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Step by step. Poderia ser uma publicação de Tonel nas redes sociais. Poderia, mas pode ser também o rescaldo da carreira do central que fez 581 jogos oficiais como profissional. Casa é onde nos sentimos felizes. Poderia ser uma publicação de Tonel nas redes sociais. Poderia, mas pode ser também o resumo da sua passagem por quase todos os clubes que vestiu. Quase, porque, aquele que ficava a “Beira-Casa”, em 2012/2013, acabou por não correr bem.
A aventura no futebol começou com 12 anos, numa formação com “Espinhos”, com decisões difíceis e um Porto que foi e veio como as viagens de autocarro pela Batalha e por Santa Catarina. No currículo tem uma Campeonato da Europa de sub-18 por Portugal, uma subida de divisão com Académica e Taças nacionais na Croácia e em solo luso.
Entre uma transferência anunciada para Alvalade pelos jornais e uma empregada doméstica que ajudou na ida para a Croácia, houve um lance que marcou o fim da carreira do jogador e revelou o lado que o Tonel não gosta do futebol. Confesso apaixonado pela bola, o defesa internacional sente saudades da antiga paixão e mística do Desporto Rei, ao mesmo tempo que revela por onde passa o seu futuro.
«Hoje, o futebol está mais industrializado, mais negócio. Antigamente havia mais paixão pelo jogo, pelo clube»
Bola na RedeComo é que o futebol apareceu na tua vida? Era um sonho de pequeno?
Tonel: Era algo que desde pequeno gostei de fazer. Desde que me lembro, tenho, por exemplo, uma fotografia com um ano, um ano e pouco, já com uma bola na mão. Sempre gostei, sempre gostei de jogar. Na minha família tive tios, e mesmo o meu pai também jogou, já havia o gosto pelo futebol na família e por isso foi quase que uma continuação natural, digamos assim.
Bola na RedeComeças desde cedo no FC Porto, como é que apareceu a oportunidade? Era algo que querias muito na altura?
Tonel: Eu estava no Colégio Internato dos Carvalhos no sexto ano e então havia o torneio “Vítor Baía” no Colégio Cedros, e pronto, eu lembro-me que jogava pelo colégio (Internato dos Carvalhos) e chegamos à final, era futebol salão. Tínhamos uma equipa boa e fomos à final com o Porto, tínhamos 12 anos, à volta disso, ganhamos 6-3. O Porto gostou e falaram comigo a ver se eu podia ir para lá e eu “claro”, fiquei todo contente, como é óbvio, com 12 anos. No primeiro meu ano não fui inscrito porque aquele torneio foi em dezembro/janeiro e eu fiquei até ao final da época a treinar só. No ano seguinte já fui inscrito, mas tive praticamente um ano sem jogar, tive muita dificuldade.
Bola na RedeEssa dificuldade foi por causa da intensidade, por exemplo, ou havia mais alguma coisa?
Tonel: Foram vários fatores. Senti dificuldades na integração no próprio grupo, antigamente era diferente, hoje os miúdos são muito mais à vontade. Eu morava em Lourosa e ir para o Porto, eu ia de autocarro, e depois apanhava outro autocarro, ia sozinho, depois o meu pai ia-me buscar no final do treino, mas senti dificuldade dos dois níveis. Ou seja, em termos de jogo, os outros eram melhores do que eu, também porque comecei a jogar com 12/13 anos e havia lá miúdos que já jogavam desde os seis anos e eu só jogava na escola. Uma coisa é jogares na escola outra coisa é jogar, pronto, com miúdos, em treino, em competição a partir dos seis/sete anos, e eu senti essa dificuldade e tive um ano praticamente sem jogar. Foi um ano difícil porque eu tinha prazer em treinar, mas sabia que estava atrás dos outros. Custou-me. Depois, cheguei a ser convocado e ter que me levantar às seis da manhã para um jogo às nove e chegar lá e ficar na bancada, por exemplo. Isto com 13 anos, por isso, foi um ano difícil, mas que fez parte.
🏆🏆 Taças de Portugal
🏆🏆 Supertaças🎶 Na defesa não passa nada. Resolve tudo à cabeçada. É o Tonel…É o Tonel 🎶 pic.twitter.com/7aKfnn2dhN
— Sporting Clube de Portugal 🏆 (@Sporting_CP) August 2, 2019
Bola na RedeE as condições na altura também eram diferentes…
Tonel: Na velha constituição, pelado, os balneários velhos, mas isso para mim não era nada. Não era problema. O problema maior era mesmo eu sentir que os outros eram melhores que eu, embora eu desse o meu máximo e tentasse chegar perto ao nível deles, sentia que estava baixo, bastante abaixo.
Bola na RedeE as viagens de autocarro como eram, sair de casa às seis para ter jogo às nove…
Tonel: Não, eu saía de casa às seis ao fim de semana, para um jogo. Mas para os treinos, as aulas acabavam às “cinco e vinte” apanhava um autocarro para a Batalha, dos Carvalhos para a Batalha, depois chegava à Batalha e tinha de descer a Avenida dos Aliado, descer ali a Santa a Catarina e depois apanhar o 77 ou o 69 que era o que me levava à Constituição. Apanhava ali dois autocarros, sozinho, não havia telemóveis, não havia nada. Depois às nove/nove e meia o meu pai ia-me buscar, chegava a casa às dez/dez e meia com trabalhos para fazer, jantar por comer e cansado. Foi um ano muito difícil, mas que, pronto, hoje olho para trás e percebo que a vida é mesmo assim, há dificuldades, mas faz parte.
Bola na RedeQuando ias, já levavas o aquecimento feito.
Tonel: (Risos) quase, quase…
Bola na RedeSais do FC Porto depois, imagino que por essas dificuldades, e voltas mais tarde, o que aconteceu?
Tonel: Foi ótimo ter saído do Porto, esse ano que eu disse foi o meu primeiro ano de iniciado, primeiro ano de futebol 11, ainda por cima. Eu nunca joguei futebol de sete, eu entrei diretamente no futebol 11, e essa foi também uma dificuldade que eu tive. Estava habituado a jogar futebol de cinco na escola e de repente vou para o Porto e vou jogar futebol de 11. Ou seja, não tem nada a ver, as dimensões do campo, não tem nada a haver. Não tive escola nem futebol sete. Mas pronto, depois do primeiro ano de iniciado vim para Espinho onde estive no segundo ano de iniciado e primeiro de juvenil. Foi ótimo para mim, porque baixei o nível de qualidade, de treino, dos jogadores, mas vim para o meu nível, vim jogar e treinar mais ou menos do meu nível, ali não me sentia inferior aos outros. Continuei a trabalhar normalmente e senti que melhorei. Eu no Porto era muito diferenciado dos outros, sentia-me pior que os outros e ali sentia que era igual ou parecido que os outros. Pronto, tive dois anos em Espinho muito bons. O segundo ano de iniciado foi o primeiro ano que joguei, joguei quase todos os fins de semana e treinava. O primeiro ano de juvenil foi bom porque jogava já na equipa acima, ou seja, no primeiro ano que joguei em Espinho fez-me melhorar muito.
Bola na RedeNão deixa de ser curioso o teu caminho. Começas a jogar com 12 anos, tens dificuldades no Porto, vais para o Espinho, voltas para o Porto, e és campeão da Europa de Sub-18.
Tonel: É verdade, mas antes disso, voltei ao Porto no segundo ano de juvenil e cheguei de uma forma diferente porque tinha estado dois anos a jogar, a competir, evoluí muito. Aí já me sentia mais ou menos ao nível dos outros. Correu bem, continuei a treinar, as coisas correram muito bem. Apesar disso, tive uma época no Porto antes de subir a júnior, e no meu primeiro ano de júnior no Porto eu ia jogar na equipa que jogava a nível distrital, não era a equipa B, mas era equipa de primeiro ano, que dantes era a equipa principal, jogava no campeonato nacional, a equipa B, a equipa dos mais novos jogava no campeonato distrital. Pronto, foi-me colocada outra vez a possibilidade de voltar ao Espinho para jogar no campeonato nacional, ou seja, para mim foi ótimo. Foi difícil, mas percebi como me tinha feito bem ir a Espinho dois anos, percebi que poderia ser bom outra vez. Foi ótimo! Joguei na nacional outra vez, era primeiro ano de júnior e em vez de jogar na distrital, jogava na nacional com o Espinho e foi ótimo. No ano seguinte voltei outra vez ao Porto, depois também tive sorte, talvez, de ter feito três anos de júnior, porque mudou a lei da idade. Dantes o limite era agosto, ou seja, se nascesses a 30 junho eras de um ano, se nascesses a 1 de agosto eras de outro. Agora, 31 de dezembro és de um ano, 1 de janeiro és de outro. Quando mudou, mais ou menos em 1998, já adaptamos aquilo que se passava na Europa, e eu fui como sou de abril, fez com que eu ficasse mais um ano nos juniores, fiz três anos e dentro desses três anos, no terceiro ano, fui Campeão da Europa de Sub-18, na Suécia, foi ótimo também. Foi no ano de passagem de júnior para sénior que é sempre complicado. Foi bom ter sido campeão da Europa, ajudou.
Bola na RedeNo FC Porto apanhas uma boa fornada de defesas, Bruno Alves…
Tonel: Sim isso já depois, quando passei a sénior. Eu lembro-me de jogar contra o Bruno no Varzim, no segundo ano de juvenil, o Bruno era primeiro, e já na altura se destacou, fisicamente era muito forte, agressivo, mas eu não o apanhei na equipa, eu subi para júnior e ele foi para segundo ano de juvenil. Depois só o apanho na equipa B, e aí juntou-se também o Ricardo Costa.
Bola na RedeAchas que essa fornada de defesas também te dificultou a passagem para a equipa A? Além disso, como é que aparece a Académica?
Tonel: No segundo ano de equipa B havia três centrais, muitas vezes, até dezembro, depois saí para a Académica, o Ricardo Costa jogava a lateral direito. Na equipa B jogávamos muitas vezes eu e o Bruno a centrais e o Ricardo a lateral direito. Mas como eu era, acredito que tenha sido por isso também, como era mais velho um ano que eles os dois, surgiu a hipótese de ir para a Académica em dezembro. Eu “ok”. Aí fui para uma liga superior, a Académica estava na segunda liga, naquela época não dava para subir, porque a Académica estava em 12º ou 13º, meio da tabela, mas fui, fiquei, conseguimos a manutenção sem dificuldade. No ano seguinte subimos de divisão e eu sempre emprestado.
Bola na RedeEstiveste três anos na Académica por empréstimo, certo?
Tonel: Três anos e meio. Foi ótimo, a Académica foi, para mim, um suporte a nível sénior. A formação foi divida entre Porto e Espinho. A equipa B (do FC Porto) era um misto de equipa sénior com equipa ex-júnior, não era um ambiente sénior, e eu senti isso quando cheguei à Académica. Eu considero a Académica como meu primeiro clube sénior. No primeiro ano lutamos por não descer, até com alguma facilidade. Mas no segundo ano, com o João Alves, subimos de divisão, e em dezembro tínhamos doze ou treze pontos de avanço para o terceiro classificado. Foram anos muito bons, era diferente do que é hoje. A envolvência, a paixão que havia à volta do clube, fazia-se as coisas com mais prazer, mais dedicação, ou seja, fazia-se mais com o coração do que hoje. Hoje, o futebol está mais industrializado, mais negócio. Antigamente havia mais paixão pelo jogo, pelo clube.
«Os meus colegas diziam: “já vais para o Sporting CP e não dizes nada, já assinaste”, e eu, “não sei nada, como é que isto sai assim”»
Bola na RedeLembraste da sensação da subida de divisão pela Académica, como foi?
Tonel: Lembro-me. Foi ótimo, ainda por cima, quando subi de divisão lembro-me que em junho tinha o Campeonato da Europa de Sub-21, ou seja, só não foi bom porque eu parti um pulso no último ou penúltimo jogo da Académica e fui para o Campeonato da Europa com o pulso partido. Deu para jogar na mesma, mas estava limitado na mão. Mas a sensação de subir um clube como a Académica foi ótima, é o que eu digo, o que se passava à volta da equipa, o que rodeava a equipa, a paixão que se via nos adeptos e toda a forma como a cidade se envolvia com o clube de uma maneira positiva. Portanto, dar essa felicidade a quem nos rodeava, era ótimo. Enquanto profissional também foi subir um patamar, passar de uma segunda liga para uma primeira.
Bola na RedeDizes que estavas bem na Académica. Quando aparece o Marítimo, sentiste que estavas a precisar de um novo desafio? Porquê o Marítimo?
Tonel: Senti que era mais um degrau. Como te disse, comecei com as dificuldades todas na formação e depois era degrau a degrau: CNS, depois segunda liga, depois lutar por subir, depois subir e depois lutar por não descer na Académica. Quando surgiu o Marítimo, e o Marítimo naquele ano, quando vou para lá, tinha-se pré-qualificado para a Liga Europa, e é no ano em que o Pepe vem para o Porto, e vou eu, o Ferreira e o Evaldo. E eu, pronto, mais uma oportunidade, não passamos à próxima fase por um bocadinho com o Rangers, acho que ganhamos 1-0 na Madeira e perdemos lá 1-0 mesmo no final. Fomos a penaltis, lá em Glasgow, e o Rangers ganhou-nos em penaltis. Mas pronto, quando fui para o Marítimo poder disputar essa possibilidade e ir para um clube que luta pela Liga Europa para mim foi ótimo. Só não gostava muito da Madeira era do avião, quinze em quinze dias para vir jogar ao continente. Há medida que o tempo foi passando fui-me entregando.
Tonel #Academica 2002-03 pic.twitter.com/WZLGJxkUlh
— Stickerpedia (@Stickerpedia1) November 29, 2018
Bola na RedeAcabas por não voltar ao FC Porto. Teres feito lá a formação e não teres voltado, era algo que gostavas de ter feito, jogar na equipa principal do Porto?
Tonel: Não, não, não me entristece, sinceramente. A vida é mesmo assim, feita de trajetos e percursos, e eu tenho a noção que quando saí do Porto para o Marítimo, o Pepe era melhor do que eu, e felizmente fez uma carreira em grande. Eu senti que mesmo saindo da Académica ainda não tinha espaço no Porto, tinha que fazer o meu percurso por fora. Depois quando saio para o Sporting, tinha contrato com o Porto mais um ano e rescindi com o Porto, ia assinar com o Marítimo dois anos, e nem cheguei a assinar porque, entretanto, apareceu o Sporting. Por isso, as coisas foram assim muito rápidas, e pronto, aconteceram e não fiquei triste nem ressabiado com ninguém. O trajeto foi o que se proporcionou.
Bola na RedeCom 24 anos apanhas treinadores como o João Alves, Manuel Cajuda, Vítor Oliveira, Artur Jorge, Ilídio Vale, qual deste, entre outros, o mais especial até chegares ao Sporting.
Tonel: … o João Alves, o João Alves porque eu quando chego à Académica está lá um treinador marroquino e depois os resultados não correram bem e o João Alves pega na equipa. Eu senti que ele me ia dar as oportunidades, eu pedi-as no treino, ninguém dá ninguém, a gente tem que fazer pela vida, mas o João Alves de certa forma é que teve a coragem, essencialmente isso, coragem e força de me lançar na equipa principal e apostar nos jovens. Foi aí que começou esse percurso para um nível diferente. João Alves foi muito importante nisso. Depois tive outros treinadores, aliás, tirando um ou dois que não gostei tanto de trabalhar, tive mais de vinte treinadores e guardo boas recordações de todos. O João Alves foi importante para mim, assim como o Mariano Barreto. O Manuel Cajuda leva-me para o Marítimo, fico-lhe grato como é óbvio, mas depois quando entra o Mariano Barreto, não sei, ensinou-me coisas que outros não me tinham ensinado, talvez por ser ligado à formação, tinha uma sensibilidade diferente. Eu era alguém muito focado, muito dedicado, muito cumpridor, fazia o meu trabalho o melhor possível. Mas o Mariano Barreto de certa forma libertou-me um bocado. Coisas simples, dizia-me: “Tonel não tens que ganhar os duelos todos, quando não conseguires antecipar fica nas costas, não deixes virar”, e eu antigamente era aquele que se o ponta de lança tocasse na bola e conseguisse dominar o treinador ficava chateado comigo. Depois dava-me confiança para sair com bola, ou seja, o Mariano Barreto fez-me crescer nesse aspeto, deu-me mais confiança e fez-me melhorar alguns aspetos do jogo que outros até lá não tinham pegado e não me tinham feito evoluir como ele.
Bola na RedeHá um bocado disseste que rescindes com o Porto e a seguir assinas com o Sporting no prazo de duas semanas. Como é que tudo aconteceu?
Tonel: Resumindo, posso dizer que tive um treino na Madeira, de manhã, e já tinha saído uma notícia a dizer que o Sporting tinha interesse em mim. Os meus colegas até pensavam que eu sabia, pensavam que eu já tinha tudo falado, e eu não tinha falado com ninguém. Quando vi a notícia, fiquei contente, mas pensei: ” isto sai assim, mas ninguém me diz nada, eu não sei de nada”. com 25 anos achei aquilo um bocado esquisito. Os meus colegas diziam: “já vais e não dizes nada, já assinaste”, e eu, “não sei nada, como é que isto sai assim” (risos). Eu treinei de manhã, um treino puxadíssimo, e tínhamos treino de manhã e de tarde, isto em julho. Acabou o treino, tomar banho, almoçar e depois estava em casa a descansar para o treino da tarde, porque de manhã tinha sido “um bom malho”. E pronto, quando me ligou o Carlos Pereira (Presidente do CS Marítimo) a dizer que estava em Lisboa e já tinha acertado tudo com o Sporting, e para eu ir para o aeroporto apanhar um avião. Foi assim tudo de repente que surgiu. E eu aí, quando o Carlos Pereira me ligou, eu é que liguei à pessoa que na altura me estava a ajudar. Não era o meu empresário que eu não tinha nada assinado, mas tinha-me ajudado a sair do Porto para o Marítimo, e eu é que lhe liguei a ver se ele queria ir a Alvalade negociar o contrato. Ou seja, normalmente os empresários é que arranjam os contratos para os jogadores, ali foi ao contrário, eu é que arranjei o contrato, não era o empresário, mas para a pessoa que me ajudou a ir para o Marítimo, não tinha nada a ver com esta ida para o Sporting.
«Mas que há de ser Rúben Dias e mais um, não tenho dúvidas disso»
Bola na RedeDos cinco anos no Sporting, em quatro és vice-campeão, sendo que, em 2006/2007, o Sporting ficou a um ponto do Porto. Nesses quatro anos faltou a estrelinha da sorte?
Tonel: Em2006/2007 poderíamos ter sido campeões, até houve um lance, mas isso vale o que vale, não interessa, mas sofremos um golo com a mão no jogo com o Paços de Ferreira, penso que o golo foi com a mão. Se fosse hoje com o VAR ia ser anulado. Mas pronto, foi validado e ficamos a um ponto. Aí senti que podíamos ser campeões. Foi mesmo no pormenor, no detalhe que não fomos, mas tivemos perto. Eu acho que segundo lugar naquela altura, e segundo lugar deu entrada diretamente na fase de grupos da Liga dos Campeões. No Sporting só na primeira época é que não joguei na Liga dos Campeões. Ou seja, o segundo lugar era apetecível, não era bom, porque bom era o primeiro, mas com os orçamentos que havia, com a capacidade que o Sporting tinha ou não tinha de ir ao mercado, em relação ao Porto e ao Benfica, acabava por ser bom, não ótimo, mas bom. Tanto é que depois dessa fase, ali de 2010 até 2015 o clube andou um bocado em dificuldades em terceiro e quarto lugar, ou seja, as coisas não melhoraram, pioram, por isso, esses cinco em que quatro ficamos em segundo lugar, com o Paulo Bento, as coisas foram boas, sem ser ótimas, ótimo era ser campeão.
Bola na RedeComo era o Paulo Bento como treinador? Que recordações guardas?
Tonel: Boas. Essencialmente na liderança. Acho que é um líder nato, obviamente que também jogou a um nível muito alto, também teve um percurso como jogador que lhe deu conhecimento, não só de treino e jogo, mas também balneário e gestão de grupo. Depois é alguém que acho que é muito forte na gestão do grupo, para aquilo que era o nosso grupo, ele tinha uma liderança muito coerente, não diria rígida, porque era defensor do grupo e não das individualidades. Ninguém se podia ou devia sobrepor ao grupo. Eu gostei essencialmente disso, na liderança que ele tinha.
Bola na RedeQual é o momento que destacas na tua passagem pelo Sporting?
Tonel: Tive momentos muito bons, por exemplo, quando me estreei na Liga dos Campeões. Até chegar ao Sporting nunca tinha jogado na Liga dos Campeões, ganhamos ao Inter de Milão, era o Ibra o ponta de lança, por exemplo. Eu no Sporting fiz 20 e tal jogos na fase de grupos da Liga dos Campeões, para quem nunca tinha jogado, fiz em quatro anos 20 tal jogos contra grandes equipas, Manchester, Barcelona, e até fiz um golo em Barcelona, perdemos 3-1, mas eu fiz o golo do Sporting, foi um momento que me marcou, não é? E as Taças e as Supertaças, as conquistas, digamos assim, duas taças, uma frente ao Belenenses e outra frente ao Porto. Duas Supertaças frente ao Porto. Foram momentos que me marcaram, foram positivos e fizeram que chegasse à Seleção Nacional. Joguei duas vezes, uma na fase de grupos e outra em amigável, pela Seleção, mas fui algumas vezes, mas jogar, só joguei duas.
Bola na RedeComo foi jogar pela Seleção Principal tendo também em conta o teu percurso de seleções?
Tonel: Eu tenho um percurso, felizmente, desde os sub-15. Fui internacional desde os sub-15, fui em todos os escalões internacional, até equipa B tenho na seleção. Felizmente tenho mais de 50 internacionalizações pelas seleções jovens e um Campeonato da Europa conquistado. Mas jogar na seleção A é o culminar, o mais alto. Curiosamente, os dois jogos que tenho na Seleção A foram em Coimbra, onde eu supostamente comecei a nível sénior o meu percurso. Jogar pela Seleção é sentir que cheguei, diria no meu caso, ao ponto mais alto, mas é um sentimento ótimo. Quando jogas num clube sabes que tens quem te apoie, quem quer que tu ganhes, quem quer que tu percas, quem quer que corra bem, quem quer que corra mal. Quando jogas na Seleção tens o vento sempre a favor. Isso é bom, e quando as coisas correm bem, no caso correu, os que joguei a equipa ganhou, foi ótimo.
Bola na RedeComo vês agora o miolo da defesa da seleção e o futuro?
Tonel: Acho que nesta altura estamos bem entregues com Pepe e Rúben Dias. Acho que é uma dupla muito boa, o Pepe ainda está aí para as curvas, tem um percurso fantástico e que ainda hoje fisicamente… porque o conhecer o jogo, perceber o jogo, o posicionamento, vais ganhando com a idade, o problema é o físico que vais perdendo. Se dantes saltava 50 centímetros começas a saltar 40, e se dantes fazias 20 metros em quatro segundos, depois fazes em quatro segundos e meio, ou seja, o físico não te vai dando a mesma coisa, e acho que o Pepe ainda está muito bem e provou, principalmente, na Liga dos Campeões. Portanto, acho que o Pepe ainda vai ter mais um/dois anos a jogar com o Rúben Dias, que eu acredito que vá ser o central da Seleção mais dez/doze/quinze anos, não tenho dúvidas disso. Vai ser o Rúben Dias e mais alguém, daqui a dois anos, possivelmente, se o Pepe terminar no Campeonato do Mundo. Mas durante 15 anos, acredito, vai ser o Rúben Dias e mais alguém. Agora, quem será o mais alguém é difícil, porque também temos aqui o José Fonte que também está numa fase final da carreira, não há de ser muitos mais anos que irá jogar, vai ter que surgir alguém. Temos alguns a surgir, temos dois nos sub-21 se olharmos, o Diogo Leite e o Diogo Queirós, que não sabemos onde podem chegar, temos o David Carmo que agora está lesionado, mas que eu acho que tem um potencial para poder chegar ao nível de Seleção, temos outros, o Domingos Duarte, temos outros que a qualquer momento podem surgir. Estes são os que estão agora mais falados e mais pertos disso, mas não sabemos se daqui a dois anos aparece um miúdo já num nível que pronto. Mas que há de ser Rúben Dias e mais um, não tenho dúvidas disso.
«Eu senti que as pessoas já não me queriam com a mesma força»
Bola na RedeQuando e como é que percebes que a tua caminhada de cinco anos no Sporting chegou ao fim?
Tonel: Foi como teve que ser. Quando terminou a chamada “Geração Paulo Bento”, no meu quinto ano, foi um ano muito complicado. Portanto, começamos com o Paulo Bento, depois saiu, veio o Carlos Carvalhal, depois era o Sá Pinto Diretor Desportivo, depois veio o Costinha, o treinador do Costinha para a época seguinte não era o Carlos Carvalhal, mas o Carlos Carvalhal ainda estava no Sporting, ou seja, o clube também em termos de resultados não foi um bom ano, houve muita instabilidade no clube nesse ano, foi um ano difícil. O que me disseram na altura, durante as férias, e eu tinha só mais um ano de contrato, foi que se eu arranjasse um clube que fosse melhor para mim, uma vez que tinha 30 anos, que fosse melhor para mim em termos de carreira e financeiro também, estavam disponíveis para me deixar sair. Eu senti que as pessoas já não me queriam com a mesma força. Se eu ficasse, se não conseguisse nada que eu quisesse, que me motivasse para sair, ia ficar mais um ano de Sporting. Agora, ia ficar, mas senti que não ia ficar da mesma forma que tinha estado até então, as pessoas não me queriam na totalidade. Se ficasse possivelmente não ia ser muito opção, e pronto, eu respeitei isso, e surgiu ir para a Croácia, para o Dinamo Zagreb. Em termos de campeonato, senti que era abaixo daquilo que era o campeonato português, mas também era uma hipótese em termos financeiros, era melhor, e era uma hipótese de ir ao estrangeiro, de perceber outra cultura, de sair daqui, de experimentar outra coisa, numa carreira que a gente sabe que é curta. Então ter uma experiência diferente poderia ser um bom aliado ao facto de financeiramente ser melhor, porque no Sporting naquela altura tinha algumas dificuldades, dificuldades para contratar, e também cheguei ao Sporting vindo do Marítimo, ou seja, nunca tive um salário no Sporting, digamos assim, do meio para cima, tive sempre do meio para baixo. Saí também porque nós sabemos que a carreira é curta e sabemos que temos que olhar para a nossa vida. Eu percebi que as pessoas não me queriam com a força que me quiseram antes, eu percebi que me estavam de certa forma a abrir a porta. Convidaram a sair, mas disseram que: “se não arranjares nada, se não quiseres, ficas aqui”, mas isso pronto, no fundo é dizer quase que: “ok a gente quer que saias, mas se não saíres olha tens mais um ano”. Até quando saio, é o Paulo Sérgio o treinador, e ele despediu-se de mim, depois falou de mim numa entrevista que ele deu logo a seguir a dizer que eu treinei durante um mês com a equipa, disse que era um grande profissional, que gostou de trabalhar comigo. Eu lembro-me das palavras dele, que eu era um profissional de mão cheia, e se há coisa que eu me orgulho sempre, é isso, ser profissional, ser sério, dar o meu máximo. Percebi que naquele mês, mesmo as portas estando abertas, se por acaso não quisesse sair, nesse mês que trabalhei com o Paulo Sérgio, se tivesse que ficar ficava, não ia era provavelmente ser primeira opção. Houve possibilidade, eu saí. Saí, fui para outra experiência.
Bola na RedeDisseste que o campeonato croata era um nível mais baixo…
Tonel: Sim, não tinha dúvidas disso, mas percebi que ia continuar a jogar na Liga Europa, no mínimo, e foi o que aconteceu. No primeiro ano que cheguei lá, o clube já se tinha qualificado para a fase de grupos da Liga Europa, fiz inclusive o primeiro jogo em casa com o Villarreal, no inicio de setembro, foi o segundo jogo que eu fiz, ganhamos, na altura era um Villarreal forte, ou seja, tive ali dois anos e meio… “ahh”…depois no segundo ano, na época a seguir, e na outra a seguir, eu fiz a pré-época e o Dinamo entrou na fase de grupos da Liga dos Campeões. Eu joguei duas épocas com o Dinamo na fase de grupos da Liga dos Campeões, foi ótimo para o clube em termos financeiros e para mim também, principalmente o primeiro ano, porque continuei a jogar na Liga dos Campeões mesmo sabendo que a dificuldade do Dinamo na Liga dos Campeões era muita. Apanhamos também equipa difíceis, Real Madrid, Ajax… isso aí é difícil para um clube que joga numa liga que não é tão competitiva e tão boa como a nossa.
Bola na RedeApesar de não ser uma liga tão competitiva, internacionalmente é um país que lança muitos bons jogadores. Jogaste com o Kovacic, por exemplo…
Tonel: Sim, joguei. O Kovacic estava a subir dos juniores para os seniores, era um miúdo muito humilde, muito simples, acanhado, metia-se no cantinho dele, não falava para ninguém, muito tímido, mas bom miúdo. Via-se que era alguém educado, prestável. Os croatas no geral demoram um bocadinho a ganhares a confiança deles, mas depois são pessoas muito dedicadas e dadas, eu gostei muito de estar lá. Foram anos, em termos pessoais e familiares, um bocadinho mais complicados. Fui para a Croácia e passado uma semana vim cá e a minha mulher teve o terceiro filho. Eu tive com o meu filho oito horas, e no outro dia às seis da manhã, ou seja, a minha mulher foi-me buscar ao aeroporto às seis da tarde, teve o meu filho, imagina às oito da noite, e eu dormi às seis da manhã no dia seguinte. Fui para a Croácia e tive um mês sem ver o meu filho e a minha mulher. Sem ver, isto é, via pela net, mas não é a mesma coisa. Só passado um mês é que os meus filhos e a minha mulher foram lá ter comigo. Custou-me um bocadinho e os meus outros dois filhos também nunca se adaptaram muito bem, ir para uma nova escola, ir para uma escola americana, tiveram dificuldades de adaptação, de saírem do mundo deles, mas fez parte do crescimento, foi uma experiência para eles, mas não posso dizer que eles adoravam estar lá.
Bola na RedeÉ verdade que uma empregada doméstica dá uma ajudinha na tua transferência para o Dinamo? Queres contar?
Tonel: Sim, isso vim a saber depois. O treinador era o Halilhodzic e foi ele que me foi buscar. Ele tinha uma empregada doméstica que era portuguesa, e então, como ela estava mais atenta ao futebol português, quando surgiu o nome, ela disse que sim, que gostava muito de mim, e que acho que ela até era sportinguista (risos). De certa forma ajudou, entre aspas, a que ele decidisse por mim.
Bola na RedeA dificuldade de adaptação da tua família, a própria distância para Portugal, acelerou a tua saída do Dinamo?
Tonel: Não, não, eu tinha dois anos e meio de contrato e cumpri até ao fim. Até três meses até final do contrato as coisas foram espetaculares, fomos duas vezes campeões nacionais, a terceira também embora não acabasse, mas joguei alguns jogos até dezembro, mas depois o problema aconteceu no final de setembro, em que o Dinamo me chama para renovar e eu não quis. A partir daí passou uma relação de amor/ódio porque eles gostavam e sentia que o presidente, as pessoas do clube, os meus colegas… sentia-me acarinhado por todos, e criei boa relação com todos. A partir do momento que digo que não quero ficar, acho que pronto, principalmente o presidente e o treinador não aceitaram muito bem. Depois houve um desaguisado entre mim e o treinador. O treinador disse que eu já não estava focado, mas só disse isso depois de eu dizer que não queria renovar, pronto. Esteve ali mal em termos públicos, dizer que não estava focado, não treinava igual, não estava ali com a cabeça, e pronto, não me disse nada a mim pessoalmente, esteve a dizer coisas na comunicação social que não corresponderam à verdade. Depois eu não devia ter feito isso, mas na altura achei que devia fazer também publicamente. Fui dizer que não teve carácter e que devia ter dito na cara. Foram coisas que não deviam ter acontecido, acho que o treinador teve mal, eu também tive mal, se fosse hoje não fazia, mas que fizeram parte. Ainda hoje falo com pessoas do clube, e com jornalistas também, com pessoas que estão dentro do clube, e dou-me bem com toda a gente. Acabei por terminar o contrato. Estive dois meses mais ou menos sem jogar e a treinar com os juniores, e vim para cá.
«Depois um ano complicado em que o Jesus sai do Benfica para ir para o Sporting, entra a podridão do futebol»
Bola na RedeHouve alguma razão para escolheres o Beira-Mar, além disso, havias mais propostas?
Tonel: Tinha mais possibilidades, mas o Beira-Mar era o clube que depois de estar fora, dava para ir e vir todos os dias para casa, dava para estar em casa, foi a minha opção. Quando ouvi falar da hipótese do Beira-Mar ficou logo fechado, porque eu queria vir para casa digamos assim. Mas correu mal. Com o Beira-Mar posso dizer que foi o clube que correu pior. Cheguei em janeiro, vinha de dois meses sem competir, e treinava com os juniores, com uma intensidade e ritmo diferente. Quando cheguei ao Beira-Mar, assim que começo a jogar, rasguei em termos musculares, tive uma rotura e depois o problema não foi a rotura, porque uma rotura em três/quatro semanas, recupera-se. O problema foi que durante esse tempo que estive de fora as coisas não estavam a correr bem à equipa, e a equipa começou a cair na tabela. Eu sentia-me na obrigação de jogar, de ajudar, tinha vindo para ajudar, não tinha vindo para estar no posto médico, embora também faça parte do futebol, mas o que é certo é que eu fiz uma rotura e três semanas depois, quando volto ao treino, ainda não estava a 100% e eu sentia que não estava, mas eu sentia que tinha que ajudar, ou seja, eu senti que mesmo não estando a 100% poderia ajudar. O que é certo é que no primeiro treino, normal, digamos assim, rasguei-me no mesmo sítio, ao lado, na mesma zona, não estava bem curado. Pior que isso, à terceira vez, quando voltei outra vez passado três/quatro semanas voltei-me a rasgar no mesmo sítio. Numa lesão eu fiz três, foi tudo por causa da primeira. Aí sim tive que parar, e só voltei a meio de abril e o campeonato acabava a meio de maio. Voltei depois de estar dois meses e meio parado, sem ritmo, sem condição física, e aí praticamente já não joguei. Ainda fui para o banco no último jogo. Recebemos o Sporting e tínhamos que ganhar para ficar na Primeira Liga. Não joguei de início, ao intervalo estávamos a perder 3-0, e entrei na segunda parte. O Costinha que era o treinador arriscou tudo, com três centrais, e a equipa mais para a frente, chegamos a fazer o 3-1 mas sofremos o 4-1 e pronto, o Beira-Mar desceu de divisão. Aí não tenho dúvidas que foi o clube que pior correu. Custou-me porque queria ficar no Beira-Mar muitos anos porque estava na Primeira Liga e porque era perto de casa. Ia e vinha todos os dias, a minha família estava estabilizada depois de andar dois anos e meio fora, era um clube que queria ficar muito tempo. Assinei contrato um ano e meio, depois o Beira-Mar entrou em alguma dificuldade. Eu tinha mais um ano de contrato, rescindi e recebi zero, era um dos melhores contratos do Beira-Mar. Desse próprio ano tinha a receber cinco meses, recebi quatro, prescindi de um mês, ou seja, mesmo correndo mal, acho que fiz a minha parte. Tentei ser o mais correto possível com o clube. Saí e vim para o Feirense da Segunda Liga.
Bola na RedeNo espaço de um ano passas da Liga dos Campeões para a Segunda Divisão Portuguesa. Foi difícil para ti de digerir?
Tonel: Foi porque uma coisa é vir da Croácia, do Dinamo, para a Primeira Liga. O baixar não é muito em termos de motivação. Agora quando passas de Primeira Liga e vens para a Segunda Liga, é o que eu digo, em setembro de 2012 estava a jogar Liga dos Campeões e em agosto de 2013 estava a jogar a Segunda Liga. Custou um bocadinho, especialmente em termos de motivação, ou seja, a motivação e a adrenalina que o jogo dá, a competição dá, perde-se um bocado. Mas, apesar de tudo, consegui fazer no Feirense em duas épocas mais de 80 jogos. Consegui jogar muito no Feirense, o que fez com que tivesse ainda a possibilidade de ir à Primeira Liga.
Tonel, ex-@Sporting_CP, actualmente no @CDfeirense, completa hoje 35 anos. O @UEFAcom_pt dá os parabéns ao central. pic.twitter.com/JrA71q1uKP
— UEFA.com em português (@UEFAcom_pt) April 13, 2015
Bola na RedeQuando vieste para a Segunda Liga achavas que tinhas condições para continuar na Primeira Divisão?
Tonel: Sim. Eu capacidade não tinha dúvidas. Eu estava na Segunda Liga, mas sentia que tinha possibilidades de facilmente voltar à Primeira Liga. A questão era ter a oportunidade porque quando chegas do estrangeiro, de um campeonato como o da Croácia, vens para um clube e estás quase três meses parado por lesões musculares. As pessoas depois olham para ti como “está velho”, “já não dá”, “já não é um ativo porque tem 33 anos”, ou seja, “já não vai dar retorno”, “está cansado”, “está desmotivado”… as portas depois já se fecham e foi o que me aconteceu. Senti isso, mas mesmo assim ainda se abriu uma porta por alguém que me conhecia bem, o Sá Pinto, que ia ser o treinador do Belenenses, e que me deu essa possibilidade. Quando surgiu essa possibilidade aos 34 anos senti que estava preparado, perfeitamente preparado para jogar na Primeira Liga outra vez e com a aliciante de poder ir disputar a entrada na fase de grupos da Liga Europa.
Bola na RedeE as coisas ao início até começaram por correr bem.
Tonel: Conseguimos! O Belenenses, apesar de já ter sido campeão em 1900 e qualquer coisa, nunca tinha jogado na Liga Europa, e eu fui para o Belenenses em 2015 e nesse ano conseguimos eliminar duas equipas, uma da Áustria e outra da Suécia. Foi um feito histórico para o Belenenses ir à fase de grupos da Liga Europa e comigo a jogar, com uma participação muito boa, com um ótimo rendimento, estava a ser fantástico voltar de novo e sentir a motivação para o jogo, da adrenalina para o jogo. Depois de estar dois anos na Segunda Liga, voltar para a primeira aos 34 anos, para mim estava a ser espetacular. Foi muito bom até dezembro, depois as coisas alteraram lá por causa de um lance com o Sporting. Depois um ano complicado em que o Jesus sai do Benfica para ir para o Sporting, entra a podridão do futebol. Pronto, apanhou-me ali no meio, fui, de certa forma, envolvido em situações ou quiseram-me envolver em situações que não tinham nada a ver e acabou-me por me prejudicar e precipitar o final da minha carreira.
Bola na RedeNo Feirense com 34 anos chegaste a pensar no fim da carreira?
Tonel: Sim porque essencialmente em termos de motivação aos 34 anos, continuar a jogar na Segunda Liga depois de duas épocas desgastantes, porque 80 jogos com 33/34 anos em duas épocas é desgastante. A Segunda Liga não tem a qualidade de jogo que tens na Primeira, mas em termos de disputas físicas, de lado físico do jogo, é muito forte. Há muitos duelos, agressividade, não há muita qualidade de jogo, as equipas não têm as mesmas condições, mas em termos de luta, entrega ao jogo, determinação em cada lance, a Segunda Liga é forte, pronto, e eu aos 34 anos e faltando-me a adrenalina porque, felizmente a minha carreira foi maioritariamente noutros patamares, e cair ali numa parte final, eu aceitei isso, mas não tinha a mesma motivação e senti que estava perto de acabar.
«Aquele futebol que eu adorava, de há 20 anos atrás que tinha muita mais paixão, era aquele futebol que eu gostava»
Bola na RedeFalaste dessa situação em dezembro de 2015. Ultimamente vimos situações “parecidas” que acabam amplificadas pelas redes sociais. Perguntava-te primeiro como lidaste com essa situação que teve origem num lance, e depois, como vês a “relação” entre jogador/redes sociais.
Tonel: Foi complicado, para mim, para os meus filhos na escola, para a minha família, portanto, lidar com isso, o primeiro impacto foi penoso, foi muito triste, quando eu era o oposto que duas ou três pessoas quiseram tentar passar. Mas felizmente tive muita gente que me veio defender, que jogou comigo, que foi meu treinador. Agora eu percebo que as redes sociais ajudam a inflamar isto. Há muito ódio nas redes sociais, há muita “porcaria”, as pessoas não te dizem as coisas na cara. Chegou-me a acontecer haver um comentário nas redes sociais de uma pessoa, mas a comentar, a rasgar, a dizer mal, e uma vez viu-me num shopping e veio-me pedir para tirar uma fotografia. Eu percebi que as coisas são como são, mas as redes sociais não trazem nada de bom. Hoje em dia se fosse jogador profissional não tinha redes sociais. É muito bonito quando corre bem, és o maior, não sei quê, mas depois quando corre mal tens que levar com críticas. Uma coisa é levares com críticas do teu treinador, de alguém que percebe e te conhece, e que te diz as coisas na cara, agora estares a ser enxovalhado, pôr em causa em tua integridade como pessoa, isso aí nem devia ser permitido sequer. Mesmo que tu não queiras, e saibas que aquela podridão que não tem nada a ver contigo, acaba por, de certa forma, mexer um bocadinho contigo, o que é normal. Isso aí por um lado também me fez crescer. Aquilo custou um bocadinho de ouvir certas coisas, ver alguns comentários que fazem à tua pessoa, não ao teu profissionalismo, não ao profissional que és, que isso nunca tive dúvidas de nada e sempre o mostrei, mas pessoas que não te conhecem de lado nenhum a dizerem coisas que não têm nada a ver. Mas a gente não pode ouvir tudo, tem que saber filtrar, e perceber quem considera e quem não considera. Por um lado, fez-me ver as coisas por uma maneira diferente. Tu quando jogas e estás focado no jogo e na tua profissão estás metido numa bolha. A partir do momento que sais dessa bolha tens que perceber o mundo real, que é diferente. Eu hoje já olho para o futebol de um modo diferente. Sei que o futebol nos últimos anos mudou muito. Aquele futebol que eu adorava, de há 20 anos atrás que tinha muita mais paixão, era aquele futebol que eu gostava. Eu revejo-me nesse futebol. O mundo do futebol, hoje, é muito mais um negócio, é uma indústria, que mexe muita coisa, muitos poderes, muito dinheiro. É normal que hoje com a voz que qualquer um tem, qualquer pessoa faz um comentário no telemóvel e aparece se for preciso no rodapé da televisão. Isso aí faz com que tire credibilidade a muita coisa, mas é o que é.
Bola na RedeEstás a falar também da mística e da paixão ao clube, que também fomos falando nesta entrevista?
Tonel: Sim. Eu tive um jogador que para mim era uma referência, o Rocha da Académica, que hoje é fisioterapeuta. Ele só jogou na Académica, eu quando cheguei, aquele senhor, que era o senhor Rocha de início, para mim era, não digo um ídolo, mas uma referência. Aquele senhor morria pela Académica se fosse preciso. A forma como ele treinava, a forma como ele jogava, a forma como estava sempre a tentar ajudar o colega do lado, a forma como ele estava no balneário, como era líder. Esse era o futebol mais puro, também não sei se era a forma como eu o via, via-o de maneira diferente. Agora, eu sei que não era da mesma forma que é hoje. Mas eu via aquela pessoa como uma referência daquele clube, fazia de tudo por aquele clube, adorava o clube, mas tinha princípios. Era alguém que sabia estar. Isso aí foi uma referência para mim, mas que hoje já não há. Mesmo os clubes já não têm jogadores de referência. Hoje é difícil veres um jogador num clube muitos anos, ser uma referência, antigamente havia. No Porto olhavas vias Jorge Costa, Vítor Baía, Domingues Paciência, Paulinho Santos, jogadores com muitos anos. No Sporting vias o Beto, o Nelson, o Sá Pinto. No Benfica também vias o Luisão, o Nuno Gomes e outros. Hoje já não se vê essas referências.
OFICIAL: @CFosBelenenses confirma contratação do defesa-central Tonel, de 35 nos (ex-Feirense e @Sporting_CP 2005-10) pic.twitter.com/3pF72U2OZ7
— UEFA.com em português (@UEFAcom_pt) June 9, 2015
Bola na RedeA situação que se causou em torno do lance frente ao Sporting acelerou o fim da carreira? Foi difícil aceitar esse fim?
Tonel: Sim, acelerou, tive que aceitar e seguir. Também sabia que mais tarde ou mais cedo ia acontecer, podia ter acontecido antes até, podia acontecido antes se não houvesse a hipótese de ir para Belém porque já estava a pôr essa possibilidade, por isso tive que aceitar. Não foi da forma que eu queria. Queria sair pelo meu próprio pé, saí porque decidi que já não queria mais, e foi por uma situação que, pronto, se proporcionou, mas como te disse, na altura foi mau, custou a mim e à minha família, mas consegui ultrapassar e fez-me ficar mais forte. Hoje já não é qualquer coisa para me abalar, fez-me crescer e perceber melhor o meio. Quando somos profissionais vivemos numa bolha e não temos tanta noção, não havia redes sociais, não havia estas coisas que há hoje, que de repente estás na televisão e nas notícias, e que há quinze ou vinte programas desportivas a falar e que a maior parte deles sobre outras coisas que não o jogo, que é aquilo que eu gosto, eu gosto é do jogo, desde que o árbitro apita para começar até terminar. Isso é que eu gosto, o que ainda gosto do futebol é o jogo em si e não tudo o que o rodeia. Muito do que o rodeia, eu não gosto.
Bola na RedeJá tiveste uma pequena experiência como treinador, vamos ter um Tonel como treinador no futuro?
Tonel: Não sei, costumo dizer que “vamos indo e vamos ver”, um dia de cada vez.
Bola na RedeO futuro vai passar pelo futebol?
Tonel: Sim, no futebol não tenho dúvidas. Agora estou a comentar jogos para a Sport TV e estou a gostar. Estou a gostar muito porque, lá está, é ir para o jogo, chegar lá antes meia hora, falar sobre o jogo ou então falar só durante o jogo que é o período que eu mais gosto, futebol puro dentro das quatros linhas. Estou a gostar e enquanto estiver a gostar e com o mesmo prazer que estou hoje, tenho prazer naquilo que faço, vou continuar.
Bola na RedeUmas perguntinhas mais rápidas agora. Melhor momento da carreira?
Tonel: É difícil. Em termos de jogo, o facto de ter sido Campeão da Europa de sub-18, agora há outros momentos. Fora do jogo ir para o Sporting foi um momento marcante, é o chegar a um clube grande, depois de muitas escadas e das dificuldades iniciais, e há mais. O estrear-me pela seleção principal. Há vários momentos positivos, alguns negativos, mas muito mais positivos.
Bola na RedePior momento?
Tonel: Talvez a descida do Beira-Mar.
Foi há 17 anos. 26 de julho de 99, os nossos Sub-18 tornam-se Campeões da Europa,depois de 1 vitória frente à Itália pic.twitter.com/MH8MY70GSB
— Portugal (@selecaoportugal) July 26, 2016
Bola na RedeMelhor jogador que defrontaste?
Tonel: Melhor jogador não tenho dúvidas que foram os que são hoje em dia, o Cristiano e o Messi, são muito difíceis. Tivemos também aqueles jogos com o Bayern Munique em que o Sporting perdeu em casa 5-2, e depois lá, 7-1, mas em casa no 5-2, depois de ter estado dois meses parado jogar contra o Bayern foi muito complicado. Na altura estava o Luca Toni como ponta de lança que era muito grande, forte, e com os colegas deles a fazerem cruzamentos sem pressão e tudo, senti muita dificuldade.
Bola na RedeCompanheiro de equipa mais craque ou que mais te surpreendeu?
Tonel: Tive um que não fez uma grande carreira. O Sammir que jogava a dez, tinha um potencial incrível, tecnicamente, fisicamente, a relação com a bola, só que pronto, fora do futebol, na sua vida profissional, não era um profissional a 100% e acabou por não fazer uma grande carreira, mas tinha um potencial tremendo. Depois lembro-me no Sporting estar a aparecer o Miguel Veloso, o Nani, o Moutinho, o Rui Patrício, portanto via-se que eram jovens que iam aparecer e que iam para um patamar alto. Agora dizer-te que quando vi o Rui Patrício a começar a treinar na equipa principal ia adivinhar que ele ia ser titular da seleção durante dez anos ou quinze e fazer uma carreira que está a fazer, tinha a certeza disso? Não tinha, teve que crescer muito e trabalhar muito. Mas ver um Nani que chegou também tímido fora de campo, mas depois dentro de campo “abusado”, era diferente. O Nani já era diferente, o Patrício era mais tímido dentro e fora de campo, mas o Nani dentro de campo já era completamente diferente. O Nani se tivesse que dar uma porrada num jogar mais velho dava, se tivesse que rematar à baliza em vez de passar a bola, rematava, portanto, era atrevido. Foram jogadores que apareceram e tinham talento. Lembro-me do Deivid, um ponta de lança que se via treinar com muita qualidade. O próprio Kovacic com 18 anos, jogava muito, mas é assim, achavas que ele quando apareceu ia fazer uma carreira de Chelsea, Real Madrid, difícil, não é. Tinha outro, o Milan Badelj que esteve em Itália (e ainda está, no Genoa CFC), que eu achava que tinha uma qualidade, que ia fazer um percurso por um Real, Barcelona, não foi.
Bola na RedeNo Dinamo apanhaste, por exemplo, o Halilovic…
Tonel: Apanhei pouco tempo, mas sim, falava-se, ele a treinar era um miúdo que tinha uma qualidade fantástica com bola no pé, mas isso só não chega. É preciso treinares com intensidade, dedicares-te a 100% no treino, teres responsabilidade, ser profissional cá fora, isso tem que se conjugar tudo para poder atingir o alto nível, e às vezes alguns não conseguem. No meu caso eu sinto que consegui, eu fui até onde pude, acho que dificilmente podia ir mais longe, porque não tinha condições técnicas e físicas para mais.
Bola na RedeO balneário da tua carreira?
Tonel: Se for a olhar para os balneários todos, aquele que eu encontrei quando cheguei à Académica. Nos tempos antigos, foi aquele balneário que mais me marcou. Eu era um menino com 20 anos e cheguei ali e vi uma mística e uma cultura diferente de um balneário sénior. Foi um balneário que eu acho que me marcou. Houve problemas num treino entre dois jogadores e no dia seguinte montou-se no balneário tipo um ringue de boxe, com os nomes deles, um de cada de lado, mas isso tudo num contexto de brincadeira, percebes. Foi, talvez, o mais marcante.
Bola na RedeAlgum arrependimento?
Tonel: Não porque isto é mesmo assim, temos de fazer opções. Na altura temos que decidir, não dá para voltar atrás, por isso não me arrependo de nada. Tive uma situação difícil de decidir nos juniores do Porto quando decidi ir para Espinho, não sabia que ia voltar ao Porto. Aconteceu porque as coisas correram bem, não sabia que ia voltar ao Porto. E depois na segunda vez voltar a Espinho sem saber que ia voltar ao Porto ou não, foi uma decisão que com 16/17 anos foi difícil. Não sabia se havia de sair, podia sair e não voltar mais, podia ficar e jogava lá e jogava na distrital e não saía do clube, mas correu bem.
















