em estágio, o Jorge Jesus não deixava ninguém lá entrar. Então a única hipótese era ele contactar-me durante a nossa ida ao hospital e falámos um bocadinho sobre isso. A diferença salarial na proposta que ele me fez não compensava e acabei por não aceitar. Mas aí já havia um valor que a Reggina iria pagar ao Belenenses.

BnR: Qual o primeiro impacto de Jorge Jesus quando chegou?

ZP: O primeiro impacto para ele foi olhar para nós e ver que não sabíamos onde é que íamos jogar, porque foi aquela história do caso do Estrela da Amadora e não sabíamos se éramos nós que íamos ficar na Primeira Liga ou se íamos iniciar na Segunda Liga. E ele assumiu logo o Belenenses mesmo não sabendo qual era a liga que íamos disputar, porque ainda estava por decidir em tribunal. Eu acho que o que ele sentiu foi “Sei o que tenho aqui à minha frente mas não sei onde é que vou jogar com estes jogadores.”

BnR: E o primeiro impacto dele em vocês?

ZP: Lembro-me perfeitamente da apresentação dele. Chegou ao pé de nós, apontou-nos o dedo e disse-nos “Seja na Primeira ou na Segunda Liga, o nosso objetivo comigo aqui é sermos cada dia cada vez melhores”. Aquilo marcou-me, porque já tive alguns treinadores durante a minha carreira e nunca ouvi isto. Depois foi o primeiro impacto de eu quero, posso e mando em tudo e depois taticamente. Naquela pré-época e naquele primeiro mês de trabalho sentimos “Este gajo é mesmo diferente, é treinador-professor”. Ainda hoje falo com o Silas sobre isso, meio metro para o Jesus vale dois valores. Esse primeiro mês percebemos que o ser melhor todos os dias era ser melhor nesse meio metro do que os outros. Foi muito positivo.

BnR: Jorge Jesus contou que quando chegou ao Belenenses, Silas lhe disse que não recebiam há cinco meses. Era algo recorrente já naquela altura?

ZP: Não sei se foi cinco ou três, não quero estar a desmenti-los, mas se o Silas disse cinco é porque era cinco. Ele era o nosso capitão e na altura quando confrontou adeptos com isso disse “Eu não sou o capitão da direção nem de nenhum treinador, eu sou o capitão dos jogadores.”. Ele explicou que ia defender os jogadores e que não valia a pena estarem a dizer que… ou para a imprensa, acho que foi nessa altura que algum diretor disse que os jogadores tinham os salários em dia e depois nós fomos confrontados com os adeptos.

BnR: E o Silas?

ZP: Foi para cima deles e disse que era o capitão dos jogadores e que esse diretor que disse que nós não tínhamos salários em atraso mentiu, porque tínhamos de facto salários em atraso. Ele explicou que ia defender os jogadores e mais ninguém. Eu compreendo perfeitamente o Silas porque muitas vezes nós somos nomeados pelo grupo de trabalho e não vamos depois defender o que uma direção ou um treinador possa dizer. Não estaríamos a ser leais. E sei que houve ali alguns jogadores que o Silas ajudou financeiramente nessa altura.

BnR: É um sentimento agridoce recordar a final da Taça de Portugal perdida para o Sporting?

ZP: É, claro que é. Infelizmente não estive em mais nenhuma final e tínhamos um excelente treinador, uma excelente equipa. Tivemos um percurso muito bom mas apanhámos um Sporting muito forte, mas custou porque sabíamos que para muitos poderia ser a única. E para mim foi. Depois fica agridoce porque perdemos aos 88’ e perdemos também da maneira que foi. Uma bola parada, depois um lançamento em que o Amaral está fora a receber assistência, eles lançam rápido, há um cruzamento e o Liedson aparece e faz rapidamente o golo. Fica agridoce porque morremos na praia. Estávamos a contar ir para o prolongamento, era mais meia hora que, para nós clube de meio da tabela, podia jogar a nosso favor. Para o Sporting não porque era mais meia hora e tinham a exigência de clube grande.

BnR: Como reagiram quando o sorteio da Taça UEFA ditou duelo contra o Bayern Munique?

ZP: Era o que não queríamos que saísse porque era o teoricamente mais forte, mas por outro lado também queríamos o mais forte porque ir jogar a Munique, tal como a final da Taça, pode ser um momento único para os jogadores. É mau porque provavelmente vamos ser eliminados mas por outro lado vamos jogar ao Bayern e isso acaba por ser marcante.

BnR: Como é que se prepararam para a eliminatória?

ZP: Mudámos de sistema. Com o Jesus jogávamos sempre em 4-4-2 em losango e nessa eliminatória jogámos com uma linha de três. Nessa semana tivemos que trabalhar um bocadinho mais esse sistema, 3-5-2.

BnR: Ainda que não fossem favoritos, a derrota por 1-0 em Munique trouxe a eliminatória algo em aberto para o jogo no Restelo.

ZP: Sim e eu acho que nós pensámos que eles vinham cá ao Restelo e nós éramos capazes de dar mais luta. Mas a verdade é que eles eram muito fortes…

– Zé Pedro e Silas, ídolos para JJ –

BnR: Jorge Jesus disse que tu e o Silas teriam sucesso de certeza absoluta como técnicos. Como recebeste na altura esta mensagem, ainda por cima vinda de um antigo treinador teu?

ZP: Eu e o Silas demo-nos muito bem com ele, algumas vezes ele liga-nos para irmos almoçar os três. Ele adorou-nos e nós adorámo-lo, no fundo foi isso. O Silas também foi treinado pelo Mourinho e diz que já teve os dois melhores portugueses da história, mas que mesmo assim continua a preferir o Jorge Jesus. Ele gostou muito de nós enquanto jogadores e enquanto seres humanos e nós adorámo-lo enquanto nosso líder, enquanto nosso treinador e enquanto nossa referência. Bebemos muito do conhecimento que ele nos deu e utilizamos em muita coisa nossa, juntando ideias nossas. Perante o grupo de trabalho do Belém ele idolatrava-nos. Ele era o treinador da tática e nessa entrevista em que ele disse isso de nós irmos dar treinadores e tal, ele disse também que nós enquanto jogadores já eramos taticamente muito fortes.

BnR: Tens algum episódio engraçado com ele?

ZP: Ele comigo dizia-me muitas vezes, aos gritos, para todos ouvirem “F******, tu treinas a 70% e já jogas assim, se tu treinasses a 100% imagina onde é que tu estavas!” Ehehe. Mas eu sempre tive consciência que treinava dentro das minhas capacidades, não sabia avaliar se era 70% ou 80%, ele achava que eu poderia dar mais.

BnR: Qual a sensação de regressar como treinador a uma casa onde representaste tanto como jogador?

ZP: Eu acho que foi essencial para o Belenenses ter sido o Silas e eu os treinadores de transfer do Restelo para o Jamor. Continuo a achar que, nos últimos 20 anos, não só pelo que as pessoas me transmitem mas pela avaliação que faço porque tenho acompanhado sempre o Belenenses, eu e o Silas fomos os dois melhores jogadores ou as duas maiores referências. Isto com provas dadas, eu não sou nada de me autoelogiar, são factos. A verdade é essa. Para o transfer, para as condições que tínhamos no Restelo e depois passámos a ter no Jamor, as confusões com o símbolo, com as cores, com o nome, com tudo, acho que fizemos um trabalho muito bom.

BnR: Inicialmente vocês iam era treinar a equipa B certo?

ZP: Sim, quando o convite nos foi feito a equipa B ia ser formada e nós já estávamos a trabalhar sobre isso. Para mim voltar àquela casa foi maravilhoso porque o Belenenses em termos desportivos deu-me muito. O Belenenses e o Vitória de Setúbal foram as duas equipas que me deram mais na carreira. Quando o Silas me ligou a dizer que o Rui Pedro Soares queria falar connosco para sermos os treinadores da equipa B que iam formar, eu fiquei encantado. Depois quando estive lá, voltei a estacionar o carro no parque do Restelo, entrei nas instalações, falei com o presidente, falei com o José Luís, o diretor desportivo… Voltar passados uns anos, noutro contexto, àquela instituição e àquele estádio foi muito importante para mim.

BnR: Que condições encontraste neste Belenenses?

ZP: As coisas já estavam um bocadinho atribuladas, porque na altura em que o Rui Pedro Soares nos convidou para treinar a equipa B eles podiam utilizar as instalações mas, por exemplo, em quatro treinos da semana o futebol profissional só podia utilizar as instalações do clube duas vezes. Nos outros dias iam ao Jamor. Já havia um valor anual ou mensal que a administração da SAD pagava à administração do clube para a SAD utilizar o espaço do clube. Só aí foi uma grande diferença em relação aos tempos de jogador, não apanhei nada disso na altura, as instalações eram nossas e de mais ninguém.

BnR: Entretanto, entram para substituir Domingos Paciência.

ZP: Exatamente, concluímos a época já como treinadores principais e aí já apanhámos isso de treinarmos no Jamor e no Restelo. Às vezes o treino estava marcado para o Restelo, de manhã ligava-nos o Zé Luís a dizer que o treino afinal já não era no Restelo e que tínhamos que ir para o Jamor. Depois na época seguinte transitámos definitivamente para o Jamor e foi uma confusão tremenda. O que valeu foi o grupo e o Silas e eu como treinadores de transfer do Restelo para o Jamor. Outro treinador qualquer… treinar em cima de folhas, campo seco, ninguém para regar o campo, fazeres uma caminhada de quase um quilómetro para ir treinar e depois do treino mais um quilómetro para vires para o balneário. Sinceramente, se não fôssemos nós não havia treinador que aguentasse uma época neste contexto.

BnR: E em termos de plantel?

ZP: Tínhamos muita qualidade nesse Belenenses: Bakic, Yebda, fomos buscar o Nathan, depois o Yazalde, o Licá, além dos jogadores que já tínhamos no plantel, como o Fredy. Aquele grupo de trabalho dava para lutarmos por mais qualquer coisa do que não só a manutenção. Depois o grupo foi um bocadinho desfeito quando transitámos do Restelo para o Jamor. O Nathan não ficou, o Yebda também não, queríamos que o Robert ficasse, que era um central canhoto, mas não chegou a acordo com o Belenenses, o Yazalde depois também teve uma lesão. Houve jogadores importantes que saíram e que era importantíssimo mantermos quando fizemos o transfer do Restelo para o Jamor. Mas conseguimos à mesma um grupo espetacular, como eu não via há muito tempo.

BnR: Qual a melhor lição que o futebol te ensinou?

ZP: Xiii, deu-me tanta coisa… O futebol deu-me tudo. Acho que o futebol apimentou a minha lealdade, já era da minha personalidade mas acho que o futebol deu-me tantas aprendizagens, a nível pessoal, a nível profissional.

– Passes curtos –

BnR: Qual é para ti o melhor momento da tua carreira?

ZP: As duas épocas com o Jorge Jesus.

BnR: Um estádio?

ZP: O do Bayern de Munique.

BnR: Qual o teu melhor golo?

ZP: Contra o Sporting, ganhámos 1-0 no Restelo.


BnR: Qual foi o melhor jogador com quem jogaste?

ZP: Hugo Leal.

BnR: Um guarda-redes?

ZP: Marco Aurélio.

BnR: Um defesa?

ZP: Nivaldo.

BnR: Um médio?

ZP: Hugo Leal também.

BnR: Um avançado?

ZP: Meyong.

BnR: E o jogador mais difícil de defrontar?

ZP: Lucho González

Frederico Seruya

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