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Filho de Setúbal, Silvino Louro nasceu e cresceu para o futebol ao lado de casa. Mas, ao contrário de tantos conterrâneos, partiu, ainda jovem, das margens do Sado, decidido em escrever o seu destino à sombra de outras redes. No Benfica, tornou-se “capitão” e símbolo – defendendo até a baliza das águias nos dois últimos capítulos da lenda criada pela língua comprida de Béla Guttmann. As voltas que a vida dá levaram-no, mais tarde, ao FC Porto – e essas imagens de dragão ao peito continuam, hoje, a dividir opiniões (e a provocar fissuras no pedestal que ocupa, por direito próprio, no Panteão benfiquista). Como treinador de guarda-redes de José Mourinho alcançou o topo do mundo. Venceu o que havia para vencer. Agora, na sua casa, em Madrid, Silvino Louro olha desconfiado pela janela para uma cidade “refém” da doença e da morte. E enquanto deixa o tempo correr, devagarinho, junto de quem mais gosta, “puxa” pela memória para recordar os dias de glória como jogador de luvas grossas nas mãos. E como treinador de excelência. Lembra os momentos e os amigos que foi somando durante todos estes anos. Com saudade. Às vezes com alegria, outras com tristeza. Fê-lo, esta tarde, na companhia do Bola na Rede. A conversa, essa, foi esta que aqui partilhamos – mas podia ser ainda muito mais. Silvino Louro tem passado, presente e futuro.
«Com o Fernando Santos, no FC Porto, e depois com o José Mourinho estes anos todos conquistei 28 títulos. É importante não deitar tudo a perder agora, indo para um projeto que não vai dar em nada»
Bola na RedeOlá, Silvino. Como é que se vive em Madrid nesta fase? Com estes números da pandemia, todas as restrições…
Silvino: Não é nada fácil. Mas já foi bem pior, principalmente em abril.
Bola na RedeNessa altura, a situação em Espanha era mesmo dramática…
Silvino: Sim, sim. E senti muito medo. A partir de março, contam-se pelos dedos das mãos as vezes que saí de casa… Não arrisquei durante quatro meses. Era só mesmo para ir comprar pão ou fruta, por um minuto, e voltava logo para casa. E mesmo nas lojas, se estivesse lá uma pessoa que fosse, preferia esperar cá fora, e só depois de a loja estar completamente vazia é que entrava.
Bola na RedeOs números da pandemia na altura impunham respeito…
Silvino: Muito. Em Portugal, havia 100/120 novos infetados e cinco/seis mortos. Em Madrid? Estamos a falar de 10, 12 ou 15 mil novos infetados e 600, 700, 900 mortos… chegaram a morrer mil pessoas num único dia…Eu acordava, via estes número, e pensava: “Espera aí! Não saio de casa! Não vamos sair!”… Felizmente, não aconteceu nada até ao momento. Nem a mim, nem à minha família.
Bola na RedeE a nível profissional, como é que se vive este período e este contexto? Ainda por cima sem estares a trabalhar numa equipa… Como é que te manténs ligado ao futebol e te manténs atualizado?
Silvino: Atualizado mantenho-me desde que deixei de trabalhar, no dia 14 de dezembro de 2019. Nós quando estamos no ativo não temos muito tempo para pensar. Só nos preocupamos com o jogo seguinte, com a forma como a equipa adversária joga, como jogam os seus jogadores mais importantes, como executam as bolas paradas: os cantos, os livres, os penáltis… Não há tempo para mais nada. Neste momento, posso estudar, melhorar, trabalhar a vertente do treino… até porque, hoje, o papel de um guarda-redes numa equipa mudou completamente. Um guarda-redes joga de forma totalmente diferente do que jogava há dois ou três anos… e é preciso acompanhar isso.
Bola na RedeQue diferenças são essas?
Silvino: Um guarda-redes, antes, só defendia bolas. Hoje, tem essencialmente de ser mais um jogador que sabe jogar bem com os pés. Basta ver como jogam a maior parte das grandes equipas, que começam o processo ofensivo a partir de trás. E para os treinadores poderem fazer isso têm obrigatoriamente de ter guarda-redes com bons pés. Todas as grandes equipas jogam agora assim. Começou com o Barcelona, mas o Tottenham do José Mourinho também já joga assim. O Liverpool, Manchester City, Manchester United, Real Madrid… E isso é a prova evidente que os treinadores dessas equipas têm confiança nos seus guarda-redes com a bola nos pés. Mas para isso, é preciso trabalhar, trabalhar muito.
Bola na RedeE como manténs a forma física? Isso também é essencial para um treinador…
Silvino: Lógico! Isso tem de se fazer sempre. Estive nos últimos três meses na terra da minha mulher [Mellilla], só regressei na semana passada. A situação da pandemia lá está mais tranquila. O condomínio onde vivíamos tinha um ginásio para onde ia trabalhar todos os dias. Depois, comprei uma bicicleta e fazia 50 quilómetros todos os dias… colocava os fones, música a tocar e fazia pelo menos duas horas e meia de bicicleta todos os dias.
Bola na RedeEntão estás em forma?
Silvino: Estou. Eu também não sou pessoa de engordar. Só peso um quilo e meio a mais desde o tempo em que jogava.
Bola na RedeHá ex-jogadores que até dizem que não conseguem deixar de pensar como jogadores. Também és assim? Ainda tens essa “cabeça” de jogador?
Silvino: Não, não, não (risos). É impossível… Tenho 61 anos. É preciso ter cuidado (risos). Às vezes convidam-me para jogar, mas já nem vou para a baliza, jogo só lá na frente… só vou para a baliza se o guarda-redes for muito mau (risos). Mas agora com esta situação [da pandemia] há muito tempo que não faço isso.
Manchester United technical coach Silvino Louro and manger José Mourinho watch their squad train at Barry University in Miami Shores, Fla. on Monday, July 30, 2018. The English soccer club is slated to take on Real Madrid tomorrow at Hard Rock Stadium in Miami, Fla. pic.twitter.com/F4n51kJI0Y
— Ellis Rua (@ellixrua) July 30, 2018
Bola na RedeContinuas a estudar, estás em forma… Mas o teu último projeto foi o Manchester United, de onde saíste em dezembro do ano passado… Entretanto, depois disso, saíste da equipa técnica do José Mourinho e já não o acompanhaste para o Tottenham, mas já lá vamos. Para quando um regresso ao ativo? Tens tido convites?
Silvino: Olha, apareceu-me um convite da China… não quis ir. Depois, apareceu-me um convite do Catar… também não quis ir. Na época passada, fui convidado pelo Leganés, que estava na Liga espanhola, mas que depois acabou por descer, mas também não aceitei.
Bola na RedeMas sempre para ser treinador de guarda-redes? Liderar um projeto está fora de hipótese?
Silvino: Está, está… nada de ser treinador principal, isso nunca. É lógico que também tenho as minhas ideias, derivado aos meus anos como jogador e treinador, sei ver essas situações, mas prefiro estar ligado à área especifica de guarda-redes, que é a que mais entendo e tenho mais prazer em trabalhar.
Bola na RedeMas esses convites da China e do Catar deviam ser muito bons financeiramente… Também rejeitaste uma equipa da Liga espanhola… O que é que estás à procura?
Silvino: Essa resposta é muito fácil. Para aceitar um projeto tenho de saber com quem vou trabalhar, quem são as pessoas, se são competentes e sérias, e também tenho de saber aquilo que o clube quer. Quando já se tem algum prestígio não podemos aceitar qualquer coisa, não é? Temos de perceber que aquilo que já fiz, ao longo dos anos, foi feito com muito suor, sofrimento, lágrimas… Com o Fernando Santos, no FC Porto, e depois com o José Mourinho estes anos todos… conquistei 28 títulos… É importante não deitar tudo a perder agora, indo para um projeto que não vai dar em nada. Portanto, depende do projeto e das pessoas. E é isso que estou à espera, e até tenho a certeza que dentro de pouco tempo estarei no ativo…
«O Eusébio a treinar guarda-redes era assim: punha as bolas a jeito e “pum, pum, pum”. Um dia ele já tinha colocado umas cinco ou seis bolas ao ângulo e então tive de lhe dizer: “Oh, Eusébio! Estás a aquecer-me ou a treinar-te a ti?»
Bola na RedeBoa! Mas antes de falarmos desse percurso como treinador, vamos primeiro regressar aos tempos de jogador… E pelo princípio: o que te levou a ires para a baliza quando eras criança? Não tinhas jeito com os pés? Ou era mesmo a posição com que sempre sonhaste?
Silvino: Dizia-se, na altura, que quem ia para a baliza eram os mais pequenos ou os mais novos. Mas eu, quando comecei a jogar no Vitória de Setúbal – com 13 anos, em 1973 – já media 1,78 metros, calçava o 43 e tinha uma mão grande. As pessoas começaram a perceber que tinha qualidades para a baliza. Os meus próprios amigos mais velhos, já com 20 ou 30 anos, tinham uma equipa lá na rua e, às vezes, também me convidavam para jogar com eles, naqueles jogos populares. Isso deu-me muita experiência. E como depois as pessoas começaram a reparar, a falar de mim, isso deu-me ainda mais vontade e motivação para jogar na baliza. A partir daí, comecei a ter vontade de, cada dia, saber mais, trabalhar mais… e foi sempre assim até que aos 18 anos era o guarda-redes titular do Vitória de Setúbal.
Bola na RedeIsso na altura foi quase inédito…
Silvino: Sim, sim. Só o Vítor Damas tinha conseguido estrear-se com essa idade.
Bola na RedeGrande guarda-redes! E que sonhos alimentavas durante a juventude? Já tinhas algum objetivo bem definido?
Silvino: Quando comecei a jogar, o que queria era ser igual ao Vítor Damas.
Bola na RedeEra o teu ídolo de infância?
Silvino: Era, era. Eu era um grande fã do Vítor. Gostava muito da forma como ele jogava. E depois também do Manuel Bento, que foi meu colega no Benfica – aliás, fui eu que substituí o Bento no Benfica, depois da lesão que ele sofreu no Mundial do México, em 1986. Ver esses guarda-redes, conhecê-los, defrontá-los e depois ainda ter sido colega do Manuel Bento no Benfica (suspiro)… para mim, isso é uma alegria enorme.
Bola na RedeComeças a destacar-te no Vitória de Setúbal, mas antes de chegares ao Benfica ainda passaste pelo Vitória de Guimarães e pelo Desportivo das Aves… Como é que foi sair de casa pela primeira vez? Da cidade, do clube…
Silvino: Foram experiências muito boas. Fui para Guimarães substituir, precisamente, o Vítor Damas, que havia lá estado na época anterior e tinha saído esse ano para o Portimonense. Nessa equipa do Vitória de Guimarães jogava o [António] Jesus. E o treinador era o José Maria Pedroto – só que, pouco depois, o Pinto da Costa ganhou as eleições do FC Porto e foi buscá-lo. Para o lugar dele, vem o Manuel José. Comecei logo a ser titular, e foi no Vitória que internacional AA pela primeira vez, num jogo contra a Hungria [0-0], em 1983, no Estádio Municipal de Coimbra… O guarda-redes da Hungria era o [Béla] Katzirz, que chegou a ser guarda-redes do Sporting. Tinha quase dois metros e quando saltava batia com a biqueira da bota na barra da baliza (risos).
Bola na RedeMesmo numa fase em que ainda jogavam o Damas e o Bento, quando ainda eras muito jovem, começaste a destacar-te como um dos melhores guarda-redes portugueses…
Silvino: Sim, tive dois anos muito bons no Vitória de Guimarães. Embora nem tudo tenha sido fácil: Guimarães é uma cidade mais fria e onde chove muito. Não tem nada a ver com Setúbal, mas, pronto, adaptei-me perfeitamente. As pessoas são muito humildes, e sempre me receberam muito bem. Aliás, gostei tanto daquela região que depois de ser contratado pelo Benfica [em 1984], e como não estava a jogar, no ano seguinte pedi à direção [de Fernando Martins] para sair por empréstimo para o Desportivo das Aves…
Bola na RedeDeixa-me só fazer um aparte: tens um carinho muito especial pelo Desportivo das Aves. Curiosamente, tanto o “teu” Vitória de Setúbal, como o Desportivo das Aves, devem provavelmente estar a passar os piores momentos das suas histórias.
Silvino: É verdade. Não é fácil o que se está a passar. Mas espero, e acredito, que esses clubes possam entrar outra vez na ribalta do futebol português em pouco tempo, e regressem, em breve, à primeira divisão. O futebol português precisa destas equipas, que têm prestígio. Principalmente, o Vitória de Setúbal, não é? De onde saíram grandes nomes do futebol português… mas vamos ver o que isto vai dar…
Apresentação da Escola de Guarda-Redes do Vitória FC “Silvino Louro”https://t.co/fHdK727LBR pic.twitter.com/gEGTwi2RP9
— Universo Vitoriano (@ApoioVFC) October 4, 2016
Bola na RedeNão deve estar a ser fácil para as gentes de Setúbal, que são tão fiéis ao “seu” Vitória…
Silvino: Para aquelas pessoas isto é um drama. Ainda por cima, houve recentemente eleições, e parece que já há problemas outra vez, que as coisas não estão a correr bem… Mas nesse capítulo penso assim: se as pessoas foram eleitas, há que respeitar e dar tempo. Acredito que as pessoas possam dar a volta à situação e o clube possa recuperar. Como diz aquela música? ‘Despacito, despacito…’ (risos).
Bola na RedeVoltando ao relvado… Regressas ao Benfica depois do empréstimo de um ano ao Desportivo das Aves e logo para substituir o Manuel Bento, que tinha partido a perna no jogo de estreia de Portugal [vitória contra Inglaterra, por 1-0] no Mundial do México, em 1986. Como é que foi substituir na baliza do Benfica um guarda-redes que, já nessa altura, se já não era o melhor, era um dos três melhores guarda-redes da história do clube, juntamente com o Costa Pereira e o José Henrique?
Silvino: Epá, não é fácil… Substituir uma pessoa como o Manuel Bento, que era um grande guarda-redes e uma pessoa muito querida pela massa associativa do Benfica. É preciso ter atenção que quando chego ao Benfica, o normal era a equipa ganhar por 4-1 ou 5-1… e, nesse tempo, as pessoas não falavam dos quatro ou cinco golos que marcávamos, mas do golo que o guarda-redes sofria. Era mesmo assim! Mas, nessa altura, já estava preparado para jogar no Benfica, sobretudo, porque ganhei uma coisa no Desportivo das Aves que não tinha até essa altura: espírito de conquista! Era o professor Neca – que hoje é adjunto do Lito Vidigal no Marítimo –, o treinador e foi ele que me incutiu esse espírito de conquista, de querer ganhar sempre mais. Eu, antes, treinava, fazia o meu trabalho, e se perdesse, olha, perdia. Para mim era igual, não aquecia, nem arrefecia. A partir daí, comecei a ganhar essa vontade de ganhar.
Antes de formar parte del cuerpo técnico de Mourinho ganó títulos desde la meta de Benfica y Porto. Silvino Louro celebra hoy sus 58 años. pic.twitter.com/YwOC1eJvMp
— Falso 9 (@falso9web) March 5, 2017
Bola na RedeE isso é fundamental para um jogador chegar ao topo?
Silvino: Sim, sim, sem dúvida.
Bola na RedeE como foi entrar no balneário do Benfica, cheio de jogadores históricos?
Silvino: Ui, não é nada fácil entrar num balneário cheio de “monstros”. Quando cheguei ao Benfica, os guarda-redes eram o Bento, que estava lesionado, o Neno e o [José Manuel] Delgado…E depois havia jogadores como Humberto Coelho, Shéu, Carlos Manuel, Diamantino, Maniche (o dinamarquês)… não é uma coisa fácil.
Bola na RedeE como é que foste recebido?
Silvino: Eu já os conhecia a todos da seleção nacional. Antigamente, não havia um autocarro para a seleção AA e outro para os sub-21. Normalmente, íamos todos juntos para os treinos no mesmo autocarro para o Estádio Nacional. E, por isso, logo quando comecei a jogar nos sub-21, tive a oportunidade de conhecê-los. Por isso, já falávamos e já tínhamos uma relação muito boa. Com o João Alves, com o Pietra… portanto, quando cheguei ao Benfica bastou-me ser igual a mim próprio, ficar no meu cantinho e fazer o meu trabalho.
Bola na RedeE o teu primeiro treinador de guarda-redes no Benfica é logo um nome bem conhecido de todos: Eusébio da Silva Ferreira.
Silvino: (risos) O Eusébio a treinar guarda-redes era assim: punha as bolas a jeito e “pum, pum, pum”. E nos aquecimentos dos jogos, quando via que já estavam ali umas 50 ou 100 pessoas nas bancadas atrás da baliza, só queria era meter bolas ao ângulo…Ele “pum” e eu olhava. Ele “pum” e olhava para o outro lado… Um dia ele já tinha colocado umas cinco ou seis bolas ao ângulo e então tive de lhe dizer: “Oh, Eusébio! Estás a aquecer-me ou a treinar-te a ti? Vais ter algum jogo de veteranos este fim de semana?” (risos).
Bola na RedeE ele, nessa altura, ainda batia bem?
Silvino: Então, não?! O Eusébio dava-lhe com cada “coice”…
Bola na RedeQuanto ao treino específico de guarda-redes, era tudo muito diferente nessa altura…
Silvino: Pois era, mas foi precisamente por essa altura, com os meus 28 anos, que tive consciência que depois da carreira como jogador queria ser treinador de guarda-redes. Era uma área onde não havia nada. Os treinadores de guarda-redes, nessa altura, eram os treinadores adjuntos que sabiam chutar bem. Um deles, por exemplo, era o Manuel José, porque rematava muito bem. Quando acabava um treino com ele, a defender remates, para um lado e para o outro, estava completamente “morto”… Depois, apanhei o Eusébio. E toda a gente sabe como é que o Eusébio rematava: bolas colocadas e em força. Sabia chutar! Portanto, naquele tempo, os “treinadores de guarda-redes” eram pessoas que sabiam chutar à baliza, e quase sempre avançados. Depois, as coisas foram melhorando e, logicamente, hoje é tudo muito diferente. Não é por acaso que, hoje, os treinadores de guarda-redes são, normalmente, antigos guarda-redes. Embora, diga-se, alguns nem sabem chutar e preferem treinar só usando as mãos.
Bola na RedeFalando precisamente de treinadores… Qual foi o treinador que mais te marcou ao longo da tua carreira como jogador?
Silvino: Cada treinador com que me cruzei trouxe-me coisas boas… Podia destacar, por exemplo, o Carlos Cardoso, que foi o meu primeiro treinador nos seniores. Foi ele que me lançou no Vitória de Setúbal, quando tinha apenas 18 anos. E marcou-me por essa razão… Depois, tive também o Rui Silva no Vitória de Setúbal, o Manuel José no Vitória de Guimarães, o Jimmy Hagan no Benfica… Tive também o Pál Csernai no Benfica… epá, mas esse foi o pior treinador que eu tive…
Bola na RedeO Pál Csernai destacou-se, então, mas foi pela negativa…
Silvino: (risos) Quando digo que foi o pior treinador que tive… é só uma maneira de falar… (risos)
Bola na RedeE mais?
Silvino: O John Mortimore, o [Ebbe] Skovdahl, o Toni…isto tudo no Benfica. Depois, apanhei o Raúl Águas no Vitória de Setúbal – bem, eu estou a dizer quase todos (risos). E ainda encontrei o Bobby Robson no FC Porto, que tinha o José Mourinho como treinador-adjunto e o [Jozef] Mlynarczyk como treinador dos guarda-redes…
Bola na RedeE qual foi a melhor época da tua carreira? Aquela que não esqueces?
Silvino: Foi sem dúvida a época de 1888/1989, pelo Benfica. Com uma equipa técnica que tinha Toni, Jesualdo Ferreira, Eusébio, Jorge Castelo. Fomos campeões e só sofri 15 golos em 38 jogos para o campeonato.
«No Benfica toda a gente queria falar da equipa de futebol. Eu disse nessa altura: “Aqui [no FC Porto], é diferente. Aqui, só fala uma pessoa: o Pinto da Costa e, de vez em quando, o Reinaldo Teles”»
Bola na RedeFoste o guarda-redes do Benfica em duas finais da Taça dos Campeões Europeus, em 1988, frente ao PSV Eindhoven, e em 1990, diante do AC Milan. Foi o título que ficou por conquistar?
Silvino: Como jogador, foi.
Bola na RedeE ainda guardas alguma mágoa? Sobretudo, em relação à final de Estugarda, contra o PSV, em 1988. Ainda custa recordar aquele desempate por grandes-penalidades?
Silvino: Já pensei tantas vezes nisso… E continuo convencido que a final contra o PSV ganharia a equipa que marcasse o primeiro golo – porque eram duas equipas que defendiam muito bem. Não nos podemos esquecer que o Benfica teve um grande contratempo para essa final, para mim decisivo, que foi a lesão do Diamantino quatro dias antes da final. O Diamantino era um jogador que desequilibrava muito, e partiu a perna no jogo anterior à final, contra o Vitória de Guimarães. Quando fomos para dentro do campo, foi diferente. Fomos a pensar: “Olha, vamos acreditar em Deus, vamos lá ver o que vai acontecer!”. Entrámos fechadinhos e tentar aproveitar as oportunidades que pudessem surgir no contra-ataque. E, sinceramente, tivemos algumas oportunidades para marcar, como eles também tiveram… mas não conseguimos.
Bola na RedeE depois, vieram os penáltis…
Silvino: Sim. Curiosamente, no tal jogo contra o Vitória de Guimarães, quatro dias antes, ganhámos por 4-0 e até defendi um penálti – batido pelo Caio Júnior, que era treinador da Chapecoense e faleceu no acidente de avião. E na final, nos penáltis, estava muito confiante.
Bola na RedeO que sente um guarda-redes nesses momentos? Qual era o teu estado de espírito?
Silvino: Era o estado de espírito de uma pessoa tranquila. Depois de as coisas não correrem bem, as pessoas gostam muito de falar. Que “não estava com atenção”, que “estava sem confiança”, que “atirava-me sempre para o mesmo lado”… mas nada disso. Sou uma pessoa muito tranquila e, naquele momento, estava muito tranquilo. Mas o único que eu sabia para que lado costumava marcar os penáltis era o [Wim] Kieft, o avançado. Ele costumava bater para o lado direito e eu atirei-me para esse lado. Ainda toco na bola, mas não consegui desviá-la. Depois, havia o Ronald Koeman, que tanto metia na esquerda como na direita, e em força. Depois, o [Gerald] Vanenburg nunca o tinha visto marcar penáltis, o [Soren] Lerby nunca o tinha visto marcar penáltis, o Ivan Nielsen também não, o outro jogador [Hans Gillhaus] que entrou no prolongamento – que também deve ter entrado só para marcar o penálti – também não… portanto, tudo aquilo que sabia era através de uns videozinhos de resumos de jogos que tinha, mas, mesmo assim, não era possível perceber…
Bola na RedeOutros tempos. Não tem nada a ver com o trabalho que hoje se faz…
Silvino: Não tem nada a ver. Digo-te: hoje, tinha defendido pelo menos um ou dois penáltis. Não tenhas dúvidas.
Bola na RedeO Toni pôs a equipa a treinar os penáltis na véspera da final?
Silvino: Sim, sim, treinámos. E sabes quem foi o único jogador que não falhou nenhum penálti no treino?
Bola na RedeDeixa-me adivinhar: o Veloso?
Silvino: (risos) Claro. Só que ele, nos treinos, nunca fez a paradinha e, na final, fez a paradinha. Mas é a primeira vez que estou a falar disto, sinceramente não gosto de falar deste tema…
Bola na RedeAinda é uma mágoa?
Silvino: Não é mágoa… Mas fico triste. Sabes porquê? Uma pessoa é recordada quando ganha uma competição como esta. Lembramo-nos sempre dos bicampeões europeus. Quem era o guarda-redes? Costa Pereira. Também teve um azar em 1963 (risos), mas pronto, ganhou, foi campeão europeu. Agora, eu nunca fico na memória dos benfiquistas. Ganhei quatro campeonatos, mas a Taça dos Campeões Europeus é diferente. E era uma conquista recente. Passaram agora, no dia 25 de maio, 30 anos.
Bola na RedeE depois desses anos todos como titular do Benfica – com tantos momentos e títulos –, perdeste a titularidade em 1993/1994, quando o Toni era novamente o treinador do Benfica. Ficaste magoado por passar a ser suplente do Neno?
Silvino: Não, não. Encarei as coisas com toda a naturalidade. Uma equipa é formada por 24 ou 25 jogadores. Tem três ou quatro guarda-redes. O Toni decidiu, nesse momento, colocar o Neno a jogar e eu só tive de respeitar. Eu fiz 258 jogos com a camisola do Benfica… fui capitão várias vezes – até na final da Taça dos Campeões de europeus de 1990 era eu o capitão de equipa, por isso, não tinha de ficar magoado com o treinador por ter saído do “onze”. Ainda por para o Neno, por quem tenho um grande respeito, que para mim é como um irmão.
Bola na RedeE em relação ao clube? Como é que se deu a saída do Benfica, depois de oito anos de águia ao peito? Na altura, recordo-me, não ficaste muito contente…
Silvino: O único problema com o Benfica foi, simplesmente, terem-me informado que não contavam comigo quando a equipa estava a entrar de férias, numa fase em que as outras equipas já tinham os seus plantéis preenchidos. Nove anos de ligação, acho que foi um bocadinho…
Bola na RedeQuem é que te comunicou a saída?
Silvino: Fui chamado ao gabinete do Gaspar Ramos, responsável pelo departamento de futebol. Comunicou-me que o Artur Jorge vinha treinar o Benfica…
Bola na RedeE o Silvino não contava para o Artur Jorge.
Silvino: Mais tarde vim a saber que os guarda-redes do Benfica eram para ser: Michel Preud’Homme, Silvino e Brassard. Mas como eu terminava contrato no final dessa época e o Neno ainda tinha mais um ano de contrato… saí eu e ficaram eles. Eu disse: “Ok, tudo bem!” Mas depois o Gaspar Ramos ainda me disse: “Silvino, tu também já tens uma idade…”. Aí respondi: “Idade, eu? É por isso que foram contratar um guarda-redes ainda mais velho que eu (risos)”. Mas atenção: Michel Preud’homme… grande guarda-redes! E fez coisas muito bonitas no Benfica. É uma pessoa com quem até me dou muito bem. Já nos encontrámos várias vezes e temos uma relação muito boa.
Bola na RedeE a seguir, regressas ao Vitória de Setúbal.
Silvino: Sim, apareceu-me o Estrela da Amadora e o Vitória de Setúbal. Pensei: para isso, prefiro ir para o clube da minha terra. Ainda por cima vivia a 200 metros do estádio, estava em casa.
Bola na RedeLamentas não teres vencido a Taça dos Campeões Europeus como jogador porque gostavas de ser recordado de maneira diferente pelos benfiquistas. Mas acho que isso também acontece porque, mais tarde, vais para o rival FC Porto. Ainda hoje, ouvimos muitos benfiquistas zangados contigo por teres tomado essa opção…
Silvino: Depende de como as pessoas queiram pensar. Vamos lá ver, eu era guarda-redes do Benfica. O Benfica não quis renovar o meu contrato. Eu pergunto: vou deixar de trabalhar? Como é que vou dar de comer aos meus filhos? Tenho de trabalhar, não é? Apareceu-me essa hipótese… agora, nunca faltei ao respeito ao Benfica. Nunca! A única vez em que falei de diferenças entre Benfica e FC Porto foi apenas para referir que no Benfica toda a gente queria falar da equipa de futebol. Até o diretor do atletismo e do basquetebol davam entrevistas sobre a equipa e os jogadores de futebol do Benfica. Eu disse nessa altura: “Aqui [no FC Porto], é diferente. Aqui, só fala uma pessoa: o Pinto da Costa e, de vez em quando, o Reinaldo Teles”.
Bola na RedeEssas interferências atrapalhavam a equipa do Benfica?
Silvino: Exatamente. Quantas vezes ouvi os meus colegas a dizerem no balneário: “Mas quem é este indivíduo? Porque é que este tipo do basquetebol ou do andebol está falar de nós?” Sabes o que era? Queriam todos protagonismo!
Bola na RedeE achas que foi essa comparação entre FC Porto e Benfica não “caiu” bem entre os benfiquistas?
Silvino: Pois foi, mas eu só disse isso. Sempre respeitei o Benfica, nunca entrei em confusões, só que às vezes há coisas que nos prejudicam… Olha, por exemplo: um dia, quando já era treinador de guarda-redes do FC Porto, num FC Porto-Benfica que o FC Porto ganhou por 3-1, o treinador do Benfica era o Chalana. Quando o jogo acaba, ele vira-se para mim e começa a ofender-me… Eu conheço o Chalana muito bem. E o Chalana era muito nervoso… Nessas coisas, temos de ser muito tranquilos. Só disse: “Chalana, calma!”. Sabes o que aconteceu? No dia seguinte, aparece num jornal desportivo que eu e o Chalana tivemos uma grande discussão e que quase chegámos a vias de facto. Pelo amor de Deus. E sabes o que aconteceu no jogo da Luz? Dirigi-me logo ao banco do Benfica e fui dar um grande abraço ao Chalana… Viste esse jornal a escrever sobre isso? Nada!
Bola na RedeMas é sempre difícil explicar estas coisas aos adeptos. O futebol, como sabes, é muita paixão e pouca razão…
Silvino: Pois é. Mas olha, num jogo no Estádio da Luz, onde me lesionei no ombro, depois de um choque com o Mauro Airez, levei com duas moedas de 50 escudos, daqueles grandes. Uma delas rasgou-me a cabeça. Achas que disse alguma coisa às pessoas do FC Porto? Não disse nada. Ignorei simplesmente…
«Eu conheço muito bem o Ruben Amorim, que até foi fazer um curso a Manchester quando eu lá estava. E olha que o professor do curso já na altura falava muito bem dele»
Bola na RedeMuito recentemente voltaste a aparecer na qualidade de benfiquista perante os sócios e adeptos do clube para anunciares o teu apoio à recandidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do clube. Luís Filipe Vieira é a melhor solução?
Silvino: Os outros candidatos, não conheço bem. E depois, pelo trabalho que tem sido feito por Luís Filipe Vieira acho que sim, que era a melhor solução para o clube.
PJ faz buscas ao Benfica por corrupção desportiva https://t.co/lcPA23GeNn
— tvi24 (@tvi24pt) November 9, 2020
Bola na RedeFalaste-me há pouco das coisas extra futebol que entram no balneário. Na última semana, voltaram a haver buscas no Estádio da Luz, relacionadas com alegados casos de corrupção… Estas situações podem afetar a equipa?
Silvino: Não acredito muito, sinceramente. E vamos lá ver: eu creio que isto só aparece porque o Benfica teve três resultados menos bons. Se é naquela fase em que o Benfica teve cinco vitórias seguidas… queres apostar que se calhar não apareciam notícias destas… Agora, pensa. É apenas mais uma para desestabilizar… O Benfica não emitiu um comunicado a dizer que estava a colaborar com as buscas?
Bola na RedeSim…
Silvino: E esses jogadores do Santa Clara? Mas eles jogaram no Benfica ou na primeira divisão? Não, não… nem vou falar disso…
Bola na RedeEntão, vamos voltar ao futebol. Tens acompanhado o campeonato português? O Sporting está em primeiro, o que já não acontecia há algum tempo. O Sp. Braga também está agora numa boa fase, depois de um início menos bom. E o Benfica e o FC Porto ainda não me parecem muito bem… Na tua opinião, que equipa tem melhores condições para chegar ao fim do campeonato no primeiro lugar?
Silvino: Ainda acho que o campeonato vai ser disputado por Benfica e FC Porto. É a minha opinião. Mas agora, atenção: o Sporting não está inserido nas competições europeias, só joga de oito em oito dias… E há ainda outro factor. Eu conheço muito bem o Ruben Amorim, que até foi fazer um curso a Manchester quando eu lá estava. E olha que o professor do curso já na altura falava muito bem dele.
Sporting – O segredo de Rúben Amorim está nos pormenores https://t.co/VCReS7JE4p
— Diário Record (@Record_Portugal) November 13, 2020
Bola na RedeEntão, o Sporting é para ter em conta até ao fim?
Silvino: Acho que sim. O problema é que a equipa é ainda muito jovem. E lá mais para a frente pode sentir a pressão.
Bola na RedeE o Sp. Braga?
Silvino: Também é para ter em conta. O Carlos Carvalhal é muito experiente, muito esperto, sabe controlar um grupo muito bem. Os jogadores respeitam-no muito. E tem uma equipa, sobretudo, do meio campo para a frente, de grande qualidade. E aquilo que deu para perceber na vitória contra o Benfica é que é uma equipa com muita personalidade.
«Tenho muitos jogadores que me impressionaram na minha carreira de treinador. Mas há dois que se destacam: o Ibra e o Cristiano»
Bola na RedeVamos agora passar para a tua carreira de treinador. Estiveste em algumas das melhores equipas do mundo, apanhaste grandes craques… Há algum jogador que te tenha impressionado? Que se tenha destacado de todos os outros?
Silvino: Tenho muitos. Mas há dois que se destacam: o Ibra [Zlatan Ibrahimovic] e o Cristiano [Ronaldo]. ‘Madre mia’… o Cristiano a trabalhar… “pimba, pimba”… o homem pegava na bola quando o treino acabava e ficava ali a marcar livres. É um jogador que qualquer treinador quer ter na sua equipa. E depois, o Ibra. Meu Deus, ele às vezes, devido à sua estrutura física, fazia coisas incríveis. E tive a oportunidade de trabalhar com ele no Inter de Milão e no Manchetser United. E depois houve outros grandes jogadores, com uma qualidade técnica e táctica impressionantes. Olha como era aquela equipa do Inter de Milão [em 2009/2010]. Era uma super-equipa: Zanetti, Cambiasso, Walter Samuel, Lúcio, Júlio César, Maicon, Eto’o… “eish”…
Bola na RedeE ainda contaram com um ponta de lança que fez uma época do outro mundo. A época da sua vida…
Silvino: O [Diego] Milito…
Bola na RedeExatamente…
Silvino: Só havia lá um maluco. O Baloteli…(risos) esse era um cromo… um cromo no bom sentido, claro (risos). Agora parece que vai jogar para a quarta divisão… é um maluco.
Bola na RedeMas vamos só falar um bocadinho do Ibrahimovic, que é um jogador que não deixa nenhum adepto indiferente. Apesar de ser um extraordinário jogador, não deve ser fácil lidar com ele…
Silvino: Eu tinha uma relação com ele… dez estrelas. Mas ouve: ele é muito inteligente. E, sobretudo, muito humilde. Tem aquela imagem e as pessoas acham que ele tem um ego muito grande, mas isso não é verdade. Claro que diz aquelas coisas: “Olha lá, tu tens de nascer trinta vezes para teres o dinheiro que eu tenho na conta bancária…” (risos). Mas é um tipo espetacular.
Bola na RedePodemos dizer que o Inter de 2009/2010, treinado por José Mourinho, foi a melhor equipa onde estiveste em toda a tua carreira como treinador?
Silvino: Claramente. Era uma grande equipa e um balneário fabuloso – uma autêntica família. Aqueles jogadores só queriam ganhar e ganhar.
Silvino Louro, Mourinho & Rui Faria pic.twitter.com/KfViP7rscO
— Pasión Madridista (@real_pasion) April 23, 2013
Bola na RedeComeçaste a trabalhar com o José Mourinho quando ele estava no FC Porto. E acompanhaste-o depois no Chelsea, Real Madrid, Inter de Milão e Manchester United. É um percurso de 17 anos, recheados de títulos.
Silvino: Ganhei 28 títulos, em 17 anos. Agora, para o Tottenham já não fui. O Nuno Santos é agora o treinador de guarda-redes. É um rapaz que também é de Setúbal e a quem eu também transmiti muitas coisas
Bola na RedeO José Mourinho transmitiu-te que queria um elemento novo na equipa técnica… Ficaste surpreendido com esta decisão?
Silvino: Não, não. São situações que acontecem, que fazem parte do futebol. O mister tomou esta decisão, pronto. Não se passa rigorosamente nada de diferente… foi apenas uma opção do José Mourinho. E não vou voltar a falar disso porque não vale a pena.
Bola na RedeE amigos como dantes?
Silvino: Sim, falamos quase todos os dias, por mensagem. Ainda ontem nos fartámos de rir de umas mensagens que trocámos. É assim, tranquilo. Coisas do futebol que não alteram relações pessoais. E eu, ainda por cima, tenho uma máxima: “No prato onde comi, não cuspo”. Eu só tenho a agradecer ao Zé…
Rui Faria, José Mourinho & Silvino Louro 🙁 pic.twitter.com/YtT76pSsDw
— Shanta Ronaldo (@ShantaRonaldo) August 18, 2013
Bola na RedeE agora? Há por aí algum treinador com quem gostasses de trabalhar?
Silvino: Se surgir um bom projeto, aceito. Se me perguntares se gostava de integrar a equipa técnica de um Guardiola, Jurgen Klopp, Zidane… quem é que não gostava? Mas não quero destacar ninguém. Não podemos faltar ao respeito às pessoas que, neste momento, estão a trabalhar com essas pessoas.
«O Mourinho não dava “comida” à Marca. E no Real Madrid, todo o treinador que não der “comida” à Marca… está feito!»
Bola na RedeAo longo da tua carreira como treinador trabalhaste com alguns dos melhores guarda-redes do mundo. Se calhar, alguns dos melhores guarda-redes da história do futebol. Já falaste dos jogadores de campo que te impressionaram, mas ainda não disseste qual foi o melhor guarda-redes que treinaste…
Silvino: Normalmente, as pessoas quando falam de guarda-redes dizem sempre se ele é bom dentro ou fora dos postes… Mas, hoje em dia, como já te disse, é preciso algo mais. É preciso jogar com os pés. Mas posso descrever-te os melhores…
Bola na RedeForça!
Silvino: O Vítor Baía, por exemplo, que foi o primeiro, era muito bom a sair aos cruzamentos e era um guarda-redes muito elegante. E dentro dos postes também era bom. Era rápido a sair e bom a fazer “manchas”. Depois encontrei o Petr Cech. Em termos de treino, era espetacular. Adorava treinar. Queria sempre aprender e é um rapaz muito inteligente. Queria saber os detalhes todos.
Bola na RedeNuma entrevista, dada em 2009, o Petr Cech disse: “Com o Silvino aprendi coisas que não julgava serem possíveis fazer na baliza”. O que ele quis dizer com isso?
Silvino: Ele estava a habituado a outro tipo de treinos no Rennes e em Inglaterra. Aliás, antes de chegarmos a Inglaterra, o treino específico dos guarda-redes ainda era só com pontapés à baliza. E nós mudámos isso tudo…
Bola na RedeE foi uma mudança com grande impacto…
Silvino: Quando o Petr Cech chegou ao Chelsea, o [Carlo] Cudicini tinha sido eleito o melhor guarda-redes da Premier League, na época anterior, ao serviço do Chelsea. Mas o Petr Cech fazia coisas incríveis.
Bola na RedeE outros?
Silvino: O Júlio César. As primeiras palavras que lhe disse quando cheguei ao Inter foram: “Ouve lá, tu és conhecido no Brasil, mas na Europa só és conhecido aqui, no Inter… Olha, vou fazer de ti um guarda-redes do caraças, só tens de me ajudar e trabalhar, depois, daqui a uns tempos, falamos”. E sabes o que aconteceu? Quando ganhámos a Champions [na época 2009/2010], ele fez uma réplica do troféu de melhor guarda-redes dessa edição da Liga dos Campeões que recebeu e ofereceu-mo.
Bola na RedeAinda falta o Iker Casillas?
Silvino: O Casillas é um guarda-redes respeitado e credenciado, mas era um guarda-redes que não gostava muito de sair aos cruzamentos.
Bola na RedePorquê?
Silvino: Para não se colocar em risco. Como não era muito alto, só gostava de sair pela certa. E depois levava golos, quer dizer, uma vez, contra o Osasuna, penso eu, sofreu um golo quase na linha de golo.
Bola na RedeA passagem do Silvino pelo Real Madrid ficou marcada por o Iker Casillas – que tinha um grande “peso” no clube – perder a titularidade. Ele partiu a mão, parou, mas depois, quando regressou, é o Diego López que continua a ser o escolhido pela equipa técnica. Essa opção deu muito que falar em Espanha. Foi polémica…
Silvino: Não houve polémica nenhuma. O Casillas partiu a mão e fomos contratar o Diego López ao Sevilha. Foi uma contratação de urgência, naquela altura, com alguém que ainda podia assinar pelo Real Madrid porque jogava no mercado interno. Mas não houve polémica nenhuma. Sabes o que aconteceu? É a imprensa espanhola: a Marca. Esta é que é a realidade. Não houve confusão nenhuma dentro do balneário. A imprensa espanhola é que fez disto um caso…
Bola na RedeMas diz-se que o Silvino e o Casillas nem se falam…
Silvino: É mentira. Isso veio há pouco tempo aí num jornal. Mas sempre falei com o rapaz. E ainda há pouco tempo o José [Mourinho] e o Casillas encontraram-se num evento da FIFA e estiveram a conversar, a tirar fotos… tudo numa boa.
Bola na RedeA relação entre a imprensa espanhola e o José Mourinho sempre foi muito difícil. Mesmo ganhando. Percebeste porquê?
Silvino: Sabes o que se passa aqui? É assim: o Mourinho não dava “comida” à Marca. E no Real Madrid, todo o treinador que não der “comida” à Marca… está feito! Se fosse o Mourinho a estar agora no lugar do Zidane já lhe tinham feito o “funeral”.
Jose Mourinho, Rui Faria, Silvino Louro and Aitor Karanka, training session #HalaMadrid pic.twitter.com/JayZnmb4
— Real Madrid C.F. (@OfficialRMadrid) February 16, 2013
Bola na RedeÀs vezes, não sentes algum preconceito em relação aos portugueses? O próprio Cristiano Ronaldo não era lá muito bem tratado…
Silvino: Sinceramente… Olha, ninguém fala mal do Futre. Agora, do Cristiano Ronaldo. Pergunto eu: Um jogador que chega aqui e ganha as competições que ganha e marca os golos que marca? Merecia um bocadinho de mais respeito, não é? Eles não falam dele. Se um jogador espanhol fizesse em Portugal o que o Figo ou o Cristiano Ronaldo fizeram aqui, era olhado com respeito. Aqui, o Cristiano Ronaldo não é. Deveria ser, mas, pronto, isso são coisas que uma pessoa não percebe como é possível. Ainda há pouco tempo fizeram aí o que seria os 20 ou 25 melhores jogadores da história da Liga espanhola e o Cristiano Ronaldo nem está lá. Eu sei lá se é por ser português ou não… não percebo.
Bola na RedeUns caem no “goto” e outros não…
Silvino: Já viste o que está a acontecer agora com o João Félix? Vê lá se não é bem tratado. É um menino e não fala muito. Agora, o Cristiano Ronaldo… Mas sabes qual é a verdadeira diferença? É que o Cristiano Ronaldo era do Real Madrid e o Futre e o João [Félix] são do Atlético de Madrid. Essa é que é a grande diferença.
Silvino Louro. That’s the lad. Unit. pic.twitter.com/CjCUMRDdr5
— Nick Miller (@NickMiller79) January 27, 2015
Bola na RedeBom, já estamos a ficar sem tempo e temos de fechar a conversa na zona da baliza… Eu sei que não gostas muito de destacar as pessoas, por respeito a todos com quem te cruzaste, mas tenho de insistir que me digas qual foi o melhor guarda-redes com quem te cruzaste? De forma direta.
Silvino: Ok… Foi o Petr Cech. Cruzei-me com grandes guarda-redes, não estou a dizer que os outros eram maus, bem pelo contrário, eram também grandes guarda-redes e deu-me muito prazer trabalhar com todos. Mas aquele que me “encheu as medidas” foi o Petr Cech.















