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Foi um dos talentos de uma geração vencedora do futebol de formação do Benfica e até nacional. Enquanto sénior, trilhou o seu caminho por muitos dos clubes históricos do nosso país e conquistou dois campeonatos nacionais da Segunda Liga. Nesta conversa, Luís Zambujo demonstra ao BnR que ainda tem garra e vontade para assumir novos projectos e pisca o olho até ao estrangeiro.
– Os primeiros passos no SL Benfica –
«Manuel Fernandes (…) já na altura se via que ia ser um craque, tanto dentro como fora dos relvados».
Bola na Rede [BnR]: Entraste para as camadas jovens do SL Benfica com apenas 10 anos. Como foi esse percurso até chegar ao clube da Luz?
Luís Zambujo [LZ]: Sim, é verdade. Cheguei ao Benfica com 10 anos, mas na altura, antes na altura o meu sonho nem era o futebol. Eu praticava motocross no Alentejo, em Moura, e até fui campeão da Península Ibérica e ligava mais a motas do que ao futebol. Entretanto, num torneio de verão, creio que foi no campo do Lusitano GC, no Campo Estrela, em Évora, fui fazer um torneio pelo Lusitano e estava um olheiro do Benfica que ligou aos meus pais e fui fazer um treino ao antigo Estádio da Luz. Lembro-me que, na altura, o mister José Morais e o mister Paisana, treinadores dos escolinhas, dizerem que a equipa estava praticamente fechada mas que me queriam ver, nem que fosse para ficarem com referências minhas. Nesse treino conjunto, com outros miúdos com 9 e 10 anos, fiz cinco ou seis golos e quiseram logo que eu ficasse. A partir daí entrei na estrutura do clube.
BnR: Para um jovem de Évora, foi difícil a adaptação a uma nova realidade? Vivendo longe dos pais, numa cidade maior, com nova escola e novas rotinas?
LZ: Sim, mas deixa-me dizer que andei durante três anos a fazer viagens entre Portel, a minha terra, e Lisboa, entre treinos e jogos eram três vezes por semana que fazia a viagem. Por isso, só a partir dos treze é que fiquei no Centro de Estágio do Benfica, mas já tinha três anos de clube e era dos mais antigos, senão mesmo o jogador com mais anos de caso. Lembro que, na altura, os juniores tinham já carinho e respeito por mim porque, apesar de ser mais novo, já estava lá há muito tempo e conhecia muita gente. Mas sim, foi um pouco difícil porque uma coisa é ir treinar e voltar para casa dos pais e outra coisa é ficar lá a viver. Mas é como eu já disse, os três anos de casa ajudaram-me bastante. Custou-me mais as rotinas, o mudar para uma escola onde não conhecia ninguém sem ser os meus colegas do Benfica. A cidade de Lisboa também era gigante e aqueles percalços de sermos abordados e até assaltados para nos roubarem óculos de sol ou a carteira também eram novos para mim. Contudo, faz parte do crescimento e, a partir daí, cresci tanto como jogador como homem.
BnR: Estiveste quase dez anos no Benfica, numa altura em que não havia ainda as instalações do Seixal. Como era viver no Estádio da Luz?
LZ: Viver no antigo Estádio da Luz foi uma experiência fantástica e os meus colegas que passaram por lá acredito que digam todos os mesmos. Vivias nas bancadas do estádio, num centro de estágio em que convivias com miúdos dos 10 aos 20 anos e às vezes estavas a ir para a escola e vias passar os craques da altura, como o João Vieira Pinto, Poborsky ou Michel Preud’homme. No centro de estágio tínhamos mesmo uma abertura para as bancadas e conseguíamos ver quase todos os treinos dos seniores e chegávamos a passar tardes a estudar nas bancadas do terceiro anel a ver o relvado. Foi fantástico, até mesmo o convívio com os sócios e ir ver outras modalidades como o hóquei, andebol e basquetebol. Era tudo ali, praticamente no mesmo sítio e isso é uma experiência única que vou guardar para o resto da minha vida.
BnR: Foste companheiro de equipa de muitos jogadores do nosso futebol e partilhaste os dormitórios do Benfica com eles. Existiam partidas entre vocês e praxes?
LZ: Sim, claro. Seja no centro de estágio ou mesmo no balneário, havia sempre aquelas partidas e praxes que eram normais e que ainda hoje acontecem em todos os balneários do mundo. Mas tínhamos um ambiente muito bom e éramos muito amigos. Claro que havia aqueles que queriam dormir mais cedo, outros mais antipáticos, mas tudo isso faz parte da nossa amizade e do nosso crescimento. Lembro-me que éramos vinte no centro de estágio, com idades entre os 12 e os 20 e, às vezes, íamos todos para o Colombo lanchar ou ir dar uma volta à Baixa de Lisboa. Era bonito ver miúdos com 20 anos ali juntos a outros com 13 ou 14, todos amigos e a lutarem por um sonho. Mas, respondendo à pergunta, havia praxes, como há em todos os lados.
BnR: Quais eram os jogadores que, já na altura, percebeste que poderiam vingar no futebol? Seja no SL Benfica seja noutros clubes.
LZ: A minha geração de 1986 foi sempre muito forte no Benfica. Ainda hoje se diz que foi das mais fortes de sempre do clube. Praticamente ganhávamos todos os torneios por onde passávamos e até prémios individuais. Eu lembro-me que, nos primeiros quatro anos de Benfica, a minha equipa ganhava sempre o prémio de melhor marcador, melhor jogador, jogador mais tecnicista; lembro-me que arrebatávamos os prémios todos individuais. Eu lembro-me de ganhar, sem exagerar, uns 14 prémios individuais; o João Coimbra e o Manuel Fernandes, que nós víamos já que ia dar num jogador fantástico. Mas a minha geração era mesmo muito forte, tínhamos também o Tiago Gomes e o Rui Nereu, que já na altura era um “gato” e defendia muito. Nas outras equipas, lembro-me bem do [João] Moutinho, Nani, Paulo Machado ou Ivanildo. Era um misto de jogadores que nos encontrávamos todos nas selecções, onde éramos todos colegas. Mas nos três grandes já se via bem que havia ali muito jovem com condições para dar o salto. Falando somente do Benfica, acho que o jogador que teve uma melhor carreira e um percurso fantástico foi o Manuel Fernandes, que já na altura se via que ia ser um craque, tanto dentro como fora dos relvados.
BnR: E, no reverso da medalha, há algum jogador que prometesse e que tenha ficado pelo caminho?
LZ: Eu não vejo as coisas por esse lado. Eu costumo dizer que há jogadores que não tinham tanta qualidade como eu, por exemplo, mas que fizeram – ou estão a fazer – uma carreira melhor do que a minha e há outros que eram melhores do que eu e que ficaram pelo caminho. Não me lembro assim de nenhum que prometesse muito mais que não tenha cumprido. Cada um seguiu o seu caminho, uns com mais sorte do que outros, outros acompanhados de melhor forma por empresários do que outros, outros ainda com lesões complicadas numa fase crucial da carreira, mas tudo faz parte. De resto, até por respeito, acho que não deva indicar algum nome em particular. Até porque, para alguns, posso estar a fazer uma boa carreira e para outros nem por isso. É tudo muito relativo.

Fonte: Arquivo pessoal de Luís Zambujo
BnR: Nos juniores, viveste de perto a morte de Bruno Baião, um dos talentos dessa geração. Como é que um jovem de apenas 17/18 anos lida com a morte?
LZ: Lembro-me muito bem desse dia. Nesse dia não tinha ido treinar, estava com princípios de pubalgia e tinha ficado no centro de estágio que já não era no Estádio da Luz, era nos Pupilos do Exército, ao pé do Centro Comercial Fonte Nova. Lembro-me de estar no quarto de um colega meu e quando abro a porta para ir almoçar vejo os meus colegas dos juniores todos a chorar e com uma cara de enorme preocupação. Na altura o João Vilela, que é da geração antes da minha, disse-me para ir tomar banho e despachar porque tínhamos que ir para o hospital – senão me engano o Curry Cabral – porque o Baião tinha tido um ataque cardíaco. Depois foi a história que toda a gente já sabe, o Bruno era um craque e um exemplo para todos, era o nosso capitão e sentimos muito a falta dele, tanto no balneário e em campo como na vida. O Bruno era uma pessoa cheia de força, sempre com uma palavra amiga para dar e um capitão na verdadeira acepção da palavra. Custou-me muito, até porque o Fehér tinha morrido também há poucos meses e nunca foi fácil. Nós tínhamos passado pela experiência de morrer um colega mais velho e logo a seguir morreu um amigo e companheiro de equipa. Foi muito difícil e, ainda hoje, considero o Bruno um amigo e onde quer que ele esteja sei que está a olhar por todos nós.
BnR: Existe algum treinador que te tenha marcado pela positiva ou negativa durante os anos que passaste no Benfica?
LZ: Todos os treinadores que tive no Benfica me ajudaram a crescer tanto como jogador como homem. Tenho alguns que ainda hoje são meus amigos, mas todos foram importantes. É verdade que uns mais do que outros, mas todos importantes pelo que me foram passando, que me ensinaram e pela paciência que tiveram comigo. Eu também estava sozinho em Lisboa e alguns foram como pais para mim, ajudando-me e dando conselhos. Por isso, acho que todos os treinadores que tive no Benfica fizeram-me crescer e tornaram-me o homem que sou hoje. Agradeço e envio um abraço para eles todos porque, naquela fase inicial, ajudaram-me muito a conseguir seguir o meu sonho e dou graças a Deus por isso.
– O salto para o futebol sénior –
«Costuma-se dizer que a Segunda Liga é das ligas competitivas da Europa e, se vires pelas classificações, consegues perceber isso».
BnR: Depois de uma temporada na equipa B, rumaste ao CD Olivais e Moscavide, uma equipa cheia de promessas como tu, Paím, Celestino ou Pereirinha. Contudo acabaram por descer de divisão. O que correu mal em Moscavide?
LZ: O Olivais e Moscavide foi o meu primeiro clube fora do Benfica e foi onde comecei a gatinhar no futebol sénior. Eu cheguei ao clube em Janeiro porque tive seis meses com contrato com o Benfica, mas sem competir. Na altura era para fazer a pré-época com o plantel principal, juntamente com o Rui Nereu, mas depois existiram algumas confusões e acabámos por não ir. Tinha também alguns clubes da Primeira Liga interessados em mim, mas acabei por ficar na Luz e estive seis meses sem jogar. No Olivais e Moscavide tínhamos realmente uma equipa cheia de talentos, como disseste, aos quais adiciono o Jorge Tavares e o Pina, também do Sporting. O Fábio [Paím] era o nome mais badalado para ser o novo Cristiano Ronaldo, mas também tínhamos o Fernando Alexandre e o Hélio Roque. O que correu mal, para mim, era que éramos uma equipa muito jovem e a Segunda Liga requer experiência. Com todo o respeito, o Olivais e Moscavide era um clube pequeno e simpático, mas que se tivesse que ser “mandado para baixo”, os árbitros não perdoavam. Apostaram muito na juventude, foi uma opção da direcção, mas o problema era que tínhamos talento e garra, mas faltava experiência. Na altura a Segunda Liga era muito competitiva e, em termos pessoais, foi uma muito boa aprendizagem para os primeiros passos na minha carreira sénior e estou muito feliz por ter passado pelo clube.
BnR: A Segunda Liga é assim tão mais física e combativa do que a Primeira Divisão?
LZ: Sim, não é mesmo nada fácil. É uma competição muito exigente, onde precisamos de trabalhar muito para estar bem ao fim-de-semana. Apanhas jogadores muito experientes, muito mesmo e tens que estar preparado para essa competição. Costuma-se dizer que a Segunda Liga é das ligas competitivas da Europa e, se vires pelas classificações, consegues perceber isso. Na última jornada, às vezes, tens sete ou oito clubes que podem ainda descer de divisão. Mas sim, é muito física, competitiva e tens que estar muito bem preparado para competir na Segunda Liga.
BnR: Quais as maiores dificuldades que encontraste nessa época?
LZ: Como já respondi na pergunta anterior, creio que o maior desafio foi mesmo sair da casa-mãe depois de tantos anos a vestir a camisola do Benfica. Começar num novo rumo, apesar de ainda ter contrato com o Benfica, com condições de trabalho muito diferentes daquelas que tinha na Luz; o entrar na Segunda Liga com apenas 19 anos não é nada fácil, sentes-te atirado aos leões, mas são dificuldades que todos os jogadores vão apanhar e que te ajudam a crescer.
BnR: O desafio seguinte foi na Vila das Aves, consideras que a estabilidade e o projecto que encontraste no CD Aves ajudou no teu crescimento?
LZ: Sim, lembro-me muito bem. O Aves é um clube fantástico, um clube muito bem organizado e com pessoas fantásticas. Na altura, com 20 anos, cheguei ao Norte – onde nunca tinha vivido – e as pessoas do clube ajudaram-me bastante. Se calhar, foi aí o momento da carreira onde senti mais dificuldades, uma vez que saí da minha zona de conforto. Não foram fáceis os primeiros dois meses, sabes? Era um miúdo que queria o sonho do futebol, mas que não foi mesmo nada fácil. Ainda assim, encontrei pessoas fantásticas no mundo do futebol, colegas de equipa que me ajudaram bastante e eu costumo dizer que o Aves é um clube de Primeira Liga, de longe. É um clube que tem adeptos muito bons, com condições muito boas e a Vila das Aves é uma vila simpática, mas que tem tudo. A direcção do clube da altura, o roupeiro, os médicos, encontrei uma série de gente fantástica e ajudaram-me bastante. Espero que o Aves se mantenha durante muitos anos, ou mesmo para sempre, na Primeira Liga porque é um clube que o merece e que gostei muito de representar.
BnR: Tiveste José Gomes como um dos treinadores nessa época. Como foi trabalhar com ele e como vês o sucesso que teve em Inglaterra, onde conseguiu “tirar” o Reading FC dos lugares de descida?
LZ: Quem me levou para o Aves foi mesmo o mister José Gomes. Já me conhecia do Benfica e ligou aos meus pais a dizer que me queria muito levar para cima. Foi muito importante no meu crescimento, dava-me muitos conselhos e foi, talvez, um dos grandes pais que tive no futebol. Adorei mesmo trabalhar com o mister José Gomes. É um perfeccionista nato; quando tinha que dar “duras” dava, mas quando tinha que ter um papel mais de pai e amigo também dava. A época no Aves não correu assim tão bem, creio que saiu em Dezembro, porque o Aves tinha descido e o intuito era subir novamente, mas a época não estava assim a correr tão bem. Jogávamos um futebol apaixonante, futebol apoiado e que diziam que era o mais bonito da Segunda Liga, mas os resultados não estavam a aparecer. O sucesso que o mister teve no Reading porque é uma pessoa extremamente competente e cheia de talento. Fico muito feliz e mando-lhe um grande abraço, espero mesmo que “faça estragos”, como se costuma dizer, lá em Inglaterra porque merece mesmo tudo.
BnR: Festejaste a conquista da Taça de Portugal no ano passado?
LZ: Fiquei feliz pelo Aves. É um clube que cresceu muito e, apesar de na altura já ser um grande clube, hoje em dia tem estruturas muito mais forte, com a criação da SAD, e preparou-se bem para o futuro. Fiquei também feliz pela direção e pelas pessoas das Aves, que é um clube que gostei muito. Não foi tanto festejar, mas fiquei muito feliz pelo clube, mesmo.
– A aprendizagem no Campeonato de Portugal –
«O Farense é um grande! Tem adeptos verdadeiramente apaixonantes e a cidade de Faro vive o futebol com um amor fantástico à causa».
BnR: Em 2008 voltaste a Lisboa para jogar num dos históricos do nosso futebol. O Atlético CP é um clube especial e os adeptos da Tapadinha são mesmo diferentes?
LZ: Quando saí do Aves o clube até queria que eu continuasse, mas eu achei por bem voltar e ir para outro desafio. Na altura o mister Carlos Manuel estava no Atlético e desafiou-me a ir para lá. Eu tinha 21 anos, precisava de jogar e rumei à Tapadinha. Eu costumo dizer que o Atlético é um clube histórico. As pessoas gostam e vivem imenso o clube. Foi uma boa experiência e desejo tudo de bom às gentes da Tapadinha.
BnR: Consideras que os quatro anos que passaste no agora chamado Campeonato de Portugal te ajudaram a crescer para depois conseguires jogar noutro patamar mais alto?
LZ: Acredito até que o Campeonato de Portugal é importante em várias da nossa carreira. Naquela fase em que posso dizer que brilhei na competição ajudou-me no embalo do que me esperaria depois. Foi um campeonato que me deu minutos, deu-me golos e tarimba para que eu, quando estivesse num campeonato maior, conseguisse mostrar o meu valor na Segunda Liga.

Fonte: Arquivo pessoal de Luís Zambujo
BnR: Atlético CP, GD Igreja Nova (em ambos jogaste com o teu antigo capitão do SL Benfica, o Jorge Almeida), SC Farense e Clube Oriental de Lisboa. Quais as diferenças que vês entre os quatro projectos?
LZ: Foram quatro clubes que representei na minha passagem pelo Campeonato de Portugal, mas são quatro clubes completamente distintos. Posso dizer que Atlético e Oriental são parecidos, são clubes que, apesar de serem de “bairro”, são clubes míticos da cidade de Lisboa e onde as pessoas vivem o clube com paixão. O Igreja Nova foi uma situação diferente, quando saí do Oriental tinha dois dias para arranjar clube – senão poderia ficar desempregado – e as pessoas ligaram-me para ir cumprir três meses no clube. É um clube mais simples, com uma expressão diferente, mas onde agradeço a simpatia das pessoas da região. Agora, o Farense… O Farense é um grande! Tem adeptos verdadeiramente apaixonantes e a cidade de Faro vive o futebol com um amor fantástico à causa. Nesse ano no Algarve fui o segundo melhor marcador do Campeonato de Portugal, o ano correu-me mesmo muito bem e foi o meu grande trampolim para os anos seguintes na Segunda Liga e eu digo que o Farense é um dos meus clubes do coração, desejando tudo de bom ao Farense, porque todos os fins-de-semana acompanho e sou Farense. Eu sou Farense.
– Títulos na Segunda Liga –
«Tenho a sorte de ter jogado em muitos clubes históricos e o CF “Os Belenenses” é mais um desses clubes».
BnR: A boa época em Faro, com nove golos apontados, fez-te rumar a Portimão. O Portimonense acabou por realizar uma má campanha e só não desceu porque a Liga passou de 16 para 22 clubes. Quais os problemas dessa temporada? Como vez o clube de então e o clube estável que agora está na Primeira Liga?
LZ: A minha primeira época no Portimonense foi uma época atípica. Vieram muitos jogadores novos do Brasil e que não conheciam a realidade da Segunda Liga; tínhamos uma equipa boa, não para andar nos primeiros lugares, mas para fazer uma temporada tranquila. A época não correu como desejávamos, eu acabei por fazer uma boa época individualmente, mas em termos colectivos não foi o que esperávamos. Em relação ao Portimonense, o clube cresceu muito, sim. Hoje em dia, o Portimonense tem condições como há poucos clubes que têm em Portugal e tem um estádio com a melhor relva do país. Acredito que há condições para que o clube fique muitos anos no topo e que seja um clube de eleição no nosso futebol.
BnR: Depois do Algarve, o regresso a Lisboa e a mais um dos históricos nacionais. Como é jogar no Restelo e como foi fazeres parte da equipa que conquistou a Liga?
LZ: Eu tenho a sorte de ter jogado em muitos clubes históricos e o CF “Os Belenenses” é mais um desses clubes. O Estádio do Restelo é lindo, envolvido numa zona de Belém fantástica para se estar e, a par da temporada de 17-18 no Farense, o melhor grupo de trabalho que já tive. Éramos uma autêntica família, onde toda a gente se dava bem e com um objectivo em comum, colocar o Belenenses na Primeira. Foi uma época espectacular, onde fomos campeões da Segunda Liga e esse ano vai me marcar sempre porque foi a minha primeira conquista de campeonato. E logo num histórico como o Belenenses, foi fantástico.
BnR: Van der Gaag foi o teu treinador no Belenenses. A ideia de jogo dele foi formatada pelos anos passados em Portugal ou vês um pouco do estilo de jogo holandês na sua forma de pensar o futebol?
LZ: É um misto das duas coisas. O mister jogou muitos anos em Portugal e foi um dos bons centrais do nosso futebol. É muito calculista, trabalha muito bem todos os aspectos da equipa adversária, mas preocupa-se mais com a sua equipa. Não gosta de “chutão para a frente”, prefere futebol apoiado e mais holandês, mas também sabe jogar um futebol mais cínico. Ele é um grande treinador e fez um belo trabalho. A nível individual, tive uma situação que me marcou muito quando voltei para Portimão ele deu-me muitos conselhos e ajudou-me numa fase em que eu não sabia se queria voltar ou ficar em Belém. Foi uma boa ajuda e desejo-lhe tudo de bom.

Fonte: Arquivo pessoal de Luís Zambujo
BnR: Já que falamos em treinadores, não podemos de deixar para trás o teu regresso ao Algarve e a nova conquista da Segunda Liga. Qual é o segredo de Vítor Oliveira?
LZ: Com o mister Vítor Oliveira tínhamos um grupo de trabalho muito forte em todos os aspectos. Trabalhávamos de forma muito intensa e éramos 26 jogadores com muita vontade de trabalhar e, com o mister Vítor Oliveira, um treinador com muita experiência, que sabe tirar proveito – nos momentos certos – das qualidades de todos os jogadores. É um treinador que trabalha todos os jogadores de igual maneira para que, quando precisar, todos os jogadores saberem dizer “presente”. Conhece todos os jogadores da Segunda Liga de trás para a frente e depois tem um adjunto muito bom, o Mário [Nunes]. A experiência, qualidade e conhecimento do futebol português do mister, aliado ao trabalho que o Mário faz torna-os numa dupla muito boa. O mister merece toda a carreira que tem e não é por acaso que, para o clube que o mister vá, a subida seja quase garantida.
– Algarve é o presente mas pode não ser o futuro –
«Se aparecer uma proposta boa, sairei porque o futebol é a minha profissão e temos que estar disponíveis para jogar em qualquer lado».
BnR: Sentes que o Algarve é já a tua casa? São as oportunidades que te fazem continuar no sul do país ou gostas mesmo de viver em terras algarvias?
LZ: O Portimonense foi um dos clubes que me marcou bastante, onde ainda sou o sétimo jogador com mais jogos com a camisola do clube. A par do Farense, são dois dos meus clubes do coração, o terceiro é o Benfica. Mentiria se dissesse que não gostava de viver no Algarve; eu adoro viver no Algarve. Já me radiquei aqui e já considero Portimão a minha cidade, mas é como te digo: vim para o Farense há uns anos atrás e depois fui para Portimão, e voltei depois de ter estado em Belém; estive seis anos seguidos aqui e fui campeão e logo a seguir o Farense contacta-me com um projecto fantástico de subida à Segunda Liga, com um plantel recheado de jogadores fantástico, convenceu-me a voltar para Faro para colocar o clube no lugar que merecia estar. E no fim do ano do Farense, apareceu-me o Louletano DC, também com uma proposta engraçada. É como digo, adoro viver no Algarve, mas estou aberto a todas as propostas de trabalho e vou para onde tiver que ir para jogar futebol. Não estou agarrado ao Algarve, estou sim a projectos bons e que me queiram. Tenho três subidas de divisão e estou disponível para qualquer plano.

Fonte: Arquivo pessoal de Luís Zambujo
BnR: Conviveste com vários jogadores durante a tua formação e mesmo durante o teu percurso escolar. Grande parte dessa geração chegou a rumar ao estrangeiro e a jogar em outros campeonatos. Partiu de ti o quereres ficar em Portugal, ou há alguma mágoa por não teres jogado fora do país?
LZ: Houve fases da carreira em que quis sair do país e houve outras onde tive propostas para sair do país, mas que, por uma ou outra razão, não foi em frente. Seja pela proposta ter caído, seja por eu ir falar com as pessoas e afinal já não era o que inicialmente tinha sido dito e, outras vezes, o projecto não me ter agradado. Mas, como costumo dizer, o caminho faz-se e o meu foi assim. Se me aparecer uma proposta agora para ir para fora de Portugal, não te sei dizer se ia, porque tinha muito que ver com o projecto e com o ordenado. Se me agradasse a mim, ia de caras. Eu posso nunca ter jogado fora do país, mas não porque eu quis que fosse assim, foi porque existiram sempre razões válidas para não ir. Se aparecer uma proposta boa, sairei porque o futebol é a minha profissão e temos que estar disponíveis para jogar em qualquer lado.
BnR: Já pensas no fim da carreira?
LZ: É claro que quanto mais os anos passam mais se pensa no final da carreira. Contudo, ainda penso em jogar mais alguns anos.
BnR: Para terminar, o que será o futuro para ti? Tens alguma ideia se queres continuar no futebol?
LZ: Tenho que ponderar bem o que quero, sabes? Gostava de ficar ligado ao futebol, mas não sei ainda bem em que área, se como treinador, como director, como scouting ou até empresário. Mas não sei, estou numa fase em que quero recuperar da lesão do joelho e voltar ao activo. Se puder continuar ligado ao futebol, vou ficar, mas a vida de um momento para o futebol pode mudar… Se me perguntares hoje se quero continuar ligado ao futebol, a minha resposta é sim.
Foto de Capa: Arquivo Pessoal de Luís Zambujo














