A luta por um sonho – Entrevista a Kelly Pereira

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BnR: É comum ouvir-se falar de lutadores como o Payakaroon, Buakaw ou Saenchai?

KP: Pessoalmente sigo o Buakaw e o Saenchai pois gosto do estilo deles. Mas sinceramente nunca ouvi falar deles aqui nos treinos nem por nenhum Tailandês.

BnR: Eles treinam de igual forma os estrangeiros?

KP: Em grande parte sim. O treino é bastante diferente entre quem apenas quer treinar e quem quer lutar mas quando toca à preparação para a luta o treino é muito semelhante desde que estejamos prontos a dar no duro. No ginásio onde treino de momento os dois filhos do dono têm 13 e 14 anos, eles treinam como nunca vi mais ninguém treinar. Começam antes de nós e acabam depois de nós, mas acredito que seja porque o pai tem grandes expectativas para eles, já treinam assim há muitos anos, são pequenos prodígios e preparam-se para ser campeões em Lumpinee (maior estádio na Tailândia). O rapaz de 14 anos tem já 85 lutas, o que só é possível com um treino muito intenso.

BnR: As tuas canelas, já estão bem calejadas?

KP: Ah! Boa pergunta. Um dos meus maiores medos quando decidi lutar aqui era exactamente a canela. Não há proteção aqui e é full contact. Curiosamente, com a adrenalina do momento não se sente a dor. Sem dúvida que já tenho alguma preparação mas ainda preciso de muita luta para ficar completamente imune à dor.

Fonte: Kelly Pereira
Fonte: Kelly Pereira

BnR: Como foi o teu primeiro combate na Tailândia?

KP: Surpreendentemente estive mais calma do que esperava. Quando decidi que queria lutar disse ao meu treinador que queria lutar dentro de dois meses. Menos de um mês depois ele ofereceu-me uma luta dentro de menos de duas semanas. Na altura achei que ele estava na brincadeira e que estava apenas a tentar puxar por mim. Quando até a mulher dele começou a apontar para o calendário a rir é que percebi que era a sério… Tive cerca de uma semana e meia para me preparar e a minha condição física não era a ideal dado que com três trabalhos parei de treinar nos dois meses anteriores. O desafio principal nessa semana e meia foi controlar a minha mente e todas as dúvidas sobre se estaria pronta, o medo de lutar full contact, o medo de não ter cardio suficiente para chegar ao fim da luta. No dia da luta a rapariga do cartaz não era a minha oponente como era suposto. As categorias de peso na Tailândia não são reguladas (quase inexistentes mesmo). Dado ao meu peso sabia que ia lutar uma rapariga mais alta. Acabei por lutar com uma rapariga mais alta e com cerca de mais 10kg do que eu. Quando a vi e percebi que não era a do cartaz tive receio mas depressa voltei ao meu mantra “I CAN. I WILL. I MUST.” E foquei-me no momento, sem me preocupar com o resto. Foi uma luta puxada no sentido de ela ser mais forte que eu no clinch, mas sendo mais pesada, a partir do round 3 ela ficou muito lenta. Nos primeiros dois rounds eu fui com muita calma para não gastar todas as energias e perceber qual era a estratégia dela. Entretanto percebi que o boxing era o ponto fraco dela e, sendo esse o meu ponto mais forte (western boxing continua a ser mais natural para mim), usei isso como vantagem. Nunca esperei ganhar a uma Tailandesa. Afinal é o desporto nacional deles. Fiquei muito feliz com o resultado mas na realidade a maior vitória foi, sem dúvida, conseguir subir ao ringue, não ter medo da oponente e tê-la sempre nas cordas.

BnR: Conta-nos o que te passou pela cabeça quando acordaste no dia a seguir.

KP: No dia a seguir foi dia de ir trabalhar e acordei muito feliz como é óbvio. Poucas horas de sono e cansada mas muito feliz. O esforço nos treinos, o ter tido a coragem de avançar com apenas 1 semana e meia de treino e o sentimento de que tudo valeu a pena fez-me sentir muito orgulhosa de mim própria. Não há sentimento melhor!

Fonte: Kelly Pereira
Fonte: Kelly Pereira

BnR: Pronta para outro combate?

KP: Pronta! Infelizmente Novembro foi um mês atribulado a recuperar de uma lesão que sofri na luta e pelo facto de ter ficado doente duas vezes. Entretanto tenho treinado para uma meia maratona em Janeiro. A lesão é no peito, por isso achei que podia dar uso às pernas. Em Janeiro/Fevereiro sem dúvida que quero lutar de novo.

BnR: É rentável viver apenas dos combates na Tailândia?

KP: Há quem consiga mas é bastante difícil. Quando vim para cá nem estava sequer a espera de receber dinheiro. Nunca o fiz pelo dinheiro. Entretanto conheci vários lutadores aqui e a maioria, para conseguir ganhar o suficiente, têm que lutar não só na Tailândia mas também em Burma e China. A grande maioria, especialmente ocidentais, fá-lo pelo amor ao desporto e como forma de se auto-desenvolver. O que se recebe por luta é muito pouco para sustentar tudo o resto.

Hugo Santos
Hugo Santoshttp://www.bolanarede.pt
Futebol por amor, motociclismo por paixão. Toda uma vida a acompanhar ambos, sempre a ansiar a luz verde.                                                                                                                                                 O Hugo não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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