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Clube Futebol Benfica: A luta pela reafirmação no topo do Futebol Feminino

Guilherme Costa · 11 min

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Atendendo à enorme evolução do Futebol Feminino português nos últimos cinco anos, o Bola na Rede foi até ao Campo Francisco Lázaro (Lisboa) fazer uma reportagem sobre um dos clubes com maior tradição na modalidade: o Futebol Benfica. Acompanhámos um dos treinos semanais e houve oportunidade para dar voz às protagonistas – treinadora e jogadoras – nomeadamente, quanto ao bom início de campeonato e às ambições para a época 2019/2020.

A Primeira Liga feminina 2019/2020 começou da melhor forma para o Futebol Benfica: duas vitórias nas duas partidas disputadas, com cinco golos marcados e nenhum sofrido. Devido a isso, não foi de estranhar a boa-disposição entre as atletas e o staff técnico do mítico “Fófó”, equipa que, em tempos não muito distantes, foi uma das referências no panorama do Futebol feminino em Portugal. Após ter alcançado o terceiro posto da classificação na época passada, o clube lisboeta parte para este novo desafio com a crença de poder atingir a mesma façanha, embora haja a consciência que para tal acontecer, é preciso batalhar imenso e estar pronto para qualquer desafio.

A treinadora de equipa, Madalena Gala, é a principal responsável por levar o Futebol Benfica a “bom porto” e conseguir alcançar os objetivos que são pretendidos para a nova época. Ligada ao “Desporto Rei” há cerca de 10 anos, a técnica vai para a sua terceira época à frente da equipa e tem uma própria filosofia de jogo, uma vez que, na sua opinião, “não existem sistemas táticos e/ou posições, existem sim dinâmicas e ocupações de espaços”, daí que o estilo de jogo seja dependente do “estilo e identidade de cada jogadora”.

Durante a semana de treinos, o trabalho desenvolvido é focado no próximo adversário, onde se “analisa os jogos e vê-se os pontos fortes e fracos”, mas a abordagem a cada jogo é sempre variada consoante a partida seguinte: “Frente a um Benfica, Sporting ou Sporting de Braga, os treinos são completamente diferentes quando vou jogar contra um Valadares ou Albergaria – sem querer desvalorizar estas equipas obviamente – porque contra as principais candidatas ao título que têm muitos mais argumentos, é literalmente ‘estratégia, estratégia e estratégia’, enquanto noutros jogos estamos a treinar mais o nosso modelo de jogo”.

Madalena Gala está otimista para a nova época
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Quanto aos objetivos para este ano, Madalena Gala afirma que serão os mesmos do ano passado – ficar no top-4 na Liga e ir o mais longe possível na Taça de Portugal -, pois tem “consciência que a disputa do título vai ser entre as três grandes equipas profissionais (Sporting, Benfica e Sp. Braga)”, ainda que o Futebol Benfica queira alcançar um lugar mais respeitado: “Não metemos de parte um lugar no top-3, porque senão íamos jogar contra esses adversários a dar de “graça” a vitória, e isso não pode acontecer. Temos de acreditar que somos as mais fortes ou que vamos sempre conseguir obter resultados muito bons”.

O passado repleto de conquistas não traz maior responsabilidade em obter triunfos na ótica da jovem timoneira do Fófó, uma vez que “não é o passado que faz querer ter resultados e também não há pressão de alguém no clube para vencer jogos”, mas sim “a exigência que eu e a minha equipa técnica pomos neste grupo de trabalho, e que as jogadoras transportam consigo nos treinos e jogos”, sendo que “a responsabilidade em obter resultados parte de mim, da minha identidade e do que pretendo das atletas”.

Por último, falou-se da ainda não-profissionalização do Futebol feminino e do facto disso retirar algum foco das atletas durante os treinos e jogos, e aí a mister Gala relativizou essa problemática e deu o seu ponto de vista: “Se elas (jogadoras) vêm ao treino depois de um dia inteiro de trabalho e/ou de aulas, seja qual for a sua ocupação, é porque estão dispostas a querer, fazer e dar tudo pela equipa. Obviamente que não é a mesma coisa eu ter se calhar uma equipa de profissionais, pois isso ajudaria a relativizar a carga horária das suas ocupações além do Futebol e estariam apenas focadas em jogar, o que seria ótimo, mas não é de todo possível, pois, em Portugal, ainda só há três clubes que vivem disso. Então, fazemos o nosso melhor e acho que o foco delas nunca vai ser retirado, porque se as jogadoras estão aqui às 21h três vezes por semana é porque querem mostrar que conseguem tão boas ou melhores que outras equipas”.

Um dos principais rostos do Futebol Benfica é a capitã Sílvia Brunheira. Preparada para cumprir a sexta temporada consecutiva no clube de Lisboa, a experiente jogadora sabe da enorme responsabilidade que é envergar a braçadeira de capitã, pois tem de “proteger o grupo e as jogadoras e, ao mesmo tempo, dar-lhes a capacidade de se autodisciplinarem, porque nós estamos aqui a representar um clube e temos uma imagem a defender”, pelo que o pensamento de Sílvia esteja sempre no coletivo em detrimento do brilho individual: “Prefiro sempre ajudar a equipa, porque se a minha equipa não ganhar e eu marcar muitos golos, não faz qualquer sentido pois o meu objetivo não é alcançado. Portanto, para mim, o principal é que a equipa ganhe, independentemente de quem marca os golos”.

Desafiada a descrever a equipa numa única palavra, a resposta da média foi “Persistente”, e a justificação da escolha foi perentória: “Nós (Futebol Benfica) ultimamente temo-nos deparado com esta nova dinâmica que é o profissionalismo do Futebol feminino. Não sendo profissionais temo-nos mantido nos primeiros lugares do campeonato, deparamo-nos sempre com jogos difíceis quando jogamos com as principais candidatas ao título (Sporting, Braga e agora Benfica), e, nesse sentido, nós somos a equipa “Persistente”, a equipa está ali a “bater o pé” às equipas realmente profissionais”.

A história do Fófó no Futebol feminino acaba por ter algum peso, embora a líder veja isso como uma “pressão saudável”, até porque o clube, na visão de Sílvia, já passou por várias fases: “Primeiro, tivemos a fase em que éramos a equipa ganhadora, vencíamos Taças, Supertaças e o campeonato, e depois passámos por uma fase menos boa com a quebra e saída de muitas jogadoras-chave do plantel, ou seja, tivemos um pouco de tudo. Agora, estamos numa fase de crescimento novamente e, por isso, essa pressão acaba por ser saudável, porque só nos traz mais motivação em conseguir alcançar o maior número de pontos possível e lutar contra equipas tão fortes”.

Mesmo tendo arrancado bem no campeonato, o foco da capitã não se altera e defende que o principal objetivo para este ano é “ir o mais longe possível nas provas onde estamos inseridas”, mas sempre com um enorme respeito pela concorrência: “Estamos cientes da realidade, pois temos concorrentes extremamente complicadas e algumas delas profissionais, possuem outras condições e estruturas, outras jogadoras com uma boa capacidade técnica e tática que nos vai complicar a vida”, e até apontou a classificação final desejada: “Quarto e, quem sabe, o terceiro lugar”.

A capitã Sílvia Brunheira está ciente das dificuldades que o Fófó terá de enfrentar esta época
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Houve tempo ainda de abordar as dificuldades que as jogadoras têm de enfrentar ainda nos dias de hoje para ir em busca do sonho de serem atletas profissionais, onde Sílvia defendeu que é possível conciliar perfeitamente a vida futebolista com a profissional ou estudantil “desde que haja realmente uma organização na nossa própria vida, em que consigamos estruturar e ter tempo para tudo”, apesar de reconhecer que as condições oferecidas podiam ser melhores, mas isso levaria a um pequeno “confronto” na opinião da capitã: “No nosso caso, nós saímos sempre daqui do treino às 23h e tal da noite, se nos pudessem oferecer outras condições como iniciar os treinos mais cedo seria positivo para nós, mas depois também temos o ‘reverso da medalha’ que é não puder começar os treinos assim tão cedo porque a maior parte das jogadoras trabalha e/ou estuda”.

E o que falta para ser profissional? A resposta é muito simples: “O que é preciso para ser profissional realmente é não fazer tudo aquilo que às vezes nos dificulta conciliar os treinos com vida profissional e estudantil, ou seja, não podemos fazer mais nada e jogar apenas Futebol, ter treinos bi-diários numa equipa que realmente oferece essas condições, o que infelizmente não acontece no Futebol Benfica, pois seria necessário muito mais investimento para se puder alcançar esse contexto”.

O Futebol Benfica tem no seu plantel uma das grandes referências do Futebol feminino português: Edite Fernandes. Aos 39 anos, a jogadora vê esse facto como positivo e um claro “sinal de que as pessoas estão atentas à minha carreira e continuam a acompanhar-me”, embora não sinta pressão para ter desempenhos notáveis nos jogos: “Não sinto qualquer pressão em conseguir uma prestação notável num jogo, pois eu entro para dentro de campo para fazer o meu melhor e ajudar a equipa, e isso é o mais importante”.

No que diz respeito à maior virtude da equipa, Edite afirma que é “o espírito de união e de entreajuda, a cumplicidade e companheirismo entre as jogadoras”, além de neste ano haver “um certo equilíbrio entre juventude e experiência que torna a equipa mais forte”, o que pode ser fundamental para o Fófó ao longo da época.

Os dois triunfos alcançados podem ser um bom motivo para saber se o plantel deste ano é mais forte que o do ano passado, onde a avançada não pensa que “seja mais forte ou mais fraco que o do ano passado”, mas sim “um plantel que vai disputar todos os jogos da mesma forma como no ano passado. Houve entradas e saídas no plantel, mas penso que o grupo está bastante equilibrado e forte, e vamos lutar para alcançar um posto mais perto dos ditos ‘Tubarões’ do campeonato”.

Edite Fernandes é uma das atletas mais experientes do Futebol Benfica
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

No que diz respeito ao desafio na Liga e uma possível conquista do título, a antiga capitã da Seleção Nacional sabe que isso é um sonho “extremamente difícil quando temos três equipas profissionais dentro do campeonato e que têm outro tipo de condições que nós não temos”, porém admite que “nós (Futebol Benfica) vamos sempre entrar nos jogos com mentalidade vencedora, embora saibamos que são adversários muito fortes” e o terceiro lugar da época passada serve como motivação: “O honroso 3.º lugar da época passada foi conseguido com muito trabalho, fizemos grandes jogos contra os ditos ‘Grandes’, e este ano vamos tentar fazer o mesmo para ficar o mais próximo possível desses três clubes poderosos (Sporting, Benfica e Sp. Braga)”.

O Fófó no passado foi uma referência na modalidade, e quando questionámos sobre um possível regresso a esses tempos gloriosos num futuro próximo, Edite afirmou que “na evolução do Futebol feminino em Portugal, acho que a evolução do próprio Fófó seja também para a frente, para tentar estar o mais perto possível dos clubes grandes”, mas para isso acontecer é importante que se “invista e arranje outro tipo de condições para que se possa lutar com os clubes que estão na frente”.

Visto que a jogadora já conta no seu currículo com passagens por Espanha, Estados Unidos, China e Noruega, quisemos saber o que se podia “copiar” desses campeonatos para ajudar ainda mais o Futebol feminino a crescer em termos de notoriedade e popularidade, onde a número 8 do Futebol Benfica respondeu prontamente: “O que teria de ser copiado? Muitas coisas, teríamos de investir mais nas jogadoras, as associações e clubes teriam de apostar mais, as condições teriam de ser diferentes para as atletas, isto é, proporcionarem condições que fossem adequadas a uma semiprofissionalização das equipas”.

Para conseguir lutar pelos objetivos, o Futebol Benfica reforçou-se com sete novas atletas, todas elas bastante jovens – uma média de idades de 20,14 anos -, mas com enorme vontade de ajudar a equipa a conseguir alcançar triunfos. Ora, uma dessas atletas é a Rita Barreto, que quis juntar-se ao clube “por ser um histórico do Futebol feminino”, além de “já ter trabalhado com a treinadora e com algumas colegas de equipa no passado”.

As expetativas para a jovem médio – que pode ainda jogar como extremo – são as mais elevadas e a justificação para tal deve-se ao facto da carreira ainda não ter tido o rumo que mais desejava: “A minha carreira tem vindo a ter alguns altos e baixos, devido a uma lesão no joelho, mas tento sempre dar a volta à situação e continuar a lutar pelo meu sonho, que é jogar Futebol, dando sempre o máximo e estar ao meu melhor nível”, numa clara demonstração que a persistência e força de superação constam no pensamento de Rita.

O seu estilo de jogo face à posição que atua é muito à base da criatividade e considera-se uma jogadora que “gosta de ir para o ‘um contra um’ e disputa cada lance sempre com garra e vontade em ganhar a posse de bola”, mas não se pense que Rita descora o jogo em equipa: “Gosto de jogar no coletivo e sinto que o nosso sistema de jogo adapta-se bem ao meu estilo de jogo”. Nessa linha de raciocínio, a atleta pretende assim “dar o melhor dentro de campo nos jogos”, de modo a “ajudar o Futebol Benfica com maior número de golos e assistências possível para podermos conquistar bons resultados, e assim conseguirmos os nossos objetivos”.

Rita Barreto quer ajudar o Futebol Benfica a alcançar os seus objetivos
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

O Fófó não vence a Liga desde a época 2015/2016 e o terceiro lugar do ano passado pode muito bem servir de alento para chegar ao título, contudo a reforço reconhece que é um objetivo difícil, perante “o nível que já existe dentro do campeonato e tendo na Primeira Liga três equipas profissionais”, pese embora a ânsia de ficar bem classificado no final da época: “Os nossos objetivos são sempre os mais elevados dentro da nossa realidade e vamos tentar lutar contra esses ‘Três Grandes’ e tirar pontos, para assim alcançarmos um lugar respeitável no final da época”.

Por fim, Rita deu a sua opinião face ao desprezo do público que ainda possa existir em relação ao Campeonato feminino, e declarou que “cada vez mais existe valorização desta prática, também houve o começo das transmissões dos jogos na televisão, conseguindo assim promover o Futebol feminino junto do público e ajudar a mudar mentalidades”, daí que tenha crença num futuro positivo para o Futebol feminino português: “Vejo a evolução com a esperança de que este é o caminho certo para que se possa valorizar o trabalho que tem sido desenvolvido por jogadoras, treinadores e clubes”.

Em jeito de “remate final”, podemos concluir que o Futebol Benfica é um clube que procura voltar aos tempos gloriosos no Futebol feminino, embora tenha a noção de que a concorrência é forte e será necessário dar o máximo em todos os jogos para que esse mesmo desejo se torne em realidade.

O bom início de campeonato pode ser o “mote” para tal acontecer, mas como se diz na gíria futebolística “O campeonato é uma longa maratona”, e convém estar a 100% para os desafios que se seguem, que certamente são sempre de grau de dificuldade máxima. O Bola na Rede deseja a maior sorte do mundo ao Fófó para a nova época e na sua “Luta pela Reafirmação no topo do Futebol Feminino português”!

O plantel do Futebol Benfica para a época 2019/2020
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Foto de Capa: Carlos Silva/Bola na Rede

Revisto por: Jorge Neves

Guilherme Costa

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