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600 mil euros de prémio de assinatura e 60 mil de salário. Eram estes os valores que Matheus tinha acordado com o Sporting CP na época 2010/2011, mas o despedimento de Costinha colocou um travão no «salto» para Alvalade. Durante quase duas horas, o extremo brasileiro «viajou» pelas histórias da carreira, desde a passagem do futsal para o futebol, as dificuldades em Marco de Canaveses, o campeonato «tirado» ao SC Braga, a depressão na Ucrânia, a lesão na final da Liga Europa com o Sevilha e a aventura pela China, que já dura há quatro anos.
– O futebol na China… depois da pandemia –
«Estão oito equipas de quarentena na mesma cidade e só saímos para treinar e jogar»
Bola na Rede (BnR): Olá, Matheus. Tudo bem?
Matheus (M): Sim. Dá-me só um momento para fechar a porta do quarto. É que estamos de quarentena e está toda a gente neste andar, por isso, qualquer barulhozinho pode incomodar.
BnR: Vocês ainda estão de quarentena?
M: Estamos porque ainda é o início do campeonato. Então, oito equipas ficaram na mesma cidade, num centro de treinos, e as outras oito equipas ficaram noutra cidade. Nós estamos em Suzhou, fechados e só podemos sair para treinar, almoçar e caminhar cá dentro.
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BnR: E treinam nos campos dos vossos clubes ou têm um lugar neutro?
M: Não, aqui tem um campo de treinos para cada clube. Só se sai para os jogos no estádio, no dia antes faz-se o teste e depois vai-se para o jogo, mas volta-se direto cá para dentro.
BnR: Como foi este tempo de paragem para ti, que já tens 37 anos?
M: Rapaz, com certeza. Não me afetou mais porque continuamos a treinar, a fazer bastantes jogos amistosos, mas em termos de competição afetou bastante, não só a mim, como aos jovens que estão no início da carreira e querem jogar o mais cedo possível.
BnR: Mas para ti começou muito bem, porque em dez minutos fizeste um golo…
M: É verdade. Foi um jogo em que estivemos muito bem, começámos a ganhar, podiamos ter feito o 2-0 mas não conseguimos… Eles acabaram, com um a menos, por empatar e virar o jogo. Muitos acreditam que jogar com menos um torna-se mais fácil, mas para mim é mais difícil para os avançados, porque eles fecham-se mais, começa o cai-cai, ganhar tempo e complica a quem quer ganhar. Eu tive a sorte… e Deus também viu que estávamos a fazer um bom trabalho e não podíamos perder. Consegui o golo e um bom resultado, que era o empate.

Fonte: Cortesia – Matheus
BnR: Estás numa equipa que acabou de subir à Superliga Chinesa. Quais são as diferenças entre a Primeira e a Segunda?
M: É assim, quando cheguei a esta equipa (Shijiazhuang Ever Bright) ela estava na Primeira Divisão, até o Rúben Micael e o Mário Rondón jogavam aqui, mas naquele período que eu vim – faltavam cinco jogos – estava muito difícil para recuperar e permanecer. Não só em pontos, mas por causa da tabela, porque os nossos últimos jogos eram contra os clubes ditos grandes da China e acabou por prejudicar-nos. Não conseguimos escapar e acabei três temporadas a disputar a Segunda Divisão, mas no ano passado subimos. Foi um período muito bom para mim e para a equipa.
BnR: Também é um clube com muito dinheiro ou mais limitado comparando com os outros?
M: Em comparação com os outros é mais limitado mas, ao mesmo tempo, cumpre com as suas obrigações. Eu acho que o dinheiro não é tudo e às vezes vamos para um clube receber bastante dinheiro, mas que depois começa a atrasar, a não pagar… nós, jogadores, passamos muitas vezes por isso, como me aconteceu na Ucrânia, no dito clube grande Dnipro: acabou com os jogadores a não receberem nada durante o ano todo e no melhor ano do clube. Mas aqui cumprem com o que falam, é um clube novo, acho que com onze anos, mas é um clube grande. Clube que cumpre com os seus compromissos, tem de ser chamado de clube grande.
– Das origens no futsal às dificuldades em comer no FC Marco
«No FC Marco tive semanas em que só treinava no sábado para jogar no domingo porque não comia bem»
BnR: Vamos voltar atrás, ao Brasil, onde começaste a carreira num clube pequeno – o Itabaiana – da Série C. Como foram esses primeiros anos no futebol sénior?
M: A minha carreira começou em jogos que nós chamávamos de primeiro e segundo quadro, é como se fosse primeira e segunda equipa. Eu jogava na primeira equipa, pagava ao dono do clube por esses jogos, para ele pagar a gasolina, ao motorista do autocarro, para levar o material… Só pelo prazer de estar nesses clubes. E lembro-me de jogarmos jogos escolares em futsal e o preparador físico do Itabaiana era meu professor de educação física. Começámos a jogar futsal e ele falou: «consegues fazer o que fazes na quadra num campo?».«Faço, talvez até melhor em campo porque tenho mais espaço». Quando terminaram os jogos escolares, ele disse-me: «olha, o treinador saiu, fiquei eu no comando e quero que vás fazer um teste»… e eu fui. Ele recebeu muitas críticas por trazer um cara do interior, de uma cidade pequena. Claro que a maioria do pessoal gosta de contratações de clubes grandes, com nome, e diziam «ah como é que trazem um jogador do interior, que joga amador». Começou assim, mas no meu primeiro jogo eu estava no banco – o Itabaiana estava para cair de divisão no Estadual – e ele mandou-me entrar. A faltar cinco minutos e a perder 1-0, batemos um canto, a bola sobrou para mim e ajeitei para o cara que marcou o golo. O pessoal em vez de celebrar com quem fez o golo, vieram atrás de mim porque tive a esperteza de fazer o passe num momento complicado. Daí virei profissional no Itabaiana, a equipa não caiu, fomos campeões no Sergipano, fui considerado o melhor jogador, o melhor marcador… E no último jogo, em que lutávamos pelo título, estava no estádio um empresário português com o treinador do FC Marco e o Jaime Pacheco.
BnR: Como é que eles ficaram a saber de ti, este jogador que se destacava na Série C?
M: Eu ainda hoje pergunto-me isso, mas falaram que esse empresário tinha alguém conhecido numa cidade perto de Itabaiana e que, naquele jogo, ele estava lá a ver um lateral-direito e um atacante, que era o artilheiro do campeonato. Depois acabou o campeonato, fui de férias e passados três dias esse português ligou-me a dizer que tinha uma proposta do FC Marco. Eu também tinha proposta do Internacional de Porto Alegre, só que eles queriam levar-me para a segunda equipa e não queria ir, porque às vezes nem havia oportunidades. Eu, que só recebia 10 euros, aceitei a proposta do FC Marco e recebi um prémio bem bom, até comprei a casa para a minha mãe, mas fiz seis meses no FC Marco e nem recebi um salário, foi muito triste… A minha mãe dizia para eu ir embora, mas eu disse que não porque a realidade é essa, não há jogador que não tenha uma história de superação e esta é a minha… Conheci uma mulher portuguesa de um mercado e um amigo que tenho até hoje, o Rogério: quando voltei de um treino, as minhas malas estavam fora do hotel, não podia dormir lá porque o clube não pagava. Então ele disse que tinha um apartamento, deixava-me lá e quando pudéssemos pagar, pagávamos. Já a mulher do mercado, dáva-nos macarrão, fruta… Os adeptos davam-me 20 euros, 30 euros… Aí convidei um argentino do FC Porto, o Gonzalo [Marronkle], e o Almir, um lateral do FC Marco que não tinha onde viver, e ficámos os três no apartamento. Depois dos primeiros seis meses, havia o interesse do Litex, da Bulgária, o Werder Bremen, da Alemanha, e o Vitória SC. Primeiro fui para a Bulgária, apresentei-me, fiz os testes, só que o presidente teve um conflito com o meu empresário – soube depois que o meu empresário queria levar mais dinheiro – e o médico disse que eu tinha o coração demasiado grande, um problema no joelho e não dava para assinar. Voltei para a Trofa, porque o FC Marco estava para acabar.
BnR: Mas isto tudo a meio da época, certo?
M: Sim, a meio da época. Aí recebi a proposta do Vitória SC. Agarrei no carro do meu empresário e fui para Guimarães. Cheguei lá, li o contrato e perguntei se podia ir para casa pensar. Eles disseram que não havia problema e voltei no dia seguinte, contei as folhas do contrato… Tinha uma folha a mais. Nessa folha, alguns parágrafos diziam que se as coisas não corressem bem, o clube podia rescindir quando quisesse, não pagaria qualquer multa… foi um esquema. Disse para o meu empresário que não ia assinar, até achei que o empresário tinha feito alguma coisa, mas não. Foram mesmo daquelas coisas dos clubes, que às vezes metem objetivos, só que não dava lucro para mim, só para o clube…

Fonte: Cortesia – Matheus
BnR: Portanto, se corresse mal, o Vitória SC safava-se. Se corresse bem, fantástico, tinha um jogador que marcava golos…
M: Era isso. Entrei no carro e a meio caminho para a Trofa liga-me o presidente [António] Salvador: «O que foi que ofereceram ao miúdo?»; «foi isto, isto e isto»; «Ok, apareçam no meu escritório daqui a meia hora». Assinei pelo SC Braga, o clube ainda deu 100 mil euros para o FC Marco, porque o presidente não me queria libertar… Toda a gente conhecia ele, como ele era, o Alberto não-sei-quê.
BnR: O Avelino Ferreira Torres?
M: Isso. Ele meteu um cheque na minha caixa do correio, a dizer que me pagava o salário, só que era um daqueles cheques sem cobertura. Mas quando o SC Braga deu 100 mil euros, ele disse «estás livre». Lembro-me que foi na última noite de mercado, fechava às 18h00, e às 17h00 estava eu a assinar pelo SC Braga. Foi uma aventura daquelas que só os jogadores passam.
BnR: Foram seis meses de loucura…
M: Sim… O que mais me doía era a minha mãe a ligar-me a chorar, porque sabia que eu passava necessidades. Chegou uma altura no FC Marco que eu só ficava à espera do sábado, dia antes dos jogos, para ir ao hotel almoçar. Havia dias que eu dizia ao treinador que não estava bem e não treinava, houve semanas em que só treinava no sábado para jogar no domingo, porque não comia bem. Cheguei lá muito magro e ainda perdi mais peso.
BnR: Como foi passar de ter fome no FC Marco para o SC Braga, uma equipa de top 5 da Primeira Liga?
M: Não foi fácil. Eu recebo muitas mensagens de jogadores jovens no Instagram a perguntar sobre o que precisam para serem profissionais, se é preciso empresário e isso, mas eu só escrevo esta frase: «acredite no que você quer, que vai conseguir». Eu acreditei, vi o que passava antes de ser jogador… Não é que passasse fome, mas queria uma camisola, uns ténis e não tinha condições. Por isso comecei a trabalhar desde os 12 anos para comprar uma camisola, uns ténis ou até ter uma carne melhor em casa, os meus pais agradeciam. Desde os 12 anos saía para fazer alguma coisa, o que chamamos no Brasil de «pegar freto», ia juntando e dava para comprar alguma coisa para mim, para a casa, ou para o meu lanche na escola. Não tive formação, mas graças a Deus aos 21 passei a profissional.
BnR: Essas dificuldades e esses trabalhos que fizeste, serviram para te manter na Terra quando começaste a receber muito mais?
M: Ah isso até hoje… Muitas vezes chegam colegas meus que dizem «oh Matheus, gastas demais». Mas eu não gasto demais, antes não tinha condições de ter um iPhone e agora que tenho não vou comprar? Eu não tinha condições para usar um anel, uma corrente, uma PlayStation e agora que tenho condições não vou comprar? Claro que vou comprar. Mas vou comprar aquilo que eu sei que vou usar, não só para dizer que gastei. Eles entram em minha casa e vêm muitas chuteiras, é o meu ponto fraco. Se me querem agradar, dêem-me umas chuteiras ou uns calções. Às vezes brinco com o pessoal e digo que não repito chuteiras nos jogos, são 30 e tal jogos, são 30 e tal ténis. É o meu ponto fraco, porque antes eu só andava de chinelos. Às vezes, a chinela estragava-se e tinha de lhe meter um prego, a minha mãe bateu-me porque eu perdia os chinelos a jogar à bola e andava descalço dois ou três dias. O dinheiro não me vai mudar, vou ser sempre o mesmo Matheus.
BnR: Voltemos a Portugal, porque fazes meia época no SC Braga, mas acabas emprestado ao Beira-Mar na época seguinte. Foi importante este empréstimo?
M: É assim… Quando cheguei ao SC Braga, pensava que tinha feito golos na Segunda Liga e ia jogar com o Jesualdo Ferreira, mas foi ao contrário, só fiz dois ou três jogos. Acabou a época, voltei ao SC Braga e, depois do Jorge Costa entrar, aconteceu uma das coisas que mais me doeu: estava sentado numa sala do estádio, perguntar quando começavam os treinos e uma pessoa do clube – não vale a pena dizer nomes – dizer que havia muitos jogadores na minha posição e que não contavam comigo. Aí o Carvalhal ligou-me, disse que tinha gostado de trabalhar comigo no SC Braga e queria levar-me para o Beira-Mar. Fui eu e o Eduardo, mas nem uma semana depois o Carvalhal foi mandado embora… Uma empresa assumiu o clube, trouxe treinador, trouxe mais de 40 jogadores para fazerem testes e nesse entra-e-sai eu fui “afastado”, fiquei sem oportunidades. No mesmo dia em que foi despedido, o Carvalhal ligou-me a pedir desculpa, que achava que havia um projeto, mas não tinha dado certo e que agora não ia ser fácil para mim jogar. Duas semanas antes de acabar o campeonato, ele ligou-me outra vez a dizer que tinha um projeto do Feirense e do Vitória FC e perguntou se eu aceitava ir com ele para um ou para o outro. Eu disse que sim e o Eduardo também.
BnR: No Vitória FC acabas por fazer 11 golos em 23 jogos, algo completamente diferente do que aconteceu no Beira-Mar…
M: E por incrível que pareça, fizemos dois jogos contra o SC Braga no início da época e eu fiz golo nos dois. O Salvador deve ter ficado puto da vida. Depois apareceu uma proposta para mim do Sion, da Suíça, o Carvalhal disse que ia ser vendido, só que fui jogar contra o Leixões e fiz o pior jogo da minha vida e eles desistiram. Depois apareceu o Aris Salónica, aceitei, faltavam três meses para terminar o contrato com o SC Braga, mas acabou por não resultar. Depois fiz um jogo contra o U. Leiria e o Salvador ligou-me a dizer que o Manuel Machado pediu o meu regresso. Eu disse que não voltava, que só tinha mais seis meses de contrato, tinha ajudado o Vitória FC a chegar à final da Taça da Liga, até tinhamos eliminado o SC Braga, mas o Salvador deu-me mais quatro anos de contrato e voltei a jogar na Liga Europa, onde fomos eliminados pelo Werder Bremen num jogo difícil, perdemos 3-0 lá e falhámos dois penáltis. Depois mudou o treinador outra vez… Foram muitos treinadores nesse período do SC Braga, tal como aconteceu este ano.
– Do campeonato «roubado» pelo SL Benfica à glória europeia no SC Braga –
«Em 2009/2010 tiraram o campeonato ao SC Braga, foi um assalto»
BnR: Na época seguinte chega o Jorge Jesus. Que impacto teve no SC Braga?
M: Rapaz… Vou ser sincero: tive um problema com ele lá. Eu sempre fui um jogador explosivo, que quando estou errado escuto, entro calado, saio calado, mas quando vejo que estou certo brigo por aquilo. Eu treinava bem, jogava bem, mas era sempre, banco, banco, banco, até os meus amigos perguntavam como é que eu não jogava a titular… Claro que não temos conflitos entre jogadores mas, ao mesmo tempo, lutamos por um lugar e na altura era só César Peixoto, César Peixoto, César Peixoto… Até disse [ao Jesus] para deixar ele na lateral-esquerda e deixar-me jogar, mas não quis. Então disse ao Salvador para me emprestar ou deixar-me ir para algum lado, porque não ia dar certo o meu trabalho com o Jorge Jesus. Aí ele começou a meter-me a jogar em mais alguns jogos, Liga Europa, cheguei a fazer golos importantes, só que, quando achava que ia ser titular, Matheus… Banco. Uma vez fomos para uma palestra, eu meti os fones nos ouvidos, comecei a ouvir música e ele a falar, a falar, e eu a não ouvir nada. Ele chegou ao pé de mim a dizer «miúdo, não estás a ouvir nada!» e eu disse que não queria ouvir nada… E mandou-me sair da sala. Fui ter com o Salvador e disse-lhe que queria ir embora, mas ele disse «fica tranquilo»: falou-me que o Jorge Jesus tinha uma proposta do Benfica…
BnR: Então durante essa época toda tiveste dificuldades com o Jesus?
M: Pois, foi complicado. Ele é uma pessoa espetacular, um profissional fora do normal, mas é como te disse: se vejo uma coisa errada, vou lutar por ela até ao fim, eu não sei engolir. Se estou a ver que estás a fazer uma coisa errada ao meu companheiro pelas costas, então vou falar contigo e quero que resolvam a situação. Naquela altura eu sentia-me injustiçado, fazia o meu trabalho e não jogava. Aí ele foi para o Benfica…
BnR: Surpreendeu-te que ele desse esse salto?
M: Não me surpreendeu porque o que ele fazia no SC Braga era um trabalho espetacular, fora de série. Claro que ele precisa das peças: se ele tiver as peças no lugar certo, é um cara que com jogadores sem nome, mas que sejam a peça certa, pode dar trabalho a qualquer equipa do Mundo. Faz um trabalho muito diferente dos outros. Depois daí, assumiu o Domingos Paciência.
BnR: Sim, agora entramos naquela temporada que foi a lutar até à última pelo título, mas essa época começou muito mal, ao serem eliminados da Liga Europa pelo Elfsborg da Suécia…
M: Vou-te dizer como foi: no primeiro treino do Domingos Paciência, ele colocou uma bola no meio-campo, mandou-nos sentar, falou com os jogadores e perguntou-me o que é que estava lá a fazer e disse-lhe: «eu quero ser campeão». Ele respondeu: «gostei, miúdo, gostei da tua atitude». Fomos eliminados das competições europeias, mas a preparação tinha sido muito boa, o Salvador deu crédito ao Domingos porque a equipa não jogava mal e fizemos um campeonato bom, perdemos para o Benfica só por um ou dois pontos… Tiraram o campeonato ao SC Braga. Acho que naquela altura não queria outro clube que não Benfica, FC Porto e Sporting a ser campeão, era essa a realidade.
BnR: Em que jogos sentiram isso?
M: O próprio jogo contra o Benfica. O golo do David Luiz foi em fora-de-jogo, o penálti do Luisão, em que ele me fez um carrinho e o árbitro não deu nada. Era um jogo que, se fosse empate, continuávamos à frente deles e como o Benfica ganhou, passou-nos. Até no jogo em Braga, que o Di María cuspiu para o nosso banco e falou um monte de coisas, mas só os jogadores do SC Braga foram suspensos, entendeu? Foi uma jogada para o Benfica ser campeão, um assalto mesmo, daqueles que a polícia está a ver, mas deixa levar.
BnR: Nessa época o SC Braga teve muitas dificuldades nos jogos com os grandes, foi goleado no Dragão, porque é que parecia que havia um bloqueio nesses jogos?
M: O Domingos Paciência, antes de começar, disse-nos «olhem, vamos ganhar pontos contra os pequenos, porque contra os grandes não é só contra eles, mas também contra os homens de preto ou amarelo. Por isso, vamos ganhar aos pequenos porque isso é que vai fazer a diferença, porque os grandes também vão facilitar». E foi isso, fizemos o papel de ganhar aos considerados pequenos, mas em termos de jogadores e salários via-se grande diferença de patamar. Acabámos por ser vice-campeões e conseguimos ir à Liga dos Campeões, um momento único não só na minha vida, como na do clube e de jogadores que estavam lá. Toda a gente achava que íamos ser eliminados pelo Sevilha, mas fizemos uma surpresa. O Domingos Paciência soube gerir o balneário, deixá-lo unido, mesmo com quem não jogava. Tivemos problemas internos, mas soubemos gerir e fazer com que não saísse na imprensa, muitas coisas que as pessoas não sabem.
BnR: Contra o Sevilha fizeste uma exibição particularmente incrível…
M: Sim. Foi aquele golo do 1-0, depois lá em Sevilha o pessoal viu uma entrevista do Luís Fabiano a dizer que ia ser diferente lá… E realmente foi, ganhámos 4-3. A gente já chegou ali forte depois da eliminatória com o Celtic. Nesse jogo [contra o Celtic] estava no banco porque tinha uma dor na posterior e o Domingos disse «tranquilo, vais entrar e resolver o jogo». Já estávamos a ganhar 1-0, mas bati um canto e o Elderson fez o 2-0 e depois, um livre quase do meio-campo e o [Andrés] Madrid disse para trocar a bola e ganhar tempo, mas eu disse: «Madrid, não. Sempre que vocês acabam o treino e vão para o balneário, eu fico com o Eduardo a rematar forte daquela zona. Eu vou chutar e acertar no ângulo». Foi tiro e certo, mesmo na gaveta, como costumamos dizer no Brasil, onde a coruja dorme. Acabámos a eliminar o Sevilha, chegámos à fase de grupos e acho que até foi a primeira vez que uma equipa faz uma pontuação normal para se qualificar, mas foi eliminada. Acabei por sair depois, mas eles foram à final da Liga Europa.
BnR: O que é engraçado, porque no Vitória FC fazes uma grande época, mas não jogas a final da Taça da Liga. Em Braga, grande época, mas não jogas a final da Liga Europa. Porque é que não consegues jogar uma final?
M: A de 2015 joguei [risos]. E outra, tem uma final que não sei se te lembras, que era a Taça Intertoto e ganhámos. Quem fez o golo, quem foi? Fui eu. [risos]
BnR: Como a Intertoto é uma competição tão obscura, teve significado para vocês?
M: Teve sim. Porque nós jogávamos no SC Braga, sabíamos que não era fácil ter títulos, entendeu? Agora é fácil porque o SC Braga é grande… grande, não… Enorme. Naquele período, ficávamos felizes por estar naquele torneio, por isso queríamos ganhar. Joguei aquela final e fomos campeões. Mas não sei explicar, muitas vezes chegava o melhor jogo e não jogava… Não participei. Acho até que o SC Braga está a dever-me uma medalha de campeão porque eu fiz parte. Ás vezes brinco com os meus colegas: «opa, alguém deve ter a minha medalha» [risos]. Porque se eu não tivesse feito aqueles dois golos contra o Arsenal, não tínhamos ido à Liga Europa. Também tenho uma história engraçada nesse jogo contra o Arsenal com o Hugo Viana, até hoje não me esqueço: fiz o segundo golo, toda a gente a abraçar-me e ele disse «agora ninguém segura o miúdo». Depois daquele jogo eram tantas chamadas, tanto empresário, tudo conversa, conversa, conversa… Cheguei ao hotel, o Salvador e o Jorge Mendes ligaram-me a dizer que havia um pré-contrato com o Lille, que veio a ser campeão na França, assinei com uma cláusula que dizia que um ponta-de-lança deles, que o PSG queria, tinha de sair. Só que no último jogo ele teve uma lesão grave no perónio, o negócio com o PSG ficou congelado, tal como a minha ida para o Lille. Eles tentaram diminuir salário e foi aí que apareceu o Dnipro da Ucrânia.
– Da transferência falhada para o Sporting CP à depressão na Ucrânia –
«Sporting CP ofereceu-me 600 mil euros de prémio e 60 mil euros de salário, mas o Costinha saiu e não deu certo»
BnR: Porque escolheste a Ucrânia? Não ficaste reticente?
M: Não apareceram [propostas] só para a Ucrânia. Também apareceu para Inglaterra, só que eu não podia ir porque não tinha passaporte comunitário. Também apareceu o Sevilha, só que era propostas iguais às do SC Braga e eu disse que não. Nós, jogadores, queremos mudar de vida, fala-se que os jogadores ganham bem, mas jogamos até aos 30 anos e depois? E se não souber fazer mais nada? Aí lembro-me, na altura era casado, e recebi uma chamada de um empresário que tinha um clube da Itália que me queria e disse que ia mostrar-me o contrato. Disse que sim, mas para não ser só conversa: queria tudo preto no branco. Depois era uma da manhã e recebi uma chamada de um empresário chamado Cabral, de Guimarães. «Podemos falar?», eu disse que não, achei que fosse mais conversa de empresário, ele insistiu, insistiu, até que a minha filha acordou, fui dar leite para ela e ele continuava a insistir. Atendi e ele perguntou se podíamos tomar um café de manhã com o Marcelo Cipriano – o meu atual empresário, que jogou no Benfica e na Académica – e eu disse que sim. Eles chegaram com um contrato do Dnipro, mas eu disse que tinha outras propostas, já tinha dado a palavra ao SC Braga, mas eles disseram para falar com o treinador, que era o Juande Ramos. Nisto, liga-me o Salvador a dizer para ir ao clube porque havia uma proposta para eu ver. Cheguei, vi as propostas e a que mais me agradou foi a do Sporting CP. Acho que ninguém sabe essa história, é a primeira vez que vou contar para a imprensa. Fui para o Porto às sete horas da noite para o apartamento do Jorge Mendes e lá estava o Costinha, que era diretor do Sporting CP naquela época, só que quem tratava das finanças na altura era o…
BnR: O José Couceiro?
M: Couceiro, sim. Era ele que tratava do dinheiro, mas estava no Brasil. Fizeram-me a proposta, até posso falar em valores: foram 600 mil euros de prémio de assinatura e 60 mil euros de salário. Eu disse: «está fechado». No dia seguinte, acordo com a notícia: «Costinha sai do Sporting». Ligaram-me a dizer que não ia dar certo e não se falou mais nada… Mas já tinha tudo certo, era só o Couceiro regressar do Brasil, assinar um papel e pagar-me… Ainda havia as outras propostas, eu falei com a minha esposa na época e discutimos as propostas que havia. Só faltavam seis meses para acabar o contrato e parei de jogar, o meu último jogo foi com a União Leiria.
BnR: Mas ainda jogaste com o Shakthar Donetsk na Ucrânia…
M: Sim. Foi o último jogo nas competições internas, com o Leiria. Eu discuti as propostas com a minha ex-esposa e ela perguntou quem pagava mais: era o Dnipro. Fomos para a Ucrânia e já estava certo para depois do jogo eu assinar pelo Shakthar… Olha a resenha. Só que o diretor do Dnipro estava no estádio e alimentaram mais aquela proposta. Aí o Marcelo, o meu empresário, falou-me num salário absurdo, um prémio de assinatura absurdo, eu passava de um Mini Cooper para um Hummer. Só que liguei para o Dnipro e perguntei se podia ficar os últimos seis meses no SC Braga e ia depois livre para a Ucrânia, só que eles queriam-me logo e eu disse que, agora, o SC Braga não me ia libertar, tinham de pagar. Se não me engano, tirei do meu contrato – é a primeira vez que conto esta história – 1,3 milhões de euros para dar ao SC Braga.
BnR: Então a tua venda para o Dnipro teve de ser paga por ti?
M: Como se fosse por mim, uma parte saiu do meu contrato. Eu falei com o Salvador e disse que havia esta proposta e ele – que um cara com quem eu gostava de trabalhar um dia, porque é espetacular, fora de série – pegou no papel e disse: «Eh miúdo… Não tem como segurar-te… Boa sorte». Pegou na minha mão, ainda perguntou se eu aceitaria «isto» mais «isto» de bónus, só que era pago em quatro anos, mas eu disse que tinha de ser logo na hora. E ele disse «vai com Deus, boa sorte».
Matheus marcou o 37º gol em 123 jogos com a camisa do Dnipro. pic.twitter.com/x3SvyTTl66
— Stats dos Jogadores (@numeroplayer) August 14, 2015
BnR: E como foi a chegada à Ucrânia?
M: Cheguei à Ucrânia, mas a mãe da minha filha acabou por não ir e separámo-nos… Foi aí que entrei em depressão. Nunca tinha estado longe da minha filha… Comecei a beber muito e eu não era de beber… Saía para a noite e não treinava… Nos primeiros meses do Dnipro, se não me engano, joguei três jogos e incompletos. Porque estava em depressão, não era o Matheus. Oito meses longe da minha filha que, em Portugal, às sete da manhã eu levava à escola, ia treinar e voltava a ir buscá-la, íamos para o parque à tarde… E foi um choque para mim. Pedi para me ir embora, já não queria jogar futebol, não aguentava mais. Aí o meu empresário, o Marcelo, mostrou-me uma proposta da Turquia, a pagar mais que o que tinham pago por mim, mas não aceitaram… O PAOK pagava duas vezes mais para me levar, não aceitaram… Até um clube da China, o Guangzhou R&F, pagava os meus salários atrasados, mas nem assim me libertaram. Aí o diretor-geral chamou-me e perguntou como estava a minha situação, eu disse que estava complicado, tinha vindo para ajudar, mas não estava a conseguir, às vezes escutava pelos cantos o Juande Ramos a dizer que eu não era profissional, não me devia ter contratado… E ele disse: «eu não te vou dispensar. Se quiseres um tempo para ir para o Brasil, para recuperar, você vai, mas não te vou dispensar». eu disse que não, mas ele respondeu: «Miúdo, de amigo para amigo: se a tua mulher não quer vir, a melhor opção é ires para o Brasil, separares-te e casares com uma ucraniana».
BnR: E acabaste por ir para o Brasil?
M: Não, fui para Portugal, fiz recuperação na clínica do [António] Gaspar, em Lisboa. Cheguei lá, fiquei num hotel perto do shopping Vasco da Gama e um dia disse ao Gaspar que precisava de ir ao Brasil resolver a minha situação, separar-me da mãe da minha filha. Só que, todos os dias, o clube pedia o recibo do tratamento. Pedi ajuda ao Gaspar e ele disse que eu podia ir tranquilo e ele assumia tudo. Eu até disse que pagava as consultas do meu bolso, mas ele disse para ir tranquilo. Fui, fiquei 10 dias no Brasil, resolvi a minha situação e quando voltei para a Ucrânia encontrei outra pessoa, a Julia, que ainda hoje é minha esposa e temos dois filhos. Eu sou feliz, a mãe da minha filha também é feliz com o atual marido dela… Somos todos felizes agora, mas aquele período foi muito doloroso, até que um dia estava no Brasil, sentei-me no sofá e pensei «hey, eu não preciso passar por isto». Claro que é preciso acompanhamento, mas só a pessoa sozinha é que consegue sair da depressão e foi aqui que ela desapareceu. Voltei para a Ucrânia e foi no ano seguinte que fui considerado o melhor jogador do campeonato…
– Da final da Liga Europa ao fim precoce do Dnipro –
«Assinámos um acordo para o clube pagar as dívidas aos jogadores. Dois anos depois, ninguém recebeu e o Dnipro acabou»
BnR: Como ficou a posição do Juande Ramos, ao ter um jogador caro que não jogava? Como é que te aceitou de volta?
M: Olha, lembraste de dizer que quando vejo que não estou errado, respondo? Ficou um ambiente ruim e só o Muñiz, que era o adjunto dele, é que ajudava o nosso diálogo, porque era uma pessoa espetacular, diferente e, para mim, ele é que era o treinador. A história foi muito bizarra: íamos jogar para a meia-final da Taça da Ucrânia e, na palestra, o Juande Ramos virou-se para mim e disse: «se soubesse que eras assim, nunca te tinha contratado. Há muitos jogadores melhores que tu». Olhei para ele e disse que, se eu fosse presidente, também não o contratava como treinador. Disse isto: «você é muito fraco».
BnR: E como ficou o ambiente dentro do plantel?
M: Ficou chato. Acabámos por perder 2-1, eu fiz o golo… Era um jogador “ruim”, mas era preciso alguém para meter a bola lá dentro. Acabou por ser o Muñiz a equilibrar as coisas, a dizer que eu não tinha percebido bem, mas a relação baixou. Depois ele foi embora porque não lhe pagavam e assumiu o Markevych, que era espetacular, sabia ouvir o jogador, era tão calmo que às vezes chateava, tinha uma equipa técnica que o ajudava bastante. Nesse período tive uma lesão nas minhas costas, parti a L5 da lombar num treino, ia para o hospital e eles não viam essa parte partida porque a medicina na Ucrânia só está a melhorar agora. Até fui para Espanha recuperar com um fisioterapeuta espanhol que trabalhou no Dnipro com o Juande Ramos e, no hospital de Valência, disseram-me que podia não jogar mais porque era uma lesão complicada, só que o fisioterapeuta disse: «esse médico só percebe de ossos, quem percebe de jogadores sou eu. Vamos tentar que em 40 dias voltes a jogar». Nesse período o Dnipro estava a jogar na Liga Europa, ia eliminando os adversários e quando eu voltei para a Ucrânia, o clube disse que eu não ia jogar porque a equipa estava bem…
BnR: Isto por altura do jogo da meia-final contra o Napoli…
M: Eu cheguei um mês antes e até à meia-final houve dois jogos para o campeonato ucraniano. Aí voltou o Matheus antigo, teimei e pedi para jogar esses dois jogos para ganhar ritmo. Colocaram-me num jogo da equipa B a meio da semana, depois tínhamos jogo contra o Zorya, o treinador não me queria meter e discutimos na minha casa, disse que eles não me respeitavam, e quando chegou a palestra antes do jogo, estava a titular. Depois tive outro problema com uma lesão, não cheguei a entrar no jogo em Nápoles e no segundo jogo já estava melhor, ainda joguei 20 minutos, mas na final achava que não ia jogar. Já é o hábito de não jogar as finais [risos].
BnR: Curiosamente, essa final é o único jogo em que fazes os 90 minutos depois da lesão…
M: Sim. Estava deitado no hotel na Polónia e eu tenho o costume de fechar a porta do quarto e não abrir para ninguém. Começaram a bater à porta e eu disse «estou a dormir, não vou abrir a ninguém». Continuei a ouvir «toc, toc, toc», a insistir, e eu disse «que teimoso! Já disse que não vou abrir!». Ouvi do outro lado, em russo, que foi a única coisa boa que aprendi nas noites de álcool: «Sou eu… Markevych». Abri a porta: «podemos conversar?». Eu disse que podia trazer o tradutor, que havia coisas que podia não perceber, mas ele disse: «Não… É entre eu e você… Se você não perceber, explico de outra forma… Como você está?». Eu disse: «A 100%». «Então amanhã… Você começa». Foi uma alegria tão grande, véio. Fiquei bastante alegre, mas também triste pelo meu colega que costumava jogar, era um menino de 18 anos. Só que aquele campo da final estava muito mau, não se conseguia jogar com chuteiras normais, tinham de ser mistas.
BnR: Não estavas habituado a isso na Ucrânia? Campos mais complicados?
M: Não, os campos na Ucrânia são todos bons!
BnR: Então foi preciso chegares à final de uma competição europeia para encontrares um campo mau?
M: Isso! Estou no mesmo hotel que o Daniel Carriço e vi-o no café, falámos e relembrámos esse jogo e ele disse «rapaz, que campo ruim aquele». Se fossem chuteiras normais, estávamos sempre a escorregar, tinhamos de usar as de alumínio e eu nunca tinha jogado com elas. Quer queira, quer não, aquilo atrapalha. Acabei por jogar, mas perdemos. Foi uma final espetacular, até aos últimos momentos, em que sofremos três golos naquilo que era o nosso forte: a marcação no meio. Todos os golos foram pelo meio, de bola parada. Ficámos tristes, mas também felizes por aquela equipa, que ninguém acreditava que pudesse chegar a uma final da Liga Europa.
BnR: Tens mais alguma coisa para contar dessa final?
M: Sim, a altura em que levei uma cabeçada no nariz e acabei por sair. Cheguei ao médico lá na Polónia, ele meteu um ferro no meu nariz e «tráz!» [Matheus faz o som dos ossos a voltarem ao sítio]. Depois voltei a ganhar consciência por ter partido o nariz, que até hoje não fecha a narina direita, porque sofreu um corte por dentro, abriu uma veia e pode sair sangue. Só sei que o lateral perguntou-me se estava tudo bem, eu disse «estou bem, estou bem, estou bem», mas depois comecei a sangrar e desmaiei. Acabei por ficar dois dias na Polónia, nem fui à cerimónia de entrega das medalhas nem à festa a seguir. A minha família não me conseguia contactar e ficaram todos malucos, a minha mãe, a minha esposa… E eu lá não podia falar com ninguém. Teve de ser o meu amigo, o Rogério, que foi lá ver a final que ligou a todos os meus familiares a dizer que estava no hospital. Depois aquilo acabou! No melhor período do clube…
BnR: Consegues perceber como é que, quatro épocas depois de uma final europeia, o clube acaba?
M: O que me contaram é que o presidente do clube gastou muito dinheiro e devia aos bancos, havia umas dívidas que ele não pagou e o prémio da Liga Europa acabou por não ir para o clube, mas para uma empresa. Lembro-me que fizemos o último jogo do campeonato e o diretor colocou um papel, como se fosse um acordo entre clube e jogador, para o clube pagar as dívidas aos jogadores nos últimos anos…
BnR: Já não estavas a receber salários nessa altura?
M: Não, já para aí há sete meses. Foi quase a época toda a seguir sem receber salário nenhum. Nós, os jogadores, marcámos uma reunião e o que aliviou um pouco foi um jogo em que o Dínamo [Kiev] pagou um bónus bom a nós para ganharmos ao Shakhtar, que vencemos por 4-1. Foram cerca de 30 mil euros para cada um. Aí assinámos aquele papel e, passados dois anos, não recebi nenhuma parcela… Ninguém recebeu. Nesses dois anos o clube ainda se manteve, mas depois foi acabando, a descer de divisão e agora apareceu outro, que nem falam ter ligação com o ex-presidente do Dnipro.
– A aventura pela China e o desejo de regressar a Portugal –
«Portugal? quem sabe se no futuro vou aí para um clube»
BnR: E como apareceu a China?
M: A China apareceu numa altura em que eu estava muito preocupado e, graças a Deus, eu deixo tudo para a última [risos]. Estava deitado numa rede no Brasil, o meu empresário ligou-me e falou numa situação na China, só que eles só me queriam por cinco meses, para o resto do campeonato. Eu disse que não, que não estava certo e só faltava um mês para fechar o mercado. Aí apareceu o PAOK, dois anos de contrato, coisa linda e eles enviaram-me o pré-contrato para o Brasil, assinei, apresentei-me lá, fiz os exames e fomos para o hotel. Nessa mesma noite, o clube chinês manda um e-mail ao meu empresário a dizer que me davam um ano e meio de contrato, com as mesmas condições que o PAOK, só que era tudo pago em ano e meio e não dois..
BnR: Esses valores, comparados com o Dnipro, eram melhores ou piores?
M: Eram iguais, não mudava nada. O do PAOK seria menor, mas compensava porque eram dois anos. Eu disse que já tinha um pré-contrato com o PAOK, que estava assinado. Às nove da manhã fiz os exames no hospital e às dez estava no hotel com o Léo Matos, o Shakhov e o Djalma, que também tinham assinado, e à tarde era a apresentação no estádio. Só que o meu empresário meteu-me um travão porque o advogado viu pequenos erros no nosso pré-contrato, havia maneira de ir à FIFA e ganhar, e eu liguei ao Rúben Micael – que já estava no clube chinês – ele disse que eles cumprirem com o que acertam, que vão aprendendo a cada dia, porque eram um clube novo. Só que, naquela altura, eu não tinha dinheiro, pedi cinco mil euros ao Léo Matos para ir para a China. Nem fizemos o check-out do hotel, fui de táxi para o aeroporto com o Marcelo, ele comprou o bilhete Salónica-Hong Kong pelo caminho e em Hong Kong já tinha alguém à minha espera para me levar para o clube chinês. Entretanto o diretor do PAOK ligou para o meu empresário e ele disse «nós estamos no aeroporto e vamos para a China». Ele ficou maluco, disse que ia à FIFA, só que nós dissemos que não queríamos conflitos e que a situação na China era mais vantajosa. Ia ganhar o mesmo em ano e meio, mais bónus. O PAOK acabou por aceitar rescindir o pré-contrato por erros de digitação, o meu empresário ficou amigo do diretor do PAOK, levava jogadores para lá e, desde então, eu estou na China… Já há quatro anos, um mês e um dia.

Fonte: Cortesia – Matheus
BnR: E que futebol é que encontraste na China?
M: O que descobri é que o futebol na China está a crescer a cada ano e, da mesma forma que saí do SC Braga para o Dnipro, saí na perspetiva do futebol na Ucrânia estar a crescer com o Shakhtar, Dínamo, Dnipro. Estavam a ir jogadores famosos para a China, o clube que eu vim tinha o Diego Maurício, o Rúben Micael, o Mario Rondón, jogadores que eu conhecia. Eles cumprem, fazem tudo certo, o clube está a crescer, o campeonato está a crescer e eu vim com esse objetivo de ajudar no crescimento do campeonato chinês e do clube, quer dentro de campo, quer com os mais jovens, a tentar ensinar-lhes alguma coisa.
BnR: Então já está a aparecer um Matheus treinador?
M: Eu tenho o conhecimento. Eu olho muito, analiso muito… Não o futebol, mas os treinadores. Li uma vez uma reportagem do Mourinho e ele dizia que «se quiseres ser treinador, vem fazer coisas diferentes e não o mesmo que os outros». Eu quero ser um treinador assim, que chega, faz o curso e faz um trabalho diferente em vez de abrir o Google e pesquisar o que é que o Guardiola ou o Klopp fazem. Eu quero fazer o meu trabalho.
BnR: Na China, no Brasil ou até em Portugal?
M: Não te vou mentir: um amigo meu, que é empresário em Portugal, mandou-me mensagem ontem a perguntar como estava a minha situação, se tenho em mente voltar a Portugal e eu disse «quem sabe?». Eu só sei que, neste momento, estou a dar-te uma entrevista, só sei isso. Mas se desse para voltar a Portugal para jogar… O pessoal pergunta como é que eu tenho 37 anos se faço sempre 12 quilómetros por jogo e eu só digo que é de família. Nem faço ginásio, só como bem. Por isso, quem sabe se no futuro vou aí para um clube, o futuro a Deus pertence.

Fonte: Cortesia Matheus
BnR: Olhando para trás, há algum clube que gostavas de ter representado?
M: Tem… Agora não muito, mas antes tinha uma vontade imensa era passar pelo Corinthians. Já em Portugal era jogar pelo Sporting, na altura em que estava aí. Porque muitos jogadores que foram ligados ao Corinthians passaram pelo Sporting e eu ficava naquela: «quem sabe se um dia…»
BnR: Já agora, não sei se sabes, mas agora o Carlos Carvalhal vai ser treinador do SC Braga…
M: Rapaz, até vou mandar mensagem para ele! Não nos falamos muitas vezes, mas ele chegou a tentar levar-me para Inglaterra uma vez, só que não tinha o passaporte e não deu. Mas amigo não é aquele que manda-te mensagens todos os dias, é aquele que de vez em quando te pergunta «como estás». Fico muito surpreendido e acho que o SC Braga fez uma decisão muito acertada. Com o plantel que têm, isto se não perderem alguns jogadores, podem surpreender no próximo ano.
BnR: Até podem lutar pelo título?
M: Olha, o SC Braga não é grande, é enorme. Hoje, pode lutar com qualquer um. Querendo ou não, a briga é contra Benfica, FC Porto e Sporting e está aí a prova que o SC Braga pode ganhar. No último jogo ganhou ao FC Porto e acho que pode fazer melhor que o que tem feito. Quem sabe, lutar pelo título do campeonato português, que já está bem na hora.
Foto de Capa: Cortesia – Matheus












