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PARADIGMA DO JOGADOR VS PARADIGMA DA EQUIPA
A palestra mais interessante da manhã foi aquela que Ruben Jongkind nos trouxe da Holanda. O ex-técnico do Ajax falou sobre as diferenças entre o paradigma da equipa e o paradigma do jogador, aquele que Cruijff concebeu para o emblema de Amesterdão e que, segundo ele, é o mais eficaz no processo de formação e desenvolvimento de novos talentos. “Não é uma equipa inteira que se estreia na equipa principal, são jogadores”, pensou o antigo craque holandês.
O que determina a qualidade de um jogador é a genética (capacidade intrínseca, uma realidade imutável) e o ambiente em que evolui (onde se integram todos os estímulos que contribuem para o seu crescimento, como as relações sociais, o treino ou o contexto competitivo). Ora, aquilo que um clube deve fazer é definir um modelo de jogo e uma identidade, com base na sua história, e elaborar uma metodologia que sirva os interesses dos jogadores, dando-lhe o melhor ambiente possível. Eis algumas diferenças entre o paradigma da equipa (A) e o paradigma do jogador (B):
A – Um treinador para vários jogadores / B – Vários treinadores (school mentor, football mentor, performance coach, nutricionista e psicólogo) para um jogador, capazes de criar sinergias entre si para proporcionar um contexto favorável ao jovem.
A – Em cada ano, os jogadores conhecem um novo treinador (sub-9, sub-10 e assim sucessivamente) / B – Há três fases de desenvolvimento do jogador: aquisição de competências e fase de imitação (sub-7 a sub-12), crescimento (sub-13 a sub-16) e especialização (sub-17 a sub-21).
A – Sobrevivência dos mais fortes fisicamente / B – Ambiente de aprendizagem permanente, em função das características dos jogadores. Não desistir dos “fraquinhos” e “baixinhos”.
A – Treinador como um chefe/ B – Treinador como um guia.
A – Orientado para os resultados, para o sucesso do treinador / B – Orientado para o processo, centrado no jogador.
No modelo de Cruijff, todos os jogadores são periodicamente avaliados em várias vertentes: o comportamento social, o perfil psicológico, o posicionamento táctico, o controlo de bola ou as capacidades motoras. Quando houver lacunas evidentes num jogador, deverá ser feito um plano para as corrigir. Christian Eriksen, por exemplo, teve de treinar especificamente durante 4 meses para melhorar a sua forma de correr, que não era a mais adequada. Como resultado, o actual jogador do Tottenham foi o elemento com mais quilómetros percorridos ao serviço do Ajax na Liga dos Campeões do ano seguinte.
De acordo com Cruijff, há dois princípios básicos que o treinador deve ter sempre em mente: observar antes de intervir (um dos exercícios mais úteis é dar-lhes uma bola e ver o que fazem, o chamado jogo espontâneo) e mudar continuamente o ambiente aos jogadores, dando-lhes desafios diferentes a cada treino.
Não é por acaso que no Ajax há um intercâmbio constante entre escalões, existindo muita comunicação entre os treinadores. Os mais novos, quando jogam com os mais velhos, querem provar que têm tanto talento como eles, e os mais velhos sentem a pressão mental de não quererem ser inferiores aos mais novos, sobressaindo a capacidade de liderança. Ao nível do treino, Cruijff reinventou alguns exercícios comuns. Um deles, que consistia na aproximação de um terceiro ou quarto homem, passou a ser feito com a bola na mão e não no pé, para promover a visão periférica por parte dos jogadores.
Ninguém joga sozinho e, apesar de o foco deste modelo estar no individual, é preciso perceber as necessidades dos companheiros. Como tal, Cruijff julga que os jogadores devem experimentar variadas posições no seu processo de desenvolvimento, sobretudo para sentirem as dificuldades que os colegas têm. Ainda assim, não são raros os casos de jogadores que se redescobriram, como Riechedly Bazoer, que começou como central e agora se fixou como médio. É uma das maiores promessas do actual plantel do Ajax.
Este tipo de alteração na rotina do jogador evita a mecanização e promove a criatividade e o desenvolvimento de competências que a sua posição original não exige. Mais do que tudo, é preciso surpreender o jogador, desafiá-lo. Levá-lo para a rua, onde o piso é diferente, obriga-o a adaptar-se a uma nova superfície e a ter diferentes estímulos ao nível do equilíbrio (se cair vai aleijar-se) e do controlo de bola.
TREINADORES NO ESTRANGEIRO
“Está na moda dizer que os jovens têm de sair da zona de conforto. Neste caso [Portugal] é a zona de desconforto”, por falta de oportunidades e dificuldades financeiras. “Zona de conforto é lá fora, onde há dinheiro, condições de trabalho e respeitabilidade da profissão”. Henrique Calisto deu o pontapé de saída no painel que discutiu “Treinadores no Estrangeiro”, composto também por Jaime Pacheco e Nuno Espírito Santo.
“O sucesso dos treinadores portugueses abre fronteiras e oportunidades, mas o futebol ainda não é a âncora da afirmação de Portugal lá fora, como deveria ser”, porque ainda não se estabeleceu no nosso país uma verdadeira “política económica e diplomática por via do desporto. No Vietname ninguém conhece Portugal, mas toda a gente conhece o Mourinho ou o Ronaldo. Uma delegação diplomática normal leva 30 jornalistas, se levasse o Figo tinha 300”, resume Henrique Calisto.
Depois de contar a história de um antropólogo australiano que encontrou no aeroporto de Banguecoque e que sabia o nome completo de Eusébio da Silva Ferreira, Henrique Calisto fez notar que o Vietname é o único país asiático cujo nome se escreve em caracteres latinos. “Vejam lá o alcance da presença de Portugal na Ásia e no mundo. Os portugueses estiveram em todo o lado!”. E criticou os críticos do futebol português: “fazemos auto-golos quando criticamos o nosso futebol”. Jaime Pacheco apoiou: “temos de nos valorizar. Todos os portugueses lá fora têm todos sucesso. Todos!”.
A IDEIA DE TREINADOR-HUMANISTA
“Fundamental para ganhar são, fala-se muito disso agora, os afectos”. Henrique Calisto salienta a importância da ideia do treinador-humanista, que se embrenha na cultura e se empenha no desenvolvimento social e desportivo das comunidades para onde vai. Num quase espírito de missão. O “Professor Calisto”, como todos lhe chamam, garantiu que “a entrega do treinador português vai para além da exigência ao nível do treino. Além do trabalho e da competência, tem a preocupação da aproximação humana, do relacionamento e até de fazer adequar as infra-estruturas à prática. Outro estrangeiro só pensa no treino e no salário”, disse a propósito de um colega que substituiu no comando técnico da selecção do Vietname.
“Nós quisemos sempre ter um adjunto vietnamita enquanto lá estávamos para lhes explicar e os ensinar. Íamos a eventos de benemerência com os jogadores, nas escolas e nos hospitais, e eu acompanhava a vida dos jogadores – ia a festas de aniversário e tinha de levar fruta ou whiskey”. A vontade de conhecer a cultura local é determinante para a aceitação. “Rezava com eles – eles ao Deles, eu ao Meu -, mas sentia-se essa partilha. Sabia eu mais do deus deles do que eles e eles ficavam impressionados”, testemunhou Henrique Calisto.
A LÍNGUA E OS TRADUTORES
“O diálogo é fácil. Mais inglês, menos inglês, mais intérprete, menos intérprete, o futebol é universal”. É no seu jeito pragmático que Jaime Pacheco encara a barreira linguística.
Mas foi José Peseiro, já ontem, a falar dos tradutores pela primeira vez. A necessidade de ter intérpretes, que “também têm de ser treinados”, pode dificultar o processo de trabalho. “Explicar o treino e os exercícios é a parte mais fácil. O mais difícil é falar sobre as emoções. Às vezes dizemos em inglês, mas não é a mesma coisa. O risco é ter tradutores que não estejam connosco ou estejam demasiado ligados ao clube”, comentou Peseiro. Sobre isso, Jaime Pacheco disse que teve “a sorte de encontrar sempre tradutores muito leais, percebendo mais ou menos de futebol”.
Nuno Espírito Santo teve a facilidade de treinar em Espanha, onde já tinha sido jogador. “Dominar o idioma e saber a terminologia do jogador ajuda – eles têm um código muito próprio”, contou.
VIETNAME
Muito daquilo que foi a experiência de Henrique Calisto no Vietname já foi dito. Foi para este país no sudeste asiático a convite de um industrial de porcelanas e acabou por ficar quase 10 anos. Por lá treinou Robbie Fowler, já com 35 anos: “ia fazer 500 mil dólares em 6 meses”, contou. “Para esses veteranos, aquilo já é a reforma. Ele no treino já não correspondia às expectativas, mas os patrocinadores faziam pressão para que jogasse”.
CHINA
Jaime Pacheco descreveu a sua vivência na China, onde treinou o Beijing Guoan em 2011 e 2012.“Todos os clubes na China têm centros de estágios com oito ou dez campos de futebol e hotel. Mas apanhei -20º. Disse logo ao meu empresário «Aqui não fico!». É preciso saber escolher. A China não é nada organizada, mas as pessoas são afáveis, de boa relação e os jogadores aceitam muito, são muito humildes. Jogam naquele ritmo brasileiro. Devagar. Mas com um bocadinho de mais volume de treino e mais intensidade de treino jogam bem e depressa”.
ARÁBIA SAUDITA
Jaime Pacheco passou também pelo Al-Shabab, na Arábia Saudita. “É muito difícil treinar na Arábia. Os sheiks são muito prepotentes e muito arrogantes, pensam que mandam em tudo. Querem decidir quem joga. Um jogador que ficasse uma semana sem treinar sem que ninguém soubesse dele e chegasse à hora do jogo, se o Presidente gostasse dele, tinha de jogar na mesma. Diziam-me que se não o pusesse a jogar podia ser despedido se não ganhássemos”.
Já ontem, José Peseiro, ex-treinador do Al Hilal e seleccionador da Arábia Saudita, havia falado da sua passagem pelo país. “Aquilo é o caos, mas se mostrares que és organizado, mostras que és competente e eles acreditam em ti. É preciso ter a capacidade de adaptação, de entender os contextos. Por exemplo, eu tinha pequeno-almoço às 10h, um aparecia às 10h10, outro às 10h30, três não apareciam. Tínhamos de treinar em função do Ramadão”.
ESPANHA
Jaime Pacheco teve uma passagem pelo Maiorca. “Estava na luta pelo título com o Atlético de Madrid, quando devia estar a lutar pela manutenção. Depois veio o mesmo dono que também comprou o Beira-Mar”. As recordações não são, de facto, as melhores. “Já estive na China e na Arábia Saudita e no Egipto, e o sítio onde mais dificuldades tive para fazer o meu trabalho foi em Espanha. De Espanha nem bom vento nem bom casamento”, concluiu.
Nuno Espírito Santo reconhece que a “imprensa espanhola é muito sensacionalista e de extremos, e o clube [Valência] é muito ligado à cidade” mas contraria a ideia de Jaime Pacheco de que os espanhóis não respeitam os portugueses. “Não fui caso único [de um tratamento “apaixonado” da imprensa]. Não notei caso nenhum de discriminação em função da nacionalidade”.
Nuno Espírito Santo passou por algumas dificuldades iniciais na pré-época do seu primeiro ano em Valência. A ideia não estava a passar e os treinos eram muito diferentes do habitual. “Desprezávamos certas coisas que eles achavam fundamental. Eles privilegiam muito a posse de bola, e nisso os espanhóis são melhores do que nós porque já a trabalham há mais tempo. Cheguei lá e num exercício de 7×7 não havia remates à baliza. Isto não pode ser”, pensou.
Foi em Londres, num torneio de pré-época, que os jogadores “puseram em prática aquilo que tínhamos treinado e viram que tinha resultado. Nessa altura eles vieram ter comigo e perguntavam «o que é que queres de mim?» e aí temos de ser muito assertivos, senão perde-se a confiança”.
GRÉCIA
O seleccionador nacional, Fernando Santos, também falou ontem do seu vasto percurso no futebol grego “Adaptei-me à cultura grega, mas sempre que fazia uma adaptação explicava-lhes por que é que mudava. Lá não se janta nem se almoça, é tudo à balda”.
“Na Grécia tudo é psicologia. Ganhas, estás bem psicologicamente, perdes estás mal psicologicamente. Um médico disse-me que não se podia treinar de manhã, não era bom psicologicamente para os jogadores”, brincou. Marcou o treino para as 08h e houve a desculpa de que estava muito trânsito. Quando lhe pediram para treinar às 10h, marcou para as 7h, porque ainda não havia trânsito. Acabaram por treinar mesmo às 08h. “Com o tempo mudaram progressivamente. É preciso é que acreditem nas tuas ideias”.
O FUTURO
Os treinadores falaram também sobre o seu futuro. Após uma experiência sem pleno sucesso no Mestalla, Nuno Espírito Santo disse que se “questionam algumas coisas” e que a auto-estima sai afectada. “A parte boa é a reflexão” que ela proporciona. Mas o seu futuro está traçado: “não ponho em dúvida o meu sonho de ser treinador de futebol. Agora que fui despedido é que sou treinador”.
Jaime Pacheco assegurou que não se arrepende de nada na sua carreira e lamenta a falta de propostas. “Sou tão competente como os demais. Falta-me se calhar um assessor de imprensa, um ponta-de-lança a lançar o meu nome” quando há um lugar por ocupar.
Henrique Calisto, agora n’A Bola TV, quer ligado aos média. “Não posso ser jornalista. Não quero ser jornalista. Quero ser comentador, e sou comentador”. Foi assim que respondeu aos elogios do benfiquista João Alves à sua entrevista de ontem a Fernando Santos.
E despediu-se com “um conselho aos mais jovens [que pretendem ir treinar no estrangeiro]: ir com cuidado, identificar o clube, a cultura do país, a relígião e falar com outros treinadores que já lá estiveram. Tenham o bom senso de saber mais sobre o mundo e sobre os homens, para além de treino e tácticas”, pediu.
«MAIS DE 60% DOS JOGADORES TEM “TORNOZELO DE FUTEBOLISTA”»
Ninguém gosta de lesões, mas quando acontecem é preciso saber lidar com elas. A entorse no tornozelo é a lesão mais frequente no desporto, em particular no futebol, sendo que 10 a 30% das lesões resultam de problemas crónicos. Para piorar a situação, 50% das lesões no tornozelo dão origem a mais lesões nessa zona e, como tal, a prevenção é cada vez mais fundamental para evitar a recorrência deste tipo de problemas. Numa palestra sobre medicina desportiva ministrada pelo médico especialista em medicina desportiva Helder Pereira, deu para perceber os avanços na forma de tratamento, que proporcionam um tempo de recuperação muito menor. A cirurgia nem sempre é necessária, mas dá, indiscutivelmente, mais estabilidade ao tornozelo do jogador e reduz o risco de uma lesão. A reparação por artoscopia, por exemplo, é uma inovação portuguesa que é menos intrusiva e que possibilita uma recuperação em 2/3 semanas.
Os treinadores devem ouvir e compreender o atleta, percebendo até que ponto um determinado exercício lhe causa desconforto ou mesmo dor. Um trabalho conjunto dos técnicos com os médicos é a melhor forma de ter os jogadores na condição mais próxima do ideal. Hélder Pereira, desfez algumas dúvidas aos treinadores, que ficaram a saber que jogar com ligaduras não impede primeiras lesões (o caso muda de figura se o jogador já tiver tido problemas) e que, de facto, a generalidade dos sintéticos, por terem mais atrito no contacto com o piso, têm um risco tendencialmente maior de provocar lesões. Para terminar, deixou uma advertência: a idade do BI nem sempre corresponde à idade biológica, o que obriga o treinador a ter atenção ao tipo de exercício e à carga de treino, para não prejudicar a saúde desportiva do seu atleta.
HOMENAGEM A QUINITO
José Águas, José Mourinho e Manuel Narciso foram homenageados, mas só o primeiro recebeu o prémio em mãos. O seu discurso terminou com um vivo e aguerrido “Viva o futebol português!”.
Mas o senhor da tarde foi Quinito. Aplaudido de pé pelo auditório inteiro, deixou escapar um discurso emotivo depois de sentido gesto de solidarierdade dos seus colegas.
O CONTEXTO SELECÇÃO
Ainda pairava no ar a comoção com as palavras de Quinito e já se iniciava a discussão sobre o treinador no contexto da selecção nacional. Paulo Bento, Nelo Vingada, José Couceiro e o técnico espanhol de futsal Jesús Candelas, que orientou a equipa nacional do Irão, concordaram que a principal diferença é o tempo para treinar, muito mais reduzido numa selecção. Os estágios são curtos, cada vez mais. “Naquela altura os estágios tinham 15 dias, havia outro tempo”, recorda Nelo Vingada, seleccionador olímpico em 1996 nos JO de Atlanta.
Actualmente, a calendarização é apertada e os compromissos dos clubes têm quase sempre prioridade sobre as necessidades das selecções. O desagrado com as datas é geral, mas os treinadores pouco podem fazer quanto a isso. “Não somos tidos nem achados na questão”, lamenta Paulo Bento. A “semana do futebol”, uma ideia da UEFA que fez com que os jogos das selecções fossem diários na semana definida, só veio agravar o problema. “Eles [os jogadores] até podem chegar mais cedo, não sei é se vão chegar nas melhores condições”, diz Paulo Bento. Esperam-se novidades para breve. “A nova calendarização da Champions vai obrigar a alterações no calendário das selecções”, sugere José Couceiro.
De resto, existem mais semelhanças do que pontos de oposição entre seleccionadores e técnicos de clube. “Somos treinadores, no treino e no planeamento”, assume José Couceiro. A intervenção mais esclarecida sobre este assunto foi a de Jesús Candelas, que deu uma visão muito clara sobre a distinção entre um seleccionador e um treinador. “O objectivo é formar uma equipa, não é seleccionar jogadores. Nesse sentido somos treinadores”, afirma, concluindo que um seleccionador nunca deixará de ser um treinador.
Ainda assim, não há dúvida nenhuma de que a tarefa do seleccionador na implementação de ideias é mais complicada e é inevitável que exista alguma dependência do trabalho feito pelos clubes. A Espanha, com maioria clara de jogadores de Barcelona e Real Madrid, e a Alemanha, composta sobretudo por jogadores de Bayern e Dortmund, têm uma base que é transposta dos clubes para a selecção e Paulo Bento aponta essa como a principal razão para o sucesso recente. Olhando para Portugal, verificamos que existe maior diversidade de clubes nas convocatórias, o que, à partida, não facilita a obtenção de resultados. De um modo ou de outro, é fundamental que haja contacto entre o seleccionador e os treinadores dos clubes.
A tranquilidade que um seleccionador tem para trabalhar, por não haver uma pressão constante, é um dos aspectos positivos na comparação com o treinador de clube. “O stress, a pressão, a carga emocional é muito mais elevada num clube”, explica Nelo Vingada. Para Paulo Bento, tudo se deve a um olhar crítico diferente por parte dos adeptos. “A selecção não tem adeptos como um clube, no máximo tem adeptos sazonais”. A avaliação à prestação do técnico, porém, mantém-se inalterada. “Quando se perde, é o treinador. Quando se ganha, são todos”, lembra Paulo Bento.
As estratégias de comunicação de Benfica e Sporting têm feito parte – e não é pouco – da discussão futebolística em Portugal. Ora fala o treinador, ora escreve o presidente, ora sai um comentador indignado num programa de segunda-feira à noite. De que a importância dessa dimensão do futebol tem crescido significativamente ninguém duvida, mas, para Paulo Bento, já está com um destaque indevido. “Estamos a chegar a um ponto em que a comunicação importa mais do que o treinador”. O futebol fora das quatro linhas joga-se sobretudo na imprensa, e Paulo Bento não perdeu a oportunidade de questionar José Manuel Delgado, jornalista d’A Bola que moderava a discussão: “O que é que vocês querem do futebol, o que é que querem aportar ao futebol?”.
José Couceiro também não poupou algumas críticas ao papel da comunicação social. “Nós não fechamos os treinos só pela parte táctica, é porque se há um empurrão ou uma entrada é logo uma confusão à volta disso”, lamenta. E continuou: “hoje é muito fácil denegrir, é muito fácil espalhar a mentira”. Na questão da comunicação, o antigo seleccionador da Lituânia foi peremptório. “Não é a comunicação que ganha jogos”, afirma. Ainda assim, não deixa de ter uma visão muito assertiva sobre como deve ser efectuada a comunicação com o exterior, de forma a proteger o treinador. “Não deve ser o treinador o principal agente dessa política”.
Francisco Manuel Reis
Tomás da Cunha









