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Miguel Pisco é praticante de Judo. Após ter participado nos Mundiais da modalidade em Tóquio, o judoca de 22 anos aceitou o desafio do Bola na Rede, e falou da sua ainda curta carreira e da experiência em terras nipónicas, abordou os desafios futuros, e, ainda, deu a sua opinião sobre o atual estado do Judo em Portugal.
-Carreira como Judoca-
Bola na Rede [BnR]: Há quantos anos é que estás ligado ao Judo?
Miguel Pisco [MP]: Comecei a fazer Judo quando tinha quatro anos, e já conto com 18 de prática.
BnR: Como surgiu o gosto pelo Judo? E tens algum ídolo em que te inspires para ser melhor nesta modalidade a cada dia que passa?
MP: Desde o início e logo na primeira aula, gostei e nunca mais larguei, sendo que é o que mais gosto de fazer. Quanto à questão dos ídolos, confesso que não tenho nenhum, mas reconheço em vários atletas algumas características que admiro. Além disso, alguns colegas e amigos de treino têm percursos singulares e respeito-os muito, além de que ajuda estar rodeado dessas pessoas.
BnR: Como atleta, competes na categoria -60kg. Para quem não entende nada de Judo, será que podes explicar quantas categorias existem? E como é definida qual a categoria em que cada judoca irá competir?
MP: No Judo, existem sete categorias masculinas (-60kg, -66kg, -73kg, -81kg, -90kg, -100kg e +100kg) e sete femininas (-48kg, -52kg, -57kg, -63kg, -70kg, -78kg e +78kg). Regra geral, cada atleta tem um corpo que naturalmente tende para se encaixar numa certa categoria. O que pode ainda acontecer é o/a judoca estar em duas categorias, e aí acaba por escolher aquela que prefere. Mas todos acabam por adaptar o seu corpo à categoria em que competem.

Fonte: Arquivo pessoal do entrevistado
BnR: Começaste a participar em Campeonatos Nacionais em 2010. És capaz de dizer exatamente onde decorreu a primeira prova em que competiste e em que lugar terminaste?
MP: Sim, recordo-me perfeitamente a competição onde fiz a minha estreia. O meu primeiro campeonato nacional foi o Nacional de Juvenis. Competi na categoria -46kg, a prova até me correu bem, e consegui terminar em 2.º lugar. Quanto ao sítio onde decorreu o campeonato, já é mais difícil, pois já foi há uns bons anos (momento de riso).
BnR: Tornaste-te atleta internacional no mesmo ano. Quando sentiste a necessidade de começar a competir internacionalmente? E lembras-te qual foi a tua primeira prova fora de Portugal?
MP: A partir do momento em que lutei num Campeonato Nacional e fiquei em segundo, senti a necessidade de ter um desafio maior. Queria sair de Portugal e ver como era lá fora, como seriam os adversários, as competições, tudo. Lembro-me perfeitamente, fui a Granada, no mesmo ano do Nacional, acabei por perder no primeiro combate e fui eliminado. Essa experiência marcou-me muito, pois percebi que o atleta que era nessa altura não chegava para ser bem-sucedido fora do nosso país. E isso é muito importante para um atleta, ser competitivo e encontrar desafios, e depois preparar para os superar.
BnR: Em 2018, conquistaste duas medalhas de bronze em provas internacionais – no Uster-Zurich Senior European Cup (Março) e Glasgow European Open (outubro) -. Que importância tiveram para ti estes dois títulos?
MP: Essas medalhas são os meus resultados mais importantes até hoje, e abriram-me muitas portas. Penso que foram duas competições em que consegui lutar como quero e como treino diariamente, e que me mostraram um pouco do caminho que devo seguir. Foram de facto dois momentos muito felizes na minha carreira.

Fonte: European Judo Union
BnR: Recentemente tiveste em Tóquio a participar no Mundial da modalidade. Como foi essa experiência? Foi positivo estar perto dos grandes nomes do Judo internacional?
MP: Lutar num Mundial de séniores era um objetivo meu, e poder concretizá-lo em Tóquio, no Nippon Budokan – um pavilhão emblemático com um ambiente incrível – foi muito positivo. A experiência da competição em si foi “agridoce” devido ao mau resultado, e foi o culminar de um ciclo para mim. Estar rodeado de estrelas do Judo é sempre positivo, em especial aqueles com quem me identifico. Estou habituado a estar entre eles, em competições e estágios, mas é sempre enriquecedor observar e competir contra atletas mais experientes e medalhados.
BnR: Já representaste a Seleção Nacional de Judo em competições internacionais, mas ainda não nos Jogos Olímpicos. Tens o sonho de ir a Tóquio no próximo ano? E caso se concretize, acreditas que é possível subir ao pódio e cantar o hino com uma medalha de ouro no pescoço?
MP: Neste momento, para mim vai ser extremamente difícil alcançar o apuramento para os Jogos de Tóquio, pois o apuramento faz-se com recurso a um ranking mundial, no qual estou numa posição desfavorável. Mas é sempre possível, se as oportunidades se alinharem com a minha preparação, tentarei aproveitá-las claro. Mas penso nos Jogos Olímpicos como um sonho, não um objetivo imediato. Tenho muitas etapas a cumprir antes.
BnR: Até hoje, qual foi o título mais saboroso que conquistaste? Podes explicar melhor a tua escolha?
MP: Penso que a medalha de bronze em Zurique foi o título mais saboroso que conquistei até hoje. Foi a minha primeira medalha internacional, estava lá sozinho com o meu treinador e senti pela primeira vez na carreira que tudo estava verdadeiramente como deveria estar. Fiz tudo bem, lutei o meu melhor nesse dia. E no final, ainda fui buscar uma medalha e recebi imenso apoio por parte de emigrantes portugueses na Suíça que estavam a assistir à prova e gritavam por mim apenas por ser português. Foi um dia incrível.
BnR: Tendo em conta que já possuís alguns anos de experiência nesta modalidade, consegues eleger o melhor treinador e colega com quem trabalhaste? Podes explicar melhor o motivo das tuas escolhas?
MP: A escolha do treinador é fácil e diria o meu atual treinador, Miguel Leal Santos. Em relação ao colega…é uma escolha muito difícil, e até acho ingrato ter de escolher um. Existe um grupo de pessoas, colegas de treino, amigos que me ajudam todos os dias e que estão comigo em quase todos os momentos. Tenho um grupo incrível que mora e treina comigo no Centro de Alto Rendimento do Jamor e me fez crescer muito e alguns colegas de clube e de seleção também são pessoas com quem gosto muito de trabalhar, daí que seja complicado eleger alguém.

Fonte: Arquivo pessoal do entrevistado
-Percurso Académico-
BnR: Sei que estás a tirar a licenciatura em Ciências do Desporto na FMH (Fac. de Motricidade Humana – Univ. de Lisboa). A ligação ao Judo acabou por ter influência na tua escolha académica?
MP: Claro que sim. Tanto que mudei de área de estudos – estudei Artes Visuais no secundário – e ingressei no curso precisamente para ser treinador de Judo.
BnR: Tendo a perfeita noção de que uma Licenciatura exige muito tempo de estudo, como conseguiste conciliar o Judo com a Licenciatura?
MP: A maior ajuda foi morar ao lado da FMH, no CAR Jamor, como disse anteriormente. Isso permite-me descansar mais, não ter tantas despesas com transportes e rentabilizar o tempo para estudar e treinar, além das boas condições de treino e de fisioterapia de que usufruo, logo ao lado da Faculdade. Alguns professores também foram uma ajuda imensa, muito compreensivos com o nosso percurso (meu e de colegas de turma e de treino que moram comigo no CAR) e arranjavam sempre forma de podermos cumprir as tarefas que eram necessárias. Outra grande ajuda foi precisamente morar com colegas de treino e de turma em simultâneo, pois estudámos muitas horas juntos, fizemos todos os trabalhos de grupo em conjunto e demos muitas explicações uns aos outros.

Fonte: European Judo Union
BnR: Uma vez que estás próximo de acabar a licenciatura, acreditas que o Ensino Superior e a sua carga horária permite uma boa permutação entre Desporto e Faculdade ou pensas que o nosso país deveria ser mais benevolente com atletas de alto rendimento, de forma os mesmos terem maior vontade em conciliar a carreira desportiva com a vida universitária?
MP: Na minha opinião, penso que o Ensino, de forma geral, não leva em conta os atletas de alto rendimento. Estudo numa Faculdade de Desporto, mas ainda assim tive professores que nem as poucas benesses que estão previstas na Lei cumpriram e que não são tolerantes com os atletas de alto rendimento. Não existe, pelo menos no caso do Judo, qualquer articulação entre os treinos e as aulas. Sempre tive de ajustar os treinos aos meus horários, e faltei a muitas aulas para treinar ou para descansar. É algo que tem de ser revisto urgentemente.
-Opinião acerca do Judo português-
BnR: Dado que já competes em provas de alto nível desde 2011, acreditas que os campeonatos nacionais estão ao nível das provas internacionais, em termos de organização e competitividade?
MP: A organização das provas nacionais é muito boa, sendo melhor do que em muitos países. Em termos de competitividade, estamos abaixo da maioria dos países europeus ou asiáticos, tanto em qualidade como em quantidade. Penso que é algo deve ser melhorado.
BnR: O Jorge Fonseca conquistou a medalha de ouro nos Mundiais em Tóquio há pouquíssimo tempo. Acreditas que é possível que ele ou outro/a judoca conseguir alcançar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do próximo ano?
MP: Acredito que, com este título, o Jorge seja o nosso maior candidato a medalhas, apesar de existirem outros potenciais candidatos. Se será de ouro, é sempre difícil dizer num desporto como o Judo, mas sem dúvida que o Jorge é um sério candidato à medalha, como ele próprio assumiu.

Fonte: Arquivo pessoal do entrevistado
BnR: Numa altura em que se fala sistematicamente em igualdade de géneros, vê-se que o Judo é um desporto em que não existe muitas diferenças entre homens e mulheres, em termos de competitividade e notoriedade. Sentes que este exemplo deveria ser transporto para outras modalidades e, talvez, outras áreas da nossa sociedade?
MP: Ainda existem algumas diferenças na competitividade do Judo masculino e feminino, contudo penso que é um dos desportos onde mais se trabalha para inverter essa situação e sinto que existe muito respeito por um atleta de alto nível no nosso meio, independentemente de ser mulher ou homem. E, sem dúvida que deveria ser assim em todas as áreas da sociedade, inclusive noutros desportos.
BnR: Apesar de já serem notórias algumas boas instalações existentes em Portugal para a prática do Judo, o Futebol continua a manter a preferência entre o público português. Tem alguma esperança que no futuro se assista a um aumento do número de pessoas a ter o Judo como desporto favorito e praticado?
MP: Espero que o desporto, de forma geral, evolua em Portugal. Apesar de toda gente ver e discutir Futebol, sinto que existe uma grande lacuna na cultura desportiva e na literacia motora no nosso país. Claro que quero que o Judo cresça, e tem crescido muito, mas tenho noção de que existe um longo caminho a percorrer para tornar o Judo mais acessível e atraente a todos.
Foto de Capa: Federação Portuguesa de Judo












