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Num banco de jardim perto das Antas estivemos à conversa com Domingos Paciência, figura ímpar do FC Porto, SC Braga e do futebol português. Com toda a simpatia e transparência conduziu-nos numa viagem pelo tempo na sua ilustre carreira. Recordamos os primeiros passos no futebol, a carreira de sucesso no FC Porto onde formou uma das melhores duplas de sempre dos dragões com Kostadinov, até aos problemas que afetaram o seu rendimento em Tenerife. Já como treinador, lembramos o sucesso vivido em Braga, os anos menos positivos nas épocas seguintes e a proposta do Atlético Paranaense. Abordamos ainda a “polémica” em torno da chamada de Dyego Sousa à seleção, as comparações entre Gonçalo e Vasco Paciência e o que se segue no seu futuro. Tudo isso e muito mais, aqui no Bola na Rede.

Fonte: Catarina Guimarães/ Bola na Rede
-Dos primeiros passos no futebol à carreira de sucesso no FC Porto-
«O meu primeiro jogo na I Divisão foi nas Antas contra o Elvas, entrei a dez minutos do fim e marquei logo na estreia»
Bola na Rede (BnR): Fale-nos um pouco sobre as suas origens. Nasceu e cresceu em Leça de Palmeira?
Domingos Paciência (DP): Sim, sou natural de Leça de Palmeira, como diz a música “a melhor terra de Portugal” (risos). Nasci em Leça de Palmeira e só depois é que vim para o Porto. Éramos sete irmãos, duas raparigas e cinco rapazes, sendo eu o mais novo.
BnR: Já nos tempos de escola, só via bola à frente?
DP: Sim, desde muito pequeno. Desde que me lembro, com os meus seis, sete anos que comecei a jogar à bola na rua, no bairro e na escola. Foi sempre o meu desporto favorito.
BnR: E os seus pais, acompanhavam e apoiavam essa sua paixão pelo futebol?
DP: Acho que nunca se interessaram muito e com naturalidade. Era uma criança que gostava de jogar futebol na rua. Os meus pais sabiam que eu estava próximo de casa e a preocupação deles era mais de saber se eu estava por ali e se estava bem. Nunca foi uma coisa que os meus pais valorizassem muito, era só uma criança normal, de uma família humilde, que gostava de jogar futebol.
BnR: Chega ao FC Porto em 1982/83 com 13 anos. Como é que era o Domingos dessa altura?
DP: Um miúdo franzino, um miúdo com 13 anos muito magrinho que queria apostar tudo num sonho. Com 13 anos, chegar ao FC Porto, vir à experiência e procurar agarrar a oportunidade que me estavam a dar, essa era a preocupação maior. Felizmente consegui.
BnR: Recorda-se do seu primeiro treino?
DP: Como se fosse hoje. Tanto eu como o Vítor Baía éramos da mesma idade e encontramos o senhor Costa Soares que era o treinador da altura dos iniciados, que nos recebeu e pôs-nos à vontade. Foi aí que tudo começou e depois treinei normalmente. Correu tudo bem, deu-me mais espaço e ao fim de uma semana o parecer foi positivo.

Fonte: FC Porto
BnR: Na altura a formação era muito diferente comparada com atualmente?
DP: Era, eu acho que não havia as condições que há hoje, nem o método de trabalho. E acho que na altura, as pessoas que estavam ligadas ao futebol era por amor, tinham um carinho muito especial pelo futebol e hoje tudo é diferente porque o futebol está de certa forma estudado, tudo é organizado e formatado.
BnR: Dessa forma, acha que é mais complicado agora surgir um jogador que sobressaia no meio dos restantes?
DP: A evolução do futebol retirou a criatividade à criança. Aquilo que se fazia pela naturalidade e pelas condições com que se crescia, o enriquecimento que isso era em termos de criação de personalidade e em termos de evolução das suas capacidades, nisso a rua ajudava muito mais do que ajuda hoje. Agora hoje acho que é tudo diferente. É mais difícil sobressair alguém e quando eles aparecem, fazem a diferença e são as exceções no meio de jogadores formatados.
BnR: Perdeu muito na sua juventude por ter seguido a carreira de futebolista?
DP: Abdiquei de muita coisa. Abdiquei de poder estar com os meus amigos, poder ter fins de semana, situações de divertimentos. Tudo isso acabei por não fazer porque, lá está, o futebol e aquilo em que eu apostei era demasiado exigente e era tudo um foco muito grande da minha parte que me desviava dessas coisas. Eu também não me importava, porque a vontade de ser jogador de futebol era sempre mais forte do que se calhar ir divertir-me.
BnR: Recorda-se do seu primeiro jogo como sénior?
DP: Lembro, o meu primeiro jogo na I Divisão foi nas Antas contra o Elvas, entrei a dez minutos do fim para substituir, salvo erro, o Raudnei e marquei logo na estreia. Antes já tinha feito a estreia na Taça de Portugal, naqueles jogos em que os treinadores dão espaço a que outros possam jogar e eu fui jogar contra o Moura, tinha na altura 19 anos.

Fonte: FC Porto
BnR: Estava nervoso na estreia?
DP: Normal, não muito. Até porque eu pertencia a um grupo que me deu muito espaço e aceitaram-me bem. Acho que se fez com naturalidade e nessa época de estreia ainda consegui fazer 15 jogos, que foi muito bom para mim.
BnR: Vestiu de azul e branco por 16 anos consecutivos, foram sete campeonatos, duas taças de Portugal, seis supertaças e tornou-se o sexto melhor marcador da história dos Dragões. Sei que é impossível resumir tantos anos no FC Porto, mas consegue destacar os momentos que guarda com mais carinho?
DP: Guardo boas recordações, principalmente na minha fase em que comecei a aparecer. Lembro-me quando integrei aquele plantel de campeões europeus. Foi uma geração importante na forma de eu crescer, na transmissão de valores e da tal mística que se fala. Senti que haviam coisas que faziam um grupo forte e era isso que fazia a diferença no FC Porto. Cresci muito com isso, criei uma personalidade também, passei referências e formas de estar daquele balneário que outros me ensinaram a mim.
BnR: Formou uma das melhores duplas de ataque da história do FC Porto com Emil Kostadinov. Foram quatro anos que alinharam juntos, entre 1990 a 1994, e marcaram juntos 148 golos. Qual é que acha que era o segredo do vosso entendimento?
DP: Eu acho que foi o de conseguir conciliar determinadas características de ambos. A questão da velocidade, da mobilidade e da ocupação de espaços corretamente, nós complementávamo-nos. O Kostadinov ainda era mais rápido do que eu, eu tecnicamente era mais evoluído do que o Kostadinov, mas esse complemento é que fazia essa dupla realmente diferente e não haja dúvida que nós, além disso, tínhamos um bom entendimento fora de campo que também ajudava.

Fonte: FC Porto
BnR: Li umas declarações que ele fez em relação a si, em que ele dizia que você adorava chá, que o Domingos estava constantemente a gozar com a roupa dele e teceu rasgados elogios, dizendo que você foi o colega mais esperto com quem já jogou e o tipo mais inteligente que conheceu. Essa boa relação continua nos dias de hoje?
DP: (Risos) A relação era boa. Ainda a última vez que falamos foi no fim de ano, ele estava na Turquia e estava-me a pedir a opinião de uns sítios para ir jantar. Ainda hoje mantemos essa relação, mesmo as próprias famílias conviviam na altura, foram momentos bons.
BnR: Essa inteligência a que o Kostadinov se refere, considera que era uma das suas melhores caraterísticas, ou seja, essa inteligência emocional compensava o que podia faltar no físico?
DP: Acima de tudo, o que ele quer dizer, se calhar, era mesmo isso. Eu tinha que ter outro tipo de argumentos que pudessem fazer a diferença, porque em relação a aspetos físicos eu não era um jogador forte e era essa inteligência e entender do jogo que eu procurava explorar ao máximo.
-Do final de carreira antecipado à primeira experiência como treinador-
«Há 54 anos que a Académica não vencia no Estádio da Luz e fomos lá ganhar 3-0»
BnR: Acaba por ter uma lesão em 1996/97 e acaba por perder algum espaço na equipa titular, na altura também com a chegada do Mário Jardel. Foram essas as razões que motivaram a saída para o Tenerife?
DP: Portanto, quem começou a jogar a titular fui eu e depois chegou uma altura em que vou para a seleção, logo a seguir à primeira jornada do campeonato e lesionei-me, fiz uma rotura do cruzado anterior. Tive três a quatro meses sem poder jogar. Até que o Jardel começou a jogar e a fazer golos, ganhando o espaço dele por mérito e eu depois nesse ano senti que as coisas se tornariam mais difíceis. É evidente que não era querer “fugir” por estar com receio de perder a titularidade para o Jardel, porque nós até chegamos a jogar juntos na frente. Saí porque também surgiu a oportunidade de ir para um campeonato diferente, o campeonato espanhol. A verdade é que não era uma equipa que lutasse para grandes objetivos, mas era uma equipa que apostou na altura, que foi o caso do Tenerife e entusiasmou-me a ideia de poder ter outro tipo de experiência.
BnR: Foram duas épocas em Tenerife em que fez seis golos em 50 jogos, números muito distantes dos que habituou nas Antas. Teve algum problema de adaptação?
DP: Não, tive acima de tudo vários problemas que afetaram o meu rendimento. Quando lá cheguei em junho, fraturei a mandíbula e demorei cerca de um mês e tal para poder recuperar. Depois em setembro, infelizmente, recebo a notícia triste que o meu pai está com um problema de saúde muito grave e que acabaria por falecer em abril. Esse primeiro ano em Tenerife foi muito complicado! Com 27 anos, estar a passar por esses momentos, mexe connosco. No segundo ano, mexeu-se muito no plantel, muita instabilidade e acabei por pedir para vir embora.
BnR: Arrepende-se dessa saída para Espanha?
DP: Não, de maneira nenhuma. Ainda hoje adoro Tenerife e para mim é o melhor local da Europa para viver. Tenho lá amigos e gostei de ter lá passado.
BnR: Regressa ao FC Porto e termina a carreira em 2000, com 32 anos. É justo dizer, que era o único clube onde fazia sentido acabar carreira?
DP: Era, eu não pensei que isso pudesse acontecer. Foi uma tomada de decisão que não foi fácil porque também no último jogo tive uma lesão que se calhar implicaria outra operação e aconteceram outras coisas que de certa forma não me agradaram. Eu também sempre fui uma pessoa de fixar datas, momentos para alcançar e para terminar e os 32 anos era a idade que eu dizia que ia deixar de jogar, não pela falta do prazer, porque eu prazer continuava a ter. Foi mais pelas condições que nós a partir de uma certa idade começamos a ter e tudo é em esforço a partir de uma determinada idade.

Fonte: FC Porto
BnR: Costuma-se dizer que, quando se fecha uma porta, abre-se uma janela. E, mal acaba a sua carreira de jogador surge a oportunidade de assumir um lugar no comando técnico, precisamente no FC Porto na equipa B, primeiro como assistente e depois como treinador principal. Foram anos importantes na sua aprendizagem como treinador?
DP: Sim esses quatro anos foram importantes no sentido de me dar tempo suficiente para decidir o que é que eu pretendia em relação ao meu futuro, se era ligado ao futebol ou não. Esses quatro anos ajudaram-me a enriquecer, a dar tempo para consolidar uma posição de treinador e uma carreira que eu queria seguir. Fui assistente três anos do Ilídio Vale e acabei por ser treinador principal no último ano, depois saí, fiquei um ano parado e rejeitei propostas de clubes de segunda liga. Achei que se tivesse de entrar num clube era numa equipa de primeira liga e tive a felicidade disso ter acontecido. Foram pessoas que me ajudaram e que deram boas indicações minhas.
BnR: Segue-se a primeira experiência no primeiro escalão, o U. Leiria. Como é que surgiu essa oportunidade?
DP: Sei que houve um jornalista que teve influência. O Pedro Azevedo da Rádio Renascença, em conversa com o Bartolomeu (presidente da U.Leiria da altura) disse que havia um treinador jovem e ambicioso que estava no Porto e que, se calhar, era uma boa opção. Depois o Bartolomeu ligou ao Pinto da Costa e o Pinto da Costa deu as referências em relação ao meu trabalho na equipa B e acabei por ser treinador do U.Leiria.
BnR: Estreia-se frente ao FC Porto, no Estádio do Dragão. Jogo mais especial do que esse era difícil.
DP: Por ironia do destino, acabo por fazer o primeiro jogo no Estádio do Dragão como treinador. Acabei por perder 2-1, acho que a equipa teve um comportamento muito bom principalmente na segunda parte. Mas foi um jogo que me marcou, porque quem apadrinhou e batizou a minha estreia foi o FC Porto.

Fonte: FC Porto
BnR: Nessa altura já estava completamente convencido que iria ter uma longa carreira de treinador?
DP: Sim, a partir do momento em que senti que tinha capacidades para poder ser treinador, acabei por investir ainda mais e acho que as coisas acabaram por correr bem. Acho que no Leiria correu bem, apesar de ter saído mais cedo, mais pela questão de sentirem que já estava feita a época, já se estava até a lutar por lugares europeus e o Bartolomeu acabou por optar por dar a oportunidade ao seu genro, ao Paulo Duarte. E no ano seguinte chego à Académica, onde acabo por fazer duas boas épocas.
BnR: Na segunda época na Académica, alcança o 7º lugar, algo que o clube não alcançava desde 1985. Quais é que acha que foram os ingredientes por de trás de uma época tão positiva?
DP: Acho que foi um grupo muito bom que eu encontrei. O Luís Aguiar, o Miguel Pedro, o Éder, o Nuno Piloto, o Pedro Roma, o Orlando, o Vítor Vinha, fizeram parte de um grupo muito engraçado e de bons jogadores. Tivemos momentos muito bons e nunca mais me esquecerei do primeiro ano. Há 54 anos que a Académica não vencia no Estádio da Luz e fomos lá ganhar 3-0. No ano a seguir fomos lá outra vez e ganhamos 1-0 com um golo do Tiero. Foram momentos bons em que vivemos coisas únicas.

Fonte: Catarina Guimarães/ Bola na Rede
-Da consagração no SC Braga à saída para o Sporting CP-
«Se no Braga tivesse o Hulk ou o Falcão na minha equipa, eu ganhava a final e não era preciso ser muito bom treinador»
BnR: Em 2009/2010, sucede a Jorge Jesus no SC Braga. Apesar de não ter começado da melhor maneira ao ser eliminado precocemente das competições europeias pelo Elfsborg, consegue o impressionante registo de sete vitórias nas sete primeiras jornadas da Liga, incluindo triunfos sobre o Sporting em Alvalade e sobre o FC Porto no Minho. Como explica um arranque tão positivo no campeonato?
DP: Houve momentos que aconteceram em que eu ganhei o grupo e sentiu-se que nós podíamos fazer uma época extraordinária. Tínhamos um bom plantel, bons jogadores, um bom grupo, muitos deles brasileiros, que já estavam cá há muitos anos, mas que já tinham passado por clubes grandes e isso tudo isso ajudou muito. Acabou por ser uma época extraordinária, não haja dúvida, as pessoas pouco esperavam que isso pudesse acontecer. Num ano a lutar para ser campeão até à última jornada e depois no ano seguinte chegar à final da Liga Europa, algo que as pessoas não acreditavam que fosse possível fazer melhor do que na época anterior. Fiquei com algum receio de continuar no SC Braga porque poderia correr o risco de não fazer igual ou melhor do que tinha feito. No primeiro ano conseguimos pôr a equipa a lutar pelo título nacional e no segundo conseguimos pôr a equipa a lutar por um título internacional, era impensável que pudesse acontecer.
BnR: Quais eram as pedras basilares do balneário desse SC Braga?
DP: Tinha verdadeiros campeões. O Moisés era um campeão, o Eduardo era um campeão, o Vandinho era um campeão, o próprio Alan também. Depois tinha jogadores que faziam diferença. O Luís Aguiar, o Mossoró, o Paulo César, o João Pereira, o Sílvio, tive vários jogadores que realmente eram bons jogadores e que complementavam bem o balneário.
BnR: Nas eliminatórias da Champions, vence o Celtic e Sevilha. Já na Champions consegue uma vitória caseira histórica frente ao Arsenal. Quando tinha começado a sua carreira como técnico principal, sonhava algum dia que uma equipa orientada por si jogasse na Champions, principalmente uma equipa da dimensão do SC Braga?
DP: Não, porque não era esse o grande objetivo. Só para dizer que não tinha no meu contrato essa possibilidade, porque até para o presidente era impensável. Foi o caminho, o contexto, tudo isso.

Fonte: SC Braga
BnR: Acaba em terceiro lugar na Champions e já na Liga Europa volta a fazer história, eliminando Lech Poznan, Liverpool, Dynamo Kyiv e Benfica, até à final de Dublin. Como era por esta altura o estado anímico dos adeptos bracarenses, dos seus jogadores e do Domingos?
DP: A partir de um determinado momento em que nós ganhamos a um Arsenal em casa por 2-0 e que fizemos o que fizemos contra o Liverpool, a equipa começa a acreditar que é possível. Nós estamos a competir com os melhores e a equipa acreditou muito. É evidente que houve muita estratégia de motivação, houve situações que foram criadas sempre no sentido de motivar, mas mais do que isso, foi a vontade de querer e o compromisso.
BnR: Na final da Liga Europa, encontra nada mais nada menos do que…o FC Porto. Final mais especial do que essa era difícil. Como foi esse jogo em Dublin?
DP: Se me perguntassem se algum dia gostaria que isso acontecesse na minha carreira, eu diria que sim. Mas se pudesse retirar alguma coisa, eu retiraria. O FC Porto não era o adversário certo para encontrar numa final de uma competição europeia. Pelo conhecimento que existia, pela equipa e pelos jogadores que o Porto tinha na altura. Com todo o respeito que tenho pelos jogadores que tinha no Braga, eu se no Braga tivesse o Hulk ou o Falcão na minha equipa, eu ganhava a final e não era preciso ser muito bom treinador.

Fonte: FC Porto
BnR: Após o 2º lugar no campeonato, presença inédita na Champions e final da Liga Europa pelo SC Braga, segue-se o Sporting CP. Porquê o Sporting?
DP: O Sporting CP apresenta-me um projeto todo ele de mudança radical e eu acreditei que seria a pessoa certa para mudar aquele clube. Fui com as pessoas certas, na altura com o Carlos Freitas que sabia como eu trabalhava, fizemos uma boa equipa num ano em que entraram 15 ou 16 jogadores. As coisas estavam a correr bem e o projeto que era para ser no fim de dois anos lutar para ser campeão, passou a ser de dois meses. Começaram a tirar jogadores que nós tínhamos ido buscar e depois mais tarde quiseram recuperar muitos desses jogadores. Estou-me a lembrar do Van Wolfswinkel, do Insua, do Elias, jogadores que tinham passado pelo Sporting e depois quiseram recuperá-los por serem bons jogadores, mas entretanto, já os tinham deixado sair.
BnR: Continuou a achar o projeto aliciante depois da entrada de 15 a 16 novos jogadores? Para um treinador não deve ter sido nada fácil unir um balneário construído do zero. Como foi esse processo?
DP: Era isso mesmo, vários jogadores e de várias nacionalidades. Não foi complicado unir o balneário, porque foram criadas estratégias de grupo bem pensadas para conseguir um grupo forte e unido e isso conseguiu-se. Juntar americanos, com argentinos, com brasileiros, com holandeses, peruanos, acho que foi uma experiência única. Para mim, no Sporting, foi o ano mais enriquecedor que tive como treinador. Acabamos por ter palestras, eu a falar em português, em espanhol, apresentações em power point em inglês, portanto todo esse trabalho foi feito.
BnR: Sentiu impaciência por parte do clube?
DP: Muita, muita. Nesse aspeto, foi o maior erro que contra mim cometeram. Foi falta de liderança e pressão. Eu tive oportunidade de falar com o presidente da altura e encontrei-o, ele mostrou o seu arrependimento, mas foi a decisão que tomou. Estou-me a lembrar que houve dois presidentes que senti que no dia em que me estavam a despedir não era por vontade própria. Foi o Godinho Lopes e o do APOEL. Senti que não o estavam a fazer de livre vontade.
BnR: Acha que foi o maior erro da sua carreira aceitar a proposta do Sporting?
DP: Não, se tenho ganho a Liga Europa teria outro tipo de clubes interessados, porque o treinador português para sair para o estrangeiro, para um clube com algum nível, terá de ganhar uma competição europeia, chegar à final não chega para entrar noutros patamares.

Fonte: Sporting CP
BnR: Mas quando o André Villas Boas ganha a Liga Europa com o FC Porto e dá o passo para o Chelsea, não sente que o feito de você levar o SC Braga a essa final é equiparável ou até ainda melhor?
DP: Ser treinador do Porto e ganhar é competência, ser treinador do Braga e ficar em segundo lugar é um milagre. É essa a leitura que as pessoas fazem sempre.
BnR: Então o passo maior que um treinador pode dar numa equipa como o SC Braga ou inferior, é chegar a um grande português?
DP: Sim, esse é o passo. É chegar a um grande português e daí tentar fazer um bom trabalho. Vou dar um exemplo. Um treinador vai para o Benfica, é campeão dois anos e as propostas que tem é de ir treinar para a Arábia Saudita? Dessas também eu tive e não tive num clube como o Benfica e como o Porto. São aspetos financeiros que pesam, mas não são propostas equilibradas para o estatuto e história do clube. Porque é que isso não apareceu ao Jorge Jesus e ao Rui Vitória? É essa a leitura que eu faço e o passado assim o confirma.
BnR: Aconteceu o mesmo com o Paulo Fonseca.
DP: Sim, o Paulo Fonseca teve que dar um passo atrás, teve que voltar ao mesmo patamar para o Paços, ir para Braga e depois ir para fora. Não haja dúvida que o Shakhtar é um bom clube que participa na Liga dos Campeões, mas não estamos a falar dos grandes clubes da Europa.
BnR: Tal como aconteceu o regresso do Paulo Fonseca ao Paços Ferreira, nunca pensou regressar ao Braga?
DP: Eu recebi proposta do Braga quando estava na Turquia. Não voltei porque merecia, pelo menos, que me tratassem de uma forma mais aproximada da que eu tive quando saí. Eu saí com condições boas, para a dimensão do Braga, e quiseram-me recuperar por condições muito abaixo das que eu tinha na Turquia. Estamos a falar de condições dez vezes melhores em termos financeiros. Por muito que gostasse do Braga e quisesse voltar, aquele não era o momento certo.
-Das cinco temporadas difíceis que se seguiram às propostas em cima da mesa-
«Eu não concebo que um analfabeto consiga ser treinador de futebol»
BnR: Nos cinco anos seguintes, cinco clubes diferentes (Deportivo, Kayseripor, V.Setúbal, APOEL, Belenenses). Foram anos difíceis na sua carreira de treinador?
DP: Foram, porque no fundo foi voltar a um patamar onde já tinha estado. Essas decisões foram tomadas de acordo com o momento que eu e a minha família atravessávamos. Houve momentos que eu tinha de estar aqui em Portugal. Só para contar que, no momento em que eu estava a assinar pelo Setúbal, tinha uma proposta do Atlético Paranaense em cima da mesa mais vantajosa e recusei porque tinha de estar perto dos meus filhos. Eles precisavam de mim na altura e estar a ir para o outro lado do oceano não fazia sentido. Apareceu o Deportivo no fim do Sporting porque eu queria entrar no campeonato espanhol, não sabia era que as condições em que o Deportivo se encontrava eram tão complicadas.
BnR: Na altura estavam no último lugar.
DP: Estavam, entrei num momento em que a equipa estava lá em baixo. As coisas estavam a complicar-se muito e o Deportivo era um clube que não merecia aquilo que estava a viver. Os adeptos começaram a tomar partidos, a dizer para extraditar os portugueses e tínhamos lá vários, para além da equipa técnica. Eu senti que corríamos riscos, ao ponto dos meus adjuntos terem problemas na saída dos carros, como se nós fossemos os culpados daquilo que estava a viver o clube.

Fonte: FIFA
BnR: E o que correu mal no campeonato turco?
DP: Eu fui substituir o Prosinecki e mais tarde vim a saber por outros jogadores que lá estavam, tinha lá o Sereno na altura, que me vieram contar que o Prosinecki já estava com vários problemas. Ele chegou ao ponto de ficar em casa e não querer sair para ir dar treino e tiveram de o ir buscar, porque ele já não queria, já não aguentava mais aquilo. Eu não sabia que este tipo de situações estavam a acontecer.
BnR: Que tipo de situações?
DP: Aquilo entrou numa fase que dava a sensação que o clube não era gerido pelo treinador, o treinador só tinha de fazer o que determinada pessoa queria. E o que aconteceu com o Prosinecki aconteceu comigo. Eu felizmente ainda tenho capacidade para decidir se quero ser treinador ou um fantoche. Não quero ser fantoche, nem pau-mandado. Quando sou contratado, está no contrato bem explícito para o que é que eu vou e essas funções eu exerço-as, não admito que outras pessoas o façam por mim.

Fonte: Belenenses
BnR: Quais são as principais diferenças do Domingos de 2010/11 para o de agora?
DP: As únicas diferenças são a maturidade, o conhecimento, as experiências vividas, o enriquecimento que tive, porque no fundo, durante todos estes anos e em todas as equipas que treinei, tive oportunidade de trabalhar os vários sistemas e as várias dinâmicas. Hoje nada me surpreende para qualquer clube que eu possa ir, porque sei o que já fiz e o que dá resultado. Se eu for hoje ver um treino, os métodos são muito idênticos, tudo é copiado, tudo é parecido, não se pode dizer que hoje no futebol se esconda segredos. Ainda há treinadores que são capazes de dizer que têm uma forma de trabalhar diferente, essas pessoas são vendedoras de produtos. O Mourinho que é o Mourinho, já o disse publicamente “hoje quem quiser treinar, vai à Internet”. Ainda há treinadores que pensam que são uns iluminados. Eu não concebo que um analfabeto consiga ser treinador de futebol.
BnR: Esta série de experiências menos positivas afetaram-lhe de alguma forma a maneira como encara o futebol ou acha que tudo não passa de um ciclo menos positivo e no futuro poderá a vir a ter um desempenho comparável ao que teve com o SC Braga há cerca de dez anos?
DP: Se eu sentir que é a oportunidade de voltar, hei de voltar. Agora, tenho consciência que sou mais seletivo, na medida em que há projetos que já apareceram e não aceitei por saber que vou estar em condições de desvantagem, que vou voltar a patamares onde já estive e isso leva-me a recusar alguns projetos. Nesta altura, na eventualidade de surgir um projeto para fora do país, é mais fácil, porque é um país diferente, uma cultura diferente, uma motivação diferente, experiências diferentes.
BnR: Preferia treinar fora de Portugal nesta altura?
DP: Sim, se surgisse um projeto que me entusiasmasse, preferia treinar fora de Portugal. É evidente que em Portugal, tem-se sempre a vantagem de treinar no nosso campeonato, com as nossas pessoas, com a família e saber como funciona toda esta máquina que é futebol português. Mas teria de ser sempre um projeto que as pessoas acreditem, que sintam que possa ser um projeto de sucesso.

Fonte: Catarina Guimarães/ Bola na Rede
BnR: Agora que é mais seletivo, que campeonato o atrai neste momento?
DP: Toda a gente sabe que neste momento há determinados campeonatos que é a ambição e sonho de muitos treinadores. É entrar em Espanha, no futebol em Itália, Inglaterra, Alemanha e França. São campeonatos europeus fortes, com qualidade e visibilidade, qualquer treinador gostaria de estar nesses campeonatos. Depois, se há treinadores com um currículo mais ou menos que não conseguem entrar nestes campeonatos, pensam que se surgir um contrato fabuloso para a China ou para a Arábia Saudita vão para lá. E ainda há outro patamar, que é a Bulgária, a Roménia, a Polónia, o Chipre, são os outros países que andam à volta. Isto no fundo é o ranking que existe, o treinador gostava de entrar lá em cima, se não consegue ou vai pela parte financeira ou pelo trabalho.
-Das comparações ao SC Braga de Abel, aos filhos e desafios futuros-
«Ainda não me bateu à porta aquela oportunidade que eu achasse que era a ideal»
BnR: Compara-se muito o Braga de Abel com o Braga do Domingos. Acha que são justas essas comparações?
DP: Em termos de resultados não haja dúvidas que sim. O Braga de hoje está muito mais próximo do título do que estava há uns anos atrás. O Braga hoje luta contra o Benfica, Porto e Sporting. Já não é aceitável que o Braga perca com as outras equipas. Este Braga tem bons jogadores, tem jovens com uma margem de crescimento muito grande. Contrariamente, no meu Braga tinha jogadores no auge da sua carreira. A diferença é essa. Eram jogadores com mais maturidade na abordagem ao jogo e depois sentia-se isso nos jogos. O meu Braga era maduro, era experiente, sabia o que queria e fazia isso às equipas grandes.
BnR: Então acha que o SC Braga de agora é mais um projeto de continuidade?
DP: O Braga nesta altura, tinha oportunidade para ser um Braga diferente, bastava criar uma onda de euforia. Depende muito dele.

Fonte: SC Braga
BnR: Acha que o Braga será cronicamente o “o quarto grande”?
DP: O Braga se continuar assim é para lutar com o Sporting pelo título do terceiro lugar. Vamos ver essa aproximação que o Braga pode fazer e apostar nos próximos anos.
BnR: Agora em relação à seleção nacional e à chamada do Dyego Sousa. Saíram umas declarações suas que diziam que “se fosse selecionável ficaria triste”. Acha que, por exemplo, o Paulinho, companheiro de equipa no Braga ou até o Gonçalo Paciência ficaram afetados com essa convocatória?
DP: Eu acredito que o Paulinho do Braga tenha ficado contente por o Dyego ter ido à seleção porque é colega de equipa e amigo, mas perguntem ao Paulinho em termos do que é o sonho dele, se ele não ambiciona ir para a seleção. Eu conheço o Dyego há já muitos anos, na altura ele estava no Nacional da Madeira e já na altura vi no Dyego coisas de um excelente jogador e que gostaria de ter na minha equipa. Tem provado o seu valor e é fruto do trabalho dele. A única coisa é que nós vemos que se apostou muito na formação em Portugal. As seleções de formação estão constantemente nas finais do campeonato da Europa, do Mundo, dos Jogo Olímpicos. Tudo isto, envolve um processo de jogadores que têm um percurso na seleção. Eu se fosse um desses miúdos pensava “vou marcar golos, vou jogar e há ali mais uma vaga que está tapada”. É mais nesse sentido, porque eu não tenho nada contra o Dyego. Eu tenho muito orgulho em ser português, de ser Leça de Palmeira, de ser do Porto, de ser do meu país. Se me dissessem “queres naturalizar-te pelo Chipre”, eu dizia não, porque o meu sonho é jogar pela seleção portuguesa. Eu sei que o Gonçalo, partilhou há uns dias a ideia de que acha muito bem essa convocatória. Mas pronto, é uma forma de estar diferente, eu tenho a minha forma de pensar diferente. Outro exemplo, o Éder é um caso muito especial no futebol português porque deu o maior título da história do futebol português e nem selecionado é.
BnR: Já que falamos do Gonçalo, aproveito para perguntar quais é que acha que são as principais diferenças entre ele e o seu filho mais novo, o Vasco, dentro de campo?
DP: O Vasco, pela fisionomia, pela forma de ser, pela forma como joga é mais parecido comigo. Mas agora também sinto que o Vasco está a ficar mais parecido com o Gonçalo (risos). Mas são dois jogadores diferentes. Acho que o Gonçalo está preparado para um jogo físico se tiver que ser físico e competitivo. É evidente que há aspetos que estão nos genes, que saem a mim. Por exemplo, eu nunca fui um jogador muito agressivo em termos de trabalho defensivo e eles nisso também não o são, não são agressivos. Eles privilegiam a qualidade e a técnica, mas tanto um como o outro têm qualidade e vamos ver o que o futuro o dirá, principalmente o Vasco que ainda está numa fase de potenciar o seu talento.
BnR: Vou recuperar umas declarações do Gonçalo: “Para mim e para o meu pai, foi uma sensação estranha ao início, porque ambos tínhamos jogado no FC Porto muitos anos e o Benfica é um grande rival”. Estranhou a ida do Vasco para o Benfica?
DP: Estranhar, estranhei, mas isso foi sempre comentado e mereceu o aval da família toda. Há uma coisa, o Vasco não traiu ninguém. Ele apenas investiu naquilo que é o seu sonho e se houve traição aqui a alguém foi ao Boavista, porque o Vasco sai do Boavista para o Benfica, não foi do Porto para o Benfica. O Vasco foi para o Boavista por não ter espaço onde jogar e ao fim de quatro meses o Vasco prova que quer procurar algo na carreira dele e fez no Boavista golos. O Jorge Simão ajudou e muito. Em julho poderíamos dizer que o Vasco estaria desesperado e muito triste por aquilo que estava a acontecer na vida dele e em dezembro ele sente-se valorizado e que a vida dele pode mudar.

Fonte: SL Benfica
BnR: Costuma ver os jogos de perto e dar conselhos?
DP: Os jogos vejo, de vez em quando falamos e comentamos determinadas situações em jogo. Damos o parecer em harmonia, sabem perfeitamente que não há maldade, obviamente que não é para criticar é mais para corrigir. Eles pensam o jogo da mesma forma do que eu. Às vezes eu vejo-os e reparo “ele pensou isto que era aquilo que eu pensaria”.
BnR: Neste momento, não treina por opção?
DP: Sim é por opção. Felizmente tenho recebido propostas ao longo deste ano que estou parado. Ainda não me bateu à porta aquela oportunidade que eu achasse que era a ideal.
BnR: Fez 50 anos em janeiro, meio século de vida. Certamente que é um período de maior reflexão. Como é que olha para o seu percurso e que balanço faz da sua carreira tanto como jogador como treinador?
DP: Orgulhoso sempre por aquilo que eu fiz. Sinto que eu poderia ter sido melhor. Se hoje aparecesse um jogador como eu ou como o João Vieira Pinto acho que valeríamos muitos milhões. Poderia ter sido melhor jogador? Sim. Houve momentos de decisão da minha carreira que talvez não tenham sido os melhores, momentos de lesões que foram obstáculos. E também na carreira como treinador se calhar não tomei as melhores decisões, mas também valeu pela experiência, valeu pelos momentos que se viveram e por isso não me arrependo de nada. Acho que o que hoje faz de mim uma pessoa diferente, foi o percurso que fiz como jogador e treinador. Não me arrependo de nada, nem sei o que vai ser o dia de amanhã, pelo menos sei que vivi emoções, coisas diferentes, momentos muito bons, momentos menos bons, mas a vida é mesmo isto.

Fonte: Catarina Guimarães/ Bola na Rede
BnR: Para terminar, o que é que acha que ainda está por vir?
DP: Era mais 50 anos (risos). Mas não sei, não sei o que está por vir porque não sei o que me vai aparecer no caminho em termos de projeto, em termos daquilo que possa ser a minha decisão. Hoje nós tomamos decisões muito em função daquilo que é a nossa qualidade de vida e a sua nossa qualidade de vida depende muito da questão familiar, acho que essas decisões têm de ser tomadas em função disso. E eu neste momento tomo-as, tenho em consideração o aspeto familiar e logo veremos o que o tempo me trará.
Foto de Capa: Catarina Guimarães/ Bola na Rede












