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Prometeu para si mesmo que no auge terminava a carreira de jogador e sairia do comando técnico encarnado e cumpriu tudo. Fez o que mais nenhum treinador do SL Benfica conseguiu ainda: ganhar uma UEFA Futsal Cup. No 11.º aniversário dessa conquista, André Lima falou-nos sobre o segredo por detrás desta conquista, onde acredita que mais nenhum treinador tinha “mãos” para levar as águias à glória europeia. Apontou ainda as possibilidades das duas equipas portuguesas na UEFA Futsal Champions League e ainda comentou temas que têm causado polémica no mundo desportivo.
– A confiança na vitória, o misto de emoções e o “quase” matar Bebé –
«Podia não ser o melhor treinador na altura, mas era o treinador ideal para o momento»
Bola na Rede (BnR): Quando é que começaste a acreditar que podias ser campeão da Europa de clubes com o SL Benfica?
André Lima: Estive como treinador do Benfica durante dois anos e tínhamos ganho tudo. No dia que foi a reunião com o presidente [Luís Filipe Vieira] para estabelecer os objetivos para a próxima época, sabia que, por ter passado de jogador para treinador, tinha de fazer algo de diferente. Ser campeão está implícito e já tinha ganho tudo. O que é que podia fazer mais para que as críticas não continuassem sabendo que às vezes ganhar não chega num grande clube como o Benfica? O que disse ao presidente foi: «ganhei tudo e, agora, temos de pôr aqui mais alguma coisa». Ele perguntou o quê e respondi-lhe: ser campeão da Europa. A equipa estava numa fase de maturidade certa para se procurar algo que já se procurava há quase dez anos, porque a espinha dorsal estava lá toda. O presidente chamou-me «maluco» e perguntou-me como é que ia ser campeão. Eu disse: «dá-me três jogadores [Joel Queirós, Davi e Marinho] e vou tentar ser campeão da Europa, porque ser campeão nacional está implícito no meu contrato». O sonho começou aqui. Só o “maluco eu” é que acreditava, mas sabia o grupo que tinha.

Fonte: João Barbosa/Bola na Rede
BnR: Como foi a preparação para a Final Four em Lisboa? Já agora, sabendo que iriam ter um pavilhão completamente cheio, é preciso motivar alguma equipa quando se sabe antemão que esta situação vai acontecer?
André Lima: A preparação começou muito antes, como já disse. Chegámos à 1.ª fase, na Eslovênia, que é sempre fácil para uma equipa como a do Benfica. Depois tivemos a Ronda de Elite no Pavilhão da Luz. Esta fase foi mais difícil, porque tivemos de enfrentar os atuais campeões da Europa (MKF Sinara Ekaterinburg). Empatámos e passámos à Final Four. Os melhores jogos que fizemos foi contra o Sinara e contra o ASD Luparense, na meia-final. Nesse jogo, fomos melhores do que na final, pois, esse é um jogo de emoção, de luta e intensidade. Os outros não. Não era só eu que acreditava, porque os jogadores também acreditavam que era possível. Quando conseguimos trazer a Final Four para Lisboa, que foi o Eusébio que esteve no sorteio, e calhou-nos os italianos senti que íamos ser campeões da Europa, disse-o ao meu adjunto (Nelito). Porque jogar com o Interviú Madrid na meia-final era diferente do que na final. Eles eram mais fortes e numa meia-final não tem tanta emoção e, provavelmente, o pavilhão não tinha enchido. A preparação foi normal. Conhecia bem os jogadores e o segredo foi esse.
BnR: Disseste numa entrevista à Agência Lusa, que no dia da final não conseguiste dar a palestra para o jogo. Chegaste a dizer alguma coisa ou o pavilhão falou por ti?
André Lima: Aconteceu duas coisas interessantes. Depois do aquecimento, vou para falar para dar os últimos apontamentos e entrou o presidente Luís Filipe Vieira. Foi ele quem deu a palestra. Chegou lá e, apesar de todo o barulho que nem se ouvia bem, agradeceu a toda a equipa por aquilo que já tinham conseguido, que não contava com o que eles fizeram e que se não vencessem já estava ali uma grande vitória, mas, ainda assim, disse que sentia que iam ganhar e para irem à para dentro fazerem aquilo que sabem. Era mais ou menos por aqui que ia pagar na palestra. Falar dos acertos táticos, das bolas paradas e, depois, dizer que era a última oportunidade que muitos tinham para ganhar e de experienciar tudo com um pavilhão cheio como aquele. Isto tudo mexeu com os jogadores e estiveram todos eles fantásticos.
BnR: Uma das imagens que marcam essa final é que o André Lima de cócoras a chorar. O que é que passou na tua cabeça nesse momento, visto que era apenas o teu segundo ano como treinador principal?
André Lima: Foi um descarregar e uma mistura de sentimentos. Por incrível que pareça, quanto mais ganhava no Benfica e melhorava quanto treinador mais críticas me caíam em cima. Também estava como o Rúben Amorim, com o 3.º nível. Tudo servia para massacrar todos os dias. Isto para um jovem treinador durante dois anos… Tive de me aguentar. O outro sentimento é que perdi três finais como jogador, inclusive uma consegui marcar três golos [2003/04] – a 1.ª vez que isso aconteceu. Tínhamos perdido 4-1, depois em casa fizemos 3-0 muito rápidos contra o Interviú e sabíamos que tínhamos de marcar muitos golos, porque eles nunca ficavam a zero. Já é difícil o Futsal ficar a zeros, imagina uma equipa daquelas. Como jogador, lembro-me de dizer no balneário que tínhamos de marcar quatro, cinco ou seis golos, porque ia ser difícil. Na final de 2010, era diferente por ser só um jogo. Sabia que para ganhar tínhamos de marcar golos. Quando começo a chorar, foi um bocadinho de frustração de estar em três e não conseguir ganhar como atleta e, ao mesmo tempo, de felicidade por ter sido uma coisa que criei. Quer queiram quer não, juntei e uni a equipa, metendo jogadores de qualidade, como o Davi, Marinho e Joel Queirós. O jogo estava muito intenso porque estava 3-2 e se houvesse um empate sabia que aquilo ia dar torto, por estares em vantagem e levares um empate no fim. Mas não aconteceu. Ganhámos com o pavilhão todo a gritar e foi um descarregar de emoções.

Fonte: UEFA
BnR: Há dois momentos importantes na final, o lance do golo do Davi e os últimos segundos com o lance do Bebé. Como é que viveste estes dois lances?
André Lima: Joguei com o Luís Amado em Espanha no Caja Segovia FS e disse aos jogadores que onde ele tinha mais dificuldade. Aliás, cheguei a marcar golos ao Luís com remates para baixo e para os cantos, porque não conseguia chegar. Tinha muitas dificuldades em chegar à bola aos cantos, fosse com as pernas ou com os braços. Em pé é que era muito forte ou a fazer a mancha [movimento típico dos guardiões de Futsal], mas remates dos dez ou doze metros para baixo não conseguia. A menos que fossem remates violentos como o golo do Joel ou do Arnaldo que foram de bola parada e que era muito complicado de fazer ao Interviú. O golo do Davi já vem um bocadinho dele. Ele antecipa o passe do guarda-redes para o pivô, dá-lhe para a frente e chuta muito bem de bico. A bola foi para o canto e o Luís Amado não conseguiu lá chegar. O golo ainda foi na 1.ª parte do prolongamento e ainda havia mais cinco minutos na 2.ª parte para sofrer. Quando estava a acabar o jogo e faltavam segundos, a bola vai para a mão do Bebé e disse para atirar para o campo do Interviú, mas bola alta para os segundos passarem. O Bebé tenta meter a bola, não sei em quem. A bola fica no peito do jogador do Interviú e o jogo acaba. Ele chutou, a bola vai ao poste e entra. Eu matava o Bebé se a bola tivesse entrado. Eu disse-lhe. Ficámos a brincar na festa sobre isso ou até quando nos juntamos e falamos sobre o assunto. Estava toda a gente muito nervosa naquela altura.
BnR: Tu fazes parte da geração de jogadores que estava muito à procura deste troféu há anos. Recebeste alguma mensagem de jogadores com quem partilhaste o campo nessas finais perdidas a dizer “finalmente conseguimos!”?
André Lima: Eles todos disseram. Na altura, não era o melhor treinador. Fiz o 1.º ano de contrato de treinador, mas ainda vou com contrato de jogador. Não contava deixar de jogar. A minha evolução foi junto com aquele grupo. Quando aceitei o convite, fui falar com eles e estavam preparados que podíamos ir juntos. Eu conhecia-os bem e eles tinham de me ajudar e assim foi. Podia não ser o melhor treinador na altura, mas era o treinador ideal para o momento. Se fosse outro treinador não ganhava. Aquela final não ganhava.
On this day in 2004⏪
André Lima became the first player to score a UEFA Futsal Cup final hat-trick – but it was not enough to prevent an aggregate defeat for @SLBenfica against @InterMovistar⚽⚽⚽
He coached Benfica to the title 6 years later – beating Inter in Lisbon🏆 pic.twitter.com/D8uqUSwQWd
— UEFA Futsal (@UEFAFutsal) May 1, 2020
BnR: Numa entrevista, disseste que sem a ajuda do público no antigo Pavilhão Atlântico não tinha sido campeões. Aquilo que te pergunto é: se a equipa não fosse liderada pelo André Lima alguma vez teria hipótese de fazer história?
André Lima: Era muito difícil. Uma das coisas que tinha muito boa era a maneira como mexia na equipa. O Beto [antigo treinador encarnado] entrou, mas só esteve seis meses e não deu muito para mexer na maneira como jogávamos com o Adil Amarante. Eu apanhei alguma coisa dos dois e juntei os dois. Quando mexia na equipa, fazia-o sempre bem, porque sabia quem gostava de jogar com quem ou quem se sentia confortável a jogar com quem. Nem eles sabiam disso. Quando metia quatro jogadores a jogar, sabia que estava ali um que não se sentia tão confortável. Não era que tivesse algo contra aquilo, era porque sentia que o jogo de uns encaixava melhor no jogo dos outros. E tinha essa capacidade de mexer nas peças e uma facilidade enorme. Punha a equipa a jogar a quase 200%. Quando estávamos a jogar por quatro ou por cinco, misturava a equipa para que eles não soubessem. Quando os jogos eram difíceis, mexia cirurgicamente para que rendessem o máximo. Isso foi um dos segredos que usei para ser campeão europeu.
BnR: Como é que se gere uma equipa emocionalmente depois de vencer a competição mais importante na Europa para se depois encarar as restantes competições?
André Lima: Eram jogadores já acima dos trinta anos. Nós estávamos com o Ricardinho com 26/27 e ele ganha o título de melhor do Mundo em 2010, depois de ganhar a UEFA Futsal Cup. Ele estava no ponto e os outros também. Pedro Costa, Arnaldo, Joel, Gonçalo, Zé Maria, Bebé, Zé Carlos, Marinho… Estávamos de jogadores que emocionalmente não era muita coisa que mexia com eles. Pelo contrário. Quanto mais pressão tivessem, melhor jogavam. É aquela fase boa.
– As possibilidades portuguesas em terras croatas –
«É uma competição imprevisível. Aquilo não é chegar lá e ganhar. Vai ser muito difícil».
BnR: Ainda falando naquilo que aconteceu antes da Final Eight, a forma como a UEFA organizou a UEFA Futsal Champions League prejudicou uma possível surpresa do ACCS Futsal, equipa de Ricardinho e de Bruno Coelho?
André Lima: Independentemente da maneira como se faz, a equipa do ACCS tinha sempre de ganhar aos melhores. Por isso, não ligo muito a isso. Claro que se fosse uma Final Four, eram só dois jogos. Agora, se for uma Final Eight a margem de teres um jogo mau e de seres eliminado é maior. Quando tens só um ou dois é o ideal. De qualquer forma, no caso do Benfica tivemos de ganhar aos russos, aos italianos e aos espanhóis. Estamos a falar dos três melhores campeonatos de Futsal. Na altura, MFK Araz Naxçivan era só jogadores brasileiros, tal como o ASD Luparense, onde muitos tinham sido campeões europeus pela Itália. Em 2010, estavam ali quatro equipas de grande qualidade e tudo isso valorizou a nossa vitória. Jogámos bem, merecemos ganhar. Fartei-me de dizer que não merecíamos ir a prolongamento, porque jogámos muito melhor do que o Interviú e isto foi unânime. Para se ser campeão tem de se ganhar aos melhores, seja da maneira como for.
A equipa francesa participava pela primeira vez numa competição europeia e quase causava uma surpresa no Palau Blaugrana, em Barcelona.
BnR: Acreditas que o Futsal português foi ultrapassado pelo espanhol, apesar de o atual campeão europeu de seleções ser Portugal e o de clubes ter sido um português recentemente?
André Lima: Lembro-me de ser goleado pela Espanha no início. Eu e outros jogadores mais velhos tivemos de fazer esse duro trabalho de transição e de aprendizagem. Enquanto que os espanhóis eram campeões do Mundo. Não acho que estamos à frente deles. Acho que estamos no mesmo patamar. A Espanha está no topo e nós chegámos lá. Quando há jogos entre as seleções, o jogo é sempre muito equilibrado. O que aconteceu foi uma evolução da própria equipa portuguesa em termos táticos e um pouco de decréscimo na Espanha. No final dos anos 90 e início dos anos 2000, Aa Espanha tinha jogadores como o Daniel, o Marquinhos, o Betão, o Schumacher, o Kike, o Luís Amador. Estamos a falar de jogadores que hoje não há. Se me disserem que hoje há melhor estão a mentir. A mentir à “cara podre”. Como Portugal cresceu e a seleção espanhola perdeu esses jogadores fortes que tinha e estamos no mesmo patamar.
🇵🇹 Portugal + #FutsalEURO = ⚽⚽⚽
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— UEFA Futsal (@UEFAFutsal) January 31, 2018
BnR: Acreditas que o facto da LNFS (Liga Espanhola) ser tão competitiva pode ser um problema para as equipas portuguesas nesta Final Eight?
André Lima: Sempre foi. Sei o que é jogar em Espanha. O Ricardinho também pode falar e quem jogou lá. São jogos difíceis todas as semanas. Aqui, Benfica e Sporting podem ter dificuldades num ou noutro jogo, mas, na maioria, só têm dificuldade na primeira parte. É até os outros perderem a força. A intensidade que ambos jogam é muito mais alta do que joga um SC Braga/AAUM ou um AD Fundão. Se reparares é sempre na segunda parte que os resultados se avolumam, já era assim no meu tempo e continua. Em Espanha, não acontece muito isso. Quando as outras equipas se apanham a ganhar [às equipas grandes] é muito difícil virar o jogo.
BnR: Como é que um treinador prepara uma equipa para enfrentar as melhores equipas da Europa, principalmente agora que não tem o fator de que todos gostam que é o público?
André Lima: Essa pergunta é difícil de responder, porque tens de saber que equipa é que tens. Se me falares na equipa do Benfica, digo-te uma maneira. Imagina que o SC Braga/AAUM ou a AD Fundão vai jogar um jogo onde pode ficar em segundo já tem de ser [preparado] de outra forma. Imagina que ia treinar outra equipa e chegava à final, o meu discurso podia não ser o mesmo. Imagina que a equipa é mais jovem, em termos mentais já muda, porque em termos físicos e táticos é como no Futebol toda a gente sabe. Em termos mentais é que faz toda a diferença. A parte tática já estás a trabalhar há um ano, porque há uma equipa técnica a fazer esse trabalho. Agora, em termos mentais é preparar todos para quando está a perder ou a ganhar. Mais importante do que antes do jogo é durante o mesmo. De repente está a ganhar 1-0 e do nada ficas a perder, tens que manter a equipa focada. Sabes que tudo pode mudar de uma hora para a outra. Ou estás a perder por três ou por quatro e tens de os fazer sentir que o Futsal não é o Futebol. O Futsal é um bocadinho assim um momento. A maneira como se prepara a equipa acho que é o mais importante. Acaba por ser a estratégia e não tanto a ideia de jogo. O Sporting joga muito com guarda-redes avançado, então nessa semana tenho de insistir mais na defesa a esta situação. Apesar de todos se conhecerem, há sempre novas nuances. Há sempre coisas novas a acontecer. Preparar grandes jogos é assim.

Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede
BnR: SL Benfica e Sporting CP têm hipóteses de vencer este ano a UEFA Futsal Champions League? Se não, quem vai vencer?
André Lima: Têm hipóteses, mas o favoritismo está do lado dos espanhóis [FC Barcelona e Inter Movistar FS]. Há a vantagem para Portugal, porque também tem duas equipas de grande qualidade. O Sporting já foi campeão da Europa com grande qualidade e já tem experiência, tal como os jogadores. Está com uma vantagem enorme de chegar à final. Mas também já aconteceu quando formos campeões da Europa e perdemos o campeonato, foram Benfica e Sporting à Final Four [em 2010/11] e ambos perderam. É uma competição imprevisível. Aquilo não é chegar lá e ganhar. Vai ser muito difícil.
BnR: Nas duas vezes que equipas portuguesas venceram a competição europeia, não foram campeões nacionais nesse ano. Acreditas que isto é mesmo uma maldição ou apenas o descontrair de ter vencido o maior troféu continental?
André Lima: Não sei explicar também. No ano em que vencemos, ficamos em 2.º lugar. A partir do momento em que se soube que íamos jogar no Pavilhão Atlântico, começámos a dar, em janeiro/fevereiro, a dar intensidade nos treinos, com muitos treinos físicos, que depois pagámos durante a semana em alguns jogos. Isso é um arriscar, porque tínhamos de chegar fortes a abril. No final da época, são muitos jogos e muitas viagens. Nós arriscámos aí, mas todos fazem isso. O Sporting com certeza fez o mesmo para em abril estarem fortes. Nós nessa época, tivemos algumas derrotas e ficámos para trás. Vamos à final com o Sporting. Perdemos o primeiro jogo em Loures, o segundo fora ganhámos e trouxemos a decisão para a Luz. Se ganhássemos esses dois jogos éramos campeões e acabámos por perdê-los. É difícil explicar o que se passou. Aconteceram “n” coisas que é difícil controlar. Isto acontece no Futebol, porque as equipas que jogam durante a semana para a Liga dos Campeões no jogo a seguir ou perdem ou estão aflitos para ganhar.
– O crescimento do Futsal e os problemas do Futebol encarnado e da Europa –
«Quando o presidente vai buscar o Jorge Jesus é para ganhar e não há hipótese. Está ali a fazer o all in e não correu bem»
BnR: Da tua experiência já com o Futsal Feminino, achas que a UEFA já devia ter criado uma competição continental depois do enorme sucesso que foi o Europeu de Futsal?
André Lima: Já há algumas experiências. Foi na China a primeira vez que trabalhei com mulheres e com o feminino. Fiquei apaixonado, por causa da maneira como se entregam. No Futsal masculino, há aquele ego e elas não. Vêm, estão sempre bem dispostas, entregavam-se ao jogo e ao treino que nunca tinha visto em nenhuma equipa em que joguei ou treinei. Depois em conversas com outros treinadores que trabalharam com mulheres e disseram o mesmo. É apaixonante treiná-las e entregam-se ao jogo de uma maneira apaixonante.
It wasn’t a dream … @selecaoportugal🇵🇹 did set up a Sunday #WEUROFutsal final against Spain!🏆 See highlights of Portugal’s semi-final defeat of Ukraine https://t.co/OKLmi5UUru pic.twitter.com/eX1pw0DGqY
— UEFA Futsal (@UEFAFutsal) February 16, 2019
BnR: Como tens visto o crescimento da modalidade em Portugal tanto a nível masculino como a nível feminino?
André Lima: Tem crescido bastante principalmente pelo trabalho que a FPF tem feito. Se me perguntares se podia ser melhor? Podia ser sempre. Podia-se fazer melhor e acredito que se vai fazer melhor. Há coisas, principalmente no masculino, onde ainda há muitas queixas e já houve tempo suficiente para um país que é campeão da Europa para não ter tantos problemas, queixas ou algumas situações que podiam não acontecer. Mas se olharmos para o crescimento da modalidade, a seleção e a própria federação tem crescido muito.
BnR: Optaste por sair do Benfica numa altura em que sentiu que se fechou um ciclo. Achas que isto é difícil de se conseguir gerir por parte de um treinador, ou seja, nem todos têm esta perceção de que chegou ao fim a sua história num determinado clube?
André Lima: Se calhar, na altura que decidi sair, se tivesse esperado uma semana ou duas não tinha decidido aquilo. Aquilo foi um momento. Fui campeão europeu, perdi o campeonato e aconteceram algumas situações e coisas que se falaram e disseram… Sabia que era uma questão de tempo e se as coisas corressem mal saía passado algum tempo. Porém, não saía da maneira como prometi. Prometi a mim mesmo deixar de jogar no auge e deixei como campeão nacional. Só não pensei que ia como treinador. Saí em grande como jogador e, depois, quando peguei na equipa pensei o mesmo. Gostava de sair por mim, depois de dez anos no clube onde era um jogador carismático no Benfica. Ainda hoje quando vou à Luz dá-me um prazer enorme pela maneira como os benfiquistas me tratam e pelo como o clube me trata. Agora, fizeram-me uma surpresa na rotunda Cosme Damião. Nem eu contava com isso de estar no meio daqueles monstros todos.

Fonte: João Barbosa/Bola na Rede
BnR: Como é que surgiu essa ideia de sair quando conseguiste alcançar o maior troféu europeu de clubes e como é que informaste o presidente do Benfica sobre esta decisão?
André Lima: Sair depois de ser campeão da Europa passou por uma conversa com o presidente. Disse que estava na hora de sair e disse-me se queria mandar seis ou sete embora. Respondi que não queria mandar jogadores campeões da Europa embora, que estava na hora de sair e se sair, agora [em 2010], ainda encontre trabalho como campeão da Europa. São gestões que fazes. Fiquei sem trabalhar em casa e cheguei a acordo com o Benfica em que saía e ficava um ano a receber. Era complicado para mim deixar sem um convite. Disse ao presidente se aparecesse alguém que cortava logo o acordo. O mais engraçado é que quando cheguei a casa e quando começou a época foi aí que senti que a ficha me caiu. Perguntei-me: agora o que vou fazer? Acordei e não sabia o que fazer depois de dez anos com aquele andamento e, ainda por cima, moro perto do estádio. Foram uns dois a três meses difíceis. Até que me adaptei. Tive duas opções de risco: quando aceitei ser treinador e quando optei por sair do Benfica. A melhor coisa que fiz por ter aceitado a primeira opção e a melhor ainda foi ter saído naquela altura, porque se abriram muitas portas. Hoje, estou bem por ter tido a coragem de sair naquela altura, porque não há muita gente com isso, principalmente profissionais de Futsal que não ficam ricos.
BnR: Joel Rocha já tem perdido algumas finais importantes sejam nacionais ou até eliminações nas competições europeias. Se este ano falhar novamente os objetivos (campeonato e título europeu) achas que está na hora de se fechar um ciclo no Benfica para o treinador?
André Lima: Isso é o Joel que tem de ver. Todos nós estamos de acordo que tem qualidade e é um dos melhores treinadores portugueses. Agora, decidir sair por ele? Acho muito difícil. Há uma coisa que tenho quase como garantida, e digo a toda a gente, “ninguém é eterno no Benfica”. Ninguém. Não estou a dizer que o Joel vai sair agora. Pode até ficar lá mais dez anos, mas vai sair. É a história. Vês o caso do Nuno Dias que está de pedra e cal no Sporting, mas um dia também vai acontecer ao Nuno, porque nos grandes clubes é assim. São ciclos que se fecham. Podes sair e até voltar e as coisas correrem bem, mas se insistires em ficar, e isto pode acontecer com o Joel onde não estamos a pôr em causa a sua qualidade do treinador porque o Benfica está bem servido, ganhar não chega ou, às vezes, ganhar não chega. Quando não se ganha tantas vezes num clube como o Benfica há sempre algo a pagar. O Joel é que tem que ver se está preparado para perder mais um campeonato. Acredito que ele está preparado, mas vamos ver é se os sócios aceitam isso. Agora, não há sócios no pavilhão e para eles se não houver sucesso não perdoam. Nem ao André Lima, nem ao Eusébio. Eusébio que era o Eusébio foi para o SC Beira-Mar e para o União FCI de Tomar. Por isso, são ciclos que se fecham e não sou eu que vou dizer se é este ano ou para o outro. Ele até pode ganhar e ir embora na mesma. Não depende do resultado. São ciclos e as pessoas cansam-se uma das outras.

Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede
BnR: O que correu mal nesta temporada de Futebol ao Benfica? Já agora o que mudarias para que os encarnados estivessem numa melhor classificação?
André Lima: Não gosto de falar mal dos jogadores do Benfica, do treinador do Benfica, do presidente do Benfica. Sou amigo de Luís Filipe Vieira, mas imagina que o presidente mudava ia ter a mesma atitude e vai ter o meu apoio. Se me perguntarem dou minha opinião. A opinião que dou, desde que começou a época, é que foram várias razões [para a má temporada]. Foi uma cadeia de acontecimentos que numa situação normal sem pandemia já ia ser difícil, mas assim estes erros que foram cometidos vieram mais ao de cima, porque não se ganha, porque os jogadores não tinham força e não corriam.

Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede
BnR: Jorge Jesus devia ter voltado ao comando técnico do SL Benfica?
André Lima: Se me perguntarem se o Jesus devia ter voltado, se fosse presidente provavelmente não o chamava, naquela altura. Podia chamar noutra altura. Quando as coisas são feitas ali a forçar e depois de uma passagem do Jesus pelo Sporting CP da maneira como foi acho que foi uma cartada arriscada do presidente. Mas, ele sempre foi assim. As coisas podem correr bem, mas podem correr mal. A maneira como o Jesus comunicou no início… ele sente aquelas coisas. Dizia «vamos jogar o triplo», «vamos ser campeões». Vamos lutar para ser campeões, porque ninguém vai ser campeão antes de jogar. «Vamos jogar o triplo». Não, primeiro um “bocadinho”, depois o dobro e o triplo. Ninguém começa a jogar o triplo e ele sabe disso. Se no início da época começas a perder e as pessoas já andam a olhar de lado para ti quando tu entraste, quer dizer acho que houve ali erros que eu não cometia. Tinha entrado de outra forma. Quando o presidente vai buscar o Jorge Jesus é para ganhar e não há hipótese. Está ali a fazer o all in e não correu bem. Depois veio a COVID, alguns jogadores não renderam aquilo que se estava à espera. Foi uma cadeia de acontecimentos que melhorou agora, mas esta derrota com o Gil Vicente FC deitou um bocadinho abaixo o balneário. Acredito que agora está mais difícil de levantá-lo do que estava antes da COVID. Estas derrotas rebentam com a equipa. Sabes que estou a falar por experiência própria. Sei o que nós vivemos quando estamos a subir e a galgar… Se descemos só um “bocadinho” e fez uma boa exibição onde a bola não quis entrar, aqui não foi o caso. Às vezes, não conseguimos perceber. Nem os treinadores conseguem explicar estas coisas.
BnR: Imaginando um cenário hipotético em que o Benfica não tinha treinador, José Mourinho, que foi recentemente despedido do Tottenham Hotspur FC, podia ser um nome interessante para treinar os encarnados?
André Lima: Acho que o Mourinho está a precisar de descansar um bocado. E se o Mourinho chegar e não ganhar, acaba a carreira dele. As pessoas já andam a dizer que não muda o sistema e que já não era o que era. Sem pôr em causa o Mourinho que é um dos melhores de todos os tempos, a questão aqui é a aposta que fizeres tem obrigatoriamente de ganhar. Se não ganhar acaba a carreira dele. Este tipo de pressão pode alterar a maneira de vir trabalhar para o Benfica. Treinar agora o Benfica é ainda mais difícil de quando ele treinou [em 2000]. Eu apostava noutro.
BnR: Qual seria a tua opção para treinador do SL Benfica?
André Lima: Há aí tantos. Tenho já alguns definidos, mas estão todos a trabalhar e não posso dizer.
BnR: Qual é a tua opinião sobre a nova competição que está a surgir no Futebol Europeu, a Superliga?
André Lima: Horrível. A mim faz-me confusão de como é que ainda há gente com tanta lata, com tanta arrogância de achar que podem fazer tudo. A ideia de criar uma liga e de aumentar os lucros não tem mal nenhum. Agora, fazer uma liga só para alguns e os outros que se l*xem é arrogância, é ingratidão. Todos estes grandes clubes só o são por causa dos pequenos. Os maiores clubes estão cada vez mais poderosos e os outros estão cada vez mais fracos. Tudo por causa deles, porque compram tudo. Pegando no caso do Benfica, tinha João Félix e foi para o Atlético de Madrid, tinha o Rúben Dias e foi para o Manchester City FC. Estes tubarões, além de enfraquecerem os outros, ainda querem fazer mais e amassar os mais fracos para viverem numa bolha. Vivem todos numa e dividem o dinheiro e os mais pequenos que se aguentem. Isto não cabe na cabeça de ninguém. É ingratidão e cuspir no prato onde comeu. Por muitos defeitos que tenha a UEFA e a FIFA, prefiro lutar com um monstro com só uma cabeça do que um com doze. Porque na última opção não tens armas para lutar contra todos, pois, vêm de todo o lado.
«Isto é um golpe de bastidores».
A análise do nosso comentador Diogo Soares Loureiro à recente polémica em torno da Superliga Europeia. O que achas de tudo isto? 🧐 pic.twitter.com/fgyPAGEMTg
— Bola na Rede (@BolaNaRedePT) April 19, 2021
BnR: Qual é a tua opinião sobre os clubes que se denominaram de “fundadores” desta Superliga?
André Lima: Doze “cabeçudos” que vão ficar cada vez com mais dinheiro e os outros que comam as “migalhinhas”, quando os outros trabalham tanto como o FC Porto? Estamos a falar de Arsenal FC, Tottenham Hotspur FC, Atlético de Madrid e Manchester City que nunca foram campeões da Europa, inclusive mais de metade não são campões nacionais há muito tempo. Querem ganhar sem mérito e depois vão para lá onde não sobem nem descem. Os doze estão sempre ali e depois vão convidando. Para eles, perder e ganhar é a mesma coisa. Se perderes e desceres de divisão, não é complicado? Façam como o formato da Liga das Nações, onde isso está certo. Estão a privatizar o Futebol, pois, há um banco norte-americano que mete quatro mil milhões e compra o Futebol. Dá 300 milhões a cada um que paga dívidas. Isto acontece porque o FC Barcelona está falido, o Real Madrid CF está a construir um estádio de 500 milhões onde não tem dinheiro para pagar, o Atlético de Madrid está falido e estão todos à rasca. A COVID veio acelerar a situação e ao invés de cortar vão arranjar maneira de ir buscar mais para gastar mais.
PASSES CURTOS
BnR: Ser jogador ou ser treinador?
André Lima: Jogador e depois treinador.
BnR: Joel Rocha ou Nuno Dias?
André Lima: Nem um, nem outro.
BnR: Treinar a formação ou os séniores?
André Lima: Formação.
BnR: Quem vai ser campeão nacional de Futsal?
André Lima: Espero que seja o Benfica.
BnR: Quem é/foi o teu ídolo?
André Lima: Daniel Ibañes.
BnR: Qual foi o golo mais importante que marcaste na carreira?
André Lima: Há dois golos. Um foi o 4-3 na final do play-off de 2004/05 no Estádio da Luz em que marquei cinco golos nesse jogo. Tivemos sempre a perder. Estávamos a perder 4-3. O 4-4 é um golo que faço uma chapéu ao Benedito e o 5-4 é de uma falta lateral em que me passaram a bola para o outro lado. De primeira chutei e a bola entrou no ângulo. Depois foi 6-4 e 7-4, mas o 5-4 levantou o pavilhão todo, porque estivemos até aos 4-3 sempre a perder.
BnR: Qual foi o golo que mais te marcou enquanto treinador?
André Lima: Acredito que o golo do Davi mexeu-me com tudo.
BnR: O que te faltou como jogador?
André Lima: Uma Liga dos Campeões.
BnR: Faltou alguma coisa enquanto jogador da seleção?
André Lima: Sabes que joguei noutros tempos. Não joguei nenhuma final na seleção. Temos uma medalha de bronze na Guatemala que é comparável a um europeu. Era difícil chegares a um Mundial e ainda por cima em 2000 que se calhar nem merecíamos lá estar, porque eliminámos uma Itália que era candidata ao título. Sabes que estás a jogar e aquilo não é para ti. Claro que gostava de ganhar algo, mas há coisas que não são possíveis. Se jogasse e treinasse agora, provavelmente dizia-te que falta-me ser campeão do Mundo e da Europa de seleções.









