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O médio que joga em Angola e tem dois nomes iguais – Entrevista a Duarte Duarte

Guilherme Costa · 9 min

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Duarte Duarte é jogador de Futebol. Atualmente ao serviço do Interclube de Angola, o atleta de 30 anos aceitou o convite do Bola na Rede, e fala brevemente da sua carreira, aborda a sua experiência no Girabola, e, ainda, dá a sua opinião sobre temas importantes da atualidade do Futebol português.

Carreira Futebolística em Portugal

Bola na RedeHá quantos anos é que está ligado ao Futebol?

Duarte Duarte: Eu pratico Futebol, desde os meus 11 anos de idade.

BnR: Iniciou o seu trajeto futebolístico no Vilaverdense FC, mas a maior parte da sua formação foi feita no SC Braga. A sua estreia no escalão Seniores foi na equipa arsenalista?

D.D.: Sim, eu tive um curta passagem de um ano pelo Vilaverdense, que é o clube da minha terra, sendo que depois ingressei no Sporting Clube de Braga, onde fiz grande parte da minha formação. Não cheguei a representar o Braga ao mais alto nível, pois regressei já com idade júnior ao Vilaverdense, onde acabaria por iniciar a minha carreira como sénior.

BnR: Regressar à equipa de Vila Verde (Braga) foi importante para si?. Considera que essa etapa foi importante para o seu crescimento como jogador?

D.D.: Considero que esse passo foi importante no meu crescimento como jogador, pois aí tive oportunidade de jogar num campeonato bastante competitivo, a antiga 2.ª Divisão B, com apenas 17 anos. Acho que se tivesse terminado a minha formação no Sporting Clube de Braga, provavelmente a transição para o futebol sénior seria mais difícil, pois na altura não havia as equipas B. Infelizmente, o clube da minha terra atravessava uma grave crise financeira e acabou por cair nos distritais. Já com 20 anos, fiz uma excelente época ao serviço de Vilaverdense, tendo ajudado o clube a ascender aos campeonatos nacionais. Atraí a atenção de olheiros de bons clubes, tendo assinado então pelo Gil Vicente, que tinha acabado de descer para a 2.ª Liga na secretaria.

Duarte Duarte já passou por inúmeros clubes desde o seu começo no Futebol, aos 11 anos
Duarte Duarte já passou por inúmeros clubes desde o seu começo no Futebol, aos 11 anos

BnR: Depois, seguiu-se o Gil Vicente, onde jogou pela primeira num campeonato profissional. Sentiu alguma dificuldade em adaptar-se ao ritmo de jogo mais exigente, uma vez que só tinha jogado nos distritais?

D.D.: De facto foi um salto enorme, na medida em que subi três divisões, e foi aí que assinei o meu primeiro contrato profissional. Confesso que senti alguma dificuldade, pois o que o ritmo de treino é completamente diferente. No entanto, tive um treinador que me ajudou muito a superar essa diferença, o mister Rui Quinta, tendo feito mesmo bastantes jogos na 2.ª Liga.

BnR: Passou 3 épocas em Barcelos. Recorda-se de algum jogo que o tenha marcado até hoje?

D.D: Recordo-me de dois jogos, aliás. O primeiro foi frente ao Belenenses, que militava na 1.ª Divisão, para a Taça da Liga. Foi o meu primeiro jogo a titular e acabei por fazer uma assistência para golo. O segundo foi para a Taça de Portugal, frente à Naval 1.º de Maio, também primodivisionário, onde marquei o meu primeiro golo como profissional.

BnR: Em seguida, mudou-se para o Varzim, onde ajudou o clube a vencer a II Divisão. Nessa época, a equipa da Póvoa sempre acreditou que poderia alcançar a subida?

D.D.: Sim, assinei de seguida pelo Varzim, que tinha acabado de descer de divisão e aspirava a regressar de imediato à 2.ª Liga. Foi uma época fantástica a todos níveis e, pela qualidade dos jogadores e equipa técnica, todos esperávamos atingir o objetivo, que acabou por se concretizar. Apesar de termos sido campeões nacionais da IIª Divisão B, o clube não conseguiu consumar a subida por razões financeiras.

Em ação pelo Varzim S.C., onde venceu a IIª Divisão B
Em ação pelo Varzim S.C., onde venceu a IIª Divisão B

BnR: Após vencer o troféu, foi para o Benfica. Como surgiu o interesse do clube da Luz? Chegou a representar o Benfica em termos oficiais?

D.D.: Depois dessa época, tive várias propostas de clubes da 1.ª Liga e também do estrangeiro, mas acabei por decidir aceitar a transferência para o Benfica, com o objetivo de ser emprestado a um dos clubes da 1.ª Liga que tinham mostrado interesse. Assim que me apresentei na época seguinte, os responsáveis do clube acabaram por decidir que iria representar a equipa B, pois queriam acompanhar a minha evolução de perto, fazendo com que representasse o Benfica em termos oficiais.

BnR: Infelizmente, não conseguiu vingar pelas Águias e acabou cedido ao Paços de Ferreira. Olhando para trás, o que acha que lhe faltou para poder singrar pelo Benfica?

D.D.: Nessa época, tive alguns problemas físicos, pelo que as coisas não me correram como esperava. Surgiu então novamente o interesse do Paços de Ferreira, clube para onde me transferi. Penso que para mostrar o meu valor numa realidade tão exigente como o Benfica, tinha de estar no auge da minha forma física, o que acabou por não acontecer. Acho que é também crucial chegar a um clube desse nível o mais novo possível, para se ter mais tempo de habituação e maior margem de progressão.

Após o Varzim, o atleta representou o Benfica B na época 2012/2013
Após o Varzim, o atleta representou o Benfica B na época 2012/2013

BnR: Pelo Paços de Ferreira, chegou a estrear-se na principal divisão do campeonato português. Recorda-se qual foi esse jogo e o resultado final?

D.D.: Sim, lembro-me perfeitamente. Foi um jogo fora de casa, frente ao Arouca e terminou empatado a zero bolas.

BnR: De todos os treinadores que teve no seu percurso até ao Paços de Ferreira, qual foi o treinador que mais o marcou? E porquê?

D.D.: Essa pergunta é de difícil resposta, uma vez que não consigo destacar um só, pois tive vários treinadores até esse momento, que me marcaram imenso e por diferentes motivos: o Nelito, porque foi o treinador que me lançou como sénior; o Rui Quinta, com quem aprendi muito e me estreei no futebol profissional; o Dito, com quem tive a minha época mais feliz até à data, e com o qual me identifico bastante; e, por último, queria referir o treinador no qual reconheço mais potencial e acredito que um dia poderá vir a treinar o Real Madrid ou Barcelona, o Paulo Fonseca.

Experiência em Angola

BnR: Em 2015, mudou-se para um clube fora de Portugal, e foi para o Petro de Luanda. Como surgiu esse convite? Aceitou logo o desafio ou sentiu-se algo reticente em emigrar para Angola?

D.D.: Estava no Paços de Ferreira, onde não estava a ser opção para o técnico Paulo Fonseca, quando surgiu essa proposta, que era boa para mim em termos financeiros. Informei-me acerca do clube, que é o mais titulado de Angola e, como tenho um irmão a viver em Luanda, não hesitei e aceitei o desafio. A adaptação Angola foi de facto muito fácil, talvez por ter cá o meu irmão e também alguns amigos de Portugal.

BnR: Quais foram as maiores diferenças que sentiu entre o futebol português e o angolano?

D.D.: O futebol angolano é bastante diferente do futebol europeu. Na Europa, o futebol está a tornar-se cada vez mais tático e físico, desaparecendo a parte artística e espetacular do jogo, sendo que em Angola, por vezes, fico com a sensação que se festeja mais uma finta do que um golo. Em termos de adaptação, o mais difícil foi o clima (temperatura e humidade elevadas) e as condições péssimas da maioria dos relvados. Outro aspeto que distingue o futebol de cá é que as pessoas exigem muito mais do futebolista estrangeiro do que do nacional, o que não acontece em Portugal.

Após dois anos no Petro, o médio mudou-se para o Interclube, também de Luanda
Após dois anos no Petro, o médio mudou-se para o Interclube, também de Luanda

BnR: A sua segunda temporada não correu tão bem como a primeira, dado que jogou poucas vezes. O que teve na origem da sua saída da equipa petrolífera no final de 2016?

D.D.: Na minha segunda época, houve uma mudança de treinador. Comecei bem época, mas depois tive uma lesão, que me obrigou a ir a Portugal realizar tratamento. Só voltei a competir três meses depois e, como a equipa estava numa boa sequência de resultados, foi difícil recuperar o meu lugar. Além disso, esse novo treinador tinha uma ideia de jogo mais baseada no esforço do que propriamente na qualidade de jogo, o que não se enquadra nas minhas características, daí ter abandonado o Petro de Luanda.

BnR: Este ano acabou por ir para o Interclube, também de Luanda. Como foi parar a este clube? A temporada está a ser de acordo com as suas expetativas iniciais?

D.D.: Este ano, quando estava a preparar o meu regresso à Europa, surgiu a possibilidade de realizar a segunda metade da época pelo Interclube de Luanda, que é treinado pelo Paulo Torres, bem conhecido do futebol português. Está a correr-me de forma fantástica, tendo já marcado 4 golos em menos de meia época, apesar de atuar como médio. A equipa tem subido alguns lugares na tabela e chegámos a uma fase adiantada da Taça de Angola, o que me permite concluir que está a ser uma temporada positiva para mim.

BnR: Certamente, teve de se adaptar rapidamente ao estilo e ritmo de vida angolano. Tem alguma história engraçada vivenciada por si que possa partilhar com os leitores?

D.D.: Sim, por acaso tenho. Na época passada, a meio de um jogo, numa província de Angola, aconteceu um episódio que considero caricato. Quando a minha equipa estava a vencer, por uma bola a zero, o presidente da equipa adversária fez uma intervenção ao microfone do estádio, dizendo que o prémio da reviravolta duplicava, chegando mesmo a referir um valor que não me recordo. Foi um momento estranho e engraçado, ao mesmo tempo para mim.

O jogador a celebrar um golo marcado, frente ao 1.º Agosto, na 1.ª mão da meia-final da Taça de Angola
O jogador a celebrar um golo marcado, frente ao 1.º Agosto, na 1.ª mão da meia-final da Taça de Angola

BnR: Após três anos em Angola, considera ter sido uma decisão correta da sua parte vir jogar para este país africano? Porquê?

D.D.: Sem dúvida, a experiência em África tem-me feito crescer muito em todos os sentidos. Devo muito a Angola, gosto muito do país e, com certeza, permanecerá uma forte ligação, mesmo quando regressar a Portugal. Obviamente que o Girabola ainda tem muito para crescer e penso que, durante o tempo que permanecer por cá, poderei dar o meu contributo nesse sentido. Desportivamente, acredito que a minha carreira sairia mais valorizada a jogar em Portugal ou em qualquer outro país da europa, mas tenho tido uma experiência de vida fantástica e com condições financeiras melhores do que se estivesse a jogar na maior parte dos clubes da Liga Portuguesa. Logo, não me arrependo da decisão que tomei em emigrar para Angola.

Opinião sobre o Futebol português

BnR: Continua a acompanhar o nosso campeonato? Dos três grandes (SL Benfica, FC Porto e Sporting CP), qual acha que será campeão no final da época?

D.D.: Sim claro. Aliás, até tenho acompanhado todas as ligas europeias, a partir de Angola. Em relação à portuguesa, apesar de torcer pelo SL Benfica, penso que o FC Porto será o principal candidato para vencer este campeonato.

BnR: É da opinião de que existe um enorme “fosso” entre os Três Grandes e os restantes clubes da Liga? Se sim, como acha que deveria ser retificada a situação?

D.D.: Existe de facto uma diferença abismal na qualidade dos planteis dos três grandes em comparação com as restantes equipas. Cada vez mais, os chamados “clubes pequenos”, tentam atenuar essa diferença com o nível de treino e condições de trabalho. No entanto, a disparidade financeira permite a estes três clubes contratarem jogadores com uma qualidade muito superior. Sinceramente, não vejo uma forma de retificar essa situação no futuro próximo, pois cada vez mais o futebol é um negócio e vejo essa diferença entre os clubes acentuar-se com o passar dos anos.

A cumprir a sua terceira época no Girabola, Duarte não se mostra arrependido por ter emigrado para Angola
A cumprir a sua terceira época no Girabola, Duarte não se mostra arrependido por ter emigrado para Angola

BnR: Atualmente, já há um vasto número de clubes profissionais a apostar cada vez mais na Formação. Considera positivo esta recente política para o contínuo crescimento do Futebol português?

D.D.: Com a crise financeira que o país atravessou nos últimos anos, os clubes viram-se forçados a apostar na formação, e creio que isso aconteceu mais por necessidade, infelizmente. Os resultados dessa política adotada foram satisfatórios e, hoje em dia, já não há receios em lançar jogadores jovens e portugueses, o que é ótimo para os atletas que ambicionam chegar a altos patamares. Espero que esse comportamento por parte dos clubes seja para durar por muito tempo.

BnR: Recentemente, Portugal garantiu a qualificação para o Mundial do próximo ano, na Rússia. Acredita que a nossa seleção poderá repetir o feito do Euro’16 e vencer a prova?

D.D.: Sabia que Portugal ia conseguir a qualificação direta, com maior ou menor dificuldade. Contudo, penso que será bastante difícil repetir a proeza alcançada no último Europeu, pois acho que existe um conjunto de seleções com mais capacidade para vencer esta prova, mas Portugal será um adversário a ter em conta durante a prova certamente.

Nota: As fotos foram gentilmente cedidas pelo nosso entrevistado

Guilherme Costa

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