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Celebra este ano uma década de vida, mas historicamente conta com muitos anos, estando para sempre ligado ao FC Marco. O AD Marco 09 é a equipa sensação das distritais da AF Porto e nesta temporada acaba de somar a 3ª subida de divisão consecutiva. O Bola na Rede procurou saber mais sobre o AD Marco 09 e o presidente Eduardo Felipe foi quem nos contou tudo sobre o clube que formou Gonçalo Cardoso. Desde a subida para a Divisão de Elite Pro-Nacional da AF Porto, ao possível regresso do nome “FC Marco” até à aposta no jogador local por parte da direção. Descobre mais sobre o AD Marco 09 nesta terceira edição de “O Clube lá da Terra”.

Fonte: Luís Barros / Bola na Rede
«Infelizmente houve épocas de ouro na Segunda Liga e essas épocas custaram muito ao clube»
Bola na Rede (BnR): Após a extinção do FC Marco, como foi o processo de criação do AD Marco 09?
Eduardo Felipe (EF): Toda a gente conhece a história do FC Marco. Infelizmente houve épocas de ouro na Segunda Liga e essas épocas custaram muito ao clube. Houve um investimento muito grande por parte dessa direção para tentar subir à Primeira Liga e isso é um problema do futebol em Portugal – quando se investe demais, a conta acaba sempre por vir na fatura. O FC Marco estava endividado em mais de dois milhões de euros e opção da direção naquela altura foi o fim do clube. O FC Marco acabou por ser punido pela Federação Portuguesa de Futebol com uma proibição de competição durante dois anos, tanto na equipa sénior como nos escalões de formação. Houve então um grupo de sócios do antigo FC Marco que decidiu formar um clube novo e como não podiam utilizar o nome “Futebol Clube do Marco” optaram pela designação “Associação Desportiva Marco 09”, mas é um projeto nosso tentar voltar a ser FC Marco outra vez.
BnR: Como é que tudo começou em relação à presidência no AD Marco 09?
EF: Joguei futebol muitos anos e depois de acabar a carreira constituí família aqui e acabei por abrir uma agência de viagens. Alguns empresários daqui reuniram comigo e propuseram-me tomar conta do clube porque viram em mim uma pessoa capaz por ter passado muito anos no mundo do futebol e por ser uma pessoa que não tem interesses políticos. Na altura eu disse que aceitaria a proposta, mas tinha de ser eu a criar uma direção com pessoas que eu confio. O crescimento tem sido muito bom e em várias vertentes, mesmo sabendo que o “chefe da locomotiva” é a equipa sénior. Isso tem sido benéfico e o resultado está à vista de todos. O Marco 09 nestes três anos conseguiu conquistar uma coisa que andava um bocado apagada, que era o orgulho marcoense. Isso é uma coisa que me enche de orgulho, saber que as pessoas estão a voltar a acreditar e a apoiar o clube e isso tem sido fantástico.
BnR: Quando iniciou o seu mandato como é que encontrou o clube?
EF: No momento em que cá chegamos o AD Marco 09 tinha cerca de 50 atletas no total. Haviam apenas cerca de três ou quatro escalões de formação, não havia equipa de seniores, não tinham juvenis, não tinham iniciados… era uma miséria total. A nível de material, não havia bolas, não havia carrinhas, estava tudo a zero. Nós quando cá chegamos foi como se estivéssemos a pegar num clube novo. Não haviam dívidas, isso também tenho de realçar, mas para um clube com esta dimensão… estava mesmo de rastos. Então o objetivo passou por ser apostar na formação e automaticamente apostar no futebol sénior. Os resultados começaram a aparecer e este ano temos cerca de 250 atletas. Ainda estamos num patamar que, para mim, ainda é baixo, pois este clube merece muito mais. Poder subir à Divisão de Elite da Associação de Futebol do Porto vem coroar o trabalho de três anos da direção do clube.

Fonte: Luís Barros/Bola na Rede
«É muito fácil vermos presidentes que passam a vida em camarotes, em festas da AF Porto, da Federação Portuguesa de Futebol… e aqui não há nada disso, aqui todos trabalhamos por amor»
BnR: O Marco 09 conta com muitos jogadores da terra na formação e nos seniores. O exemplo de sucesso dessa aposta é Gonçalo Cardoso do Boavista FC. A aposta no jogador local é para manter?
EF: Claro, costumamos dizer que a formação é um projeto a longo-prazo. Algumas equipas aqui da região não apostam na formação porque quando uma direção entra num clube fica no máximo dois ou três anos. A grande maioria pensa que nesse espaço de tempo, para que tudo corra bem, o ideal é investir apenas na equipa sénior e não na formação. Esses miúdos como o Cardoso e como o João Mendes que recentemente assinou o primeiro contrato profissional pelo Vitória SC são os frutos já colhidos, mas acontecerá o mesmo daqui a alguns anos com esta geração. O nosso objetivo é continuar a investir para que o clube cresça em todos os sentidos. Mesmo que não consigamos lucrar no imediato, no futuro, uma eventual transferência de um desses miúdos vai ajudar muito o clube e fazer com que este cresça de forma sustentável. Gastar dinheiro apenas com o plantel sénior e trazer estrangeiros é errado e contra mim falo porque sou brasileiro e vim para Portugal numa aposta dessas.

Fonte: Boavista FC
BnR: E quais são os grandes benefícios que essa aposta tem trazido?
EF: Neste momento estamos em primeiro lugar na Divisão de Honra e nas duas séries somos o clube com mais pontos contando com 16 jogadores formados no clube, ou seja, temos muito menos custos em relação ao plantel sénior. Posso garantir que temos um plantel sénior completamente sustentável e barato por ter jogadores da formação. É uma aposta que temos feito e tem dado certo. O nosso capitão, o Serrinha, é o melhor marcador da divisão e é daqui da terra. Podíamos gastar muito dinheiro e ir buscar um ponta-de-lança brasileiro, mas neste momento temos o Mirandinha que é excelente e é de Amarante, cidade vizinha. Nem tudo o que é de fora bom e apostar na prata da casa é o que traz resultados para o clube.
BnR: Um problema do futebol português, especialmente nas divisões distritais, é a falta de adeptos nas bancadas a apoiarem o clube da terra. Como é que vê toda esta situação na perspetiva de dirigente desportivo?
EF: É uma tristeza que eu tenho aqui em Portugal nesse sentido. Eu dou sempre o exemplo do Brasil, eu joguei muitos anos lá a nível de formação e lembro-me quando jogava no São Paulo, era infantil, íamos para o interior do Brasil fazer um jogo e a cidade inteira ia apoiar o clube da terra. Isso é uma mentalidade, que infelizmente em Portugal, nós só vemos em Guimarães ou mesmo em Matosinhos com o Leixões. As pessoas da própria terra preferem estar no sofá a ver os três grandes a jogar do que vir apoiar o clube da terra. E se um dia o clube da terra jogar contra um desses clubes, há muitas pessoas que estão na bancada pelo lado dos grandes e não do lado do clube da terra. As pessoas deviam interessar-se mais pelo clube da terra porque um dia esse mesmo clube pode ajudar essa pessoa de alguma forma, seja através dos filhos ou através dos netos, ou seja, é sempre importante para quem mora na cidade e infelizmente não se dá muito valor.

Fonte: Luís Barros/Bola na Rede
BnR: E como é que acha que esse problema pode ser solucionado?
EF: Trabalhar muito a nível do marketing. O marketing desportivo tem de ser fundamental. É necessário criar campanhas que consigam consciencializar as pessoas a ajudar o clube da terra. Outra coisa que é fundamental, é a aposta na casa porque no fundo as pessoas também vêm pelos atletas que são da terra, porque têm um neto, têm um sobrinho ou um filho que joga no clube da terra. Óbvio que não pode ser “ter um jogador por ter”. Tem de ser um jogador bem formado nas categorias base. Isso faz com que a cidade, quer queira quer não, acabe por abraçar um pouco o clube. Sentimos um pouco isso, pois o povo daqui ainda está um bocado afastado… o que é normal, o Marco esteve lá em cima e agora está nas distritais. Não se vê uma casa tão cheia como no tempo do FC Marco, mas já se vê uma casa bem composta.

Fonte: Luís Barros/Bola na Rede
BnR: A subida de divisão já está garantida. A próxima época já está a ser trabalhada ou só vão pensar nisso depois desta acabar?
EF: Neste momento ainda não temos trabalhado em quase nada relativamente à próxima época. Nós temos uma base daquilo que pretendemos para a próxima temporada e tudo vai depender do desenrolar do campeonato. Depois conversamos com os nossos treinadores e jogadores para sabermos a disponibilidade de continuar, mas neste momento ainda não pensamos muito nisso. Queremos desfrutar primeiro este momento e depois teremos tempo para trabalhar e organizar um bocado a próxima época.

Fonte: Associação de Futebol do Porto
BnR: Já são anos de José Oliveira no comando da equipa e as coisas estão a correr da melhor forma. Como é a relação com o treinador?
EF: A relação com o Zé é do melhor que pode haver. Ele é uma pessoa frontal e sincera. Falamos abertamente e falamos quase todos os dias. Conversamos sobre tudo – sobre o plantel, treinos, condições para o clube, as condições para ele e para a equipa técnica trabalhar e não ter problemas. Depositámos nele muita confiança e ele através dessa confiança provou-nos a qualidade que ele tem como treinador e que está a mostrar dentro de campo e na gestão do grupo e na sua formação. Tem sido uma aposta muito gratificante. Considero-o um amigo, não o conhecia antes de chegar ao Marco e tivemos os nossos atritos como todos os amigos tem. É normal, eu sou o presidente e ele é o treinador… ele diverge de coisas comigo e eu de certas coisas que o Zé faz, mas sempre de uma maneira frontal e sincera e assim acabamos por nunca ter muitos problemas de relacionamento. No caso de um dia um de nós sair do Marco, sei que é um amigo que posso levar para a vida toda.
BnR: Como descreve o dia a dia de ser Presidente do AD Marco 09?
EF: Não é fácil. Infelizmente, a nossa família acabar por ficar para segundo plano. Tendo o Marco 09 quase 250 atletas é como se tratasse de uma empresa que leva muito do nosso tempo. Acabamos por estar ausentes porque trabalhamos aqui praticamente 24 horas por dia. Joguei futebol como profissional durante 18 anos e nunca tive vontade de ser treinador ou empresário. A única coisa que eu gostava e tinha em mente se um dia parasse de jogar futebol era ser dirigente. Quando surgiu essa proposta de estar na direção do AD Marco 09 aceitei logo sem pensar duas vezes. Se custa? Claro que sim, estamos a despender de muita coisa para trabalhar em prol do clube, mas tem sido bom. Acho que as pessoas, apesar da exigência, compreendem que nós somos amadores e sinto muita paciência nos marcoenses que sabem que estamos a fazer isto por amor. Quando se faz com amor, nenhum sacrifício custa.
«O nosso maior desejo como direção é que o Marco volte, pelo menos, ao Campeonato de Portugal»
Na próxima época o Marco 09 fica a um passo do campeonato nacional. As portas estão abertas a investidores?
EF: Claro, eu posso garantir que desde a última época nós já tivemos cerca de duas ou três propostas nesse sentido, inclusive, propostas de grupos de empresários para tentar formar uma SAD. O Marco acaba por ser um clube apetecível, pois tem infraestruturas que não se veem em quase clube nenhum do país. Há clubes na Primeira Liga que que não têm as condições que nós temos. No próximo ano ao disputarmos a Divisão Elite Pro-Nacional da AF Porto o Marco 09 vai tornar-se ainda mais apetecível. No entanto, tenho de realçar que o Marco 09, neste momento, é um clube que é dos sócios. São eles que mandam no clube e seja qual for o projeto que possa existir, tudo passará pela mão dos sócios.

Fonte: Luís Barros/Bola na Rede
BnR: Reaver o antigo nome do clube é um objetivo desta direção como já referiu. Trata-te de um sonho impossível?
EF: Uma das nossas propostas quando entrámos aqui era que o clube voltasse a ter o nome de “Futebol Clube do Marco”. Nunca poderemos separar o AD Marco 09 do FC Marco porque no fundo é um clube só. Infelizmente, neste momento, não podemos utilizar o nome por questões burocráticas, mas estamos a trabalhar nisso e temos mesmo pessoas ligadas à área das finanças e advocacia para trazer o nome de volta. Isso é um sonho que não é impossível. É difícil, mas em breve poderá ser concretizado.
BnR: Já pensa na recandidatura à presidência?
EF: Não, ainda não pensei nisso. Ainda temos a próxima época desportiva e tudo vai depender do desenrolar da mesma. Se você me perguntasse hoje – “Você abandonava o Marco?”- Eu dizia que não. Gosto daquilo que faço. Adoro o clube, adoro a cidade e principalmente os atletas e os sócios. Tenho mais um ano de mandato, vamos ver como desenrola a próxima época e independente do que acontecer na Divisão de Elite, estaremos cá no final da época e depois decidimos.

Fonte: Luís Barros/Bola na Rede
BnR: O objetivo é voltar ao topo dos campeonatos nacionais?
EF: O nosso objetivo era, pelo menos, chegar à Divisão Elite Pro-Nacional quando entramos aqui. Queríamos subir três vezes consecutivas para chegar à Divisão de Elite e graças a Deus conseguimos com muito trabalho e esforço. O nosso maior desejo como direção é que o Marco volte, pelo menos, ao Campeonato de Portugal. No próximo ano eu acho que é um ano de pensarmos e de tentarmos conhecer a Divisão de Elite, formando uma equipa boa para sermos competitivos, como é óbvio. O objetivo é fazer uma primeira época tranquila e depois tentar um voo que é o que o Marco precisa.
BnR: Este ano o A.D Marco 09 celebra 10 anos de existência. Os Marcoenses podem contar com uma celebração especial?
EF: Ainda não temos nada programado nesse sentido. É um ano bom para o clube em todos os sentidos, não só pelos dez anos, mas também pela subida de divisão. Temos em mente fazer algum tipo de comemoração para aproximar o clube das pessoas, não só fazer festa por fazer festa, mas também para homenagear o clube em si. Independentemente de estarmos associados ao o Futebol Clube do Marco, nunca é iniciar um clube e em dez anos já estar próximo de um campeonato nacional.

Fonte: Luís Barros/Bola na Rede
BnR: Qual é o segredo para todo este sucesso?
EF: Eu acho que é trabalhar. Aqui não há diretores de “pastinha e gravatinha”, aqui é pessoal de trabalho, é pessoal que acorda cedo, vêm abrir os portões, abastecer as carrinhas, lavar os balneários… é uma direção de trabalho. E eu acho que esse trabalho, esta humildade que a direção tem, é que faz com que o sucesso depois seja mais fácil. É muito fácil vermos presidentes que passam a vida em camarotes, em festas da AF Porto, da Federação Portuguesa de Futebol… e aqui não há nada disso, aqui todos trabalhamos por amor. Esse é o segredo, o trabalho.
Foto de Capa: Luís Barros/Bola na Rede











