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«Pizzi teve a sorte de eu me lesionar. Ganhou a titularidade e atirou-me para o banco de suplentes» – Entrevista BnR com Caetano

Romão Rodrigues · 24 min

«Pizzi teve a sorte de eu me lesionar. Ganhou a titularidade e atirou-me para o banco de suplentes» – Entrevista BnR com Caetano
Foto: Varzim SC

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Rui Caetano, 29 anos. Em estatura, possui mais três danoninhos que o pai, Augusto Caetano, antigo jogador do FC Penafiel e do SC Espinho. Um dos seus ramos, no universo empresarial, é o imobiliário. Portanto, não é por acaso apelidado de “um dos heróis da Capital do Móvel”, aquando da conquista do terceiro lugar na Primeira Liga. No mundial Sub-20, esqueceu-se de urdir a retenção de líquidos. Padeceu o corredor do hotel. Humildade à parte, é fruto da Geração Coragem. Afirma convictamente que Sérgio Oliveira daria um ótimo sócio. Admira Paulo Fonseca e declara que aprende a jogá-lo melhor sob a sua orientação. Não gosto de trespassar a linha que delimita o Algarve. Provocou Coloccini e sobreviveu!

-Infância, os primeiros passos e a estreia na Primeira Liga-

“Pizzi teve a sorte de eu me lesionar. Engrenou, ganhou a titularidade e atirou-me para o banco de suplentes”

Bola na RedeOlá, Caetano! Se me permites a observação, eu considero muito estranho o facto de te apelidar desta forma; “Caetano” é um nome tão normal e comum como João e André. Não é estranho para ti ser denominado assim?

Caetano: Olá! O meu pai deixou uma marca no futebol e toda a gente o conhecia por Caetano. Para os amigos, era “Nel”. Para os adeptos e no mundo do futebol, era Caetano. Eu fiquei com o nome dele, as pessoas foram me chamando Caetano. A família, os amigos e as pessoas que em conhecem desde pequeno chamam-me Rui. Contudo, no futebol, foi sempre Caetano.

Bola na RedeTens preferência por essa designação?

Caetano: No Penafiel, muita gente me tratava apenas por Rui. Eu cresci e estudei naquela cidade. Então, os próprios colegas também me chamavam por Rui. Isso é – de certa forma – engraçado porque, no futebol, chamarem-me Rui era diferente e eu, sinceramente, gosto mais de Rui. É mais pessoal (risos).

Bola na RedeAntes de falarmos de ti, vamos dirigir um bocadinho o foco para o teu pai: a pessoa que te trouxe ao mundo. Aposto que, um dia, fizeste uma traquinice, ele te colocou imediatamente de castigo e te obrigou a seguir a carreira de futebolista, não!? Conta lá…

Caetano: Não, não, não, não (risos). O meu pai, ao contrário da maioria dos pais, não queria que eu fosse jogador de futebol. Ele vivia o futebol intensamente e também sabia que a minha maior paixão era o futebol. Porque sempre o acompanhei desde cedo (primeiro como jogador, depois como presidente). Mas ele nunca quis que eu enveredasse por aí. Aliás, um dos maiores motivos que me levou a terminar a carreira foi o facto de o meu pai querer que eu seguisse com ele a vida imobiliária e a vida empresarial. Nunca me deu muita força para jogar futebol…

Bola na RedeFicas contente por saber que o teu pai é mais baixo do que tu? Ele deu-te mais dois ou três Danoninhos, não?

Caetano: (risos). Ele é mais baixo do que eu, é verdade! Dois centímetros de diferença! À beira dele, sinto-me calmeirão! Brincamos muito um com o outro… acaba por ser muito engraçado porque ele é mesmo ligeiramente mais baixo do que eu! E não é fácil encontrar pessoas com a mesma estatura que a minha (risos). Mais cinco minutos e era anão na barriga da minha mãe (risos).

Bola na RedeRealizaste a formação futebolística no FC Porto, na íntegra. Que momentos guardas com maior saudade?

Caetano: Guardo o balneário. Tenho muitas saudades do balneário. Saudades das palhaçadas, dos meus colegas de equipa e daqueles momentos antes do treino. Tenho saudades também de ter a bola no pé. Acho que era um jogador tecnicamente evoluído e dava-me imenso prazer contactar com a bola. Mas depois a minha vida é tão agitada e tenho tanto com o que me entreter, que nem me lembro de futebol. Às vezes à noite, quando estou a ver um joguinho ou assim, vem aquela saudade. E olha, do jogo propriamente dito, não tenho saudades nenhumas. Eu tinha muita pressão e bastava falar-se na palavra “jogo” que ficava logo cheio de pressão. E hoje, sem o futebol, sinto-me mais livre, sem essa pressão diária.

Bola na RedeChega, finalmente, a temporada 2010/2011. Estreias-te na Primeira Liga ao serviço do FC Paços de Ferreira. Na altura, tiveste outras propostas que não os “castores”?

Caetano: O meu último ano de júnior (2009/2010) foi ao serviço do FC Porto e foi fantástico. Fiz muitos golos, não havia equipa B e, por essa razão, era muitas vezes chamado à equipa principal com o mister Jesualdo de Ferreira. Então, no fim dessa mesma época, tive duas propostas de dois clubes da Primeira Liga. Não é fácil a passagem de júnior para sénior e, felizmente, tive a sorte de poder optar por uma dessas duas equipas. Mas sim, tive outras propostas. Recordo-me de uma muita boa (UD Almería) de Espanha, de Primeira Divisão. Mas eu nunca quis jogar longe de casa porque também desde muito cedo que estive metido nos negócios da família, sempre fui muito ligado à minha namorada, aos meus amigos e à própria família. Penso que isso prejudicou – em parte – a minha carreira…

Bola na RedeFinalizas a primeira temporada nos castores com 16 jogos e um golo. Começas a temporada como suplente, adquires a titularidade a nove jornadas do término…

Caetano: (risos). Isso está mal, isso está mal. Fiz os seis primeiros jogos a titular, fiz a minha estreia contra o Sporting CP com o mister Rui Vitória e depois tive uma lesão grave em Setúbal e fui obrigado a parar durante cinco meses. Quando regresso, o extremo esquerdo era o Pizzi. Ele chegou mais tarde do que eu, mas teve a sorte de eu me lesionar. Engrenou, ganhou a titularidade e atirou-me para o banco de suplentes. Depois acabei a época dessa forma…

Bola na RedeA lesão veio estragar os teus planos, certamente. Esperavas maior utilização?

Caetano: Não, repara… Sempre que estive disponível, dei o meu contributo. Antes de me lesionar, fui sempre titular. Depois de me lesionar, salvo o erro, fiz um ou dois jogos para salvar a época. Se não jogava de início, pelo menos entrava sempre. Sempre fui uma aposta do mister Rui Vitória. Ele não teve medo de me lançar! Na altura, era muito bom a entrar porque mexia muito com o jogo! Os adeptos empurravam, tenho saudades disso! De aquecer na Mata Real. Recordo esse ano com muita satisfação, pois foi uma temporada muito positiva, apesar de ter sido operado ao ombro. No final da época até vou ao Mundial Sub-20…

Bola na RedeO público já atenuava essa pressão de que falaste no início?

Caetano: Nunca passei isso para fora. Hoje, já é fácil falar disso. Como eu, todos os jogadores têm, só não falam. Dentro do campo, esqueci tudo. Era um menino. Nessa altura, tinha menos pressão, não tinha responsabilidade nenhuma. Entrava, só queria ir para cima do adversário, forçar o um para um. Era muito acarinhado enquanto jogador do Paços, toda a gente gostava de mim. Provavelmente por ser baixinho (risos).

-Mundial Sub-20, a regularidade e a UEFA Champions League-

«As pessoas diziam “Caetano! Caetano! Caetano!”, eu estava a cumprimentá-las e tal… mal chego ao hotel, cheguei ao elevador, subi até ao piso do quarto e vomitei o corredor todo»

Bola na RedeHá bocadinho, tocaste aí num ponto muito precioso. Parece que tens aí fotografias do nosso rascunho. As convocatórias para as seleções são sempre especiais e tu já andavas nessas andanças há algum tempo, não era novidade para ti. Porém, a chamada para o Mundial de Sub-20 deve ter sido, certamente, especial. Onde estavas, com quem estavas, o que estavas a fazer e qual foi a primeira reação?

Caetano: Já não me lembro (risos). Já foi há muitos anos (risos). Sei que estava a fazer uma época tremenda e já estava a contar com a chamada para o Mundial. Acho que, nesse Mundial, só eu, o Nélson Oliveira e o Pelé é que jogávamos na Primeira Liga. Humildade à parte, estava mesmo a contar com a convocatória. Agora, quanto a essas particularidades, não me recordo de nada. Mas é um orgulho imenso representar a Seleção! E acho que o Mundial foi o momento mais alto da minha carreira, digo-o sem pudores… jogar de três em três dias, com os estádios com 40, 50, 60 mil pessoas, numa final do campeonato do mundo da FIFA – que é a segunda competição mais importante – na Colômbia, com os estádios sempre cheios, os adeptos loucos a torcer por Portugal… foi maravilhoso! Fomos muito bem tratados na Colômbia! Ainda por cima não gostavam da Argentina e nós, como os apanhámos nos quartos-de-final, eles apoiaram-nos. Foram momentos únicos que recordo com muita satisfação.

Bola na RedeNessa competição, tu não jogas o primeiro jogo da fase de grupos, foste titular a partir do segundo até aos quartos (vs. Argentina), falhaste o jogo das meias-finais e jogaste ainda 38 minutos na final (vs. Brasil).

Caetano: No final do jogo contra a Argentina. tive uma gastroenterite. Eu fui ao controlo anti-doping e sei que estava acompanhado por um colega meu, não me lembro quem… Da Argentina estavam dois, o Lamela e o Iturbe. Então, estivemos ali à conversa e tal… depois do jogo, é sempre complicado urinar (risos)… eu bebia água, bebia Powerade, bebia cerveja, bebia tudo… depois, o autocarro foi embora e só consegui fazer passadas duas horas. Para chegar ao hotel, entramos numa carrinha que tinha os bancos dispostos ao contrário… ainda por cima a estrada estava cheia de curvas… fiquei completamente enjoado! Cheguei ao hotel naquele misto de emoções e adrenalina, aquilo estava repleto de jornalistas e eu com uma vontade de vomitar que vocês não imaginam… as pessoas diziam “Caetano! Caetano! Caetano!”, eu estava a cumprimentá-las e tal… mal chego ao hotel, cheguei ao elevador, subi até ao piso do quarto e vomitei o corredor todo (risos). Vomitei tudo! Estava todo lixado, até me deitei um bocado no chão! (risos). Não consegui jantar, fiquei com uma gastroenterite. No dia seguinte, fomos numa avioneta pequenita e eu disse “Deus me livre! Eu não vou nesta avioneta pequenita!”. Acabei por ir, todo cagado (risos). Pá, a má disposição voltou durante dois, três dias. Foi por isso que não consegui jogar com a França. Para o Maisfutebol, deram uma entrevista engraçada porque diziam que eu estava sempre no posto médico para tratar do joelho (risos). Uma vez chegaram lá e não me encontraram: estava era a pôr soro, numa salinha ao lado (risos). Depois, treinei no último dia antes do Brasil e ainda entrei nesse jogo…

Bola na Rede(risos). Nunca tinha ouvido falar dessa história. Que tesouro! Fala-me lá dessa caminhada quase celestial…

Caetano: Éramos uma equipa muito forte e, dentro de campo, muito unidos. Às vezes, não é assim tão importante sermos unidos fora de campo. Já tive grupos muito melhores a nível de brincadeira. Mas aquele dentro de campo, dava tudo por toda a gente. O mister Ilídio Vale penso que conduziu muito bem as coisas. Por essa razão é que fomos considerados a geração coragem. Éramos muito corajosos! Jogamos contra a França do Griezmann e do Lacazette e isso não nos intimidou! Contra a Argentina do Lamela e do Iturbe a mesma coisa! E contra o Brasil, a mesma coisa, cheio de estrelas: Danilos, Alexs Sandros, Philippes Coutinhos, etc. Não era pela qualidade, mas sim pela intensidade, pela garra que adicionávamos ao jogo e pela entreajuda no campo.

Bola na RedeRegressas do Mundial, permaneces no FC Paços de Ferreira durante duas épocas ainda e atinges a regularidade. A última ficou na retina, certamente. Tu e os teus colegas conquistaram o inédito terceiro lugar no campeonato e guiaram o clube até às pré-eliminatórias da UEFA Champions League. Posso apelidar-te de herói da Capital do Móvel?

Caetano: Um dos, sim, um dos. Tínhamos uma equipa muito boa, éramos um grupo fantástico, ficar em terceiro lugar pelo FC Paços de Ferreira é algo inédito e único. Jogávamos muito à bola e tínhamos um fio de jogo muito bom! O mister Paulo Fonseca trouxe ideias novas, das quais eu nuca tinha ouvido falar até então. Mudei muito a minha maneira de abordar o jogo. Jogar a Liga dos Campeões era algo único para um miúdo, na altura com 21/22 anos. Era marcante!

Bola na RedeEra aí que pretendia aflorar. Como já disse, parece que tens o guião. Nunca vi tamanha perspicácia, confesso! Adiante! Vocês eram treinados pelo Paulo Fonseca, atual técnico da AS Roma. Tu previste essa evolução profissional? Ele foi assim tão revolucionário nos métodos e estratégias com que até aí te deparavas? Era muito exigente?

Caetano: Não, ele não era muito exigente nem muito rígido. Simplesmente trouxe ideias distintas. Foi com ele que comecei a aprender a jogar entrelinhas e a aplicar movimentos interiores. Ele era fenomenal na ideia que tinha do jogo e para o jogo. Taticamente, muito bom. Tinha uma relação com os jogadores muito próxima, facto que o prejudicou no FC Porto. Ele viu-se obrigado a alterar essa maneira de ser, porque sei que, quando ele regressou novamente a Paços, colegas meu diziam que ele já não estava igual, não dava tanta confiança! Era um amigo, pode dizer-se! Nós próprios sentimos algo diferente. É a mesma coisa que sentires que um colega teu vai dar em jogador. Ali, toda a gente sabia que ia dar treinador. Verdadeiramente diferenciado!

Bola na RedeVamos testar a tua perspicácia, então! Aposto que vais adivinhar qual o tema que se segue para ser lançado aos leões. Queres tentar?

Caetano: Da minha saída do FC Paços de Ferreira para o Gil Vicente FC?

Bola na RedeNão, antes existe um momento de significado e valor mais elevado. A tua estreia na UEFA Champions League…

Caetano: Ah, isso! Joguei em São Petersburgo, contra o Zenit. Como já te disse, é um sonho de menino jogar Liga dos Campeões. Até aí, jogava-se só na PlayStation. Jogar lá é indescritível! Estádio cheio (suspiro)…

Bola na RedeTens algum filho?

Caetano: Não! Ainda não!

Bola na RedeEntão já pensaste que, quando tiveres, podes pegar nele a colo e dizer o que poucos podem afirmar? Do género, “filho, o pai jogou contra o Zenit na Champions League!”

Caetano: (risos). É verdade (risos). Já posso dizer isso. Sabes, nessa altura, eu achava que não ia jogar na UEFA Champions League só uma vez, pensei que fosse nos anos que se avizinhavam também. Tinha muita confiança, era um miúdo que desequilibrava muito na altura e achava que ia jogar todos os anos, que ia sair para um clube grande e que as coisas iam acontecer. Depois, de modo natural, as coisas não acontecem e eu não fico nada pensativo sobre isso. Mas é giro fazer esse exercício! Orgulho-me da minha carreira e sei que podia ter tido uma muito melhor! Muitos não têm porque se estragam e porque são irresponsáveis! Eu sempre achei que fosse responsável, às vezes até demais, e aquilo que preparei – jogando futebol – para o meu pós-carreira oferece-me uma segurança muito grande!

-A decadência profissional, as raízes familiares e a coincidência-

«Com 23 anos, tinha 100 jogos na Primeira Liga, tinha participado na Liga dos Campeões e na final do Campeonato do Mundo»

Bola na RedeA meio dessa época (2013/2014), em dezembro, transferes-te para Barcelos e permaneces na Primeira Liga o resto da temporada e no ano que se segue (2014/2015), onde acabam por ser despromovidos. O que correu mal?

Caetano: Penso que, no Gil Vicente FC, tanto na primeira época como na segunda, a nível de prestação, sentia-me mais jogador, mais completo. Diria, se calhar, que foram as melhores temporadas no que diz respeito aos desempenhos individuais. Sentia-me mais confiante, mais maduro e ainda tinha alguma irreverência própria da idade. No final da segunda época, lesionei-me novamente, fui operado à mão e os últimos quatro meses não joguei. Descemos de divisão! O futebol tem memória curta! Eu, com 23 anos, tinha 100 jogos na Primeira Liga, tinha participado na Liga dos Campeões e na final do Campeonato do Mundo… Descer de divisão é das piores coisas que podem acontecer a qualquer futebolista! O jogador é egoísta e pensa “não, eu vou descer, mas vou para aqui, para ali e para acolá!”. Não é assim! Quando descemos, eu queria jogar perto de casa e, o que é certo, é que só me apareceu uma equipa da Primeira Liga no Sul – foi o Vitória de Setúbal – e eu não quis ir porque simplesmente era longe de casa. Esperei até aparecer uma equipa de Primeira Liga a norte, ou seja, perto de casa. O estrangeiro esteve sempre fora de hipótese! Curiosamente, era o único mercado que eu tinha… Em Portugal, fechou-se tudo! Só me restava a Segunda Liga e o Vitória de Setúbal. Acabei por ir jogar para Penafiel… e acredito piamente que o facto de ter descido de divisão me matou – por completo – as aspirações que tinha para a carreira. Depois de cair numa Segunda Liga, confesso que desmotivei e comecei a dedicar-me a outras coisas extrafutebol, comecei a ter muito sucesso fora do futebol! O meu foco mudou de direção e sabes perfeitamente que, quando não estamos focados, torna-se tudo mais difícil…

Bola na RedeEsse Penafiel de 2015/2016, tinha um projeto aliciante no que concernia à subida de divisão?

Caetano: Não, não! Era um projeto que assentava na manutenção. Nunca tinha jogado no Penafiel e queria-o, porque é o clube da minha família, da minha namorada, o meu avô também foi lá dirigente. Para jogar Segunda Liga, jogava no Penafiel. Estava perto de casa. Foi única e exclusivamente por causa disso! Depois, qual é a pergunta que vem a seguir? Posso falar já! (risos)

Bola na RedeContinua (risos).

Caetano: Fiz uma época boa e apareceu o CD Tondela, na Primeira Liga. Tinha tudo fechado para ir para Tondela já. Depois fui de férias para o Algarve e encontrei o presidente do CD Aves ali na piscina… perguntou-me para onde é que eu ia, eu disse que ia para o CD Tondela… ele disse “Pá, não vais nada para Tondela, temos um projeto para o CD Aves para subir e tal”. Eu gostei tanto do projeto que abdiquei de ir para Tondela só para jogar no CD Aves. E não me arrependo absolutamente de nada. Subimos de divisão, tive um ano fantástico e joguei à porta de casa (risos). Ao contrário de descer de divisão, subir de divisão também é das coisas mais fantásticas que pode acontecer a um jogador.

Bola na RedeNo ano a seguir, existe uma espécie de limpeza…

Caetano: No ano que se seguiu, o Aves teve uma política diferente do normal. Subiu de divisão e só ficou com o Guedes (o avançado) e com o Quim. Não quis renovar com mais ninguém. Saímos todos e eu fiquei completamente dececionado. Queria jogar Primeira Liga. Decide-me, uma vez mais. Disse “bem, vou para o FC Penafiel e acabar ali a minha carreira!”. É o clube que eu gosto. Apaixonei-me pelo clube. Depois acontece aquele episódio com o FC Paços de Ferreira… Posso dizer que foi o mais negro da minha carreira!

Bola na RedeRegressas a Penafiel. Completas mais duas temporadas, ambas com 19 jogos apontados. Inclusive, na última, ultrapassas o teu record de golos numa época: marcas 4! Mencionando, uma vez mais, o teu pai, consideras que ele se sentia plenamente realizado, caso subisses pelo FC Penafiel?

Caetano: Sim, ele gostava… repara, todos os pais gostam de ver os filhos felizes e realizados. Sofria como todos os pais e sei que ele tem um orgulho grande em mim e gostava de me ver jogar. Mas ele ficava nervoso, ele nem ia ver os jogos (risos). A maior alegria dele foi quando eu deixei de jogar, sem dúvida! A maior felicidade dele é o facto de trabalharmos juntos, essa é que é a felicidade dele!

Bola na RedeHá bocadinho falavas do tal episódio com o FC Paços de Ferreira. Abre as hostes!

Caetano: Pá, não quero falar muito disso. Já é passado! Guardo tantas boas recordações daquele clube, recordo-o com muita saudade. Depois as coisas acabaram por se resolver. Hoje em dia, não existe mágoa da minha parte. Não quero falar muito disso. A verdade foi aquela que contei, na altura! Acabei por estar meio ano sem jogar. Esse também foi um dos motivos que me fez abandonar a minha carreira.

Bola na RedeAbraças um novo projeto em 2019/2020: o SC Varzim. Desde os primeiros momentos, observando pelas estatísticas, sinaliza-se uma pouca utilização. Fala-nos um bocadinho da tua passagem pelo clube…

Caetano: Acabei por ir para o SC Varzim, um clube com uma massa adepta única. Mas depois também fiquei dececionado com aquilo que me aconteceu, fiquei quase um ano sem jogar. Meio ano por causa do episódio com o FC Paços, meio ano por causa do COVID-19. Tenho um mês extremamente difícil. Falei com o presidente e disse “Presidente, já chega! Quero acabar a minha carreira! Quero dedicar-me a outras coisas!”. Esse ano em que estive parado serviu para me focar no mundo dos negócios. Por isso é que agora nem sinto tanto, percebes? Funcionou como uma espécie de estágio para acabar o futebol (risos).

Bola na RedeTu terminaste a carreira esta época diante do FC Penafiel. Aliás, até foste notícia no panorama nacional! Existiu aí algum propósito?

Caetano: Não. Eu gostava de ter acabado a minha carreira no FC Penafiel. Mas depois daquele episódio do FC Paços de Ferreira não foi possível. Eu pensei “ui, estive um ano parado, já não vai ser igual…”. Mostrei que estava bem fisicamente até. Aliás, até fiz o golo a acabar. Estava em plena forma, tinha 29 anos. Mas como já te disse, falei com o presidente. Disse “daqui a duas semanas vamos jogar a Penafiel, eu quero que prepare a minha saída. Faço estas duas semanas e termino lá”. Ele concordou, eu fiz essas duas semanas, comecei a jogar. Estava com um feeling que ia fazer golo, estava confiante. Quando a gente acredita numa coisa, ela acontece. E assim foi!

Bola na RedePor falar em acreditar… acreditas em coincidências? O teu pai, no ano em que terminou a carreira, também saltou do banco para resolver o jogo, ao serviço do Espinho. Podes explicar o que se passa? (risos)

Caetano: (risos). Há coisas que não se explicam. Foi mesmo muito parecido. Ele acabou com 29 anos, eu também. Ele acabou num clube preto e branco, que era o Espinho, e eu também acabei num clube preto e branco, que era o SC Varzim. Ambos entramos e fizemos golo. São coincidências. São coisas giras que acabam por acontecer! A nossa mente tem um poder muito forte…

-O mundo empresarial, o amigo Sérgio Oliveira e desafio BnR-

«Fiz uma cueca ao Coloccini e, na altura, ele era um dos defesas mais agressivos e temíveis do mundo. Então, ele disse “al salir te voy a matar”. E eu respondi “tu? A mi? Pfffff”»

Bola na RedeAgora, é altura de modificar o cenário e a sua logística. Estás pronto? Vamos lá! Seja bem-vindo ao Bola na Rede, senhor Rui Caetano. Conte-nos lá qual é a sensação de ser um empresário de sucesso aos 29 anos?

Caetano: (risos). Sinto um orgulho grande, não é? Daquilo que fui preparando enquanto jogava. Neste momento, tenho a trabalhar comigo 150 pessoas. Estou a falar só da parte do fitness, para mim diretamente. Porque, com as empresas todas do grupo, são mais de 300 pessoas. sinto-me feliz por criar valor nas empresas e por acrescentar esse mesmo valor, essas ideias novas. Podemos estar satisfeitos porque temos sucesso, mesmo neste tempo de COVID-19. Sinto-me realizado! Pelo que conquistei no mundo do futebol e no mundo empresarial. Não é fácil sentirmo-nos realizados aos 29 anos, mas eu sinto. Ainda tenho alguns sonhos, como é óbvio, tenho ambições!

Bola na RedeLonge vão os tempos em que se tornou futebolista. Como tal, nunca optou por jogar no estrangeiro. Pensa, no mundo empresarial, construir sucursais europeias, por exemplo?

Caetano: Enquanto jogador, tive a oportunidade de pegar em muitos países e não o fiz. Enquanto empresário, acredito que também não vá acontecer (risos). Até para ir de férias para outros países é complicado, quanto mais trabalhar.

Bola na RedeAtenção a esta questão porque surge aqui uma espécie de nova profissão. Brilhou, ainda que numa passagem fugaz, pelo mundo da poesia. Numa entrevista, proferiu a seguinte frase: “o futebol foi a melhor licenciatura que podia ter tirado”. Explique-me, por favor, o sentido disto…

Caetano: O futebol foi a melhor licenciatura que podia ter tirado. Porquê? Porque não existe nenhuma licenciatura que te ensine a ser líder. O futebol ensinou-me a ser líder, porque aprendi muito com os treinadores, com os presidentes, com os capitães (eu próprio fui capitão muitos anos durante a formação, no FC Porto). Então, não há nada que te ensine isto! O trabalhar em equipa, a capacidade de sofrimento. Principalmente, a motivação da equipa. O que nos dão nas empresas é o facto de teres uma equipa motivada. Uma licenciatura não te dá isso. O futebol deu-me isso! Trabalhar sob pressão é muito difícil. Quando eu estou a dar uma palestra para os meus funcionários ou para os meus colaboradores, dou muitos exemplos vindos do futebol. Porque a equipa é sempre o principal. Porque os nossos negócios são feitos de pessoas para pessoas e teres uma equipa estar motivada é fundamental. Trouxe muita coisa do futebol para o mundo empresarial! Não há nenhuma licenciatura que te ensine a prática. Eu sinto falta da teoria. Entrei em Gestão Desportiva, ainda fiz duas cadeiras, mas depois o futebol e as empresas que eu tinha fizeram-me abandonar os estudos. A teoria faz falta a toda a gente, mas penso que a prática é essencial. Depois claro está que o dia a dia é que te vai ensinando isto!

Bola na RedeSe me permite a questão, senhor empresário, quantos clubes de fitness reúne?

Caetano: Sete espaços de fitness!

Bola na RedeAproveita para manter a boa forma e afogar aquela mágoa de já não treinar, colmatar aquela saudade que possa existir?

Caetano: (risos). Olha, tenho saudades é de uma bolinha. Com este confinamento, tenho saudades é de fazer um joguinho. Ainda não tive oportunidade para isso, mas acredito que vou fazer um joguinho brevemente com os meus amigos, duas ou três vezes por semana. Também vou abrir agora dois clubes de Paddel, também tenciono jogar (risos). Eu confesso: casa de ferreiro, espeto de pau. Eu não gosto muito de ir ao ginásio (risos), não posso estar a dizer isto aqui (risos), mas eu não gosto mesmo de estar numa sala de musculação a fazer exercícios de máquinas. Gosto da competição, gosto da bola, gosto do ar livre. Confesso que, desde que deixei de jogar, tenho me desleixado um bocado, tenho treinado muito pouco. Mas vou começar a praticar mais com a reabertura dos espaços desportivos…

Bola na RedeÚltima questão que tenho para ti! Qual dos teus colegas do Mundial Sub-20 convidavas para ser teu sócio?

Caetano: Sérgio Oliveira! É meu amigo pessoal! Somos muito amigos e tenho confiança máxima nele e ele também tem em mim. Essa foi muito fácil de responder! (risos).

Bola na RedeOlha, tenho aqui uma brincadeira final preparada. Estás dentro?

Caetano: Claro!

Bola na RedeBasicamente, vamos criar aqui dois cenários improváveis. Cada um desses cenários apresenta duas opções e tu tens de escolher uma delas e apresentar um argumento válido que justifique a tua escolha. Além disso, ainda te lanço um desafio. Pode ser?

Caetano: Certo!

Bola na RedePreferias ter cinco Bolas de Ouro, cinco Botas de Ouro, mas nunca teres jogado pela Seleção, ou teres vencido aquele Mundial e, a partir daí, só teres representado equipas inferiores à primeira divisão?

Caetano: Escolho a primeira opção (risos). Porque quem ganha a Bola de Ouro, vai sempre jogar na Seleção e em boas equipas.

Bola na Rede(risos). Bem visto. O estagiário anda a dormir…

Caetano: (risos). Pá, foi uma frustração muito grande não ter ganho aquele Mundial. Mas no futebol tudo passa. E isso não foi exceção à regra. Ser vice-campeão do mundo foi bom, ter sido campeão era bem melhor. Mas tudo passa!

Bola na RedeVamos para o segundo cenário! Esta aqui é mais difícil! Preferias ver o teu negócio ruir, mas teres um lugar num grande europeu (jogador, treinador, função administrativa) ou nunca ter contacto com uma bola, mesmo em contexto de amigos/família?

Caetano: A segunda opção. Neste momento, os meus negócios são a prioridade. O futebol passa a ser secundário. Preferia nunca mais tocar numa bola. Seria uma grande desilusão.

Bola na RedeAgora, é a doer. Vais ter que suar um bocadito. Proponho-te duas opções: a primeira é contares a história mais embaraçosa que aconteceu contigo no mundo do futebol; a segunda é escolheres um antigo colega de equipa e mandares uma mensagem a dizer “quero que venhas almoçar comigo amanhã! Caso contrário, digo à tua mulher que tens perfil no Tinder”…

Caetano: (risos). Isso é difícil. Muito difícil. Tenho muitas histórias e contar aqui algumas particulares não é fácil (risos). Mas escolheria a primeira, sem dúvida.

Bola na RedeMaravilha! Quando quiseres começar, o palco é teu…

Caetano: (risos). Já me convidaram para fazer isso muitas vezes, mas eu esqueço-me de tudo (risos). Muito rapidamente (risos). Embaraçosas não é fácil. Posso contar uma com o Coloccini…

Bola na RedeConta lá…

Caetano: Estava no FC Paços de Ferreira e fizemos um amigável contra o Newcastle United, na época em que fomos à Liga dos Campeões. O jogo estava empatado (1-1), eu tinha feito o golo. Fiz uma cueca ao Coloccini e, na altura, ele era um dos defesas mais agressivos e temíveis do mundo. Então, ele disse “al salir te voy a matar”. E eu respondi “tu? A mi? Pfffff”. Peço uma bola em diagonal, embrulhamo-nos os dois no lance e caímos. Levantei-me imediatamente – para ver se ele era expulso – e ele agarrou-me pelos colarinhos, levantou-me no ar. As minhas pernas ficaram roxas, comecei a tremer, só queria morrer ali (risos). Fomos os dois expulsos. Ainda para mais, fiquei com medo. Só pensava como é que ia sair para o túnel com aquele bicho (risos). Deixei-o ir, depois meti-me logo no balneário. Até hoje, não o quero ver mais. Tenho medo (risos).

Bola na Rede(risos). Finito! Um grande abraço, Caetano! Agradecemos a tua participação!

Caetano: Obrigado eu! Um abraço para vocês! Foi um orgulho estar a recordar estes momentos e a falar da minha carreira.

Romão Rodrigues

Redação Bola na Rede · ver artigos