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Tozé Marreco e golos formaram durante anos uma simbiose perfeita. Aliás, é até hoje o jogador com mais golos na Taça da Liga. A carreira dentro das quatro linhas, por opção do próprio, acabou cedo. Agora, é fora do campo que celebra quando as bolas entram na rede. Começou o percurso como treinador na formação, nos juvenis da Académica, sendo que, na temporada que findou, esteve ao serviço do Oliveira do Hospital, clube com o qual conseguiu o acesso à nova Liga 3 e onde vai continuar em 2021/22.

– Da grande área ao banco de suplentes –

«O melhor Tozé jogava muito facilmente na Primeira Liga, o pior ia ter dificuldades no distrital»

 

Bola na Rede: Uma vez que terminaste a carreira de jogador há relativamente pouco tempo e agora estás a iniciar a de treinador, o Tozé Marreco treinador contratava o Tozé Marreco jogador?

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Tozé Marreco: Dependia da forma como fosse jogar, muito sinceramente. Dependia do tipo de campo, dependia do clube, dependia da forma como a equipa fosse montada. Também tenho a certeza de uma coisa, quem contratasse o Tozé jogador sabia que dez golos, de uma forma ou de outra, iam acabar por aparecer.

Bola na Rede: Dizias-lhe para ele fazer alguma coisa diferente do que fazia antes?

Tozé Marreco: Obviamente que o Tozé jogador cometeu erros em alguns momentos, isso faz parte do crescimento. Também te digo que o Tozé jogador sempre foi honesto e sincero com as pessoas que o rodeavam. Cometeu erros em algumas tomadas de decisão na carreira. Se fosse possível alterar alguns momentos, com certeza que alterava.

Bola na Rede: Uma vez, admitiste que não eras um jogador fácil. Por que é que dizes isso?

Tozé Marreco: Disse isso porque precisava de ter muita confiança naquilo que estava à minha volta. Precisava de ter ali alguém sempre a ajudar-me, sempre a apoiar-me. Se sentia que duvidavam de mim, deixava-me cair. O melhor Tozé jogava muito facilmente na Primeira Liga, sei que o pior Tozé ia ter dificuldades no distrital. Se sentisse que um treinador na Primeira Liga confiava em mim, eu daria uma resposta excelente, se fosse para uma equipa de distrital e sentisse que o treinador duvidava um pouco de mim, eu não ia conseguir dar resposta. Foi um dos problemas da minha carreira enquanto jogador que não consegui resolver até ao fim. Por isso, disse que não era um jogador fácil. Tenho consciência que para um treinador que tem 20 e poucos jogadores para cuidar e olhar, sabia que não era fácil essa gestão comigo. Quando a conseguiram fazer minimamente, dei sempre respostas muito boas.

Bola na Rede: Cruzaste-te com o mister Vítor Oliveira que é considerado um senhor do balneário por lidar muito bem com os jogadores. Normalmente, diz-se que ele só conseguia o que conseguia, porque tinha um lote de jogadores da sua confiança que levava consigo para os clubes para onde ia. Vês as coisas desta forma? Consideras que eras um desses jogadores?

Tozé Marreco: Não, não concordo. Ele sempre teve o mérito de escolher bem os jogadores. Depois havia uma questão que, para ele, era fundamental, que era o caráter e aquilo que o jogador era extracampo. Ele aí confiava em mim, porque falávamos todas as pré-épocas sobre alguns jogadores em que ele tinha interesse para perceber como é que eles eram nesse aspeto. Ele ia variando, não gostava muito de ter o jogador preso três, quatro anos. Potenciava e explorava o jogador ao máximo e era muito exigente nesse momento. A grande qualidade dele era a frontalidade na gestão do balneário. Foi isso que senti sempre que faltou na minha carreira: quem está à frente, ser verdadeiro e só haver uma cara. [Com Vítor Oliveira,] sabias que o caminho era aquele e quem não estava naquele caminho ia ter chatices, seja A, B ou C, não interessa. Nessa gestão, ele era muito bom. Se tu disseres “ele fazia alguma coisa diferente no treino?”. Não, tudo absolutamente básico. 

Bola na Rede: Outra das confissões que já fizeste foi a de que sentias saudades de marcar golos. Qual é a diferença entre celebrares um golo como jogador e como treinador?

Tozé Marreco: Este ano tive, efetivamente, golos maravilhosos para festejar. Também há ali uma adrenalina grande. Houve golos que parecia que tinha sido eu a marcá-los. Festejei muitos deles, porque, na maior parte das vezes, os golos têm que ser festejados. A adrenalina é diferente, mas o sentimento de orgulho e até de alguma pertença é igual. Tinha sempre, antes dos jogos, uma ansiedade. Não era ansiedade de nervosismo, era a ansiedade de querer ver o jogo. É aquele momento em que tu sentes “ok, treinaste isto, falaste aquilo, sabíamos que eles podiam fazer mal ali, nós vamos criar-lhes dificuldades” e queria ver se aquilo ia surtir efeito ou não no jogo. Isso sim era a minha grande curiosidade. O golo mais incrível que tivemos, o último golo, nem festejei, porque toda a gente saltou e olhei para o relógio e pensei que tínhamos dois minutos para não sofrer golo. Só estava preocupado, nesses dois minutos, em segurar a vantagem. Não festejei o golo, foi o único em que fiquei no banco, porque a minha preocupação foi essa.

Bola na Rede: É curioso falares nessa ansiedade de ver o jogo e depois falares nesse golo. No outro dia, publicaste um plano de treino onde havia um exercício onde treinavam o “canto do cacho” e o golo nasce desse esquema tático. 

Tozé Marreco: Fala-se em estrelinha e sorte no futebol. Obviamente, não há campeões sem sorte, tem que existir alguma coisa que nos ajude em alguns momentos. A verdade é que, nesse plano de treino, está lá a entrada do Bonilla, que fez o golo, nessa zona. Metemos o Alphonse no campo, essencialmente, por causa das bolas paradas. Ele era o nosso melhor batedor de bolas paradas e praticamente não jogou esta época, mas eu sabia que ele batia como ninguém. Depois, tivemos a sorte do jogo, mas também a procurámos. Sabíamos que o Loures tinha dificuldades naquela zona. Correu bem, como outras tantas correram mal.

Fotografia gentilmente cedida por Tozé Marreco

Ver a partir do minuto 2:00:10

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