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«Tínhamos um país inteiro à volta do aeroporto» – Entrevista José Bizarro

Pedro Machado · 8 min

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cab reportagem bola na rede

O nome de José Bizarro não é indiferente a muitos dos adeptos de futebol portugueses, sobretudo os que viveram o final da década de 80 e inícios de 90, que se recordam das exibições do guarda-redes que manteve um sonho que se manteve real – o Mundial de Sub20 de 1989.

Em Ríade, na Arábia Saudita, ao lado de nomes como os de João Vieira Pinto, Paulo Sousa ou Fernando Couto, membros honorários da Geração de Ouro, conquistou um dos primeiros troféus (e aquele que mais impacto teve, até então) das seleções lusas.

Na guarda da baliza nacional, deu um contributo enorme para que o tal sonho fosse posível, mantendo-a inviolada em 5 dos 6 jogos (totalista) que disputou.

Bizarro, em cima, à esquerda, foi fundamental para a conquista do Mundial de Sub20 Fonte: FB de José Bizarro
Bizarro, na primeira fila, à direita, foi fundamental para a conquista do Mundial de Sub20
Fonte: FB de José Bizarro

A carreira do miúdo, com formação dividida entre Leixões, FC Porto e Benfica não conheceu, porém uma trajectória condizente com a façanha conseguida ao serviço dos sub20.

Depois do Mundial, deixou o Benfica e passou por Leixões, Louletano e Ovarense até chegar ao Marítimo, onde deixou uma marca vincada durante 5 épocas, antes de rumar a Espanha. Esteve três temporadas no país vizinho até vir terminar a carreira em Portugal, ao serviço do Maia.

Um percruso destes aguçou, claro, a curiosidade do Bola na Rede, que convidou José Bizarro para uma entrevista à qual, o agora técnico do Coimbrões, gentilmente, acedeu.

Mundial de sub20 de 1989

Bizarro é carregado em glória pelos seus companheiros Fonte: FB de José Bizarro
Bizarro é carregado em glória pelos seus companheiros
Fonte: FB de José Bizarro

O ponto de partida, claro está, só podia ser a conquista do campeonato do mundo de sub 20 em Ríade, «um momento único da vida de uma pessoa», não só porque «pouca gente tem acesso a algo deste género», mas também por ter sido «o primeiro grande momento do futebol português» e pela alegria das pessoas- «à chegada à Lisboa tínhamos quase um país inteiro à volta do aeroporto».

Nesse Mundial, José Bizarro foi um dos protagonistas da competição. Foi um dos cinco totalistas da equipa e cometeu a proeza de sofrer golos num jogo apenas (em 6), contra a Arábia Saudita, numa partida «que não era a feijões, porque não há jogos assim, mas era um jogo em que já estava tudo resolvido e que até serviu para o míster rodar alguns jogadores».

O segredo da boa performance defensiva nos outros 5 encontros (onde se inclui a vitória sobre o Brasil, por 1-0, e a final diante da Nigéria, vencida por 2-0) esteve «nos anos seguidos em que trabalhámos juntos. Já sabíamos o que cada um tinha de bom e trabalhávamos muito bem como equipa».

Desse plantel faziam parte nomes como os de Fernando Couto, João Vieira Pinto ou Paulo Sousa, craques a quem «já se notava qualquer coisa» mas que ainda não eram nada parecido no que se tornariam anos mais tarde. Paulo Sousa, por exemplo, «não era titular naquela equipa, muito menos era trinco, era mais um extremo»

A saída da formação, e as diferenças de 1989 para os dias de hoje

Nem todos os jogadores da fornada de 1989, porém, atingiram o nível do trio citado na página anterior. Entre eles Bizarro, que foi sucessivamente emprestado pelo Benfica, onde abandonara a formação – «o Benfica tinha 3 internacionais A – o Silvino, o Neno e o Bento -, e seria importante continuar a jogar, entretanto, foram buscar o Preud’Homme, que, na minha opinião, foi um dos melhores guarda-redes de todos os tempos a passar pelo nosso país» – até sair do clube, para depois passar  por Marítimo, Espanha e terminar a carreira de jogador na Segunda Liga nacional.

Um percurso que pode parecer modesto mas que, porém, foi melhor do que alguns dos seus colegas –«tinham muito valor, mas não conseguiram vingar. Podia ter sido melhor, sim, mas também podia ter sido muito pior».

Afinal, os tempos eram outros, e o salto da formação para o “futebol dos crescidos” não era tão fácil  – «as diferenças [para os dias de hoje] são enormes. Hoje, qualquer equipinha de infantis tem treinador de guarda-redes, e no meu tempo, só tive treinador de guarda-redes aos 16 anos, no Benfica.».

José Bizarro com a camisola do SL Benfica Fonte: Facebook de José Bizarro
José Bizarro com a camisola do SL Benfica
Fonte: Facebook de José Bizarro

A “agravar” as diferenças, há o desenvolvimento das infra-estruturas e a enorme visibilidade, que não exisitia na altura «hoje existe o centro de estágio dos três grandes, e que a nível de condições de trabalho não tem nada a haver com o que havia na altura. Além disso, a visbilidade era muito menor. Hoje em dia, todos os dias temos jogos que dão na televisão, enquanto que na altura, só passava um jogo por semana, de um dos três grandes».

Ou seja, mesmo para Bizarro, um campeão do mundo de sub 20, com escola de FC Porto – «a palavra derrota não exisita naquela casa» – e Benfica – «tínhamos miúdos a pedir autógrafos no final dos treinos das camadas jovens» – a afirmação nunca seria fácil.

Uma Segunda Liga ao nível da nossa Primeira

Imagem atual do Estádio do CD Ourense, que ainda se enche como no final da década de 90 Fonte: CD Ourense
Imagem atual do Estádio do CD Ourense, que ainda se enche como no final da década de 90
Fonte: CD Ourense

Depois de sair da formação, passou por Leixões, Louletano, Ovarense e Marítimo (onde fez história e conheceu um treinador que o marcou… mas já lá vamos) no pós-Ríade, antes de rumar a Espanha, onde representou o Ourense e o Leganés, da Segunda Divisão:

«Segunda Divisão é só de nome, porque estava quase ao nível da nossa Primeira Liga». Na altura, para além de estádios cheios – «tivemos jogos com quase 30 mil pessoas» -, Bizarro deparou-se com equipas de grande qualidade como «Sevilha, Villarreal, Alavés…  equipas que no nosso campeonato quase jogariam para ir à Europa» e com ordenados que faziam «compensar estar lá do que em 80% dos clubes em Portugal».

Coimbrões

Saiu de Espanha e veio terminar a carreira em Portugal, no Maia, depois de passar por Rio Ave e Leixões.

Abraçou a carreira de técnico, e hoje treina o Coimbrões, do Campeonato de Portugal. Depois de uma início de época promissor, com 3 vitórias em 4 jogos, a equipa começou a cair de produção, estando agora numa fase delicada, no lugar de acesso ao playoff de manuenteção e a apenas um ponto da descida directa. Algo que José Bizarro explica, numa primeira instância, pelo número de lesões – «não me lembro de ter um número tão grande de jogadores lesionados e de ter um banco em que, muitas vezes, o jogador mais velho é sénior de primeiro ano». É certo que «o bilhete de identidade não conta», mas a experiência, «sobretudo neste nível, conta muito».

Bizarro lamenta, portanto, não ter os meios que, por exemplo os três grandes têm – «não há equipas B nem nada parecido onde se possa recorrer. Às vezes ouvimos os clubes grandes queixar-se do problema de perder um ou dois jogadores e já ser um grande problema. Temos o caso do Brahimi, agora, com o FC Porto todo preocupado… nós quando ouvimos isso…»

Bizarro é o actual treinador do SC Coimbrões Fonte: SC Coimbrões
Bizarro é o actual treinador do SC Coimbrões
Fonte: SC Coimbrões

Para além das ausências, a calendarização do Campeonato Nacional «feita por gente que nunca calçou umas botas» não ajuda à estabilidade de uma equipa na prova – «perder 75% dos pontos assusta um bocado. Nós acabámos a primeira fase com 30 pontos e passámos a ter 9», algo que, no entender de Bizarro é criticável – «Um campeonato entende-se como uma prova de regularidade e isto de regularidade não tem nada. Ao Coimbrões, bastava ficar com apenas 50% dos pontos para a época ficar mais que feita! Agora temos que estar a fazer contas».

A forma como este campeonato está estruturado desviruta-o, já que «há equipas que apostam tudo na primeira metade da época e depois andam a passear e há outras que passam a primeira fase da época a brincar para depois apostar tudo na fase final».

O Guarda-Redes Moderno

Dadas as adversidades impostas pela calendarização e pelas lesões, Bizarro não tem tido margem para implementar o seu ADN no modelo de jogo. Tentámos aliviar essa carga emocional, e puxámos ao lado mais tático do agora treinador e questionámo-lo sobre o que deve ser um guarda-redes moderno, começando, claro, no jogo de pé, algo emergente- «hoje em dia é importantíssimo. Repare que 70% da minha carreira foi passada sem ter que jogar com os pés, só comecei a jogar mais com os pés com 26,27 anos».

Rui Patrício, «o melhor de Portugal, sem dúvida nenhuma» Fonte: ESPN
Rui Patrício, «o melhor de Portugal, sem dúvida nenhuma»
Fonte: ESPN

Passamos para o posicionamento ofensivo de um guarda-redes: «hoje em dia, um guarda-redes é mais um jogador do onze, tanto no processo defensivo como ofensivo», acrescentando, porém, outro aspecto fundamental, e que se prende com o físico – «eu era alto para a posição, mas se jogasse hoje em dia, era baixo e esse fator, juntamente com o fator pés, é fundamental».

Perante tamanhas diferenças, da década de 90 para a de hoje em dia poderia tornar-se difícil encontrar o melhor na posição que foi de Bizarro, mas há lendas intemporais, que se adaptam ao que o contexto lhes traz, como Buffon, o melhor guarda-redes do mundo para Bizarro, a par de Manuel Neuer.

A nível nacional, Bizarro também não tem dúvidas- «Rui Patrício!».

INICIATIVA BOLA NA REDE

 

Quem vai ganhar o campeonato?

É difícil mas neste momento tenho que dizer que é o Benfica porque é quem vai à frente.

 

Quem vai ganhar a Champions?

Essa ainda é mais difícil. Se me perguntasse quem é que eu gostaria que ganhassse, posso dizer Real Madrid ou o Monaco. Mas depois da exibição de ontem, e tendo em conta o historial de clube, acho que o Real é favorito. Na semana passada tivemos uma final antecipada.

 

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Equipa ideal com quem partilhou o balneário

Eisshh…. isso é muito complicado! Tive tantos companheiros de tanta qualidade!

Mas guarda-redes foi o Everton, que jogou comigo no Marítimo, sem dúvida nenhuma; ele era um monstro de trabalho. Defesa central, o Fernando Couto, sem dúvida também. A par do Paulo Madeira, foi o melhor central que trabalhou comigo… de resto, há tanta gente! Mas podia incluir também o João Pinto, pela sua capacidade de jogar a ponta-de-lança, extremo… e fica um na baliza, dois na defesa e outro no ataque

O treinador já é mais fácil: Paulo Autuori. Excelente treinador, condutor de homens incrivel e de uma humanidade impressionante. Nota 10 em todos os aspectos.

Foto de capa: Facebook de José Bizarro

Pedro Machado

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