Publicidade

«A arbitragem tem de se mostrar mais aos adeptos para matar os fantasmas» – Entrevista BnR com Duarte Gomes

Frederico Seruya · 19 min

«A arbitragem tem de se mostrar mais aos adeptos para matar os fantasmas» – Entrevista BnR com Duarte Gomes
Foto: Kickoff.pt

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Duarte Nuno Pereira Gomes. Uma das referências da arbitragem portuguesa, que depois de “arrumar o apito” continua ligado aos relvados com o projeto Kickoff, uma lufada de ar fresco num ambiente cada vez mais tóxico em torno do futebol. Duarte Gomes explica que o objetivo deste projeto é humanizar o árbitro e esclarecer os lances mais polémicos na arbitragem. Sem meias palavras, lugares comuns ou frases feitas, falamos ainda do Apito Dourado, da cultura desportiva em Portugal, das ameaças constantes aos árbitros e da inércia destes na defesa da própria classe, do que o VAR ainda não resolve e de uma final da Liga dos Campeões muito especial.

– Apito Dourado expôs as “maçãs podres” –

Bola na RedeDuarte, de que é que tens mais saudades dos tempos em que arbitravas?

Duarte Gomes: Tenho saudades de muitas coisas. Sobretudo, da adrenalina que é a carreira intensa na arbitragem. Nomeadamente, com os colegas, os treinos diários, a partilha de momentos de diversão, estágios, cursos, a preparação do jogo. Aquela sensação boa de fazer um jogo, o pós-jogo, o desafio de superar um jogo mal efetuado.

Bola na RedeQuando eras nomeado para um jogo, tinhas algum ritual de preparação?

Duarte Gomes: Sim. Fui aperfeiçoando ao longo dos anos e melhorando o meu nível de preparação em função dos conhecimentos que ia adquirindo ao longo da carreira e também da informação que íamos recebendo das equipas. Nós tínhamos um protocolo muito rigoroso e profissional desde o dia da nomeação.

Bola na RedeComo era esse protocolo?

Duarte Gomes: Entrávamos logo em contacto uns com os outros, a equipa que era nomeada para o jogo, e a partir daí começava um countdown: a preparação logística, o local do jogo, a ida, o estágio, combinar tudo em relação à parte operacional. Em relação ao jogo, o scouting: começávamos a preparar as equipas que íamos fazer sobre vários pontos de vista. Eu fazia sempre uma reunião com os meus colegas na manhã do jogo. Durava cerca de uma hora, com uma apresentação em powerpoint com os detalhes completos sobre as equipas, sobre o estádio, sobre o ambiente que eu esperava, sobre o histórico de rivalidades, sobre questões mais táticas, bolas paradas, jogadores mais rápidos, mais tecnicistas. Víamos tudo ao pormenor porque a ideia era estar o mais preparado possível.

Bola na Rede:: Vocês também assinalavam os jogadores à beira da suspensão se levassem um cartão amarelo ou jogadores problemáticos?

Duarte Gomes: Jogadores problemáticos sim, saber qual era o jogador mais difícil, aquele que cai na área com mais facilidade, aquele que chateia mais o árbitro. É importante para percebermos com o que vamos lidar. Jogadores com exclusões nunca queríamos sequer saber e se tínhamos essa informação tentávamos torná-la irrelevante.

Bola na RedeE de que é que tens menos saudades?

Duarte Gomes: Tenho menos saudades daquilo que ainda hoje vemos acontecer em dimensões de explosão social bastante exponenciadas. Este ruído todo exterior, a perturbação da vida privada, aquela sensação que as pessoas vão criando em ti que é muito injusta porque tu sabes que fizeste o teu trabalho o melhor que podias e sabias e, quando erras, há sempre aquele olhar de desdém de quem acha que terás feito de propósito. É o olhar que sugere premeditação. Hoje em dia, com o tal escrutínio que existe, com a dimensão que o jogo assume em termos mediáticos, com as redes sociais, que exponenciaram esta partilha de informação, toda a gente opina.

Bola na RedeNa tua opinião, os árbitros estavam mais protegidos, porque menos expostos, antes da criação das redes sociais?

Duarte Gomes: Sem dúvida. E quando dizes protegidos dizes no sentido em que o seu nome, a sua imagem, os seus emails, as suas contas de redes sociais ou não existiam ou quando existiam, estavam na fase inicial e não eram divulgados. Há muita dificuldade em distinguir a crítica à competência do ataque à integridade. São duas coisas completamente distintas. Qualquer profissional pode e deve ser criticado de forma legítima em modo próprio e no local certo. Depois há aquela linha que separa tudo isso do ataque à idoneidade, à família, à invasão pessoal com partilha de elementos privados para as redes sociais e com um “bar aberto” de pessoas que te querem atacar, pressionar-te e magoar-te para te deixar abatido.

Bola na RedeCasos como o “Apito Dourado” perpetuaram o estigma da suspeita sobre os árbitros?

Duarte Gomes: Acho exatamente o contrário. Acho que o Apito Dourado foi uma benção porque veio expor todos aqueles, e não apenas árbitros porque tratou-se de muito mais do que isso, que de uma forma comprovadamente ilegal, ou não comprovadamente ilegal mas altamente imoral, tentaram tirar dividendos desportivos de formas desvirtuadas. Expôs nomes, expôs os rostos, expôs as vozes das gravações e todos nós vimos, ouvimos e lembramos. Foi importante haver essa diferenciação porque, por exemplo, já estava na 1ª Liga quando esse escândalo rebentou e foi importante perceber e que se percebesse quem é que não fazia parte do cesto de algumas maçãs podres que existiam no futebol.

Bola na RedeAlguma vez foste abordado para tentativas de aliciamento?

Duarte Gomes: Nunca, em 25 anos de carreira. Nem uma tentativa indireta, nem direta, nem por via de alguém, nem uma insinuação. Nunca, nunca. E tenho muito prazer em dizer isto publicamente. Isso de facto acontecia muito naquela altura, anos 80, anos 90, era o modus operandi de atuar no futebol. Esta era a verdade, não vale a pena escondê-lo, e depois havia quem cedesse ou não. Nem se trata de corrupção ativa, era mais a questão do favor, da carreira, da promoção, do jeitinho.

Bola na RedePor que é achas que nos programas de comentário desportivo se está mais tempo a falar de arbitragens do que do jogo jogado?

Duarte Gomes: É profundamente cultural. O futebol é uma das montras maiores da sociedade em termos de posicionamento, educação, formação e cultura. É com muita pena que digo isto mas nós culturalmente somos um povo que, pelo que se manifesta através do futebol, estamos a anos-luz daquilo que podemos ser em termos de evolução, mentalidade, educação, saber estar, respeito.

Bola na RedeA isso acrescenta-se ser um fenómeno altamente emocional.

Duarte Gomes: Exatamente. As pessoas além de não estarem preparadas culturalmente para discutir um fenómeno desta importância, são muito afetadas pela clubite, pelas suas emoções. Por isso é que perdem muito tempo no acessório, desligando, muito injustamente para quem joga, daquilo que é essencial, que é esse protagonismo que eles deviam ter.

Bola na RedeMas esses protagonistas às vezes também recorrem às arbitragens para justificar maus resultados.

Duarte Gomes: Sim, a verdade é que nós passamos a vida a falar de arbitragens porque dá muita jeito a toda a gente justificar os insucessos desportivos com erros de árbitros, que de facto existem mas não são diferentes, se virmos a uma grande distância, dos erros que os jogadores cometem. Passes atrasados, bolas mal batidas pelos guarda-redes, frangos, falhanços à frente da baliza, substituições mal feitas, esquemas táticos mal feitos. São erros que acontecem. O problema é que, aos olhos das pessoas, o erro do árbitro é premeditado e os outros faz parte. Esta inversão de valores diz muito daquilo que somos enquanto pessoas e da forma como estamos na vida.

Bola na RedeDe quem é a culpa disso?

Duarte Gomes: É de todos nós. Primeiro, a questão da educação e de saber estar. As pessoas não têm uma educação orientada para respeitar a adversidade e saber aceitar um resultado negativo. Mais, de saber aceitar um resultado negativo, ainda que por variáveis que não dominam e que até tenham sido prejudicados. Porque entre o prejuízo e o benefício, no final da época as contas estarão bem feitas com certeza. É também muito exponenciado por dirigentes de clubes e staff que têm voz ativa no futebol, têm poder de formar opinião e que a deformam. É também exponenciado por alguns comentadores que, percebendo muito pouco de arbitragem, falam de forma demasiado agressiva, muitas vezes de forma errada ou até mentirosa, deformando a opinião pública. E também é culpa de quem assiste a tudo isto de forma impávida e serena e não tem nem a coragem nem a determinação de tentar evitar que isto aconteça e punir isto devidamente. Portanto, andamos num círculo vicioso de punição, de sensação de impunidade, em que tudo é permitido para fazer exatamente o oposto do que o futebol pretende, que é valorização.

Bola na RedeCom os árbitros a terem o seu trabalho escrutinado de forma minuciosa, não faria sentido que estes também se pudessem defender publicamente?

Duarte Gomes: A comunicação é fundamental e nos tempos que nós vivemos hoje, de redes sociais e em que toda a gente fala e toma a sua posição, como é óbvio é fundamental que eles falassem. Não sou daqueles que defende que deve haver uma comunicação jogo a jogo. Sabes qual é o problema de se falar muito? É banalizar o discurso. Portanto, falar pouco e falar bem.

Bola na RedeE a verdade é que os árbitros também têm uma estrutura.

Duarte Gomes: Sim, o Conselho de Arbitragem. Em algumas situações, era importante que houvesse uma comunicação para o exterior em relação a algumas situações de jogo. Não apenas as mais mediáticas, mas de uma forma estratégica e abrangente, em que fossem esclarecidas todas as questões técnicas de maior relevo. A questão é que num setor como o da arbitragem, que sempre foi muito suspeito, não falar só acumula a suspeição. Mostrar, explicar, esclarecer, mesmo que assumindo o erro, é fundamental para aumentar a transparência. A arbitragem tem de se mostrar mais aos adeptos para matar os fantasmas e claramente dizer que nesta casa não se esconde rigorosamente nada.

Bola na RedeSomos dos campeonatos com menor tempo útil de jogo. Como se pode melhorar este aspecto?

Duarte Gomes: Isso implicava uma grande reflexão a nível dos árbitros, jogadores e treinadores, e uma maior e ainda mais difícil ao nível do posicionamento dos adeptos. É muito engraçado dizer que o futebol inglês é fantástico e que o tempo útil de jogo lá é altíssimo e que as faltas raramente chegam às 20. Mas isto acontece, primeiro, porque as arbitragens são menos defensivas. E são menos defensivas porque são menos atacadas no exterior. Para que tenhas uma ideia, não há um único jornal desportivo em Inglaterra. Portanto, está tudo dito. Depois, porque não há uma tendência do jogador e do treinador de protestar a toda a hora, de cair fácil com uma mão agarrada à cara quando o toque é na barriga e de simular. Se todos nós, que aparentemente somos fãs incondicionais de tempo útil de jogo, na prática o conseguimos implementar, sim as coisas melhoram.

Bola na RedeAchas que a crítica é também porque quem fala não tem noção do trabalho de quem está dentro de campo?

Duarte Gomes: Isto tem um pormenor engraçado, só para teres uma ideia, toda a gente que diz sobre o tempo útil que cá é só faltas e faltinhas, apitam tudo e o futebol inglês é que é. Se puseres essa pessoa no Benfica-Sporting ou no Benfica-Porto, há uma pequena falta no meio-campo que o árbitro não marca e a outra equipa marca um golo, cai o Carmo e a Trindade. Porque aquela faltinha, aquilo que a pessoa não quer que se marque, tinha que se marcar. E vão ver aquilo em repetição em 50 ângulos. Isto é tudo um bluff cultural, nós somos uns eternos wannabes. Nós queríamos ser como eles, mas não somos. Dizer que isto é uma responsabilidade exclusiva dos árbitros é errado, é também dos árbitros mas é sobretudo do futebol português, da sua estrutura interna e da forma como é visto cá fora. Até pela imprensa.

Bola na Rede:: Em cada jogo, o desafio para um árbitro é manter o equilíbrio entre não ser demasiado rigoroso nem ser demasiado brando?

Duarte Gomes: É um dos desafios, sim. Acima de tudo, o árbitro não se pode descaracterizar enquanto pessoa. Tal como o jogador nunca o pode fazer. Todos os jogadores e os treinadores, e tu já viste isso em campo, na forma como reagem, como disputam a bola, são o reflexo da sua personalidade. Portanto, os árbitros também. Para além desse desafio de manterem a sua identidade, têm também de gerir a sua autoridade. E se tu tiveres uma semana muito má, se estiveres num processo de divórcio, um problema financeiro, um despedimento, o falecimento de alguém próximo, o teu estado de espírito pode estar alterado e tu tens de saber muito bem desligar disso e deixar essa situação à porta do balneário.

– Kickoff, um projeto pedagógico no futebol –

Bola na RedeComo te surgiu a ideia de criar o Kickoff?

Duarte Gomes: Quando acabei a carreira, pensei no que ia fazer em termos desportivos. Tenho um negócio pessoal, uma pequena empresa, e tenho a minha vida orientada de outra forma mas queria ficar ligado ao futebol, onde estava desde os 18. Quando recebi convites para estar ligado à comunicação social, percebi logo que seria muito difícil na própria comunicação social eu conseguir saciar esta vontade, que sempre tive até quando estava no ativo, de humanizar o árbitro, de explicar às pessoas o erro. Chamem-me incompetente, digam que eu não tenho jeito nenhum, digam que eu não sou nada bom para isto mas não me chamem desonesto.

Bola na RedeO objetivo foi, desde início, ajudar a melhorar a cultura desportiva?

Duarte Gomes: Sim, é esta pequena grande diferença, a tal questão cultural, de tentar pôr no adepto, na imprensa e até nos agentes desportivos o chip de que erramos, sim, somos uns melhores e outros piores, mas não somos más pessoas nem somos desonestos. Eu sabia que muito dificilmente ia consegui-lo na imprensa porque esta está formatada para vender a análise da decisão. Embora esteja na SIC Notícias, no Expresso e n’A Bola, que são três espaços muito bons para ainda conseguir fazer alguma pedagogia porque tenho tempo de antena e espaço para escrever nesse sentido, não chegava. E o Kickoff vem suprimir tudo isso.

Fonte: Kickoff – Duarte Gomes

Bola na RedeTens, por assim dizer, total liberdade editorial?

Duarte Gomes: Exato. Eu faço o que quero, eu digo o que quero, eu estou como quero e faço a pedagogia que quero. Eu mostro os lances, eu analiso os lances, dou a cara, tudo de frente e sem esconder rigorosamente nada. Vamos falar do erro, não vamos escamotear, mas vamos falar com elevação. Claro que quando abordas os lances mais polémicos, levas com toda a gente. Levas com aqueles “doentes” todos nos primeiros dias que só querem ouvir a explicação como arma de arremesso. Não querem a explicação para aprender. No fundo, o projeto quer mudar um bocado a forma de estar das pessoas e a mentalidade. Se me disseres assim “Vais conseguir?”, não, isso é lírico, como é óbvio, mas o que me interessa a mim é fazer a minha quota-parte e eu durmo descansado quando sei que tentei.

Bola na RedeTens algum tipo de apoio ao Kickoff?

Duarte Gomes: O Kickoff é um projeto profundamente amador, unicamente gerido por mim, sem um único cêntimo associado exterior, sem nenhum patrocínio e já tenho mais de 5.000 artigos escritos e centenas de vídeos. Dá-me muito gozo nestes quatro anos ter construído isto sozinho e hoje perceber que o Kickoff tem cerca de 230.000 seguidores nas redes sociais todas.

Bola na RedeEste projeto aumenta a tua exposição. Que desafios é que isso te traz?

Duarte Gomes: Neste momento sou profissional “de comunicação”, no sentido dos meios de comunicação social onde colaboro e onde tenho um espaço grande. Eu tenho uma obrigação muito grande de ser muito exigente comigo próprio em relação à informação que dou. Isto obriga-me a ser um estudioso atento das leis de jogo, das recomendações que os árbitros recebem e por isso mantenho-me muito ligado a ex-colegas meus porque quero ter sempre a visão muito próxima do relvado.

Bola na RedeEssa visão vai-se perdendo com o passar da idade e o afastamento dos relvados?

Duarte Gomes: Sim, é muito normal nós perdermos alguns feelings e tornarmo-nos muito automatizados em relação às leis de jogo. E eu não quero perder este contacto com a realidade terrena. Muitas vezes o que eu vejo na televisão não é o que de facto aconteceu em campo, não tem aquela dimensão, é muito mais aceitável em campo. E eu não quero perder essa capacidade de análise e por isso falo com muitas pessoas, leio muito as leis de jogo, sou um estudioso profundo para nunca errar.

Bola na RedeRecebes muitas solicitações para esclarecer lances específicos?

Duarte Gomes: Sim e é algo que me deixa muito feliz e muito honrado. Tanto de jogadores, como treinadores, presidentes de clubes, de estruturas associativas, de adeptos, comentadores, jornalistas de outros canais. E eu nunca neguei um esclarecimento a quem quer que fosse, porque o Kickoff é um projeto de inclusão. Esta é precisamente a minha ideia, que todas as pessoas conheçam e percebam as regras.

Bola na RedeOs casos recentes da colisão de Kritciuk com Nanu e a jogada entre Luís Diaz e David Carmo são a prova das dores de crescimento do VAR? Mostram que este ainda não resolve tudo no futebol?

Duarte Gomes: São. Nos dois casos, tecnicamente, não há infração e num dos casos houve uma intervenção com base num pressuposto de uma recomendação que foi mal aplicado. Eu sei que isto parece muito feio dizer assim porque isto teve tanto mediatismo e passou tanta raiva e ódio para o exterior que quase não se consegue perceber a decisão. Eu sou dos que claramente defendi, assumi na altura isso e teve um preço caro porque fartei-me de ser chateado por mensagens por causa disso, que para os dois lances não havia falta. Mas, se olhares bem para o lance do Luís Diaz, na verdade não choca muito que exista uma interpretação perante uma entrada completamente fortuita de um jogador sobre outro, com uma perna partida, que origine um vermelho.

Bola na RedePorque na verdade houve uma ação, houve uma consequência e uma perna partida.

Duarte Gomes: Sim. Nós não estamos a falar de uma situação em que não se passou rigorosamente nada e de repente sai um vermelho. Nós não estamos a falar de um erro completamente insano. É um erro, sim, porque aquele lance não tinha que ser penalizado. É um remate à baliza com um desfecho infeliz, como no outro é uma colisão entre dois jogadores num movimento contrário com desfecho infeliz. Agora, a loucura que se gerou por causa disto, a raiva que foi exponenciada nas redes sociais. Houve um aproveitamento muito grande para capitalizar num erro algumas coisas e hiperdimensionar, pressionar e condicionar e é mais do mesmo na arbitragem. Não é nada de novo, é transversal, não é apenas um protagonista. Hoje são uns, amanhã são outros, depende da classificação, do resultado, da insatisfação dos adeptos e é isso que tem que parar no futebol. É uma forma de estar muito pequenina.

Bola na RedeEstes casos geraram ameaças e ofensas aos árbitros em questão e aos seus familiares. Como é que se protege estas pessoas?

Duarte Gomes: Os árbitros foram uma perfeita desilusão nesta matéria toda porque mostraram que não têm espírito de classe. Ser árbitro é também estar na arbitragem e eu tenho a sensação que o meu quadro de colegas atuais, que têm todo o meu respeito individualmente enquanto pessoas e na sua competência técnica, falharam muito no aspecto do associativismo, da sua capacidade de se reunir para darem um murro na mesa, defenderem publicamente o colega que foi exposto a um conjunto de ameaças muito feias e a sua família, e de marcarem uma posição. Não o fizeram. E também não percebi que houvesse da parte da estrutura uma defesa férrea nesse sentido. Houve muita gente a falhar na forma como não soube dizer “Nós não admitimos isto”.

Bola na RedeQuais são as consequências dessa inércia?

Duarte Gomes: O problema de nada se ter feito é que estão a convidar a que estas coisas voltem a acontecer. Quando há uma tomada de posição e uma chamada de atenção para que as coisas não se repitam, quando se repetem pode haver uma consequência maior. O que aconteceu foi feio. Não foi só o número do árbitro que foi para a rua, o meu número de telefone também foi partilhado, o de vários comentadores, jornalistas. Foi um massacre por mensagens no Whatsapp, telefonemas, ameaças. Já nem digo que os culpados são os acéfalos que fazem tudo isto, esse são os manietados, mas quem de facto permitiu que isto acontecesse. Acho que a arbitragem não soube reagir bem a este episódio. Garanto-te que a geração anterior de árbitros, com Olegário Benquerença, Pedro Proença, João Ferreira, Paulo Baptista e tantos outros nomes, isto nunca teria acontecido mais. Nós tínhamos feito logo uma reunião em Leiria, tínhamos juntado as tropas, tínhamos defendido publicamente o nosso colega, dávamos um murro na mesa e à próxima que houvesse era greve geral.

Bola na RedeEste mês escreveste numa crónica que “Há, no atual quadro de árbitros, incompetência a mais.” Como é que isto acontece?

Duarte Gomes: É geracional. Acontece também com os clubes, há gerações em que são promovidos jovens para seniores que não estão muito preparados para alta competição. Temos que aceitar isto com naturalidade. Esta crítica, na altura, deixou os meus colegas muito apreensivos mas é verdadeira. Quando digo incompetência a mais não é de muitos mas é a mais para o que é suposto numa prova profissional onde cada resultado desportivo tem um impacto tremendo a todos os níveis.

Bola na RedeHá potencial nos árbitros mais jovens?

DG: Acho que há uma geração de árbitros neste grupo com talento, com competência, com experiência, que têm que passar pelo processo normal de formação, de aprendizagem e de habituação a esta realidade. Mas há também demasiada incompetência. Lamento imenso, é a minha opinião. Nunca levaria isto para a questão da premeditação, nunca levarei e não permito sequer que se leve. Agora, em termos de incompetência e competência técnica o quadro é misto e nem todos os árbitros são altamente competentes.

Bola na RedeQual a melhor lição que o futebol te ensinou?

Duarte Gomes: Dentro do futebol, a arbitragem ensinou-me mais. É a grande lição de vida da minha vida, porque estive lá dos 18 aos 43 anos. Ser resiliente, não baixar os braços, nunca deixar de acreditar, ser muito forte ao impacto exterior negativo, ser resistente em relação a tudo o que é feio, trabalhar em equipa. A partilha de conhecimento com os mais novos, saber sorrir quando apetece bater, saber aguentar o insulto e saber virar as costas no momento certo. Saber reagir da forma certa, nem sempre fiz isso mas é uma aprendizagem.

– Passes curtos –

Bola na RedeQual é para ti o melhor momento da tua carreira?

Duarte Gomes: O primeiro jogo de todos, a estreia. Num jogo de iniciados, como fiscal de linha. Em Outubro de 1991.

Bola na RedeOnde?

Duarte Gomes: Em Alcântara, num campo na Boa-Hora. Acho que já não existe.

Bola na RedeE qual o momento mais difícil?

Duarte Gomes: Tive vários. São todos aqueles que implicaram perturbação da paz familiar. E foram muitos.

Bola na RedeUm estádio?

Duarte Gomes: O do Liverpool.

Bola na RedeQual o jogo que, olhando para trás, mais te orgulhas de ter apitado?

Duarte Gomes: O primeiro.

Bola na RedeQual o melhor momento a que assististe em campo?

Duarte Gomes: Estive como árbitro assistente de baliza nas finais do Euro 2012 e da Liga dos Campeões com o [Pedro] Proença. Na final da Liga dos Campeões em 2012, no Bayern de Munique-Chelsea, o Chelsea ganhou na casa do Bayern em penalties. Estar ali no campo a ver aquele frenesim completo, o estádio cheio, e a fazer parte integrante daquele espetáculo. Eu estava no meio-campo com o árbitro assistente porque estávamos a filtrar os jogadores que marcavam os penalties. Estar ao lado deles naquele stress final dos penalties batidos à nossa frente, vistos daquela zona do terreno e perceber que a equipa da casa perde aquele jogo em penalties, aquela sensação agridoce de ver a equipa completamente desiludida que na sua casa tinha falhado uma conquista. A alegria surreal dos adeptos ingleses e da equipa do Chelsea. Foi muito marcante ver o golo decisivo. Foi a minha primeira grande final internacional e senti-me um privilegiado por estar no palco mais mediático do planeta.

Frederico Seruya

Redação Bola na Rede · ver artigos