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Nuno Bico foi contratado pela equipa nº1 do ranking mundial. Começou 2017 com um contrato na equipa espanhola Movistar, onde vai correr ao lado do colombiano Nairo Quintana e do espanhol Alejandro Valverde. Viseense e com apenas 22 anos sempre mostrou a sua dedicação e certezas em relação ao seu futuro no mundo do ciclismo. Começou desde cedo, passou pela Radio Popular Boavista e a época passada esteve numa equipa da República Checa, a Klein Constantia.
Bola na RedeAno novo, vida nova… havia melhor forma de começar o ano?
Nuno Bico: A vida não vai ser nova, a equipa é que é diferente.
BnR: Mas vais ter rotinas diferentes…
NB: O trabalho dos outros anos mantém-se, e a dedicação é igual, apenas corridas de um nível maior e mais responsabilidades. A atitude vai ser sempre a mesma embora com um pouco mais de dedicação e motivação agora mas não vai mudar assim tanto.
BnR: Como é que se deu este processo de negociação? Tinhas outras equipas interessadas?
NB: Sim, tinha. O ciclismo está dividido por três escalões e a Movistar é o primeiro escalão. Eu sabia do interesse deles, tinha propostas dos outros escalões também, mas felizmente a Movistar não perdeu interesse e assinámos contrato.
BnR: É uma equipa para onde sempre quiseste ir…
NB: Sim, acho que qualquer ciclista quer ir para lá. O problema é eles quererem outro ciclista.
BnR: E o que é que eles viram em ti?
NB: Acho que foi uma época boa para mim, muito trabalho de equipa ao longo do ano. Acima de tudo dedicação. Eles já conheciam bem as pessoas com quem eu trabalho. Há certas coisas que não transparecem para o público, mas quando as outras equipas já conhecem o teu treinador, os teus diretores desportivos, ficam a conhecer a tua atitude em corrida e fora dela, e isso conta muito.
BnR: 24h depois da confirmação pública foste a Madrid direto de Viseu. Uma viagem que estavas ansioso de fazer …
NB: Sim, tive de ir a Madrid por causa das fotografias para o site deles, para poder estar atualizado no dia 1 de Janeiro e para receber as bicicletas e o equipamento do novo ano.
BnR: E que tal as bicicletas?
NB: São umas máquinas…
BnR: Sentias que uma oportunidade destas, uma oportunidade para o WorldTour ia aparecer aos 22 anos?
NB: Acho que sim. Depois deste primeiro ano fora de Portugal não tinha dúvida que queria continuar e além disso dei provas suficientes de que o merecia. Para além disso a idade é só um número.
BnR: Movistar, uma das melhores equipas do mundo. Achas que vais sentir essa pressão ou o nome da tua equipa não te influencia enquanto corres?
NB: É a equipa n.º 1 do ranking, claro que vou sentir essa pressão. Já não estamos a falar de um escalão de juniores, em que o importante é o crescimento e o desenvolvimento. Aqui é um escalão de elites onde estão em jogo milhões de euros e pesa a responsabilidade. A equipa quer ganhar e o bom trabalha ditará o resultado final.

Fonte: Movistar Team
BnR: Esperas muitas mudanças em termos de rotina e trabalho?
NB: O ano passado já era profissional e a rotina será a mesma, mas como o nível das corridas vai subir já vou tendo treinos tanto mais longos como mais intensos e é aí que está a maior diferença em relação ao ano passado.
BnR: Estás ansioso por alguma prova em específico?
NB: As provas também têm escalões e o escalão WT (WorldTour) dentro das corridas é o mais elevado e gostava de poder fazer alguma ou algumas, no meu primeiro ano. A equipa participa em WT, HC (Hors Catégorie) e depois .1, que é a categoria a seguir. E claro que há várias WT ao longo da temporada, mas são trinta ciclistas e muitos deles serão muito experientes. São essas corridas que dão pontos, visibilidade…
BnR: A tua antiga equipa, a Klein Constantia acabou. O que é que mais te marcou nesta equipa checa?
NB: Sobretudo a relação que tínhamos uns com os outros. Havia uma variedade de nacionalidades enorme e passámos muito tempo todos juntos. Antes da temporada começar tivemos três estágios, normalmente duas semanas cada um, e deu para estarmos todos muito uns com os outros e conviver e isso fez com que se criasse um laço muito forte, ainda hoje. Isso traduziu-se depois nas corridas, na nossa dominância durante esse ano. Estávamos todos dispostos a sacrificarmo-nos uns pelos outros e isso foi muito bom. Os estágios foram muito bons para treinar e também para esses criar laços.
BnR: E tens pena que a equipa tenha acabado?
NB: Tenho pena não porque quisesse continuar, porque já esperava subir de escalão, mas tenho pena pela geração de ciclistas que aí vem não ter a hipótese de estar dentro de um projeto tão bem organizado e estruturado como foi a Klein.

Fonte: Klein Constantia
BnR: Desde cedo que começaste a fazer alguns sacrifícios em prol do ciclismo. Como é que vês agora essa fase da tua vida onde eras mais novo, mas já tão decidido quanto à tua carreira?
NB: Acho que estou muito mais descontraído. Temos de errar para começar a aprender. Na altura era demasiado focado, sem ter a necessidade porque era júnior e o que importava era principalmente disfrutar a bicicleta do que propriamente os resultados. Mas eu sempre encarei qualquer escalão com profissionalismo. Trabalhava arduamente e naquela idade era um choque muito maior porque estávamos na idade das saídas e normalmente eu dedicava esse tempo aos treinos.
BnR: Mas estás arrependido ou achas que foi melhor até porque já estavas de alguma maneira num ritmo elevado?
NB: Agora vejo que que tudo valeu a pena, claro. Se o caminho veio dar aqui é porque é o caminho certo, mas se calhar tinha tomado as coisas com mais tranquilidade.
BnR: Há uns tempos tinhas nas tuas redes sociais: “work so hard that one day your signature will be an autograph”, agora que já alcançaste isso qual é o teu próximo objetivo?
NB: Bem, agora já estou no escalão máximo mas ainda estou no fundo da hierarquia. Tenho de continuar a trabalhar e a evoluir para subir nesta hierarquia e um dia poder ser uma das pessoas mais importantes da equipa.
BnR: Disseste em entrevista à Movistar que preferes uma vitória de grupo. Triunfo coletivo, é o que te dá mais prazer no ciclismo?
NB: Quem está fora do ciclismo às vezes não consegue entender isto muito bem. Depende da corrida que for, mas vamos supor que há nove ciclistas, e há dois ou três que são muito bons e que podem ganhar mas que por vezes não se ajudam e acabam por fazer 2º, 3.º e 4.º; se calhar, se um deles abdicasse de fazer top 10, a equipa conseguia fazer o 1º lugar. Era o que se passava na Klein. Conseguíamos trabalhar de uma maneira onde a vitória era a prioridade porque é o que realmente consegue motivar toda a gente, desde os diretores aos massagistas. Toda a gente fica com o sentimento de que trabalhou bem. Isso é muito importante para uma boa relação dentro de uma equipa, o que resulta em mais vitórias e transforma-se num ciclo.
BnR: E preferes traçar objetivos a curto ou a longo prazo?
NB: Acho que tens que ter um objetivo a longo prazo, mas também tens de ter etapas pelo caminho para teres foco, senão vais estar sempre muito disperso e a adiar o teu trabalho e isso não pode acontecer. Tens de pensar nos dois futuros, no mais distante e no mais próximo para estares mais motivado.
BnR: Qual vai ser o teu maior objetivo na Movistar?
NB: Nestes dois primeiros anos é aprender, disfrutar e fazer novos amigos e acima de tudo ser bom profissional e desempenhar o meu papel na equipa.
BnR: O que é para ti um bom profissional?
NB: Treinar o que o treinador diga, comer o que o nutricionista diga, cumprir as ordens de um diretor na corrida, ajudar os colegas, disciplina…

BnR: És dos mais novos dos 28. Vais juntar-te a Quintana e a Alejandro Valverde. O que é que esperas em ter estes dois nomes de peso na tua equipa?
NB: Acima de tudo espero poder aprender com eles. São duas pessoas que estão no topo da modalidade e se eu algum dia quiser ter o sucesso que eles têm tenho de seguir as passadas deles. Se eles conseguem estar e desempenhar tão bem o seu papel é porque sabem como lá chegar. E eu quero chegar lá.
BnR: Nelson Oliveira, o teu novo compatriota. Teres um português ao teu lado é importante para ti?
NB: Para além de ser português é um amigo. Conheço-o de europeus e mundiais ao serviço da seleção e damo-nos bastante bem. E acho que vai ser importante ter um amigo dentro da equipa porque é sempre uma boa ajuda.
BnR: O Tour, a Vuelta, o Giro … o que é que estas provas representam para ti?
NB: São importantes, mas, com o passar do tempo, começo a ter consciência que também há muitos corridas importantes. Há muitas clássicas que espero poder fazer como a Liège, um tour de Flandes, um Paris-Nice, que é uma corrida de uma semana muito importante também. Mas um dos meus grandes objetivos continua a ser fazer parte da seleção por uma dessas corridas de três semanas.
BnR: A tua contratação não foi muito explorada pela comunicação social portuguesa. Achas que os portugueses só se interessam pelas modalidades quando há medalhas olímpicas envolvidas?
NB: Os portugueses só se interessam por futebol. Mesmo nas modalidades uma medalha olímpica é uma chama curta. Na altura tem a importância que tem porque é uma medalha olímpica e é o expoente máximo da carreira desse desportista mas para a população o único desporto que tem aquela constante atração o ano todo é o futebol.
BnR: Mas tens pena que isso aconteça?
NB: Claro. Pela importância que as pessoas dão ao futebol é o desporto rei e a comunicação social consegue retirar daí as vendas e as audiências. É um ciclo.
BnR: Qual é a tua próxima e primeira corrida com a camisola da Movistar?
NB: Em princípio vou começar na Volta ao Algarve e na Volta ao Alentejo agora em Fevereiro.
Foto de capa: Helena Dias














