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A luta por um sonho – Entrevista a Kelly Pereira

Hugo Santos · 10 min

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Largar tudo e correr atrás do sonho. Este podia ser o lema de vida de Kelly Pereira; licenciada pela Escola Superior de Comunicação Social, a jovem saiu de Londres rumo a um objetivo bem definido no sudeste asiático. Uma entrevista especial e que mostra a importância da força de acreditar.

Bola na Rede (BnR): O que aconteceu em Londres? O que te fez mudar a procura de algo relacionado com o teu curso de Relações Públicas para um ringue de boxe?

Kelly Pereira (KP): Na altura estava a trabalhar na área de Marketing e business development. Londres é uma cidade muito competitiva e alguns dias eram um pouco stressantes no trabalho o que me fez sentir a necessidade de libertar alguma energia. Bater em alguma coisa era de facto o que estava à procura e por sorte encontrei uma escola de boxing e muay thai perto de mim – BAMA The Boado Academy of Martial Arts & Fitness. Fui a uma aula e apaixonei-me. Desde aí experimentei já diferentes disciplinas e embora de momento não tenha tempo para as praticar, uma vez que estou dedicada ao muay thai, existem várias que gostava de fazer.

BnR: E a apresentação ao Muay Thai, ainda foi em Londres?

KP: Sim, comecei por fazer western boxing e rapidamente me apaixonei pelo deporto. Depois de uma luta amigável em prol da Cancer Research (onde se juntaram no ringue duas paixões, o desporto e a área social) comecei a fazer Muay Thai um pouco por acaso. Adorei e sempre achei uma arte marcial bonita de assistir – elegante até – e decidi experimentar. O que me manteve sempre motivada foi o desafio, o facto de ser tão má ao início e querer melhorar a minha técnica.

BnR: Para além das diferenças óbvias do boxe, qual a grande diferença queiras destacar?

KP: Tendo em conta que comecei pelo western boxing, tive grandes dificuldades em sair dos meus “hábitos” quando vim para a Tailândia. Diferenças em alguns pequenos detalhes fazem com que exista uma diferença gigante entre ambas as disciplinas. Diria que a principal diferença está na posição central e na forma como o equilíbrio do corpo e distribuído. No western boxing assumimos sempre uma posição mais narrow de modo a defender a zona central, ombros e cabeça têm um movimento constante e muito próprio. No Muay Thai, muitos dos movimentos de cabeça e ombros (shoulder roll, slip e duck under) são demasiado perigosos tendo em conta a possibilidade de usar o joelho e o pontapé. Além disso, muitas das técnicas no Muay Thai são executadas na ponta do pé o que requer equilíbrio e boa postura – o roundhouse kick, knee, push kick, etc. Finalmente, no Muay Thai há também uma série de movimentos no ar – jump knee, jump elbow, flying kick e superman punch. Tudo coisas giras para aprender.

Fonte: Kelly Pereira
Fonte: Kelly Pereira

BnR: Como começa o sonho de viajar para a Tailândia?

KP: Na altura estava em Londres, com três trabalhos e a treinar oito vezes por semana. Fui convidada para ser Assistant Boxing Coach pelo meu treinador e percebi que era isso que queria fazer. Longas horas e poucas horas de sono a tentar alcançar o nível que queria, não só em termos físicos, mas também para eventualmente lutar. A certa altura apercebi-me que dois dos trabalhos serviam apenas para pagar contas e que a melhor parte do dia era quando estava a dar aulas de boxing ou no ginásio a treinar. Comecei a pensar o que podia fazer para treinar mais e ter que trabalhar menos para pagar contas. Uma vez que o Muay Thai é o desporto nacional da Tailândia, este pareceu-me o melhor destino para vir aprender a arte na sua forma mais pura. Decidi juntar algum dinheiro durante uns meses para poder vir para a Tailândia. Inicialmente o plano era ficar apenas três meses mas consegui arranjar trabalho para poder prolongar a minha estadia.

BnR: Tinhas algum lutador como referência?

KP: Embora não seja a mesma disciplina, sempre admirei imenso a Telma Monteiro. Pelo que representa, pela força, pelo espírito, por ser a mulher que é: um exemplo para todas as mulheres. Adorava fazer um pouco mais de judo e mesmo outras disciplinas mas de momento quero apenas focar-me no Muay Thai. Mais recentemente considero Vasyl Lomachenko um dos melhores pugilistas e sigo várias atletas no MMA.

BnR: É comum ouvir-se falar de lutadores como o Payakaroon, Buakaw ou Saenchai?

KP: Pessoalmente sigo o Buakaw e o Saenchai pois gosto do estilo deles. Mas sinceramente nunca ouvi falar deles aqui nos treinos nem por nenhum Tailandês.

BnR: Eles treinam de igual forma os estrangeiros?

KP: Em grande parte sim. O treino é bastante diferente entre quem apenas quer treinar e quem quer lutar mas quando toca à preparação para a luta o treino é muito semelhante desde que estejamos prontos a dar no duro. No ginásio onde treino de momento os dois filhos do dono têm 13 e 14 anos, eles treinam como nunca vi mais ninguém treinar. Começam antes de nós e acabam depois de nós, mas acredito que seja porque o pai tem grandes expectativas para eles, já treinam assim há muitos anos, são pequenos prodígios e preparam-se para ser campeões em Lumpinee (maior estádio na Tailândia). O rapaz de 14 anos tem já 85 lutas, o que só é possível com um treino muito intenso.

BnR: As tuas canelas, já estão bem calejadas?

KP: Ah! Boa pergunta. Um dos meus maiores medos quando decidi lutar aqui era exactamente a canela. Não há proteção aqui e é full contact. Curiosamente, com a adrenalina do momento não se sente a dor. Sem dúvida que já tenho alguma preparação mas ainda preciso de muita luta para ficar completamente imune à dor.

Fonte: Kelly Pereira
Fonte: Kelly Pereira

BnR: Como foi o teu primeiro combate na Tailândia?

KP: Surpreendentemente estive mais calma do que esperava. Quando decidi que queria lutar disse ao meu treinador que queria lutar dentro de dois meses. Menos de um mês depois ele ofereceu-me uma luta dentro de menos de duas semanas. Na altura achei que ele estava na brincadeira e que estava apenas a tentar puxar por mim. Quando até a mulher dele começou a apontar para o calendário a rir é que percebi que era a sério… Tive cerca de uma semana e meia para me preparar e a minha condição física não era a ideal dado que com três trabalhos parei de treinar nos dois meses anteriores. O desafio principal nessa semana e meia foi controlar a minha mente e todas as dúvidas sobre se estaria pronta, o medo de lutar full contact, o medo de não ter cardio suficiente para chegar ao fim da luta. No dia da luta a rapariga do cartaz não era a minha oponente como era suposto. As categorias de peso na Tailândia não são reguladas (quase inexistentes mesmo). Dado ao meu peso sabia que ia lutar uma rapariga mais alta. Acabei por lutar com uma rapariga mais alta e com cerca de mais 10kg do que eu. Quando a vi e percebi que não era a do cartaz tive receio mas depressa voltei ao meu mantra “I CAN. I WILL. I MUST.” E foquei-me no momento, sem me preocupar com o resto. Foi uma luta puxada no sentido de ela ser mais forte que eu no clinch, mas sendo mais pesada, a partir do round 3 ela ficou muito lenta. Nos primeiros dois rounds eu fui com muita calma para não gastar todas as energias e perceber qual era a estratégia dela. Entretanto percebi que o boxing era o ponto fraco dela e, sendo esse o meu ponto mais forte (western boxing continua a ser mais natural para mim), usei isso como vantagem. Nunca esperei ganhar a uma Tailandesa. Afinal é o desporto nacional deles. Fiquei muito feliz com o resultado mas na realidade a maior vitória foi, sem dúvida, conseguir subir ao ringue, não ter medo da oponente e tê-la sempre nas cordas.

BnR: Conta-nos o que te passou pela cabeça quando acordaste no dia a seguir.

KP: No dia a seguir foi dia de ir trabalhar e acordei muito feliz como é óbvio. Poucas horas de sono e cansada mas muito feliz. O esforço nos treinos, o ter tido a coragem de avançar com apenas 1 semana e meia de treino e o sentimento de que tudo valeu a pena fez-me sentir muito orgulhosa de mim própria. Não há sentimento melhor!

Fonte: Kelly Pereira
Fonte: Kelly Pereira

BnR: Pronta para outro combate?

KP: Pronta! Infelizmente Novembro foi um mês atribulado a recuperar de uma lesão que sofri na luta e pelo facto de ter ficado doente duas vezes. Entretanto tenho treinado para uma meia maratona em Janeiro. A lesão é no peito, por isso achei que podia dar uso às pernas. Em Janeiro/Fevereiro sem dúvida que quero lutar de novo.

BnR: É rentável viver apenas dos combates na Tailândia?

KP: Há quem consiga mas é bastante difícil. Quando vim para cá nem estava sequer a espera de receber dinheiro. Nunca o fiz pelo dinheiro. Entretanto conheci vários lutadores aqui e a maioria, para conseguir ganhar o suficiente, têm que lutar não só na Tailândia mas também em Burma e China. A grande maioria, especialmente ocidentais, fá-lo pelo amor ao desporto e como forma de se auto-desenvolver. O que se recebe por luta é muito pouco para sustentar tudo o resto.

BnR: Tens quantos trabalhos neste momento?

KP: De momento apenas um. Estou num infantário e ensino várias disciplinas em inglês. Sendo a minha prioridade principal treinar Muay Thai, quero apenas manter um trabalho para me poder dedicar aos treinos.

BnR: O que aconselhas a quem tem o mesmo sonho que tu de combater aí?

KP: Venham! Sonhos são muitas vezes mais fáceis de alcançar do que imaginamos. Antes de começar a planear a minha viagem tudo me parecia sempre tão longe e impossível. Marquei a passagem de avião e aos poucos fui dando passos pequenos. Durante os primeiros cinco meses na Tailândia sempre achei que não teria coragem suficiente para lutar aqui. Agora e engraçado olhar para trás e ver o processo.

Fonte: Kelly Pereira
Fonte: Kelly Pereira

BnR: Já tiveste oportunidade para conhecer esse país?

KP: Felizmente já conheci algumas partes mas devido ao trabalho de momento tenho que ficar maioritariamente em Chiang Mai. Felizmente já conheço um pouco de Chaing Mai fora da cidade e zonas menos turísticas. Inevitavelmente são as zonas mais bonitas e genuínas. Entretanto visitei também Bangkok, Pai, Kho Samui e vou a Phuket, Krabi e Phi Phi Islands durante as minhas férias de Natal. O plano é explorar zonas menos turísticas sempre que tiver férias do trabalho.

BnR: Sendo o destino de viagem de várias pessoas, podes dizer as coisas boas e más?

KP: Sem dúvida há mais coisas boas do que más. Diria que mau é apenas a poluição em algumas das cidades, especialmente Bangkok e Chiang Mai. A quantidade de carros e motas na estrada, a juntar ao clima quente, é uma combinação complicada por vezes. Muitas zonas são também já muito comerciais e foram já muito exploradas por turistas. Quanto a coisas boas: o clima, a comida, a beleza do pais e a cultura tão diferente são todos pontos muito positivos a meu ver mas diria que o principal ponto positivo são as pessoas – várias foram as vezes que me esqueci das chaves na ignição da mota ou que precisei de ajuda na estrada. Nunca me senti em perigo mesmo a meio da noite. Mesmo não falando uma palavra de inglês os tailandeses estão sempre dispostos a ajudar. São óptimos hosts e adoram mostrar o seu país e cultura. Dentro do Sudeste Asiático senti muita diferença por exemplo entre o Vietname e a Tailândia. Adoro o Vietname mas as pessoas não são tão simpáticas e afáveis como na Tailândia. É difícil explicar mas sinto que há sempre um sorriso genuíno na maioria dos tailandeses.

Fonte: Kelly Pereira
Fonte: Kelly Pereira

BnR: E agora? O que diz a tua Monkey Mind? Qual o teu futuro?

KP: A monkey mind está mais focada do que nunca. As saudades da família tornam esta viagem complicada. Sinto que a melhor forma de encará-la é dar o meu máximo para fazer este ano valer a pena, procurando desenvolver-me o máximo possível e quebrar barreiras pessoais em termos físicos e psicológicos. A monkey mind tem sempre dúvidas e medos mas sei que estou consciente dela e todos os dias trabalho de forma a calar essa voz focando-me na disciplina pessoal – fazer o que tem que ser feito, quando tem que ser feito, mesmo que não me apeteça. Quanto aos medos, acredito que se corrermos em paralelo aos nossos medos, eles nunca nos poderão parar.

Parte do plano é lutar Muay Thai e Boxing no UK e em Portugal, se possível. No futuro gostaria de poder ligar esta minha paixão a uma profissão e poder fazer a diferença através do meu, também grande, amor pela área da solidariedade e mudança social. Acredito que todos nós podemos fazer algo para um mundo melhor ou pelo menos melhorar a pequena esquina onde nos encontramos. Estou de momento a tentar lançar um projecto sem fins lucrativos relacionado com as artes marciais e a defesa pessoal. O futuro é cheio de possibilidades.

Foto de Capa: Kelly Pereira

Hugo Santos

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