
Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google
Sob o coro de latidos como som de fundo, João Henriques entrou na arena das entrevistas do Bola na Rede desde o seu Ribatejo. Connosco recordou uma carreira de treinador que já conta com mais de vinte anos e que começou com um estágio no velhinho José de Alvalade. A alma ribatejana não o deixou cair perante as dificuldades e pela AF Santarém foi pegando o touro quase tantas vezes quanto os títulos que por lá conquistou. No Médio Oriente chocou com uma cultura diferente, em Fátima subiu aos céus da Segunda e junto ao mar de Matosinhos deixou Homens, aqueles que conheceu Bebés. Na capital do móvel não teve tempo para assentar a mobília, mas a devoção ao futebol levou o CD Santa Clara a estender-lhe a mão. Numa faena quase impossível, retribuiu com as duas melhores épocas na história dos açorianos. Por agora, aguarda com expetativa a chegada de uma proposta condizente com a sua qualidade, na certeza porém de que a oportunidade há-de surgir.
– A certeza de querer ser treinador e a dificuldade de o ser –
“Eu precisei de vinte anos para chegar aos campeonatos profissionais e há outros que precisam de dois dias”
Bola na Rede (BnR): Deixe-me começar esta entrevista com um agradecimento público, em nome do futebol português, por ter sido o treinador do único clube da Primeira Liga que aceitou abdicar das regalias de jogar na sua casa para o bem da saúde pública. Obrigado.
Quem era o João Henriques antes de ser treinador?
João Henriques (JH): O João Henriques é treinador desde a altura da faculdade. No último ano do curso, já sentia esse apelo e já existia essa veia. Antes disso, era um jovem que queria ser jogador – e fui, mas a um nível amador – e que estava a tirar a licenciatura em Educação Física, mas sempre com o intuito de ser treinador de futebol.
BnR: Estreia-se nos bancos com apenas 23 anos, como treinador estagiário dos sub-19 do Sporting CP, e lidou de início com alguns futuros craques, casos de Marco Caneira ou Luís Boa Morte. Que memórias guarda desse ano?
JH: Essa primeira experiência estava inserida num trabalho de Metodologia do Treino, do quarto ano da faculdade, no qual tínhamos de fazer um estágio de duas semanas para, depois, escrever um relatório, mas acabei por ficar até ao final da época e assistir àquela equipa ser campeã nacional de sub-19. Foi o primeiro trabalho com jogadores de seleção, de muita qualidade, e foi, também, o entender uma realidade completamente diferente daquela que eu tinha vivido há pouco tempo como jogador. A diferença do Sporting – e dos clubes grandes – para os demais era muito grande, sobretudo na metodologia e nas condições de treino. Naquela fase, ter estado no Sporting Clube de Portugal foi muito gratificante e o bichinho começou exatamente ali, ao ver aquela qualidade toda e, ainda por cima, a equipa sagrar-se campeã nacional. Mas também foram tempos difíceis, em que andava, com o meu carro, atrás do autocarro do Sporting, porque não era permitido ao estagiário ir junto da equipa. O próprio trabalho, em termos estatísticos, ainda era feito à mão: filmava os jogos e depois fazia aquela recolha muito rudimentar dos dados; para bem de todos nós, as condições de trabalho evoluíram depressa e bem. A forma de estar e de lidar com os jogadores foi outro dos ensinamentos que retirei: alguns já com determinado ego porque eram jogadores de seleção e para os quais, estar ali, já era muito fácil. O campeonato era reduzido e apenas na última fase havia mais competitividade e rivalidade. A minha maior memória é precisamente essa: o perceber aqueles egos de jovens que, com aquela idade, já muito grandes.
BnR: Nunca quis ter outra profissão?
JH: Não. Eu fui para a Faculdade de Motricidade Humana com o objetivo de ser treinador, não obstante gostar da área da Educação Física, mas o meu objetivo não passava por ser professor durante muito tempo. Era mais uma forma de ter uma rede para poder andar no trapézio à vontade e, quando tivesse de cair, estava salvaguardo pelo trabalho de base.

Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede
BnR: A mudança para Lisboa foi pacífica?
JH: Sim, tranquilo. Sempre me adaptei muito bem às mudanças todas. Fui muito habituado pelos meus pais, desde novo, a viajar bastante e estar em vários sítios, e isso permitiu-me chegar a Lisboa e adaptar-me facilmente à realidade da cidade.
BnR: O que o fez voltar para Tomar?
JH: No fundo, foram as colocações: era mais fácil ser colocado em Tomar, na área de Educação Física, e assim foi. No ano de estágio da licenciatura fiquei em Lisboa, mais concretamente em Cascais, e fui treinar o Atlético Clube de Portugal, onde tive a minha primeira experiência a solo como treinador. A partir do momento em que as pessoas de Tomar souberam que voltei licenciado e com experiência de treino – e como tinha sido atleta do clube há pouco tempo – acabei por começar a treinar os sub-13 do União de Tomar.
BnR: Por lá ficou até emigrar, tendo passado por diversos níveis e clubes da AF de Santarém. De que modo rentabiliza, atualmente, esta vivência nas divisões amadoras do futebol português?
JH: Em termos de base experimental, no campo, para fazer muitos testes e para continuar a crescer, foi extraordinário. Passar por vários escalões de formação, passar para adjunto de futebol sénior, depois ter essas experiências de subidas de divisão, de vencer taças e supertaças do Ribatejo, ser campeão distrital (…), a minha ambição sempre foi vencer. Por isso é que deixei de jogar cedo: percebi que ia ser apenas mais um nesses campeonatos das terceiras e segundas divisões nacionais e que nunca chegaria à Primeira Liga. Se houve algo que sempre soube ver foi a qualidade. Seria um jogador como a maioria e isso sabia-me a pouco. Fui sempre muito habituado a ganhar, até como jogador do União de Tomar na formação: campeão distrital, campeonatos nacionais e, depois, uma experiência pelo futebol de salão, com uma subida à primeira divisão nacional. Como treinador, senti que podia ser muito mais do que aquilo que fui como jogador. O trajeto foi este. A primeira experiência no Sporting foi ver os outros a trabalhar e serem campeões nacionais; no Atlético as coisas também me correram muito bem e, quando volto ao União de Tomar, sou convidado pela equipa técnica dos seniores para integrar a equipa como adjunto, acumulando com os sub-13, e a equipa A sobe do campeonato distrital à terceira divisão e é campeã distrital – mais um título. Tudo isto foi alimentando o que mais queria e mais desejava, que era continuar a aprender, a evoluir; passei por balneários completamente diferentes, paguei para treinar, investi na minha formação para depois ter este know-how. Houve clubes muito difíceis, sem material, sem adjuntos, sem condições, com os jogadores a chegar em cima da hora do treino vindos do trabalho, muito cansados; havia jogadores profissionais, semiprofissionais, vindos do estrangeiro à procura de um sonho, os que apenas se querem divertir e nós temos de apoiá-los a todos. Tudo isto serve-nos para olharmos para trás e saber de onde vimos. Acho que isto é muito importante: saber de onde vimos para chegar onde queremos.

Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede
BnR: Se o nome João Henriques tivesse associado um passado como jogador, teria tido mais facilidades?
JH: Não tenho dúvidas nenhumas. Houve uma altura em que, pelo sucesso que teve José Mourinho, foi aberto um pouco de espaço a treinadores vindos da formação académica e da parte teórica, mas senti sempre grandes dificuldades. A resposta era sempre a mesma: não tens experiência. E atualmente vemos treinadores sem experiência absolutamente nenhuma a terem oportunidades que eu ainda não as tive. O ex-jogador tem a porta logo aberta porque há o reconhecimento de que esteve muitos anos num balneário, logo vai ser bom treinador. Continuo a dizer: independentemente de onde vem, o treinador pode ou não ter competência. Um treinador vai-se moldando: há coisas que são inatas, há outras em que é preciso conhecimento. Eu precisei de vinte anos para chegar aos campeonatos profissionais e há outros que precisam de dois dias.
BnR: De que forma a costela ribatejana se manifesta na sua personalidade?
JH: Acima de tudo, a coragem de enfrentar as coisas de frente. Aqui, no Ribatejo, diz-se que pegamos os touros pelos cornos e é assim que encaro as coisas: sem medo e com muita coragem. Enfrentar as dificuldades com um sorriso nos lábios e com muita confiança. Costumo dizer aos jogadores: vamos sorrir para a adversidade e é isso que nos faz persistir e sermos abnegados à procura daquilo que queremos. Foi isso que me manteve vivo na procura do meu sonho, porque houve alturas muito difíceis que me deram vontade de desistir. Tentamos, tentamos, e voltamos a levar negas – apesar de até haver gente que reconhece que as coisas foram bem feitas, mas parece que nunca chega para ter uma oportunidade. Foi preciso esta alma ribatejana para continuar à procura daquilo que queria e que acabei por conquistar.
– De malas feitas para o Médio Oriente, onde não se moveu um “grãozinho” –
“A parte mais difícil do trabalho na Arábia [Saudita] era precisamente a parte da comunicação”
BnR: Em 2012 trocou os pampilhos de Santarém pelas tâmaras sauditas. Como é que lhe chegou esta proposta?
JH: Começa exatamente na altura em que vou para o CD Fátima, a convite do Paulo Leitão, para ser seu adjunto. Eu estava no Abrantes FC, na distrital, e o Fátima estava na II Divisão B. Trabalhámos, identificámo-nos e aprendi muito com ele. Algum tempo depois, o Paulo regressa ao Sporting para coordenar os projetos internacionais e é quando há uma ligação entre o Al-Ahli de Jeddah, da Arábia Saudita, e o clube leonino, através de um protocolo que fizeram. Uma das fases desse projeto era a integração de treinadores portugueses na formação do Al-Ahli e o Paulo foi o responsável por recrutar treinadores para irem para esse projeto. Convidou-me a mim, juntamente com o José Vasques, o Luís Gonçalves – que é atualmente treinador de Moçambique -, o Rui Bento e o João Couto; foi um grupo grande que partiu para aquela aventura.
BnR: A sua família viajou consigo?
JH: Não.
BnR: Como era a vida de um português na Arábia Saudita, um país no polo cultural oposto ao nosso?
JH: Foi um primeiro impacto difícil. A nível cultural, acima de tudo. Depois, a distância era grande e com as filhas muito pequenas foi a minha esposa que ficou a tomar conta do barco. Mesmo as tecnologias, sobretudo na Arábia Saudita, eram muito atrasadas e era difícil termos uma rede em condições para meter o Skype a funcionar. Foi um confronto de mentalidades: íamos com a ideia de que íamos mudar o mundo, íamos ajudar e levar muita coisa nova, mas rapidamente percebemos que ia ser muito difícil mudar um grãozinho de areia que fosse no sítio onde estávamos. Foi uma aprendizagem muito grande, mas com um início muito difícil especialmente pelo distanciamento familiar.
BnR: O que o motivou no projeto que lhe foi apresentado pelo Al-Ahli Jeddah?
JH: Inicialmente íamos com a ideia de implementar o modelo Sporting. O impacto financeiro era muito positivo, mas, sobretudo, os treinadores com que ia – alguns experientes e com muita capacidade – iam permitir-me evoluir, aprender e partilhar as minhas ideias para além daquilo que era a base do Sporting. Estava consciente de que seria mais um passo importante na minha carreira. Já estava há demasiado tempo no campeonato distrital ou na segunda divisão e, chegando aí, sentia que havia uma barreira para o futebol profissional que não dava para ultrapassar. Então achei que, por ali, podia ganhar mais currículo, por ser um projeto internacional ligado a um clube grande.
BnR: Acumulou o cargo na formação com o de treinador adjunto da equipa principal e jogou a Liga dos Campeões. Como avalia o nível do futebol asiático em comparação com o português?
JH: Quando cheguei havia uma distância maior. Penso que, gradualmente, com a chegada de treinadores estrangeiros – quando saí entrou o Vítor Pereira, também já lá esteve o Jorge Jesus e agora estão lá mais uns quantos – houve um crescendo de qualidade. Mesmo os jogadores estrangeiros que foram para este mercado também eram cada vez melhores e deu-se um crescimento exponencial do futebol saudita. Quando chegámos, não era nada visível esse crescimento e isso mostrou-nos grandes diferenças para os campeonatos europeus. A juntar a isto, somam-se as dificuldades climáticas, de alimentação e a parte religiosa – que condiciona as sessões de treino com muitas paragens. Foi uma aprendizagem boa para a minha experiência nos Emirados.
Quando João Henriques estava no Al-Ahli, da Arábia Saudita, o clube esteve presente na Liga dos Campeões Asiática, tendo sido afastado pelo FC Seoul, da Coreia do Sul.
BnR: E a língua?
JH: Tive de aprender árabe o mais rapidamente possível.
BnR: Os jogadores não falavam inglês?
JH: Em inglês não chegava a todos e, na tradução, não sabíamos o que lhes chegava. Considero que a comunicação é extremamente importante, mais a emoção que damos quando comunicamos e o tradutor não passava a emoção que queríamos. Tínhamos duas vias: aprendíamos árabe e era mais rápido ou através do inglês e nem todos tinham essa capacidade. Então a parte mais difícil do trabalho na Arábia era precisamente a parte da comunicação. Algo que melhorou muito nos Emirados, porque, para além de termos um tradutor que passava as emoções, os nativos daquele país têm um inglês melhor do que tinham os sauditas.
BnR: Alguma história caricata dessa altura?
JH: Passámos praticamente dois meses a treinar quatro jogadores.
BnR: Explique.
JH: Nesse ano, existiram várias provas de seleções, tanto jovens quanto da principal, e que na Ásia se desenrolam ao mesmo tempo que os campeonatos nacionais. Em outubro/novembro, ficámos sem os jogadores porque eles foram para a seleção muito tempo – não é como aqui, em que vão uma semana antes do jogo e está resolvido; lá, vão um mês antes e nós continuávamos a jogar. O José Peseiro, que estava na equipa A, não podia ficar sem jogadores e ia buscar aos sub-23 os melhores e nós não podíamos ir aos sub-19 porque também estavam na seleção. Então houve uma altura em que tínhamos apenas quatro jogadores e eu dizia, por piada, que éramos a equipa técnica mais bem paga do mundo em rácio. Íamos para o treino e já nem sabíamos o que havíamos de fazer. Depois jogávamos com os jogadores que o José Vasques não convocava – nem sequer os treinávamos –, juntávamos ali alguns jogadores e passámos algumas dificuldades; se não tínhamos um médio, adaptávamos um central. Foi o período em que tivemos os piores resultados, apesar de, chegados ao final da época, sermos vice-campeões.
– Aparição em Fátima, a onda do Estádio do Mar e o passo maior do que a perna –
“No jogo da Taça da Liga em que empatámos no Dragão foi quando disseram pela primeira vez «Este Leixões joga bem! Quem é este treinador?»”
BnR: É religioso?
JH: Sim.
BnR: O apelo da saudade, juntamente com o de Fátima, era impossível de recusar?
JH: Voltei a Portugal convencido de que estas duas experiências no estrangeiro me abrissem as portas para uma eventual entrada nos campeonatos profissionais, mas cedo percebi que ninguém viu o que tínhamos feito no Médio Oriente. Entretanto, surgiu o convite do Fátima, que tinha um investidor saudita e um administrador tunisino – este último até tinha estado ao mesmo tempo que eu na Arábia Saudita -, mas foi por indicação do meu atual adjunto, Luís Morgado, que lá fui parar. Fui a uma reunião, vi que conhecia os investidores e foi fácil chegar a acordo porque a primeira coisa que me disseram – e lá está, são os tais desafios de que eu gosto – foi “Para este projeto, não há margem de erro: é para subir”. Felizmente foi isso que aconteceu: foi um campeonato com dois empates, o resto vitórias e levámos outra vez o Fátima à segunda divisão.

Fonte: CD Fátima
BnR: Com dois sauditas e um tunisino no plantel. O futebol asiático é um mercado para o qual os clubes portugueses deviam olhar com outra atenção?
JH: Sim, e os últimos anos têm sido um bom exemplo.
BnR: Taremi e Rashid à cabeça.
JH: Existem alguns bons jogadores na região que precisam de sair daquele meio para mostrarem ainda mais qualidade, porque tanto nos EUA como na Arábia Saudita vi jogadores com muito talento, mas que necessitavam da exigência dos campeonatos europeus para mostrarem ainda mais o seu valor. Esse é um mercado interessante, desde que haja disponibilidade dos jogadores para a parte desportiva, porque na financeira eles estão muito bem e não precisam de vir para a Europa. Tem de ser uma aposta de carreira, mas, se estiverem dispostos a isso, não tenho dúvidas de que podem acrescentar. O jogador saudita é muito técnico, às vezes até quer adornar em qualquer parte do campo, mas bem enquadrado nas questões táticas do jogo (…) esta era uma questão muito problemática na equipa do Al-Ahli: quando chegámos, jogava em 70 metros do campo a defender ou a atacar; era igual.
BnR: Falemos da época 2017/18. Foi Kenedy quem o convidou a juntar-se à equipa técnica do Leixões SC?
JH: Sim.
BnR: Surpreendeu-o a sua saída ao fim de três jornadas?
JH: É curioso porque estava a dar um curso de treinadores – algo que fazia na AF Santarém até entrar para o Leixões – e nessa altura o Kenedy estava a ter aulas comigo. Conhecemo-nos aí, conversámos e ele tentou convencer-me a fazer parte da equipa técnica; fui dizendo sempre que não até à última – até porque tinha um convite do 1.º de Dezembro, com quem já tinha tudo tratado. Com todo o respeito, dizia-lhe que não me via a dar um passo atrás ao voltar a ser adjunto, mas ele foi muito honesto comigo, dizendo-me que não queria que eu fosse só adjunto dele, que ambos seríamos os treinadores. Logicamente ele era a figura de cartaz, mas em treino, na preparação, nos conteúdos e na comunicação queria que fôssemos os dois a fazê-lo. Fui dizendo que não até ir ver o jogo da liguilha Leixões SC x SC Praiense, que ia determinar quem estaria na Segunda Liga na época seguinte. Quando lá cheguei, vi um estádio completamente cheio e foi isso que me convenceu. Era aquilo que queria, que precisava: aquele tipo de ambiente e de clube, porque o Leixões é um clube enorme. Aceitei o convite naquele momento. À terceira jornada, o Kenedy sai e praticamente obriga-me a ficar; ele, o Presidente e o resto da equipa técnica convenceram-me. O Presidente chegou ao pé de mim e disse-me “Tens uma semana para mostrares que tens condições para ficar à frente do Leixões”.

Fonte: Leixões SC
BnR: Encarou o desafio como algo a prazo ou percebeu de imediato que era uma oportunidade de ouro?
JH: Percebi que, saindo o treinador principal, a imagem que passava para fora era a do adjunto sem condições que ia ficar à frente da equipa, e o Presidente quis testar se havia apoio dos adeptos na decisão ou não. Uma decisão que tinha de ser sustentada. Mas estava à vontade, porque não foi um trabalho de uma semana: nós já estávamos já dentro do clube; só não foi fácil os adversários que íamos apanhar: FC Porto B, logo no primeiro jogo.
BnR: Vitória por 1-0.
JH: Depois fomos a Braga, onde empatámos 2-2, e voltámos a jogar em casa e vencemos, se não me engano. Fizemos este percurso que sustentou a decisão do Presidente e não foi preciso um terceiro jogo. Aliás, logo a seguir ao jogo de Braga, disse publicamente que eu é que ia ser o treinador principal. Tínhamos muita confiança e os jogadores colaboraram, porque estavam comprometidos e identificados com o processo. Ajudaram no empenho e na vontade, porque perceberam que eu estava a prazo e eles mostraram que queriam o João Henriques logo no primeiro jogo.
BnR: O impacto na classificação foi tremendo e estendeu-se à valorização de jogadores, como [Stephen] Eustáquio ou André Ferreira. Acredita que estes são os dois principais medidores do sucesso de um treinador?
JH: Esses são dois fatores importantes. Outro é a mensagem que os jogadores vão passando entre eles e que, consequentemente, passa também de clube para clube; começa-se a falar daquele treinador, de que o trabalho está a resultar, e a tabela classificativa vai corroborando estas ideias. A valorização dos jogadores, como disseste, é fundamental, porque os clubes, atualmente, procuram muito isso – alguém que consiga potenciar os ativos -, mas, mais uma vez, isso também só se consegue com a tabela classificativa. Por último, um fator que não é controlado por nós e que tem a ver com o futebol-negócio que existe; há decisões estranhas que ninguém entende, em que existem mais valores em jogo do que propriamente estes da “meritocracia”. Mas, sinceramente, o que senti que levou os clubes a olharem para mim foi a visibilidade que tive nos jogos com os grandes. No jogo da Taça da Liga em que empatámos no Dragão foi quando disseram pela primeira vez “Este Leixões joga bem! Quem é este treinador?”.
Sismo na zona norte? Sim, nós contratamos o João Henriques para fazer os nossos adversários tremerem! Deixem a vossa mensagem de boas-vindas à nova equipa técnica. #fcpf #novaequipatecnica #futuro pic.twitter.com/eEiGMMhOfO
— FC Paços de Ferreira (@fcpf) January 15, 2018
BnR: A saída para o FC Paços de Ferreira em janeiro foi um passo maior que a perna?
JH: Foi um risco calculado. Curiosamente, tínhamos defrontado o Paços duas vezes pelo Leixões: primeiro na pré-época, em que fomos a casa deles empatar e, depois, para a Taça da Liga, no Estádio do Mar, em que vencemos. E eu sabia exatamente como era a equipa do Paços (…), sabia que estava numa situação difícil e era um dos candidatos à descida. Quando apareceu o convite, o risco foi calculado. Era preciso reforçar a equipa em janeiro para que não passasse por dissabores mais para a frente e confiança naquilo que era o nosso trabalho. O impacto da chegada e da primeira semana de trabalho resultou numa vitória na Vila das Aves; na semana seguinte também vencemos na receção ao CD Feirense. Estávamos perto do final do mês de janeiro – a poucos dias do fecho do mercado – e estas duas vitórias fizeram mal a todos porque, como os resultados apareceram de imediato, acabou por não haver o reforço da equipa; a direção pensou que já estava resolvido e não era preciso investir. Entretanto apareceram as lesões e os castigos num plantel onde a qualidade já era reduzida e a equipa não conseguiu reunir os pontos suficientes para a manutenção. Foi uma desilusão muito grande. Nunca tinha passado por uma situação idêntica e temi que as pessoas olhassem apenas para o resultado e não para o conteúdo.
– O “milagre” açoriano, as condições de distrital e a busca por voos maiores –
“O que o CD Santa Clara fez nestas duas épocas foi um milagre, porque as condições não são de todo parecidas com as que os outros clubes têm”
BnR: Mas houve uma Santa Clara, ou não fosse um treinador abençoado. Como foi viver nos Açores?
JH: Foi novamente um afastamento familiar, porque a família teve de ficar no continente, e essa foi a parte difícil. Estávamos, outra vez, a duas horas e meia de viagem de avião, e estar com elas apenas de 15 em 15 dias, por um dia e meio e a correr, porque tinha de voltar para os Açores, não foi fácil. O peso da insularidade foi a parte difícil, porque prejudica não só em termos pessoais, mas também a equipa, pelo cansaço das viagens constantes. De resto, as pessoas acolheram-nos muito bem; é uma região fantástica, tranquila para se trabalhar e viver.
BnR: A falta de estruturas continua a condicionar o salto do clube para outro patamar?
JH: É o principal problema do CD Santa Clara e vai continuar a ser enquanto não conseguirem resolvê-lo. É, segundo as pontuações atribuídas pela Liga aos relvados, o pior das ligas profissionais. E estamos a falar do relvado principal do estádio onde jogávamos, porque os campos de treino são dez vezes pior. As condições de treino são muito débeis, ao nível da distrital, e é um problema grave que o CD Santa Clara não consegue solucionar porque não tem infraestruturas próprias – está dependente das do Governo, que dá o que tem, mas que ainda não investiu o suficiente e não percebe que clube pode ser um dos veículos importantes para a economia da própria região. O que o CD Santa Clara fez nestas duas épocas foi um milagre, porque as condições não são de todo parecidas com as que os outros clubes têm. O nosso ginásio era no meio da população e treinávamos no meio de toda a gente; o Governo é que dita quais os relvados de treino que podem ser utilizados e, muitas vezes, não estão marcados ou com a relva cortada. Para além disto, é uma região em que a parte climatérica também condiciona, com vento e chuva muito intensos, e que por vezes não nos permitia treinar. Isto fazia com que os relvados fossem muito rijos, o que em termos físicos castiga bastante os jogadores; estes relvados, inclusive, são dentro de escolas secundárias onde, simultaneamente aos nossos treinos, decorriam aulas de Educação Física, num festival de apitos de um lado para o outro. Tínhamos de deslocar-nos já equipados do estádio para os campos de treino e, se chovesse, regressar todos molhados, porque só conseguíamos tomar banho no estádio. Muitas condicionantes para uma Primeira Liga. Eu abri as portas a muita gente para estágios e ficavam surpreendidíssimos com a qualidade que a equipa demonstrava para as condições que tinha.

Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede
BnR: Como explica essa qualidade e consequente sucesso desportivo?
JH: No fundo é conseguir fazer com que os jogadores estejam comprometidos com duas ou três situações fundamentais para o futuro individual deles: perceber que o coletivo tem de estar à frente de tudo; estarem comprometidos com cada uma das missões que têm em campo e com os objetivos, porque são traçados por eles também, e, depois, é apostar num perfil de jogador muito especifico para poder estar numa ilha, sujeito a estas condições de trabalho e às viagens constantes, sem virarem a cara à luta nos momentos mais difíceis. Este recrutamento foi fundamental e conseguimos entrar na cabeça dos jogadores: sabíamos que tinham muita capacidade, mas, por vezes, também se sentiam frustrados por não fazer mais e melhor, porque as condições não permitiam. Isto ficou à vista quando tivemos boas condições: apesar de estarmos sempre a jogar fora, conseguimos resultados extraordinários e exibições fantásticas.
BnR: Até à sua saída, era o segundo treinador há mais tempo numa equipa da Primeira Liga. De que modo a estabilidade diretiva impacta diretamente com a desportiva?
JH: Neste momento, ninguém tem paciência e todos são resultadistas. Estão a ir apenas atrás da parte visível, que é olhar para a tabela classificativa, e na fase do recrutamento não olham para o perfil do treinador adequado para aquilo que eles pretendem para o clube. É avulso: “Qual é o treinador que está na moda?”. Depois, quando a equipa começa a jogar, reparam que não era aquilo que queriam. Não há, na maior parte das vezes, a sensatez de pensar “Nós queremos um treinador com o perfil A, B ou C” e, depois de analisar estes três perfis idênticos, ver aquele que se vai adequar melhor ao que se pretende. Os resultados vão mandar sempre, mas se houver uma boa escolha, as pessoas também têm mais confiança e foi isso que aconteceu no CD Santa Clara. Quando me contactaram foi pelo meu perfil, forma de jogar e forma de estar e, depois, acreditaram que a escolha deles foi a correta, porque não houve sempre bons momentos. A estrutura estava presente e sentia se os jogadores estavam satisfeitos com o trabalho. Isto leva a que haja estabilidade para todos, seja a equipa técnica, a administração ou os jogadores. Faz-me muita confusão que, como aconteceu esta época, passem dois, três, quatro ou cinco treinadores por um clube e não têm nada a ver nas suas ideias. Faz-me uma confusão tremenda. Não há um projeto. Não há uma ideia. Não há nada.
BnR: Adepto confesso do coletivo, não tem por hábito destacar jogadores de forma individual. Mas, em relação a Zaidu, o FC Porto fica com um diamante por lapidar?
JH: Fica com um diamante que já vai sendo lapidado.
Zaidu Sanusi tem feito uma ascensão incrível em Portugal e agora assinou pelo @FCPorto. O que achas do jovem lateral nigeriano? 🐉🇳🇬⚡️https://t.co/FAqdrFpL2p
— Bola na Rede (@BolaNaRedePT) September 1, 2020
BnR: Verdade. Honra lhe seja feita, mister.
JH: Mas ainda tem muita margem por lapidar. É um jogador que vai ter muito para acrescentar àquilo que já demonstrou. Antes do CD Santa Clara, houve alguém que também já o tinha ajudado e, chegando aos Açores, ajudámo-lo a ganhar o seu espaço e a exibir-se da forma como se exibiu. Vai continuar a crescer, nomeadamente na tomada de decisão, no critério e no conhecimento do jogo.
BnR: Há quem diga que o SL Benfica perdeu o campeonato no extraordinário 4-3 frente ao CD Santa Clara na Luz. Dentro de campo, tiveram perceção da magnitude daquele resultado?
JH: Inicialmente não percebemos o impacto para o SL Benfica; depois sim. Mas tínhamos vindo de uma vitória em casa frente ao SC Braga e estávamos muito confiantes. Tínhamos treinado bem naquele período estranho da pandemia – na parte individual e, mesmo quando começámos a entrar nos subgrupos, na parte coletiva -, toda a gente se sentia bem, confiante e olhávamos uns para os outros, e sentíamos que estávamos num bom momento, ao contrário do SL Benfica. Deste modo, jogar sem público colocava-nos em pé de igualdade com eles. Durante o jogo, sentimos exatamente isso, ao retirarmos-lhes a bola e criarmos a maior parte das oportunidades; chegámos ao intervalo e tínhamos sete oportunidades contra quatro. Estávamos a ganhar 1-0 e sabíamos que, continuando assim, sem adeptos nas bancadas para ajudar a reverter a situação, tínhamos uma oportunidade única de fazer ali um bom resultado. Inimaginável a situação do 4-3, mas também fomos suficientemente atrevidos para isso, especialmente quando chegámos ao 3-3, a dez minutos do fim. Quando todos pensavam que íamos defender porque o empate já era bom, senti que era o momento: não íamos tirar nada do ponto, portanto vamos tentar fazer história e vamos à procura de ganhar o jogo. Com as substituições e com a mensagem que passei para dentro, levou-nos a pressionar o SL Benfica muito à frente e a roubar aquela bola que nos permitiu fazer o golo da vitória. Nesse momento sentimos que era o reconhecimento do trabalho de duas épocas, andámos durante esse tempo a fazer bons jogos contra os grandes, mas ainda não tinha surgido a cereja no topo do bolo e aquele grupo de trabalho merecia.
Liga NOS (28ªJ): Resumo Flash SL Benfica 3-4 Santa Clara #LigaNOS #SLBCDSC
🎥⏱ https://t.co/4dbXcqyo7x pic.twitter.com/AriSLaEsLD— VSPORTS (@vsports_pt) June 23, 2020
BnR: Poucos dias depois desta vitória disse que ia comer um peixinho com o Presidente do CD Santa Clara para decidir o futuro. Ficou alguma espinha encravada para não renovar?
JH: Não. Desde muito cedo senti que este ciclo ia terminar, porque havia um desgaste grande das viagens, do distanciamento familiar. Havia uma aposta grande em estar mais perto da família este ano e senti que aquilo que fiz pelo clube teve um princípio, um meio e um fim, e que os ciclos têm de ser renovados. Foi-me dito que o CD Santa Clara ia ter o mesmo orçamento, as mesmas condições e os mesmos objetivos e decidi que era o momento de passar para a fase seguinte da carreira do João Henriques.
BnR: Que fase é essa?
JH: É procurar algum clube com objetivos mais altos.
BnR: Que lute por lugares europeus?
JH: Nós ficámos com os mesmos pontos do Moreirense FC e, todas as equipas que ficaram à nossa frente, têm esse objetivo. Portanto, é olhar para essas equipas e para uma oportunidade que possa aparecer. Não consigo ser um treinador de manutenções.
BnR: Falou-se de Vitória SC, Rio Ave FC e CS Marítimo, mas os bancos entretanto foram ocupados.
JH: O objetivo é Portugal, num desses clubes. Houve conversas com alguns deles, situações que estiverem muito adiantadas, mas que acabaram por não se concretizar. Rejeitei situações idênticas à do CD Santa Clara, porque não fazia sentido sair para um projeto semelhante. Se não surgir uma oportunidade, há duas opções: ou fazer um período sabático de aprendizagem ou, como já tem acontecido, aceitar um dos convites do estrangeiro, que queria evitar, mas que como profissionais não podemos dizer “nunca”. Estou a analisar essas situações.
BnR: De quem são os convites do estrangeiro?
JH: Está tudo em análise.
BnR: A ficar em Portugal, via-se a entrar num projeto a meio?
JH: Nunca mais queria fazer o que fiz no Paços, mas, dependente do projeto, não posso dizer que rejeito de todo que isso possa acontecer.
BnR: Sistema tático preferido?
JH: 4-3-3.
BnR: Melhor jogador que treinou?
JH: Um de cada setor: Fábio Cardoso, Lincoln e Schettine.
BnR: Jogo que mais o marcou?
JH: 0-0 no Dragão, pelo Leixões SC, e o 4-3 na Luz, pelo CD Santa Clara.
BnR: Equipa que mais gosta de ver jogar?
JH: Liverpool FC.
BnR: Equipa mais difícil que defrontou?
JH: O SL Benfica da época no Paços e o FC Porto esta época.
BnR: Estádio mais bonito onde já esteve?
JH: Wembley.
BnR: Equipa que sonha treinar?
JH: Liverpool FC.
BnR: Treinador que mais o influenciou?
JH: [Jurgen] Klopp do Mainz 05.
Artigo revisto por Joana Mendes









