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«O meu sonho não era jogar no Sporting ou no Benfica, só queria jogar no Estrela da Amadora» – Entrevista a Jorge Andrade

Joana Libertador · 17 min

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Da Amadora até Itália, do velhinho Estrela até à «vecchia signora». aos 39 anos Jorge Andrade recorda com carinho e partilha alguns dos momentos mais caricatos da sua carreira: tudo em mais uma entrevista BnR.

Bola na Rede [BNR]: Cresceste na Amadora e foste formado no Estrela. Como é ver o clube onde cresceste desaparecer?

Jorge Andrade [JA]: O Estrela é uma questão muito sensível. Comecei a jogar no Estrela aos oito anos de idade, mas até aos oito anos ia todos os dias ao estádio, visto que morava na Reboleira. Era um contacto muito próximo e vi o Estrela a crescer desde um clube de campo pelado até à primeira divisão. Vi-o ganhar a Taça de Portugal. Tinha 10 anos, tive a possibilidade de estar no clube quando as coisas aconteceram. Era um clube muito mágico e muito familiar, onde os jogadores eram tratados como filhos e tínhamos todas as regalias. Para terem uma ideia, hoje os meninos pagam para jogar, têm de comprar o material… no Estrela não! Tinha direito a botas, tinha direito a um cesto com roupa lavada em todos os treinos. Eram miminhos que faziam todos os jogadores especiais. Íamos para o Estrela da Amadora com um sorriso nos lábios e ver tudo desaparecer da forma como desapareceu é muito triste. Apesar de existir um grupo desportivo que está a nascer até aos juniores, nunca é igual. O Estrela perdeu toda aquela magia. Era uma zona privilegiada, perto de Lisboa, que conseguia reunir muitos craques. Tenho pena pelo clube, pelo passado do Estrela, mas a vida continua. Faz-me muita confusão, mas houve pessoas que estiveram à frente do clube naquela altura e tiveram de tomar as decisões e se calhar foi muito complicado para eles ter de gerir um clube já em falência.

BNR: Ainda no Estrela: soube que estiveste um ano emprestado ao Massamá e que na altura chegaste ao pé do teu pai e disseste que o Estrela já não te queria e que querias deixar de jogar futebol. Podes contar-nos um pouco desse episódio?

JA: Eu até aos 15 anos era um rapaz muito enfezadinho, muito pequenino e tinha muitas dificuldades em acompanhar os colegas, que estavam a crescer. Nesse ano foram dispensados 12 jogadores: éramos todos muito pequenos e, na altura, a maioria foi para o Real Massamá. Na altura estava muito desanimado. Chorei bastante. Um dos desabafos que tive com o meu pai foi que não queria jogar mais. Para mim só havia uma realidade no futebol que era jogar no Estrela da Amadora. O meu sonho não era jogar no Sporting ou no Benfica, que eram os clubes grandes, mas sim no clube onde ia brincar todos os dias, o clube onde tinha os meus amigos e toda aquela família. Naquela altura ninguém mudava de clube. Começava-se num clube e fazia-se a formação toda no mesmo clube. Foi uma idade de reflexão. Foi bom para mim para ver que o futebol não é só brincadeira, que não é só ir ao campo com os amigos, e a partir dali pus objetivos na minha vida: nunca mais nenhum treinador me ia dispensar. E foi o que aconteceu. Deu-me força e foi uma mudança de mentalidade para levar o futebol mais a sério.

Fonte: Bola na Rede

BNR: Tinhas pouco mais de 20 anos quando foste jogar para o FC Porto. Como foi a adaptação a esta nova realidade, em que tiveste de sair de casa e ir para longe?

JA: Na Reboleira, nos primeiros dois anos, para terem noção, eu ia a pé para os treinos. Eu era capaz de jogar um jogo contra o Sporting ou contra o Benfica e se o meu pai não ficasse à espera tinha de ir a pé para casa. Ou se o Filipe Martins, que foi meu colega, já tivesse ido embora tinha de ir a pé. Era uma realidade muito diferente. Eu demorava quase uma hora de casa até aos treinos porque no caminho a pé ia cumprimentando toda a gente. Era um ambiente espetacular. A adaptação à equipa profissional do Estrela da Amadora foi muito fácil. Já a mudança para o Porto foi uma mudança muito grande, visto que a partir dali sim, senti o profissionalismo com estágios, com o mudar de cidade. Senti um pouco [a diferença] no meu dia a dia, mudou-o. Fez com que me concentrasse só no futebol, enquanto que na Amadora conseguia fazer outras atividades e outras coisas, até porque tinha os meus amigos e família perto de mim. Para teres uma ideia, no Estrela da Amadora ainda completei o meu 12º ano. Deu para estudar, deu para me divertir, enquanto que no Porto as coisas foram diferentes. Os primeiros meses de adaptação foram diferentes e tive que perceber como é que o clube funcionava.

BNR: Foi ao serviço do FC Porto que foste chamado pela primeira vez à Seleção. Na altura jogaste ao lado de jogadores como Rui Costa, Pauleta ou Luís Figo. Como é ter o prazer de jogar ao lado de jogadores lendários como esses?

JA: Felizmente quando se joga num clube como o FC Porto é tudo mais fácil. Eu joguei no Estrela da Amadora e só fui chamado a primeira vez aos sub-20. Depois quando fui para o FC Porto até para os “A” me chamaram. É mais fácil, a visibilidade é outra, embora o jogador seja o mesmo, mas faz com que as coisas acelerem. O FC Porto também me ajudou muito nesse processo, pois queria promover-me como jogador para valorizar. O papel económico e a entrada das SADs nos clubes fizeram com que o jogador tivesse uma valorização diferente. Os jogadores eram também tratados como negócios e isso fez com que todos os processos que eram muito demorados no Estrela da Amadora passassem a ser muito rápidos. Apareci a jogar na Seleção com esses grandes craques num jogo contra a França em 2001 e a partir daí joguei sempre na equipa. As coisas correram bem e é estranho, ao principio, jogar com jogadores que vimos na televisão, que foram campeões mundiais e depois estar ali a partilhar o campo e a ser cúmplice nos momentos dos jogos e estágio. Isso fez com que a minha ida para a Seleção fosse sempre uma ida de alegria. Era sempre fantástico ser escolhido e, se calhar, mesmo cansado de um jogo, era pegar logo no carro e ir para a Seleção para estar no estágio com os colegas que depois se tornaram amigos.

BNR: Jogadores que acabaram por te transmitir novas aprendizagens e maneiras de ver as coisas, com certeza…

JA: Sim! Muitos já tinham começado a carreira internacional e ganho títulos importantes. Foram jogadores que começaram a abrir o mercado para o jogador português e penso que hoje em dia todos beneficiam disso – até jogadores na China temos. Foi a Geração de Ouro, uma geração muito forte que ajudou a fazer com que o jogador português fosse valorizado e que hoje em dia tenha mercado em muitos lados.

BNR: Ainda na Seleção, temos um Mundial da Coreia em 2002, que ficou marcado por uma série de acontecimentos menos bons. Que recordações te traz esse Mundial?

JA: Na altura pensava que era o primeiro Mundial de muitos e acabou por ser o meu único, porque depois na Alemanha lesionei-me. Foi um Mundial onde havia um misto de alegria e tristeza porque como era muito longe, na Coreia, não tínhamos a proximidade de ver o público português como tivemos noutras ocasiões. Ali estávamos um pouco na expectativa de ver aquilo que as outras Seleções seriam. Não sabíamos muito bem em que forma estavam os Estados Unidos, não sabíamos se a Coreia ia estar tão forte como demonstrou estar – foi até ao quartos de final do Mundial – e a Polónia, essa sim, era uma seleção que conhecíamos melhor. Foi uma fase de grupos meio estranha. Nós eramos os favoritos e não passamos, o que fez com que tudo fosse muito triste. No entanto, para mim, como experiência, foi muito rica, porque consegui, muito jovem, ir a um Mundial e cumpri um sonho de menino. Toda gente gostava de jogar um Mundial. Embora eu entrasse só para apagar fogos, ou porque a equipa precisava de defender ou de ir atrás do resultado. Mas um Mundial é um Mundial e é daqueles objetivos cumpridos.

BNR: Dois anos depois tivemos o Euro 2004, que foi o oposto do Mundial. Portugal teve uma prestação quase perfeita e acabou por “cair” na final.

JA: Sim, o Europeu mudou a minha vida em termos desportivos e fora do desporto. Penso que todos os jogadores que jogaram aquele Europeu foram acarinhados de tal forma que deixaram de ser apenas jogadores de futebol. Passaram a ser, naquele momento, heróis para as pessoas “normais”, porque foi a primeira vez que a Seleção foi uma final e a primeira vez que Portugal organizou uma competição como o Europeu. Que foi, diga-se, organizado de uma forma exemplar e naquela altura o facto de a Seleção Portuguesa chegar a uma final fez com que todo o país se mobilizasse para aquela data especial. O país estava todo em festa, esqueceu-se da politica e de todos os problemas, crises económicas… todos os jogadores que entraram naquele Europeu saíram valorizados, porque até as pessoas que trabalhavam no talho ou na mercearia queriam que Portugal ganhasse. Ganhámos muitas adeptos que são só de Seleção e não de clubes, por exemplo. Foi muito bom e muito importante para a minha carreira.

BNR: Foi esse o troféu que mais te custou não conquistar?

JA: Não. Em termos de troféus eu gostava de ter ganho o campeonato com o FC Porto e saí antes de o ganhar. Isso sim, porque é um clube onde toda a gente ganha um campeonato e eu em dois anos não ganhei nenhum. Naquela altura era quase natural qualquer jogador que jogasse no FC Porto ser campeão. Quanto ao Europeu, depois destes anos todos, depois de Portugal ser, pela primeira vez, campeão europeu em França, eu até não fico triste pela história ter sido assim. Acho que Deus escreve direito por linhas tortas e a primeira vitória contra a França talvez signifique mais para muitos emigrantes do que aquilo que a vitória [frente à Grécia] nos poderia trazer a nível individual. Claro que era um marco muito importante, mas penso que pelo trajeto que fizemos, já foi quase como uma vitória e mudou a vida de quem jogou aquele Europeu.

Fonte: Bola na Rede

BNR: Ainda a nível de troféus, se tivesses que escolher entre a Supertaça Espanhola, ao serviço do Deportivo, ou a Taça de Portugal, ao serviço do FC Porto, qual dirias que teve mais significado para ti?

JA: Ganhei também a Supertaça com o FC Porto e com um golo meu. Acho que ficar na história de um clube como o FC Porto, quando marcas um golo, a nível individual faz com que penses que fizeste alguma coisa de importante. No Deportivo, por exemplo, quando eu cheguei à equipa vinha da conquista do Campeonato, vinha da conquista da Taça de Espanha contra o Real Madrid, no ano de centenário do Real. O importante foi estar em grupos fortes que me ajudaram a atingir patamares muito altos nos campeonatos em que estava. Tive a sorte de jogar em Espanha e conseguir bater as grandes equipas como o Real Madrid e o Barcelona. Por exemplo, o Real esteve 17 anos sem vencer na Corunha. Hoje em dia é impensável um Deportivo da Coruña ter força para vencer um grande como o Barcelona e o Real. Tive nesses anos de ouro tanto do FC Porto, a contruir um caminho, como do Deportivo e na Seleção. Foram anos muito bons, andava sempre com um sorriso de orelha a orelha e era um privilegiado por poder jogar futebol nos anos em que as cosias corriam bem.

BNR: As lesões acabaram por te obrigar a sair relativamente cedo do relvado. Qual é o sentimento de nos vermos obrigados a deixar de fazer aquilo de que mais gostamos?

JA: É um sentimento de chegar à meta antes do tempo. É o mesmo que correr uma maratona e aos 25 quilómetros já estar a festejar que já tinha acabado, mas afinal não era a meta. Foi incompleto, faltavam ainda muitos quilómetros para chegar ao fim e eu não cumpri esse objetivo. No entanto perdi ritmo, por causa das lesões, e melhor do que arrastar-me e prejudicar-me porque o meu rendimento não era bom, decidi que devia acabar a carreira e preferi deixar de jogar. Não suportava dores, não suportava estar todos os dias com fisioterapeutas para poder entrar num campo. Acho que a carreira foi bonita e não a queria estar a estragar para toda a gente ter uma imagem positiva do Jorge. A vida continua e temos que preservar também as coisas boas que fizemos. Mais vale curto e bom do que longo e mau. Nesse aspeto defendi-me um pouco para que as coisas tivessem sido sempre a crescer, desde o Estrela da Amadora até à Juventus. Não está nada mau para quem veio da Amadora.

BNR: Precisamente sobre a Juventus: estiveste lá pouco tempo e jogaste pouco. Achas que foi a decisão mais acertada naquela altura?

JA: Naquela altura só fui para a Juventus porque tinha a pressão do Scolari: tinha de mudar de equipa, porque o Deportivo já tinha deixado de jogar a Liga dos Campeões. O Scolari disse que tinha Pepe e Bruno Alves, jogadores que estavam a vir com muita força para a minha posição e eu vi-me quase na obrigação de aceitar o convite da Juventus. Tinha contrato de mais dois anos com o Deportivo e o meu sentimento era de um perfeito comodismo. Estava habituado à cidade, os meus filhos tinham nascido lá, em dez minutos estava em todo lado… estava muito satisfeito com o meu rendimento e tudo, tinha tido uma lesão e tinha sido bem tratado. Só que aquele desejo de me querer superar e querer guardar o meu lugar na Seleção fez com que eu me mudasse para uma Juventus que vinha da Série B italiana depois do problema que teve, num projeto que queria formar de novo uma equipa campeã – e vê-se hoje em dia que a Juventus se tornou de novo numa grande equipa em Itália e na Europa. Eu vi um projeto fantástico, onde me deram condições também fantásticas, mas a nível desportivo foi mau. Eu, se tivesse continuado na Corunha, se calhar tinha jogado mais anos, porque teria sido acompanhado de uma forma diferente, enquanto que na Juventus não tinha uma história tão forte quanto em Espanha. As pessoas queriam que eu tivesse rendimento e como não o tive as coisas não correram durante muito tempo. Mas adorei lá estar, foi uma experiência fantástica! Conheci muitos craques como o Nedved, o Del Piero, o Trezeguet, o Buffon, o Chiellini, que ainda joga, o Marchisio, o Giovinco, que joga em Toronto… jogadores que estão ainda a dar cartas no futebol internacional. E também aquela coisa de mudar de cidade, aprender novas línguas… isso adorei! Tive dois anos “de molho”, como se costuma dizer, mas a beber da cultura italiana e adorei, até a forma como eles comem, porque eu sou muito guloso [risos]. Adorei estar em Itália.

BNR: Dessa série de jogadores fantásticos com quem tiveste o prazer de partilhar o campo, houve algum que te tenha marcado mais?

JA: Não só na Juventus como na Seleção tenho os meus amigos, como o Boa Morte, o Miguel, que são jogadores que jogaram comigo a vida toda. No Estrela da Amadora tenho amizade com outros colegas que jogaram comigo, o Gaúcho. Mas o jogador que mais me marcou em termos de carreira, curiosamente, é o Deco. Porquê? Eu sou expulso numa Liga dos Campeões, contra o FC Porto, onde eu dou um pontapé ao Deco para ele se levantar. Mas foi um pontapé de brincadeira, devido à confiança que eu tinha com ele. Só que o árbitro interpretou que eu o tinha agredido e fui expulso. Aquilo é muito a história entre o ganhar e o perder. Naquele gesto, a nossa equipa foi-se abaixo e perdemos a eliminatória, uma meia final da Liga dos Campeões. O Deco ganhou e eu perdi. O Deco a partir daí foi para o Barcelona, ganhou outra vez outra Liga dos Campeões e acho que entre o ganhar e perder, esse jogo e o Deco marcam-me muito. Nós temos uma amizade muito forte, apesar daquilo que aconteceu naquela altura. Para mim foi devastador em termos do grupo que era o Deportivo, que era uma equipa forte e que saiu penalizada, num gesto que custou a minha expulsão… foi um dos atos que fez com que a equipa ficasse mais frágil. No entanto acho que é aquela figura [Deco] que me marca no futebol, até porque passei momentos muito bons com ele na Seleção. Foi um dos jogadores que nos levou à final do Europeu, fez um Mundial em 2006 também fantástico e daí ser ele o jogador que eu gostaria de destacar neste trajeto que eu fiz.

BNR: Entretanto, já tiveste algumas experiências como treinador, tanto no Oriental, como em escalões inferiores. É um caminho que ponderas seguir no futuro?

JA: Eu acho que todo o treinador tem que passar por várias situações para perceber qual é a sua capacidade. O meu trajeto não é muito linear. Comecei a treinar em Espanha, na Corunha, depois quando vim para Portugal vim treinar os iniciados do Belenenses e senti dificuldades. Achava que treinar mais jovens era muito mais difícil que treinar seniores e confirmou-se. Quando o Pedro Hipólito me convidou para ser adjunto dele no Atlético vi que lidar com profissionais é muito mais fácil. Depois passei para o Oriental, onde estive três ou quatro meses e depois dessa etapa passei a treinar mais novos outra vez. Este ano estou a treinar os meus filhos, no Cultural da Pontinha, o que é um papel muito ingrato. Ter os filhos na equipa e ver que tens que os pôr de fora porque não tem capacidade para entrar naquele jogo, teres de pensar como pai e como treinador… é uma gestão um pouco difícil. No entanto é gratificante porque os miúdos portam-se muito bem e quando as coisas correm bem conseguem fazer o que o treinador diz. Mas já estou quase a acabar a época e estou quase com cabelos brancos, porque realmente é muito mais difícil treinar mais novos do que treinar seniores. Gostava de voltar a treinar outra vez profissionais. Vamos ver o que é que acontece porque não depende só de nós, mas também de projetos que possam aparecer.

Fonte: Bola na Rede

BNR: Desde que deixaste de jogar o futebol tem sofrido algumas alterações. Pensas que para melhor?

JA: Eu acho que uma das questões é a das novas tecnologias. O vídeo-árbitro (VAR) pode ajudar; a nível de treinadores temos mais ferramentas para analisar o jogo; é muito mais fácil compreender o jogo e mesmo que não tenhamos uma leitura muito boa no campo, há ferramentas para que possamos ler e saber o que está a acontecer e nesse aspeto o treinador está mais completo. Os treinadores portugueses são curiosos, gostam de investigar, de introduzir essas novas tecnologias e eu acho que [o futebol] está melhor para treinar. Não digo mais fácil, porque os adversários também são mais complicados, mas em termos de condições, estas são muito melhores agora do que as do treinador que treinava há 40 anos, em que era ele que fazia e decidia tudo. Muito mais fácil treinar hoje, mas claro que os resultados continuam a ditar despedimentos.

BNR: Ainda na tecnologia tivemos a introdução do VAR. É uma ferramenta que acaba por auxiliar no jogo, mas achas que só traz coisas boas?

JA: O público está a ser educado quanto ao VAR, o mesmo com os treinadores ou com os jogadores. A forma como os jogadores seguem a jogada mesmo estando em fora de jogo faz toda a diferença e o jogador tem de ser habituar a não parar. É como se fosse no treino. Só para quando o árbitro apitar, mesmo tendo noção que pode estar em fora de jogo. O jogador tem de continuar a jogada. Estamos todos a ser educados muito rapidamente, e é um ano de adaptação, há coisas boas e coisas más, mas a realidade é esta. As novas tecnologias vieram para ficar e esperemos que no próximo ano as coisas estejam um pouco melhor.

BNR: Por último, queria pegar no clima pesado que se vive neste momento no futebol português. Se pudesses deixar um apelo a todos os adeptos, desportistas e dirigentes, o que dirias?

JA: O único apelo que deixo é para todos continuarem a ir ver os jogos ao estádio, que é muito mais bonito. Temos os melhores estádios em Portugal: os do Sporting, Benfica e Porto, que enchem sempre, mas temos também de distribuir e ir ver outros jogos. Eu adoro ver jogos no Estoril, em Setúbal…. adoro ver jogos noutros estádios! Claro que não têm as mesmas condições, mas ver o futebol no campo faz toda a diferença. Dá para ver mais coisas, certos comportamentos, analisar as coisas de forma diferente. Apelo a isso: continuem a ir aos estádios. A nível de futebol português, acho que a única coisa que eu pedia era, no que toca a verbas, haver uma distribuição mais equilibrada, visto que uns comem tudo e os outros nada. Os “três grandes” nem nos direitos desportivos foram honestos com as outras equipas, porque negociaram todos de forma independente, deixando os outros com uma fatia mais pequena. Isto faz com que a concorrência seja menor, com que a capacidade das outras equipas seja menor e que tenham que recorrer a jogadores emprestados pelos clubes grandes. Ou seja, estão na mão dos “três grandes” para tudo. O apelo é que quem decide, decida que as verbas no futebol sejam distribuídas de uma forma mais equilibrada.

Joana Libertador

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