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O Bola na Rede entrevistou Álvaro Magalhães, antigo jogador e atual treinador. Nasceu para o futebol no clube da sua terra, em Lamego, saltou para a Académica e depois fez parte das grandes equipas do Benfica nos anos 80. Internacional A por Portugal, representou o país no Europeu de 84’ e no Mundial de 86’, formando uma dupla temível com Chalana. Como treinador levou o Gil Vicente à Primeira Liga, venceu uma Taça de Portugal e um Campeonato como treinador-adjunto no Benfica, tendo sido também campeão em Angola. São histórias atrás de histórias, de um defesa incansável que chegou a ser disputado pelos três grandes.
– Infância e primeiros passos no futebol –
Bola na Rede [BnR]: Nasceste em Lamego no ano de 1961. Como é que foi a tua infância?
Álvaro Magalhães [AM]: Eu era estudante, por isso a minha vida nessa altura era praticamente estudar.
BnR: O que faziam os teus pais?
AM: O meu pai era dos comandos, era Ranger, e a minha mãe era doméstica.
BnR: Tens irmãos?
AM: Mais três, eu sou o segundo.
BnR: Quando é que começas a jogar futebol?
AM: Começo a jogar em 1974, num torneio de futebol de 5 onde fui convidado por uma equipa de estudantes. A partir daí dei nas vistas e os Cracks de Lamego convidaram-me para fazer parte da formação, comecei nos Iniciados.
BnR: Desde o início que jogaste a defesa esquerdo?
AM: Não, joguei a meio-campo sempre. Ainda fomos campeões distritais de Viseu e campeões nacionais em 1977/78.
BnR: Qual era o clube que apoiavas em miúdo?
AM: Ali naquela zona onde morava, em Lamego, na aldeia de Cambres, a malta era mais do Sporting, até havia a filial Sporting Clube de Lamego. Mas também havia benfiquistas e portistas. Nós na altura gostávamos de ver todas as equipas e apoiávamos os portugueses nas competições europeias, eu pelo menos não era adepto de um clube em específico.
– Início de Carreira na Briosa –
BnR: Começas a tua carreira como sénior na Académica. Como foi o teu processo de afirmação na equipa?

Fonte: Álvaro Magalhães
AM: Foi boa, fiz um ano de juniores muito bom. Depois acabei o campeonato de juniores em fevereiro e comecei logo a trabalhar com os seniores. Na altura já era o Juca o treinador dos seniores da Académica e esses três meses de treino deram-me um bom suporte para começar a minha época de seniores já com outra bagagem. Depois, quando entrei no primeiro ano de sénior tive a felicidade de o treinador, Pedro Gomes, ter a coragem de me lançar ao lado de grandes jogadores. Era uma equipa muito experiente, eu era o mais novo com 18 anos.
BnR: Quem era o plantel, lembras-te?
AM: Camilo, Brasfemes, Gervásio, Rui Rodrigues, Martinho, Melo, Marrafa, Eldon, Nicolau… Eram jogadores já com uma certa tarimba, com carisma.
BnR: Ficaste com muitos amigos nessa equipa?
AM: Muitos. Sou querido lá em Coimbra, de vez em quando vou lá e encontro-me com alguns deles. Aqueles com quem mais me dava e que foram grandes conselheiros são o Camilo, que infelizmente já faleceu, o Brasfemes e o Martinho. Às vezes encontro-me com eles e o meu filho até costuma jogar futebol com eles e outros ex-jogadores da Académica.
BnR: Como era a massa adepta da Académica nessa altura?
AM: Difícil, a Académica é um clube com uma mística muito própria, não é fácil. Por isso é que eu vim preparado para o Benfica, porque vinha de um clube muito exigente como a Académica, é uma responsabilidade vestir a camisola da Briosa. Claro que o Benfica é diferente mas representar a Académica não é para qualquer um. Os adeptos sentiam muito o clube e aquilo era sempre para ganhar, eles eram ganhadores natos. Mesmo no trato dentro do campo eles eram difíceis, já havia uma mística própria na Académica.
BnR: Na Briosa já eras muito polivalente?
AM: Sim. Uma vez jogámos contra o Porto e o Mário Wilson colocou-me a lateral direito porque o Costa era um jogador fortíssimo, era agressivo, e precisava de alguém com agressividade, concentrado, que conseguisse anulá-lo. O ‘Capitão’ disse na palestra que eu ia jogar ali e eu disse “Se o Mister quer que eu jogue ali, eu jogo.” E fiz um grande jogo, até me compararam com o Artur. O saudoso Artur, éramos como irmãos.
BnR: No final da época 1980/81 dá-se a tua transferência para o Benfica. O que fez com que te destacasses e chamasses a atenção de um dos grandes?
AM: O que me fez destacar foi a boa época que estava a fazer na Académica, foi uma época fantástica. Estava a ser observado por várias equipas, não era só o Benfica, mas também o FC Porto e o Sporting.
BnR: Foste disputado pelos três grandes?
AM: Sim, o Sporting até foi a primeira equipa a falar comigo. No mesmo dia em que jogámos contra o Sporting eu tive uma reunião com o Armando Biscoito.
-Carreira no SL Benfica-
BnR: Então como é que acabaste por ir para o Benfica?
AM: Estava lá também o Toni, que já fazia parte da equipa técnica do Benfica. Como tinha jogado na Académica e era uma lenda do clube, tinha o privilégio de poder entrar no balneário. Quem é que lá estava a liderar a equipa? Mário Wilson, o ‘Capitão’ Mário Wilson, que também foi ele o grande responsável pelo contacto. O Toni entrou no balneário e foi falar com ele, dando-lhe conhecimento de que o Benfica estava interessado nos meus serviços. Entretanto, eu saio do estádio e vou para a Praça da República para jantar qualquer coisa antes de ir reunir com o Sporting. O Toni foi atrás de mim, encostou o carro lá na Praça e chamou-me, nem saiu do carro para não dar muito nas vistas. Disse-me: “Miúdo, sei que o Sporting também está interessado em ti”. Eu conhecia o Toni de o ver jogar e porque colecionava cromos dele, por isso tratei-o por “Senhor”, a educação é assim mesmo, tem de haver respeito. E ele disse: “Eu sei que o Sporting está interessado mas o Benfica também está interessado. Agora depende de ti”. No dia seguinte, o Mário Wilson agarrou em mim, levou-me para o gabinete dele e disse-me que achava que o melhor caminho para mim era ir para o Benfica. Como ele era um benfiquista fanático, foi o grande impulsionador da minha ida para lá.
BnR: Como decorreu o processo de transferência?
AM: Sim. O Sporting queria falar primeiro comigo e não falou com a direção, queriam que eu me desvinculasse da Académica mas eu não podia fazer isso porque ainda tinha um ano de contrato. O Benfica falou primeiro com a Académica, chegou a acordo com a direção e os dirigentes da Académica vieram falar comigo. Fomos jantar, aumentaram-me o ordenado como prémio, porque sabiam que eu estava com possibilidades de ir para o Benfica e chegaram a um acordo que foi bom. Deve ter sido porque acabou por pagar os ordenados à equipa da Académica e depois para eu chegar a acordo com o Benfica foi rápido.
BnR: Lançado por Lajos Baroti, estreias-te pelo Benfica no dia 1 de novembro de 1981, frente ao Sporting, num jogo que terminou 1-1. Que memórias tens da tua estreia?
AM: Foi giro porque eu nunca tinha jogado a defesa esquerdo. Como treinador digo sempre que um jogador tem que estar disponível para jogar em várias posições. Estar no grupo dos 16 jogadores e depois estar no grupo dos 11, naquela altura, é uma felicidade, ainda por cima num dérbi. O Baroti falou comigo e eu disse que estava disponível, era uma posição que eu desconhecia mas também já tinha jogado a lateral direito. Nós temos que ser polivalentes, se ele me pusesse a avançado não havia problema nenhum, eu queria era jogar. E joguei bem, fui aplaudido pelos adeptos do Benfica, que me caracterizam como um “jogador à Benfica”, pela determinação, pela raça, pela maneira como me entrego ao jogo, e a imagem do jogador à Benfica é essa, não chega só ter bons pés. É preciso coragem e uma parte psicológica muito forte.
BnR: Foi a única posição que fizeste no Benfica?
AM: Não, também fui a central com o Humberto Coelho. Eu joguei a defesa esquerdo nesse jogo com o Sporting porque o Pietra se lesionou, quando ele voltou eu fiz dupla com o Humberto porque o Laranjeira também se lesionou.
BnR: Foi fácil integrares-te no plantel?
AM: Mais ou menos. Quando eu cheguei ao Estádio da Luz estava perante jogadores de grande qualidade. A mística do Benfica e a educação de um jogador quando chega ao clube naquela altura é tratar os jogadores por “Senhor”, era o “Senhor Coluna”, o “Senhor Simões”, o “Senhor Humberto Coelho”, o “Senhor Nené”, o “Senhor Shéu”… O Shéu, o Nené e o Humberto Coelho foram os primeiros a cumprimentar-me e eu disse-lhes “Senhor”. Eles disseram: “Ok, a partir de hoje somos colegas, é tu para aqui, tu para acolá”. Eles contaram que, quando chegaram, tiveram a mesma atitude que eu tive e então puseram-me à vontade.
BnR: Como é que foi o primeiro treino?
AM: Difícil, muito difícil. As pernas tremiam-me por todos os lados. Olhar para aquele estádio… aquilo mete respeito, é impressionante estar lá em baixo e olhar para o estádio, mesmo estando vazio. Eu concentrei-me e disse para mim próprio “Se queres vencer no Benfica, não podes estar nervoso, tens de estar descontraído e ir à luta”. Eu estava na missa a rezar e a pensar que tinha que me preparar para representar um clube como o Benfica, não podia esperar que alguém me viesse dar moral. Eu tinha essa força moral porque, se fui titular da Académica logo no primeiro ano, ia ter algumas dificuldades no Benfica, mas tinha de ser eu próprio a ir buscar forças onde elas não existem.

Fonte: Álvaro Magalhães
BnR: Quem eram os jogadores com quem tinhas melhor relação?
AM: Sou uma pessoa reservada mas tinha boa relação com todos os jogadores. O Humberto Coelho foi a pessoa que mais me apoiou, o Shéu também, o Bento e o Nené, os mais experientes. O Humberto Coelho levou-me imensas vezes a almoçar com ele à Tia Matilde, ele ia lá todos os dias. A minha integração foi mais fácil por causa disso, porque ele era o capitão. O Toni também, até pela ligação que tínhamos por causa da Académica, explicou-me o que é o Benfica e a exigência do clube. Depois acabei por pertencer à mesa do Humberto Coelho e foi fundamental. Era o Pietra, Humberto e o Bento. Para mim estar na mesa do capitão é meio caminho andado para ganhar aquela experiência de se estar a representar o Benfica.
BnR: Na época seguinte chega Sven-Göran Eriksson e o Benfica faz a dobradinha. Que mudanças sentiste com a chegada deste treinador?
AM: Para mim foi ele que revolucionou o futebol todo em termos de metodologia de treino. Foi ele também que deu uma liberdade e uma maturidade ao jogador português que antes não havia. E tinha uma mentalidade vencedora claro, era um treinador jovem, vinha de um título europeu pelo Gotemburgo e a sorte dele foi também ter no plantel jogadores de nível mundial, com experiência nacional e internacional.
BnR: Quem eram esses jogadores?
AM: Bento, Laranjeira, Alhinho, Pietra, Shéu, Nené, César, Carlos Manuel, Diamantino, Chalana… E outros mais. O plantel era um luxo, para ser titular naquela equipa tinha que se trabalhar muito e o Eriksson tirou o maior aproveitamento desses grandes jogadores que o Benfica tinha.
BnR: Estiveste em duas finais europeias pelo Benfica, em 1983 contra o Anderlecht na Taça UEFA e em 1988 contra o PSV Eindhoven na Taça dos Campeões Europeus. Qual das finais custou mais perder?
AM: As duas. Na primeira mão, em Anderlecht, fizemos um grande jogo e a outra final com o PSV… Nas grandes penalidades é uma lotaria. Na Taça dos Campeões Europeus fizemos uma grande fase final e sofremos só um golo, contra o Anderlecht, de livre. Depois na final não sofremos nenhum golo, tínhamos uma defesa fantástica. Tivemos a infelicidade, temos que reconhecer isso, de perder uma das peças fundamentais para aqueles grandes jogos, o Diamantino, que fazia a diferença lá na frente. Era o melhor jogador que tínhamos no setor ofensivo, pela experiência e pela sua qualidade, e gostava destes jogos. Mas demonstrámos que em Portugal há grandes jogadores, grandes treinadores.
BnR: Sentes que naquela altura o Benfica assumia mais a dimensão europeia do que hoje em dia?
AM: Sim, muito. Não quero estar a fazer nenhuma crítica atual mas não há dúvida que nessa altura as noites europeias… os adeptos valorizavam muito, aquilo era uma loucura. Na altura eram 120.000 pessoas no estádio, na meia-final contra o Steaua de Bucareste foram 130.000.
BnR: As famosas noites europeias à Benfica.
AM: Exato, noites europeias à Benfica, isto fala-se ainda hoje… Hoje em dia vamos jogar para a Liga dos Campeões e é… o Benfica tem um carisma especial para essas noites europeias. Eu era miúdo e ouvíamos o relato do Benfica a jogar contra equipas de grande nível e a bater-se com elas olhos nos olhos. Havia noites europeias em que o Estádio da Luz era um inferno, era impressionante. As equipas quando vinham cá jogar eram massacradas pela qualidade dos jogadores e pelo público, era um ambiente… Os adeptos do Benfica, para mim, são o 12º jogador, são das peças mais importantes no clube porque são eles que levam o Benfica à vitória. Assobiam de vez em quando? Ok, é bom sinal, é a exigência do clube, é o querer ganhar e os jogadores têm que estar preparados para isso.
BnR: Ao serviço do Benfica, enquanto jogador, conquistaste quatro Ligas, quatro Taças de Portugal e duas Supertaças. Algum destes troféus teve um sabor mais especial?
AM: Todos os campeonatos foram importantes mas há um que me marca porque fiz os jogos todos, o de 1983/84, para além da Taça, que vencemos, e competições europeias. Até ganhei o prémio Somelos-Helanca d’A Bola, ainda eram 40 contos, na altura era dinheiro. Isto tudo combinado com o Campeonato da Europa em França, onde também jogo a grande nível. Nesse ano fui considerado o melhor lateral esquerdo de Portugal e o melhor lateral esquerdo do Campeonato da Europa.
BnR: No Benfica foste treinado por Baroti, Eriksson, Csernai, John Mortimore e Toni. Com qual deles tiveste melhor relação?
AM: Tirando o Csernai, dei-me bem com todos eles. Com o Csernai não houve relação nenhuma com os jogadores, ele tinha uma mentalidade diferente dos outros. Vinha do Bayern de Munique e como foi o ano da construção do terceiro anel ele pensava que o Benfica estava em obras… Facilitou demasiado. Só graças à capacidade dos jogadores, a sua inteligência e os adeptos é que ainda conseguimos ganhar a Taça de Portugal. Ele não era mau treinador mas estava naquela fase já com pouca ambição e o Benfica tem que ter treinadores com ambição. A seguir veio o Mortimore, que veio dar outra vez a tal mística e ambição, e conseguiu ter sucesso. Depois veio o Toni, que “bebeu” dos treinadores que teve enquanto jogador e depois como adjunto e isso foi muito importante na sua carreira, era muito forte taticamente.
-Saída do SL Benfica e a longa paragem por lesão-
BnR: Quando sais do Benfica ainda jogas pelo Estrela da Amadora e pelo Leixões. Como foi sair do clube ao fim de tantos anos?
AM: Foi triste. Se fosse hoje se calhar eu tinha tido outra atitude. Nós somos irreverentes quando somos jovens, às vezes pensamos com os pés. Às vezes temos que ter um certo cuidado mas também isso é a irreverência da própria pessoa. Eu quis sair, não vou falar mal da pessoa, mas não entenderam que um profissional tem que ser tratado com respeito.
BnR: O que se passou em concreto?
AM: Um profissional de futebol muitas vezes tenta fugir do seu habitat à procura de alguém que possa ajudar e eu fui prejudicado. Quando eu tenho razão, tenho razão e vou até às últimas, quando não tenho eu peço desculpa e calo-me. Fui trabalhar com o Prof. José Neto, que era ligado ao FC Porto. Ele é um Homem com “H” grande e, para além do seu profissionalismo, era o melhor recuperador de atletas após a cirurgia. Eu procurei-o para me recuperar nas férias, disse-lhe “Professor, eu preciso de estar bem no início da época e só você é que me pode pôr bem”, porque o Benfica não tinha ninguém competente. Isto é a realidade, digo aqui e em todo o lado, não tinha ninguém competente para me recuperar. Pedi ao Prof. José Neto para me recuperar no campo, porque eu fui bem recuperado pelo António Gaspar, que agora é fisioterapeuta da seleção e nem fazia parte do Benfica mas trabalhava no Hospital dos Capuchos. E foi o médico do Benfica, o Dr. Levy Aires que me levou ao Hospital dos Capuchos para recuperar após a cirurgia. Uma coisa é a recuperação da cirurgia, outra coisa é depois no campo.
BnR: E isso caiu mal no Benfica?
AM: Caiu mal no Benfica, que estiveram mal e eu quis sair. Logo no início da época criei situações para sair porque era uma falta de respeito o que me estavam a fazer, eu gastei dinheiro do meu bolso para me recuperar e mostrei isso no início da época na Holanda. Chegámos cá e não me puseram a jogar na apresentação da equipa só para mostrarem às pessoas do Benfica que eu ainda não estava recuperado. Era mentira, eu era o melhor jogador na altura na minha posição e o melhor jogador em termos físicos no início da época.
BnR: Como foi essa recuperação com o Prof. José Neto?
AM: Antes de começar a época andei dois meses em Paços de Ferreira e no Algarve a recuperar para chegar ao início da época a 101%. Eu voava, estava muito bem fisicamente. Fui vítima de pessoas que não olharam para o Benfica, olharam para o seu ego e não olharam para o atleta. Aí fiz tudo para sair mas acabei por ficar esse ano. Passados três ou quatro meses o Eriksson veio perguntar-me porque é que eu me ia embora e na altura um jogador quando jogava um jogo ficava logo preso. Ele tentou convencer-me mas eu queria ir-me embora, até tinha convites de equipas no estrangeiro e, porque não me sentia bem, fiquei um bocado revoltado. Se fosse agora, não tomava essa atitude.
BnR: Agora tens outra idade, outra maturidade…
AM: Sim, devia ter tido mais calma. Eles falaram, eu não dizia nada e tinha jogado mais seis ou sete épocas no Benfica. Foi uma pena.
BnR: Nessa altura foste abordado por algum dos grandes?
AM: Fui. Quando eu digo que quero sair do Benfica sou logo abordado pelo Sporting e o FC Porto também estava interessado nessa altura.
BnR: Quem te abordou?
AM: O Sousa Cintra. Falou comigo e ofereceu dinheiro ao Benfica para me libertarem mas o Benfica não deixou. O Jorge de Brito, presidente na altura, disse “Não, não, este é um jogador à Benfica, não pode sair daqui”. Como tinha mais um ano de contrato, andei e disse ao mister que tinha de ficar porque não me deixavam sair. Eu renovei contrato antes das férias por amor aos sócios do Benfica, tinha um amor e um carinho especial pelos adeptos do Benfica. Tive convites antes de renovar do Porto e do Sporting também, mas preferi sempre o Benfica. Aliás, o Pinto da Costa chegou a dizer-me, à frente do Fernando Martins, “Álvaro, o que tu representas para o Benfica é a mesma coisa que o João Pinto representa para o Porto, pela mística, pela entrega ao jogo, portanto se quiseres vir para o Porto as portas estão abertas”. Grande homem, já respeitava o Pinto da Costa e fiquei a respeitar ainda mais.
BnR: Como correram as coisas no Estrela e no Leixões?
AM: No Estrela da Amadora estava a fazer uma época fantástica e tive um azar tremendo, parti o braço numa altura em que já estava convocado para a seleção.
BnR: Foste treinado por quem?
AM: Apanhei o início do José Mourinho ao lado do Manuel Fernandes. Eu estava no auge, como se estivesse no Benfica, tinha jogado contra o Porto para a Supertaça e ganhámos 2-1. O próprio Eriksson foi ver o jogo e vim a saber por outras pessoas que ele perguntou como é que era possível eu ter saído do Benfica. Eu ia regressar a um clube grande, até podia ser ao Benfica outra vez, porque estava numa forma fantástica.
BnR: Como foi o Mourinho como treinador-adjunto?
AM: O Mourinho foi um miúdo que, mesmo jovem, me acompanhou e me treinou bem, ajudou-me até na parte psicológica. Sair do Benfica para o Estrela da Amadora, depois de tantos anos, foi um desafio e eu tinha de demonstrar que estava vivo. Nós tínhamos uma equipa muito forte, eu estava a fazer uma época boa e tive um azar quando estava convocado para a seleção.
BnR: O que se passou exatamente?
AM: Parti o braço num jogo contra o Tirsense e estive ali cinco ou seis meses quase sem competir. Foi a partir daí que as coisas se complicaram. Se não tenho essa infelicidade… eu estava convocado para a seleção, íamos jogar contra a Holanda nas Antas, foi o Matine, analista do Artur Jorge, que me veio dizer que estava convocado.
BnR: Como lidaste com este infortúnio?
AM: Tenho uma história gira sobre isto.
BnR: Vamos a ela.
AM: Tenho uma carta que… Não sei onde é que ela está, tenho lá no meu arquivo, ela não fugiu. O Mourinho não conseguiu ir ao hotel porque estava em estágio e quem foi ao hotel foi o Manuel Fernandes e o António Bernardo, diretor do futebol, que me deu uma carta que me deixou… as lágrimas vêm-me aos olhos, até agora como vês… a carta dizia “És o melhor lateral esquerdo de Portugal e vais continuar a ser. Vais recuperar bem e nós estamos à tua espera.”. Foi uma coisa que me deixou comovidíssimo, que me marcou e deu-me força para recuperar.
– Seleção portuguesa –
BnR: Foste 20 vezes internacional A por Portugal e totalista no Europeu de ‘84 em França e no Mundial ‘86 no México. Qual a sensação de representar Portugal?
AM: É o orgulho máximo para um jogador chegar à Seleção Nacional. Na altura eu já merecia ir à seleção mas tive tempo, o próprio Toni dizia-me “Calma, ainda és novo”.
BnR: Jogaste também nos escalões de formação?
AM: Fui convocado para a Seleção de Esperanças, quando estava na Académica. Fomos dois anos consecutivos a Toulon.
BnR: Estreias-te em 1981, num amigável com a Bulgária. Nervoso?
AM: Tive só aquele nervosinho de início mas eu não tremia, eu concentrava-me para jogar.
BnR: Como te receberam no grupo?
AM: Fiquei no quarto com o António Oliveira e foi giro as brincadeiras dele (risos). Ele dispunha bem a malta e apoiou-me muito, mas tinha também outros colegas mais velhos que também ajudavam. Mas o António Oliveira é um homem extraordinário, estou horas e horas a falar com ele e fico satisfeito de estar ao lado dele porque se aprende. Aprendi muito com o António Oliveira e a experiência dele. Eu era novinho e apanhei esses jogadores todos mais velhos já com uma experiência internacional.
BnR: Na tua opinião, a seleção de ‘84 foi das melhores que tivemos?
AM: Eu acho que sim. Houve aquela geração de 2004, dos Figos, Rui Costas, etc, mas nós fomos grandes no nosso tempo. Não é possível comparar porque são tempos diferentes, essa geração de 90 teve grandes jogadores mas a de 80 era uma geração de grande nível em termos físicos, técnicos, táticos e psicológicos.

Fonte: Álvaro Magalhães
BnR: Um deles infelizmente partiu esta semana, o Jordão.
AM: Sim. Quando lhe fizemos a homenagem, quem vê aqueles jogadores todos, aquilo que se faz agora já nós fazíamos na altura. A mobilidade atacante, defensivamente… nós até éramos mais fortes defensivamente do que se calhar são agora. Foi uma geração muito forte, ser titular num clube grande era difícil, ser titular naquela seleção era muito difícil.
BnR: Havia tanta qualidade que o difícil era escolher?
AM: Sim, há até grandes jogadores que nem foram convocados, o Manuel Fernandes, por exemplo, e outros mais. Aquela era uma seleção de nível mundial. O Chalana, por exemplo. Existe um Chalana agora? Não existe. O Chalana era fantástico. Eu ponho três jogadores: Eusébio, Chalana e o Ronaldo, são os três melhores jogadores portugueses.
BnR: Aliás, tu jogavas mesmo atrás do Chalana.
AM: Exatamente. Fomos a melhor ala esquerda em Portugal e fomos considerados também a melhor ala esquerda do Campeonato da Europa. Não foi pela imprensa portuguesa, foi pela imprensa internacional.
BnR: No Mundial de ‘86 as coisas não correram da melhor maneira a Portugal. O que achas que explica o nosso mau desempenho?
AM: Má organização. Eu penso que aquilo que existe agora é essa diferença. Esta estrutura toda, o Fernando Gomes veio dar uma imagem ao futebol português e todas as condições para os jogadores e para o selecionador. Agora é seguir o caminho. Se a estrutura, liderada por um bom presidente, coloca à disposição de todos os profissionais estas condições, a real valia dos jogadores faz o resto.
BnR: Na altura a estrutura da Federação não era tão “profissional” como agora?
AM: Na altura não havia esta organização, era uma confusão, muitos interesses.
BnR: Como era o ambiente na seleção nesses tempos? Sentiam-se as rivalidades dos clubes?
AM: Eu sempre tive boa relação com todos eles e continuo a ter. Eu trabalhei no norte e espero trabalhar ainda mais vezes, porque sou do norte e tive sucesso como treinador lá. É evidente que às vezes há rivalidades e todos querem jogar, os jogadores do Porto querem que sejam os jogadores do Porto a jogar, os jogadores do Benfica querem que sejam os do Benfica. Mas isso aí já é da responsabilidade do treinador e quem trabalhar melhor durante os treinos e demonstrar no jogo que está a fazer as coisas bem, merece jogar. Quem facilitar, não pode jogar. Eu foquei-me sempre no trabalho, estamos ali para isso. No México, os meus grandes amigos eram os falecidos Bento e Vítor Damas, eram muito experientes e eu estava com eles, não entrei em guerras com ninguém, só me preocupava em ser titular. Não me interessava se o treino era em campo pelado ou relvado, eu queria era treinar e representar Portugal. Agora, se houvesse organização, com aqueles jogadores que tínhamos, podíamos ter ido mais longe.
Fim da Parte 1 – Capítulo de Álvaro Magalhães enquanto jogador.
Não perca a segunda parte da entrevista no domingo!
Foto de Capa: Arquivo pessoal de Álvaro Magalhães
Artigo revisto por Inês Vieira Brandão












