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«Até me arrepio só de falar no Vitória SC, os adeptos são únicos» – Entrevista BnR com Grégory

João Amaral Santos · 23 min

«Até me arrepio só de falar no Vitória SC, os adeptos são únicos» – Entrevista BnR com Grégory

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«Identifico-me muito mais com os portugueses do que com os franceses. Devo muito a este país»

Grégory Arnolin, 40 anos, personifica o exemplo de perseverança de quem fintou o destino para cumprir os seus sonhos: nascido e criado no (complicado) bairro de Montfermeil, nos subúrbios de país, o “central”, presença incontornável – e temida – nos relvados portugueses no início do século, fez carreira no norte do país e em Gijón, onde semanalmente media forças com melhores avançados do mundo. Descalçadas as chuteiras, Grégory assentou no país que adoptou como seu, e mantém-se ligado ao futebol como gestor de carreiras na Proeleven. O Bola na Rede regressou ao passado com o ex-jogador, internacional por Martinica, e que fechou o seu percurso nos relvados na improvável Índia.

Bola na RedeOlá, Grégory. Estou a ver que trocaste as chuteiras pelo fato… Continuas ligado ao futebol?

Grégory: Sim, faz cinco anos que deixei os relvados e agora trabalho na agência de jogadores Proeleven, com o Carlos Gonçalves, que foi meu empresário e sempre me disse que iria trabalhar com ele quando terminasse a carreira. E foi isso mesmo que aconteceu… Já estou a trabalhar neste projeto há muito tempo.

Bola na RedeO Carlos Gonçalves tem recrutado vários ex-jogadores que acompanhou para colaborarem na empresa. É normal criar-se uma relação tão forte, de amizade, entre empresário e jogadores, como acontece neste caso?

Grégory: A nossa equipa tem muitos ex-jogadores: como é o caso do Miguelito, do João Vilela, do Sérgio Organista, do Carlos Coelho – que é um pouco mais velho e chegou a jogar na selecção portuguesa –, o Miguel Herlein, o Simão Coutinho… Enfim, essa é a filosofia do Carlos Gonçalves, confiar nas pessoas que foram jogadores e que conhece bem. Ele considera que isso pode ser uma vantagem para a empresa. Acima de tudo são pessoas em quem ele confia para fazer bem este trabalho. Mas é verdade que temos muitos ex-jogadores… Dá perfeitamente para fazermos um joguinho e de certeza que não perdemos (risos).

Bola na RedeVamos falar do teu percurso. Nasceste em Paris, França, e foi lá que passaste toda a tua infância e juventude. Quando eras crianças já imaginavas ter uma carreira profissional como jogador de futebol?

Grégory: Eu venho de um bairro muito problemático de Paris, o Montfermeil, e quem nasce nesse sítio tem apenas dois caminhos: o do crime – da droga, da prisão – ou o dos estudos e do futebol. Eu escolhi o caminho que achei mais acertado. Era um jovem focado em estudar e ser jogador de futebol. E até havia lá no bairro jogadores muito melhores que eu, com mais talento, mas eu queria muito cumprir esse sonho e, graças a Deus, consegui. Não tive uma carreira extraordinária, é verdade, mas tive uma carreira sólida.

Bola na RedeMontfermeil é um contexto social complicado. De certeza que te cruzaste com talentos que se perderam pelo caminho…

Grégory: Sim, tive amigos que tinham muito talento, mas que depois não conseguiram. Uns estão presos, outros morreram… Há muitos casos desses por causa do crime. O facto de ter conseguido… Sinto que esta minha vitória também é para aqueles que não conseguiram… E sinto muito orgulho no meu percurso, que foi muito difícil tendo em conta o sítio onde nasci.

Bola na RedeAs tuas características em campo revelavam essa garra. Podemos dizer que é o exemplo de um jogador que, mais que o talento, conseguiu chegar onde chegou graças ao trabalho?

Grégory: Exatamente. As condições sociais e familiares em que nasci não eram fáceis… Fui criado pela minha avó e passei por algumas dificuldades. Nunca me faltou comida no prato, é verdade, mas era tudo muito difícil. Felizmente escolhi o caminho certo. Cheguei à faculdade de Desporto e depois apostei tudo no futebol… Não tinha outra opção, e correu-me bem…

Bola na RedeOnde fizestes a tua formação?

Grégory: No Red Star 93.

Bola na RedeMas ainda passaste pelo Paris Saint-Germain, não foi?

Grégory: Sim, mas pouco tempo, estive lá apenas seis meses. Quando cheguei ao Paris Saint-Germain foi como levar uma chapada… Havia muitos bons jogadores e eu era apenas mais um. Eles fazem uma triagem muito seletiva e era muito difícil destacar-me. Senti que para seguir uma carreira como jogador tinha de dar um passo atrás e então decidi ir para um clube amador de Paris: o Villemomble. E acertei em cheio. Posso dizer que foi graças a esse clube que pude mostrar o meu valor e depois tive a oportunidade de me transferir para Portugal.

Bola na RedeE chegas a Portugal também para um clube amador: o Pedras Rubras, que atuava no terceiro escalão. Como é que surgiu essa oportunidade?

Grégory: Foi uma pessoa que jogou muito tempo em Portugal que foi ver uns jogos meus, gostou e convidou-me. Eu estava muito indeciso, não é? Estava na faculdade, e Portugal era um país que não conhecia… A minha decisão foi tomada na véspera do início da época de exames, pensei: “Vou arriscar!”. E vim. Cheguei a Pedras Rubras e, a partir daí, descobri uma cultura completamente diferente. Hoje, não tenho dúvidas em afirmar que me identifico muito mais com os portugueses do que com os franceses. Quando cheguei a Portugal nem “bom dia” sabia dizer, mas as pessoas acolheram-me como se já fosse português. Isso é algo que nunca vou esquecer.

Bola na RedeQuem nasce nos subúrbios de Paris, por vezes, é visto como “estrangeiro” no seu próprio país. A forma como foste recebido em Portugal surpreendeu-te?

Grégory: Realmente, é verdade. Provavelmente, em França olham mais para mim como estrangeiro do que em Portugal. São culturas completamente diferentes. O francês é muito frio e o português é o oposto, sabe receber bem. Dou-te um exemplo: quando cheguei a Portugal não sabia português e tinha de me desenrascar, não é? Pouco tempo depois de chegar fui às compras e perguntei informações a uma senhora de idade, mas eu só falava através de gestos… E então ela decidiu acompanhar-me até ao sítio para onde queria ir. Isso marcou-me bastante. É por isso que devo muito a Portugal, a minha carreira, aquilo que sou hoje. É verdade que as minhas raízes são em França, mas, 22 anos depois, fiz quase toda a minha vida aqui… E digo sempre que devo muito a este país.

Bola na RedeNo Pedras Rubras rapidamente destes nas vistas. Bastaram duas épocas para dares o salto para a 1.ª divisão. Foi outra surpresa?

Grégory: Eu sabia que em Portugal isso podia acontecer, que podia estar, num dia, a jogar na 3.ª divisão e, no outro, no futebol profissional e na 1.ª Divisão. Acho Portugal um país de oportunidades, onde não se cortam as pernas a ninguém. Aqui és julgado por aquilo que fazes dentro do campo. E se mostras as tuas qualidades, se os clubes gostarem de ti, então vêm contratar-te. Não existem preconceitos como em França.

Bola na RedeE assinaste pelo Gil Vicente. Como é que surgiu essa oportunidade?

Grégory: Foi o Luís Campos, que era o treinador do Gil Vicente – e que mais recentemente era dirigente do Lille –, que viu algo em mim. E se uma pessoa como o Luís Campos gostou… É porque realmente tinha alguma qualidade (risos). Contratou-me e abriu-me as portas da 1.ª divisão. Foi aí que começou a minha caminhada no futebol profissional.

Bola na RedeFoi um grande salto. Ainda te lembras como te sentiste na altura?

Grégory: Sim, foi um momento muito bom, inesquecível. Jogar na melhor divisão de um país como Portugal era um sonho tornado realidade.

Bola na RedeE a adaptação a este novo contexto competitivo?

Grégory: Eu sou uma pessoa que gosta de aprender com os mais experientes e, por isso, todos os dias descobria uma coisa nova, melhorava e, depois, nos jogos, tentava mostrar o que tinha aprendido ao longo da semana. Foi assim que me adaptei. Com naturalidade deram-me a oportunidade de jogar, fui ganhando experiência, confiança, e, pouco a pouco, comecei a tornar-me mais regular dentro do campo. Mas o futebol, como tudo na vida, é uma aprendizagem… Ninguém sai de uma 3.ª Divisão pronto para jogar na 1.ª. Temos de ouvir, de aprender – e aprendi muito com o Luís Campos e com outros treinadores. Essa forma de pensar ajudou-me muito. E fiz quase 13 anos de 1.ª Divisão, por isso, alguma coisa devo ter feito bem. E posso dizer-te que aprendi coisas novas até ao último dia da minha carreira como futebolista.

Bola na RedeFalaste do Luís Campos como um treinador que te marcou. Houve outros treinadores importantes na tua carreira?

Grégory: Sim, muitos. Mas tenho de dizer que o treinador que mais me marcou foi o Manuel Preciado, no Sporting de Gijón – um treinador que faleceu, uma história muito triste, mas que me marcou como um pai. Foi o treinador que tive mais tempo e marcou-me bastante pela pessoa que era e pelo treinador que era. Aprendi muito com ele. E depois tive outros bons treinadores: como o Luís Campos, de quem já falei, o Manuel Cajuda, o Rui Nascimento… o Sebastião Lazaroni, no Marítimo… E também tive o Zico, que foi meu treinador na Índia. Também fiz uma amizade fora do comum com o Zico, e ainda hoje falamos. Foi o último treinador que tive… Como costumo dizer, o melhor ficou para o fim. Não consigo destacar só um. Tive realmente uma ligação especial com o Manuel Preciado e com o Zico, mas aprendi com todos.

Bola na RedeE do lado inverso? Alguma experiência mais negativa?

Grégory: Não queria dizer… (risos). Mas apanhei treinadores que falam contigo quando jogas, mas que deixam de falar quando não jogas. Apanhei assim alguns, mas a minha atitude era sempre igual, jogasse ou não, e isso ainda chateia mais este tipo de treinadores. Às vezes tenho dificuldade em compreender este tipo de comportamento, mas, enfim, cada um age da maneira que acha melhor. Compreendo que o treinador tem pressão, é constantemente julgado pelos resultados, mas se um dia for treinador – e neste momento não estou a pensar nisso – espero ser justo com todos. Sei que é difícil, mas vou tentar. Mas pronto, prefiro não citar nomes, mas apanhei alguns… Eu sou uma pessoa muito frontal, foi assim que fui educado, e é assim que sou e que prefiro que sejam comigo.

«O Vitória de Guimarães é uma coisa. Até me arrepio só de falar nesse clube. Fiquei só um ano, mas os adeptos são únicos»

Bola na RedePara quem não se recorda, o Grégory eras um defesa-central duro, muito forte a defender, na marcação. Não eras um jogador tecnicamente evoluído… A tua tarefa era, sobretudo, parar os avançados, os mais criativos…

Grégory: Calma… Quando dizes que não era evoluído tecnicamente… (risos). Estou a brincar. É verdade, era duro, sempre fui duro, do princípio ao final da minha carreira. Era essa a minha maneira de jogar e nunca mudei. O meu objetivo era defender os “meus” e a minha primeira função era defender, não permitir que a equipa sofresse golos, e fazia tudo o que fosse necessário para que isso acontecesse. As minhas qualidades eram a marcação, o jogo de cabeça… A parte criativa era para os outros. E foi por isso que tive sucesso: conhecia as minhas virtudes e os meus defeitos. A verdade é que não há jogadores perfeitos, até os melhores do mundo têm defeitos. Eu sabia o que tinha de fazer: destruir a jogada, de uma maneira ou de outra, sempre dentro das leis, sem magoar o colega. Era duro, sim, mas as coisas são mesmo assim. Hoje, por exemplo, faz-me confusão as pessoas, primeiro, preocuparem-se com a forma como um defesa sai a jogar com bola controlada, quando a primeira função do defesa continua a ser defender. Se não quer defender, vai para outra posição. É verdade que quando subimos o nível o defesa tem de saber jogar com critério, com a bola controlada, não pode só chutar para a frente, mas a primeira função do defesa é defender. Os médios são para organizar e os avançados para marcar golos, no futebol cada um tem a sua função. Mas atenção: era duro, é verdade, mas falava sempre com os meus adversários no final dos jogos e tenho muito amigos no futebol – uma coisa é dentro do campo e outra é fora.

Bola na RedeVamos regressar ao teu percurso. Depois de duas épocas no Gil Vicente vais para o Marítimo. Como foi a experiência na Madeira?

Grégory: Foi a primeira vez que viveste numa ilha… Adorei a Madeira. É uma ilha espetacular, muito bonita. Mas depois de dois anos confesso que já estava um pouco saturado. É uma ilha, não é? Mas adorei viver na Madeira, o clima, a gastronomia… Foi uma experiência muito boa.

Bola na RedeE mais dois anos e outra mudança. Desta vez, para um clube com outra ambição. Foste para o Vitória de Guimarães, que não deixa de ser um passo em frente na carreira…

Grégory: Como costumo dizer: saí de um bom clube, o Marítimo, para um grande clube, o Vitória de Guimarães. O Vitória de Guimarães é uma coisa… (suspiro). Até me arrepio só de falar nesse clube. Fiquei só um ano, mas os adeptos… Não existem… Em Portugal são adeptos únicos. Ainda por cima a equipa estava bem, a massa adepta estava com a equipa – como, aliás, costuma estar –, o ambiente no estádio Afonso Henriques era fantástico… O Vitória de Guimarães é único em Portugal. Os adeptos são muito exigentes, é verdade, mas também dão muito apoio. Adorei representar as cores do Vitória de Guimarães, que é realmente um grande clube do futebol português.

Bola na RedeFalavas da exigência dos adeptos do Vitória de Guimarães. Talvez tenha sido a primeira vez em que sentiste pressão e a exigência de ganhar sempre…

Grégory: Sim, sim. Mas isso é próprio de um grande clube, não é? Quando as coisas correm bem, ótimo, mas quando correm mal, só nos resta calar e continuar trabalhar para tentarmos melhorar. É mesmo assim a cultura, seja no Vitória de Guimarães ou noutro grande qualquer. E o Vitória de Guimarães é um grande.

Bola na RedeNa 1.ª divisão portuguesa passaste por Gil Vicente, Marítimo, Vitória de Guimarães e, mais tarde, Paços de Ferreira, e deixaste sempre uma marca muito forte nos adeptos. Há algum segredo para teres sido sempre muito acarinhado?

Grégory: Quando faço alguma coisa dou sempre o meu melhor, tento não falhar. Quando Deus nos dá a oportunidade de fazermos o que gostamos temos de aproveitar o momento, temos de dar o nosso melhor – por nós mesmos, mas também pelo clube e pelas pessoas que confiaram em nós. E quando estava dentro do campo pensava assim, que estava a representar um clube e que tinha de defender aquela camisola. Dava sempre tudo. Podia falhar, e às vezes falhava, às vezes também podia ser um bocadinho mais duro (risos), mas era porque dava sempre tudo dentro do campo. Também era muito competitivo, não gostava de perder “nem a feijões”, nem em jogos-treino, nisso tinha muito mau feito. E é assim que ainda sou, não gosto nada de perder (risos). Mas também acho que é assim que as pessoas conseguem coisas boas na vida, sendo competitivas diariamente, tentando fazer mais e melhor. Acho que estamos mais perto de alcançar o sucesso com essa postura.

Bola na RedeE ficaste a torcer por algum clube em especial?

Grégory: Acompanho todos os clubes por onde passei, tenho um carinho especial por todos, mas torcer apenas por um… É complicado. E agora com as funções que desempenho na Proeleven é mais complicado, não faz sentido torcer por um clube. Quando era novo, sim, era adepto do Olympique de Marselha. Era e será sempre o meu clube…

Bola na RedeMesmo sendo parisiense…

Grégory: Era de Paris, mas o meu clube sempre foi o Olympique de Marselha. O Marselha é o clube do povo e o Paris Saint-Germain já é das pessoas mais “chiques”, como se costuma dizer… O Marselha é de todos.

«As pessoas não têm noção do que é jogar no Sporting de Gijón. É como seres jogador do Benfica»

Bola na RedeE depois de uma temporada no Vitória de Guimarães és transferido para o Sporting de Gijón, da Liga espanhola. Chegas a um dos melhores campeonatos do mundo e vais enfrentar alguns dos melhores avançados do mundo. Como foram esses anos em Gijón?

Grégory: Espanha foi o topo da minha carreira, sem dúvida. Olha, estavas a perguntar se torcia por algum clube… Tenho o Marselha, pronto, mas também posso dizer que tenho um carinho muito especial pelo Sporting de Gijón. Foi um clube que me marcou muito, a mim e à minha família. A minha passagem pelo Sporting de Gijón superou tudo o que tinha imaginado.

Bola na RedeO clube surpreendeu-te?

Grégory: As pessoas não têm noção do que é jogar no Sporting de Gijón… É como seres jogador do Benfica. Não consegues andar nas ruas da cidade, não consegues ir às compras, andar de carro pelas ruas… É um caso único em Espanha. Nessa altura senti-me mesmo jogador (risos).

Bola na RedeSentiste-te idolatrado pelos adeptos?

Grégory: É uma coisa indescritível. Tens de ver para perceber. Eu nunca tinha passado por algo assim, é uma coisa do outro mundo. E depois, a Liga espanhola que, para mim, é a melhor do mundo. Todos os domingos tinha um dos melhores avançados do mundo para parar. Não havia jornada sem jogar com um Cristiano Ronaldo, Messi, Ibrahimovic, David Villa, Diego Costa, Fernando Torres, Aritz Aduriz, Llorente, Roberto Soldado… (suspiro). Não houve um domingo em que apanhasse um avançado que não fosse mundialmente conhecido. E quando jogas frente a jogadores deste nível vais obrigatoriamente aprendendo e aumentando a tua qualidade. Adaptei-me muito bem à cidade, ao clube, à Liga espanhola. Foi uma sensação muito boa, como um sonho tornado realidade – se aos 18 anos, quando ainda estava nas escolas do Red Star 93, me dissessem que teria a oportunidade de jogar na Liga espanhola não acreditaria. Estava tão bem que se chegou a falar da possibilidade de ser convocado para a seleção francesa…

Bola na RedeMas, ainda assim, a comida é melhor no norte de Portugal…

Grégory: (Risos) Sim, não há melhor que a comida portuguesa, isso não há dúvida.

Bola na RedeMas não foi só por isso que voltaste a Portugal?

(Risos) Não, não…

Bola na RedeQuatro anos e meio em Espanha e regressas ao teu país de adopção, desta vez, para o Paços de Ferreira…

Grégory: Sim, porque já estava em fim de ciclo em Gijón. Não tínhamos conseguido a manutenção na Liga espanhola, tínhamos descido à 2.ª divisão. Nessa época da despromoção também tinha sido operado ao joelho, ao menisco, fiz uma recuperação em cinco semanas – o que era impensável, devia ter parado três meses –, fiz o sacrifício pelo clube, e voltava novamente a fazê-lo, mas, infelizmente, acabámos por descer. E depois chegou o momento em que o meu ciclo no clube terminou e decidi regressar, na altura para o Paços de Ferreira.

Bola na RedeMas esse problema no joelho foi uma exceção. Nunca foste um jogador com paragens muito prolongadas, pois não?

Grégory: Quase nada. Tirando esta operação no menisco, que me deixou quase osso com osso… Ainda consigo fazer as minhas coisas, as minhas corridas – acho sempre que a questão mental é muito importante e nisso sou muito forte. Mas tirando esse problema não tive mais nada. Mas posso dizer-te que um jogador de futebol depois de ser operado ao joelho nunca mais volta a ser o mesmo.

Bola na RedeMas hoje continuas a sentir dificuldades físicas por causa desse problema?

Grégory: Tenho sorte de ainda ter muita massa muscular. Faço meias maratonas e digo sempre para mim mesmo: a dor é mental. Se calhar até me estou a prejudicar, não sei, às vezes sinto qualquer coisa no joelho, mas já estou acostumado, faz parte da minha rotina. Vou fazendo as minhas corridas de 15, 21 quilómetros… Vou correndo.

«[Na Índia] ainda joguei com o Lúcio, capitão da seleção brasileira campeã do mundo»

Bola na RedeVoltando um bocadinho atrás. Atingiste o ponto alto da tua carreira ao serviço do Sporting de Gijón. Tiveste a hipótese de transferir-te para clubes mais poderosos?

Grégory: Falou-se de clubes de outro nível, como o Valência, por exemplo. Mas quem tratava desses assuntos era o Carlos Gonçalves e eu mantinha-me focado apenas no meu dia-a-dia, no trabalho. E a verdade é que também estava muito feliz no Sporting de Gijón e a minha primeira opção era sempre renovar. Na altura, nem sequer quis ouvir algumas possibilidades, porque queria mesmo ficar no clube. E depois também não houve nada de concreto, por isso, foi mais fácil tomar decisões.

Bola na RedeDisseste também que, nesse período, o teu nome chegou a ser falado para a seleção francesa…

Grégory: Sim, falou-se disso. Jogar por França era um sonho, mas não aconteceu, e acabei por representar a seleção da Martinica, porque tenho ligações familiares nesse país. Também foi uma experiência muito boa, fizemos uma Gold Cup [campeonato de seleções da América do Norte, Central e Caribe], em 2013, nos Estados Unidos, que correu muito bem. E antes disso até cheguei a ser convidado para representar a seleção de Angola…

Bola na RedeMas tens ligações a Angola?

Grégory: Encontraram… (risos) Mas fiquei muito contente pelo convite, mas não se concretizou.

Bola na RedeE como foi ser internacional pela Martinica?

Grégory: Foi um grande orgulho. A Martinica sempre quis que eu representasse o país. E na Gold Cup fizemos uma grande campanha: ganhámos ao Candá [1-0] e depois perdemos com Panamá [0-1] e México [1-3], duas equipas fortes, e ficámos perto da qualificação para a fase seguinte da competição, e tinha sido a primeira vez que a Martinica estava na fase final da prova. Foi uma sensação muito boa vestir aquela camisola e um grande orgulho para a minha avó, que era de Martinica, e também para os meus pais. Foi muito bom.

Bola na RedeA tua última experiência no futebol português e europeu foi no Atlético CP…

Grégory: Sim, foi outra experiência. A minha mulher é de Lisboa e já tinha cá casa, por isso foi perfeito. Eu sempre quis viver em Lisboa depois de terminar a minha carreira, embora tenha vivido sempre no norte do país. A minha mulher é de cá, por isso… Já tinha visitado a cidade e tinha uma paixão muito grande por Lisboa. Sempre me identifiquei muito com a cidade. Não é Paris, mas também tem um bocadinho de Paris. Costumo dizer que é uma Paris mais tranquila e com melhor clima. É top, um paraíso natural.

Bola na RedeAo contrário de outras posições, o defesa-central, normalmente, tem um parceiro de posição mais fixo, sempre ao teu lado, que treina e joga contigo durante uma época inteira. Qual foi o colega de posição que te deixou melhores recordações?

Grégory: Em Portugal gostei muito de jogar com o Marcos António e com o Rovérsio. Em Espanha joguei muito tempo com o Alberto Botía, que chegou a ser internacional jovem espanhol, e com quem fiz uma grande dupla. Mais tarde ainda joguei com o Lúcio, capitão da seleção brasileira campeã do mundo, por isso é muito difícil escolher. Mas gostei muito de jogar com o Marcos António, porque complementávamo-nos. E também éramos centrais goleadores. Lembro-me, na altura, de ter 11 golos e o Marcos António cinco ou seis… Fizemos uma grande dupla no Gil Vicente. Mas cada dupla é diferente. Eu, por exemplo, precisava jogar com um central que fosse mais rápido e com uma boa saída de bola. Isso ajudava-me bastante.

Bola na RedeVamos então falar do Lúcio e do Zico que encontras na Índia. Acabaste a carreira no FC Goa, até quando já estavas a colaborar com a Proeleven. Como é que surgiu a Índia no teu caminho?

Grégory: Sim, já estava ligado à Proeleven e a pensar em deixar o futebol, mas depois surgiu o convite. A Índia eram só três meses, pensei muito, estava muito receoso, mas acabei por aceitar.

Bola na RedeE o que encontraste em Goa?

Grégory: Foi uma experiência muito boa, superou as minhas expectativas. Os estádios sempre cheios, mas é uma realidade muito diferente… De facto, depois de estarmos na Índia percebemos que somos uns sortudos. O que vi e senti na Índia… Famílias nuas a dormir na rua, a passarem fome, mas sempre com um sorriso nos lábios. Quando regressamos a Portugal e à Europa é que percebemos a sorte que temos. Como atletas, naqueles meses, vivíamos em hotéis de cinco estrelas, e depois saíamos à rua e víamos as pessoas a passar fome… É uma loucura. Claro que o objectivo era ajudar a implementar o futebol no país e isso, na altura também me permitiu fazer muitos contactos. Jogava com o Robert Pires, com o Lúcio, fiz um irmão, que é o Léo Moura, o treinador era o Zico, ainda joguei contra o Roberto Carlos, o Marco Materazzi… Fiz muitos contactos que me serviram no início da minha carreira como gestor de carreiras. Com o Zico, por exemplo, abri outras portas, outros mercados e isso ajudou-me bastante. Foi uma experiência muito rica, que me permitiu ver outra cultura, ver outro futebol e fazer contactos importantes.

Bola na RedeQue opinião ficaste dos adeptos indianos? Estão entusiasmados com o futebol?

Grégory: Nunca imaginei. O campeonato muito bem organizado, muitos adeptos, estádios cheios com 80/90 mil pessoas, mas depois, é claro, a nível competitivo não chega sequer a uma 2.ª Divisão portuguesa. Tinha bons jogadores, muitos europeus em final de carreira, mas o jogo era mais lento. E também há indianos que são bons jogadores…

Bola na RedeÉ curioso, mas parece que esses países tardam em dar o salto. O que falta para a Índia ou a China, os países mais populosos do mundo, começarem a produzir jogadores capazes de singrar na Europa?

Grégory: O povo indiano é humilde e gosta muito de aprender. Eles estão a fazer o seu caminho. No início, cada equipa tinha seis estrangeiros e cinco indianos, agora estão a tentar inverter esse número, meter menos estrangeiros e mais indianos. E têm de fazer isso, porque há alguns indianos que têm qualidade. Claro que taticamente têm mais dificuldades, e é por isso que têm de contratar jogadores e treinadores – como fizeram com o Zico – com quem possam aprender como se faz. Os indianos falhavam um passe, abanavam a cabeça e só diziam “sorry, sorry”… Mas estão a tentar. Têm de começar desde a base, pela formação, e depois crescer. O único jogador indiano que me lembro de ter chegado à Europa foi o Sunil Chhetri, que jogou no Sporting, e que realmente é bom jogador – cheguei a jogar contra ele. Se calhar é possível encontra mais “Chhetri”, mas é preciso educar taticamente os jogadores. Eles correm muito, mas não sabem para onde, por isso, precisam dessa formação, porque talento têm.

Bola na RedeE fizeste dupla com o Lúcio, um central com um currículo invejável, capitão e campeão do mundo pelo Brasil, campeão da Europa pelo Inter de Milão, com o José Mourinho… Como foi essa experiência?

Grégory: O Lúcio é um jogador de respeito, pela sua postura, pela sua maneira de ser… Foi mais uma aprendizagem.

Bola na RedeQuando terminaste a carreira já sabias que querias ficar ligado ao futebol?

Grégory: Quando acabas a carreira nunca sabes exatamente o que vais fazer, mas tive a sorte de o Carlos Gonçalves dar-me esta oportunidade, e hoje faço uma coisa de que gosto muito. Continuo a aprender, mas, realmente, manter-me ligado ao futebol foi a continuidade mais natural para a minha carreira profissional. Agora estou do outro lado, mas estou a gostar muito.

Bola na RedeComo empresário isso é algo que te preocupa? Dás conselho aos jogadores mais jovens para que façam um plano de carreira que lhes permita maior conforto no futuro?

Grégory: O que fazemos é gestão de carreira: acompanhar o jovem desde o início até ao fim da sua carreira. É claro que temos a obrigação de orientá-lo para depois do futebol. Aconselhamos que faça um plano, a investir em alguma coisa, porque o futebol é uma carreira muito curta. No máximo acabas com 35/36 anos e depois? Não tens as mesmas fontes de rendimento que tinhas quando eras jogador, tens uma família, tens de ir às compras, e por isso tens de encontrar uma solução. Damos orientações ao jogador desde cedo, aos mais jovens alertamos que estudar é muito importante, que isso não pode ficar para trás. Vamos aconselhando, já temos experiência, temos outros ex-jogadores a trabalharem connosco na empresa, que conhecem bem essa realidade, e por isso podemos orientar os jogadores, o que é importante que se faça desde cedo.

Bola na RedePara concluir, uma nota sobre a atualidade: tens acompanhado a Liga portuguesa… O campeonato está resolvido?

Grégory: Já vi muitas coisas no futebol, mas o Sporting realmente destaca-se, é uma equipa que aposta nos jovens – e nossa empresa até representa alguns deles, como é o caso do Tiago Tomás – e o Ruben Amorim veio revolucionar a equipa. Não estávamos habituados a ver um Sporting assim, um grupo de guerreiros, e os resultados falam por si. A vantagem é boa e tem todo o mérito por estar nesta posição, porque é uma equipa que pratica bom futebol, daquelas que o treinador coloca a jogar quem merece, independentemente da idade. E isso é muito bom.

(Entrevista realizada antes do campeonato terminar)

João Amaral Santos

Redação Bola na Rede · ver artigos