«Tive propostas de clubes, mas que diziam: “Tens de mudar a tua imagem”» – Entrevista BnR com Abel Xavier

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– Uma mão a mais –

«A verdade desportiva foi posta em causa»

Bola na Rede: Algumas vez te tentaram convencer a jogar pela seleção de Moçambique?

Abel Xavier: Sempre tive grandes relações com Moçambique e com responsáveis da federação de Moçambique ao longo do tempo. A questão é que eu fiz parte de todas as seleções portuguesas. Quando chego ao patamar sénior, jogando por Portugal, naquele momento, os objetivos são as qualificações para o Europeu e para o Mundial. Se estás numa seleção que disputa um Europeu ou um Mundial e se estás nas grandes equipas, o que justifica a tua convocatória… Nunca ninguém me pôs em cima da mesa essa possibilidade. As coisas aconteceram de uma forma natural. Nasci em Moçambique com muito orgulho. Joguei pela seleção portuguesa, mas não renego o meu passado.

Bola na Rede: Conquistaste o Europeu de sub-16 e o Mundial de sub-20. Com tanta qualidade que fomos tendo nos escalões jovens, não era de esperar que um título como o Euro 2016 tivesse chegado mais cedo?

Abel Xavier: Quando se fala da geração que se intitulou, durante muito tempo, de “geração de ouro”, foi por alguma razão. Não que tivéssemos ganhado alguma coisa em termos seniores. Era uma geração de ouro, porque permaneceu durante dez anos junta. A maior parte daqueles jogadores transitou de seleção para seleção, desde os sub-16 até à seleção principal. A identidade própria que estava institucionalizada no aparelho federativo fez com que estes jogadores tivessem afinidade. No próprio jogo, jogávamos praticamente de olhos fechados. Havia uma relação muito boa. Com o cruzamento das duas gerações campeãs do mundo de sub-20 (1989 e 1991) estamos no Euro 2000. Fomos campeões do mundo em 1989 e 1991 e demorámos dez anos para juntar as duas gerações e irmos ao Euro 2000. Isso significa que perdemos dez anos. A seleção que rivalizava com Portugal em todas as seleções era a França. Quando nós falamos da França, não podemos só falar no futebol profissional. Quando falamos de termos ganhado à França, na casa da França, de sermos campeões em cima da França, estamos a falar de uma rivalidade de 30 anos, mesmo ao nível da formação. Aqueles dez anos em que nós não conseguimos crescer com duas gerações campeãs do mundo fez a França ser campeã da Europa e campeã do mundo. Nós aprendemos durante dez anos. Todos nós (jogadores, dirigentes e presidentes) conseguimos aprender através da derrota. Nas grandes gerações que nós tínhamos e continuamos a ter, precisamos de ter algo mais. Houve uma grande aprendizagem por parte de todos e toda a estrutura está de parabéns. Não podia deixar de enaltecer Fernando Santos. Ganhou com um cunho muito próprio, com a sua liderança, criando empatia, e com humildade. Para mim, foi muito reconfortante que Portugal pudesse espetar o punhal na França, uma equipa extremamente forte.

Bola na Rede: Sobre a mão no Euro 2000, hoje o VAR teria revertido a decisão?

Abel Xavier: Hoje em dia, também estou a ver algumas incongruências no que diz respeito à utilização do VAR, portanto, seria uma incógnita. De qualquer das maneiras, foi uma evolução positiva. Têm havido menos erros no que diz respeito a estas situações de interpretação. O futebol continua a ser um jogo jogado com intensidade, com contacto e com uma essência muito própria que não vai deixar de existir. Não podemos trazer instrumentos que possam robotizar um jogo que tem a sua própria dinâmica. A intencionalidade é algo difícil de ser interpretado. Quando falamos do lance de 2000, estamos a falar exatamente disso. Como é que o árbitro poderia interpretar intencionalidade quando eu não tive intencionalidade de jogar a bola com a mão? Aí estamos num campo difícil. A mesma situação, na área francesa, não tenho dúvidas em dizer que o árbitro não apitava penálti. O árbitro não viu a situação, porque senão não tinha apitado dois minutos depois. O árbitro só apitou penálti depois da pressão dos jogadores franceses ao fiscal de linha. O fiscal de linha não podia ver, porque o [David] Trezeguet estava no enfiamento do fiscal de linha. Há um conjunto de situações que aconteceram naquele jogo que me levam a dizer que a verdade desportiva foi posta em causa. Portugal surpreendeu no jogo jogado pelo futebol de qualidade que apresentou. A França era mais forte, mas naquele jogo foi menos forte, mas foi projetada pela final. Se eu me chamasse Lilian Thuram, se calhar não era penálti. Perdemos uma ocasião de chegarmos a uma final, final essa que, por força do movimento que se criou, poderíamos ter vencido. Se calhar, podia ter sido um final de ciclo fantástico, mas não foi possível. Fiquei com esse peso que agora está minimizado, porque Fernando Santos e este grupo fantástico retirou-mo. Não tenho dúvidas em dizer que a bola me bateu na mão, mas não tive intenção. A interpretação do árbitro não foi correta.

Francisco Grácio Martins
Francisco Grácio Martinshttp://www.bolanarede.pt
Em criança, recreava-se com a bola nos pés. Hoje, escreve sobre quem realmente faz magia com ela. Detém um incessante gosto por ouvir os protagonistas e uma grande curiosidade pelas histórias que contam. É licenciado em Jornalismo e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e frequenta o Mestrado em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social.

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