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«O guarda-redes português não é devidamente valorizado» – Entrevista BnR com Ricardo Ribeiro

Romão Rodrigues · 16 min

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Guimarães, o berço do Minho, foi o anfiteatro selecionado para conversar e privar com Ricardo Ribeiro, guarda redes do Futebol Clube Paços de Ferreira. O colóquio relembrou momentos passados onde a nostalgia se sobrepôs, analisou o presente com discernimento e perspetivou o futuro com a dose adequada de cautela e espírito aventureiro. Das subidas conquistadas aos momentos mais amargos e espinhosos da carreira, a transparência foi vincada em cada resposta. Chiquinho, criativo do Moreirense, é elogiado pelo antigo colega de equipa. O Bola na Rede encarrega-se de lhe exibir a entrevista na íntegra.

Ricardo Ribeiro, atual guarda-redes do FC Paços de Ferreira
Fonte: Nélson Mota/ Bola na Rede

-Da formação à primeira subida pelo Moreirense FC-

“Diziam-me sempre que não ia conseguir ser futebolista e que me tinha de dedicar ao trabalho.”

(BnR): Durante o período de formação pensaste, em algum momento, chegares onde agora te situas?

(RR): Claro que sim, todos nós temos esse sonho. Mas nunca imaginei subir tão cedo à equipa sénior do Moreirense FC porque fiz a minha estreia com apenas 17 anos.

(BnR): O período cessou na época de 2008/2009. Até esse momento, nenhum familiar teu ou amigo próximo fez a tal pressão para a continuidade dos estudos?

(RR): Não, mas diziam sempre, quando eu saí da escola, com os meus 16 anos, para continuar. Contudo, não tinha essa vocação e não gostava, apesar de hoje me arrepender muito dessa decisão. Diziam-me sempre que não ia conseguir ser futebolista e que me tinha de dedicar ao trabalho. Mas eu tive sempre esse sonho e, quanto mais as pessoas diziam que eu não seria capaz, a minha vontade em demonstrar o contrário crescia.

Ricardo Ribeiro estreou-se no futebol sénior no Moreirense com 17 anos
Fonte: Nélson Mota/ Bola na Rede

(BnR): Fazes a estreia em Leiria, na Taça de Portugal, frente ao Pinhalnovense. Foi difícil controlar e dominar o nervosismo? Era um sonho tornado realidade?

(RR): Estava um bocado ansioso, mas acho que é normal devido à idade, era muito novo. Foi a minha primeira época como sénior. Contudo, no decorrer do jogo, fui perdendo essa ansiedade e fui considerado dos melhores em campo. Na altura, falou-se muito sobre mim nos jornais, dizendo que eu podia ser o rosto do futuro do Moreirense FC facto que, depois, se veio a confirmar.

(BnR): Sentias que os embates frente ao FC Vizela, sendo este um velho rival, faziam oscilar o orgulho da equipa consoante o resultado obtido?

(RR): Não. É claro que nesse tipo de jogos toda a gente quer jogar porque qualquer jogador ambiciona jogar um derby. Na altura ainda não jogava porque era suplente do Ricardo Andrade. Mas a motivação não era necessária porque já tínhamos em mente por ser um derby.

(BnR): O Moreirense FC joga, no término da época, o derradeiro jogo em Arouca, acabando por subir mesmo perdendo. Subir ao escalão profissional com o clube que te acompanha desde o berço tem um trago especial?

(RR): Claro que tem, é óbvio. Sou natural de Moreira de Cónegos, sempre foi o meu sonho representar o Moreirense e aliar esse sonho à subida de divisão deixou-me extremamente orgulhoso. Posso afirmar que sou das poucas pessoas a conseguir isso.

-A longa espera, a afirmação e o início do reconhecimento nacional-

«Infelizmente, em Portugal, vemos muitos casos dessa ordem, onde o jogador da formação não é visto da mesma forma como um jogador que vem do estrangeiro.»

(BnR): Nesse jogo, tu não foste chamado à partida. Alguma mágoa ou tristeza?

(RR): Não, não deixou. Ainda não tínhamos garantido a subida de divisão e eu já me tinha estreado nesse ano contra o Vieira. Aí, até acabei por ser expulso, num lance onde o jogador ia isolado e eu tive de recorrer à falta. Acabámos por empatar, se não estou em erro. Eles não conseguiram o golo da vantagem precisamente pela minha expulsão. E não, não fiquei triste. Fiquei triste por não termos conquistado o título, mas o objetivo principal foi cumprido: a promoção à Segunda Liga.

(BnR): Esperava-se, na temporada seguinte, 2010/2011, a afirmação. Porém, os planos inverteram-se e, com a chegada do Roberto Tigrão, foste remetido para o banco de suplentes. Alguma vez te sentiste desiludido ou até incapaz para assumir o compromisso?

(RR): Não diria incapaz. Infelizmente, em Portugal, vemos muitos casos dessa ordem, onde o jogador da formação não é visto da mesma forma como um jogador que vem do estrangeiro. Com isto não quero pôr em causa a qualidade do Tigrão porque acompanhei a primeira passagem dele pelo clube e sempre o considerei uma referência, um guarda redes fantástico e uma excelente pessoa. Mas é claro que a minha vontade era a de jogar sempre e sentia-me capaz disso pelo facto de já ter demonstrado o meu valor anteriormente. Podia ter sido uma aposta com vista para o futuro de modo ao clube lucrar com uma possível transferência. Falta, no Moreirense FC, a aposta na formação. O valor do jogador estrangeiro, infelizmente, apresenta uma importância maior do que um jogador natural da terra ou das escolas do clube.

O guardião de 29 anos lamenta o facto de o jogador nacional ser preterido pelo jogador estrangeiro
Fonte: Nélson Mota/ Bola na Rede

(BnR): No ano seguinte, 2011/2012, finalmente, a afirmação. Dividiste a titularidade, mais jogo menos jogo com o Ricardo Andrade. Aí, ao contrário do que tinha acontecido anteriormente, jogaste o jogo da subida, frente ao Covilhã. Perante o cenário, estádio repleto e esverdeado, foi árdua a tarefa de concentrar a emoção e a atenção num só pensamento?

(RR): Antes do jogo, sim. Perante os familiares e amigos de Moreira a acenar da bancada, foi complicado gerir a ansiedade e o nervosismo inicial porque pretendia dar uma boa réplica, queríamos muito subir de divisão. Foi um orgulho enorme ver o estádio completamente cheio no apoio à equipa, foi fantástico! Um dos melhores momentos que guardo na minha memória, sem dúvida!

(BnR): Nessa época, jogas em Alvalade para a Taça da Liga. Para além do empate (1-1), defendes uma grande penalidade e associação a esse momento, por parte dos adeptos, é imperativa. Segredaste algo ao ouvido do Bojinov ou foi puro instinto?

(RR): (risos) Não, não. Naquele momento até houve aquela confusão entre ele e o Matias Fernandez e eu aproveitei isso porque, de certa forma, desconcentrou o Bojinov. Foi um momento de sorte, de puro instinto. Foi esse o momento que me catapultou para o reconhecimento, para jornais e entrevistas. A partir daí, toda a gente começou a conhecer um pouco do Ricardo Ribeiro.

(BnR): Finalmente, a tão almejada subida. Foi sempre, desde o início da temporada, o teu intuito dar o contributo ao clube ou pensaste em sair?

(RR): Não, eu queria e estava focado no Moreirense FC, queria afirmar-me como guarda-redes. Na altura, tinha quase a certeza de que poderia ser um dos titulares e que estava mais perto de o ser, o que fez com o que o esforço vindo de mim fosse maior. Felizmente, isso aconteceu.

-A despromoção, o projeto Estoril Praia e o regresso a Moreira de Cónegos-

“Sinto que o guarda-redes português não é devidamente valorizado. O único profissional que possui essa vantagem é o atual guarda-redes da Seleção Nacional, Rui Patrício.”

(BnR): Iniciaste a época até à jornada 14. Os nefastos 5-0, diante do Setúbal, provocaram a tua exclusão do onze base ou outro motivo ditou tal facto?

(RR): Após esse jogo, o treinador tirou-me a titularidade. Claro que não fiquei feliz, mas são decisões que somos obrigados a aceitar. Quando eu digo que não existe proteção nem perdoam os erros que cometemos, de modo a aprendermos com eles é porque sinto que o guarda-redes português não é devidamente valorizado. O único profissional que possui essa vantagem é o atual guarda-redes da Seleção Nacional, Rui Patrício. Não sei se o resultado provocou a exclusão, nunca me explicaram o porquê e tenho muito respeito pelo treinador à data, Jorge Casquilha, pessoa que ainda mantenho contacto sem mágoa nenhuma. Na altura ele decidiu o que decidiu para me proteger também, pelo facto de ser contra o SL Benfica e correr o risco de nova goleada. Mas lá está, não concordo nada com isto porque jogamos duas vezes contra o FC Porto e, nas duas vezes, fui eleito melhor em campo. É um risco que corremos, mas sempre respeitei a decisão dele.

(BnR): O que achaste que faltou para assegurar a manutenção?

(RR): Desde o início da época que a estrutura surgiu debilitada, estruturou-se mal a época e a direção tem a culpa disso. Se as pessoas estiverem recordadas, nós iniciamos jogos com 16 jogadores apenas. Não tínhamos uma equipa bem alicerçada e quem acabou por pagar a fatura foram os jogadores e o treinador, mais o treinador pelo facto de ser mais fácil mandar um treinador embora do que nove ou dez jogadores.

(BnR): Durante a passagem pelo clube, quais são as pessoas que destacas com maior nostalgia?

(RR): O Castro, o capitão, uma pessoa fantástica a todos os níveis, ainda hoje é o dia em que falamos inúmeras vezes e é uma pessoa que guardo com muita saudade. O Sr. Carlos, massagista do clube, o Dinis, técnico de equipamentos na altura, o Filipe Gonçalves, o mister Daniel Ramos que na altura, ainda júnior, me lança diante do Lixa e do Merelinense e o Jorge Casquilha.

(BnR): Na época seguinte, 2013/2014, fazes as malas, rumas à capital e tens como destino o Estoril Praia. O projeto Europa League foi um fator determinante na decisão?

(RR): Honestamente, não foi esse fator que me conduziu à saída do Moreirense FC. Existiram variantes das quais não vale a pena ser feita a referência. Precisava de sair porque as pessoas não procederam do modo correto comigo e não cumpriram aquilo que prometeram na altura. Decidi ir para o Estoril, foi a melhor coisa que fiz até hoje porque não davam valor àquilo que eu fazia. Considero que merecia outro trato, pelo facto de ser da terra. As pessoas podiam ter lucrado comigo, mas o esforço nunca foi feito.

A ida para o Estoril pôs fim a uma ligação de 14 anos com o Moreirense
Fonte: Nélson Mota/ Bola na Rede

(BnR): Nessa época, regressas ao Moreirense FC num encontro para a Taça de Portugal, onde o Estoril acaba por vencer (0-2). Esperavas assobios e apupos ou o aplauso dos adeptos?

(RR): Eu sabia que ia ser bem-recebido porque nunca tratei mal o clube. Eu sempre disse que era do Moreirense, sou adepto do Moreirense, foi o clube que me formou, é o clube da minha terra, foram 14 anos a servi-lo, não foram dois ou três. Desde o início que tive a consciência de que seria bem-recebido, excetuando aquelas brincadeiras de amigos na bancada a mandar umas bocas, mas inofensivamente. Fui muito bem-recebido.

-A instabilidade, o regresso à primeira liga e a regularidade-

“Sei perfeitamente que irei voltar a Coimbra, a jogar pela histórica Académica.”

(BnR): Nas duas épocas seguintes, estiveste em três clubes distintos: Académico de Viseu, Olhanense e Belenenses. Isso trouxe-te repercussões e instabilidade a nível pessoal?

(RR): Sim, sem dúvida. Foram clubes em que a estabilidade era uma miragem, existiam ordenados em atraso, facto que não ajudava. O estar longe da família e dos que mais gostamos e o facto de a minha namorada não me ter acompanhado contribui também para essa inconstância. As coisas não correram bem em Viseu, um pouco por minha culpa porque na altura não estava à espera de voltar à Segunda Liga. Cheguei e não comecei logo a jogar, estive imenso tempo parado. Acabei por entrar, mas, com a mudança de treinador, saí da equipa.
E eu vi que tinha de jogar porque precisava daquilo, de mostrar novamente o meu valor, e acabei por ir para Olhão. Apesar dos salários em atraso, as pessoas foram incansáveis, os diretores, os jogadores, eramos uma autêntica família e isso ajudou imenso na manutenção.

(BnR): Ao assinar pelo Belenenses, afirmaste, ao jornal A Bola, ser “a melhor decisão da tua carreira”. Analisando a tua carreira até ao momento, continuas com a mesma opinião?

(RR): Foi, na altura foi, porque era um desejo enorme regressar ao escalão principal do futebol e era um projeto aliciante. As pessoas quiseram a minha contratação. Assinei o contrato por volta de março, qualquer jogador pode assinar por volta dessa altura quando o contrato termina, muito pela insistência das pessoas. Infelizmente para mim, o Ventura, meu colega à data, foi chamado à Seleção Nacional e estava bem, estava a merecer jogar. No final, eu tive a minha oportunidade para demonstrar o que valho, quando ele se lesionou. Gostei muito de representar o Belenenses, é um clube histórico e fizemos uma época tranquila, com bons jogos na Liga Europa, com destaque para a vitória no terreno do Basileia. Fiquei triste por não ter jogado na competição, mas faz parte e tive de lidar com isso.

(BnR): Após a passagem pelo Belenenses, segues o teu trilho em direção a Coimbra. O teu recorde de jogos realizados foi batido em 2016/2017 pela histórica briosa num total de 40, marca igualada na época que se seguiu. Sentiste que a experiência te revitalizou e te catapultou para o que aí viria?

(RR): Sem dúvida. Nós, futebolistas, precisamos de jogar e quando sentimos a chegada de uma oportunidade, aproveitamos ao máximo. Eu senti essa energia de Coimbra. As duas épocas em Coimbra primaram-se pela regularidade, facto que me ajudou imenso e que me conferiu uma evolução exponencial. Foi fantástico, não me arrependo minimamente, e hoje é o dia que ainda guardo com a maior nostalgia aquele clube. Esta época voltei ao Norte, uma pessoa, às vezes tem de tomar decisões complexas e duras, mas a realidade obriga-nos a isso. Contudo, sei perfeitamente que irei voltar a Coimbra, a jogar pela histórica Académica.

Ricardo Ribeiro recorda com saudade a passagem na Académica e promete regressar a Coimbra
Fonte: Nélson Mota/ Bola na Rede

(BnR): Captaste, em algum momento, a energia vinda da massa associativa? Forma mais as críticas ou as palavras de apreço?

(RR): 95% das pessoas sempre me apoiaram. É óbvio que não agradamos a toda a gente, mas é por essa razão que reside em mim a saudade daquela cidade, as pessoas foram excecionais. Fizeram com que eu me sentisse uma peça chave e, mais do que isso, fizeram-me sentir em casa. As amizades lá construídas também contribuíram muito para o funcionamento desta “relação”, principalmente graças ao Traquina, ao João Real e ao Marinho. Os adeptos apoiavam do primeiro ao último minuto e, apesar de não conseguirmos os nossos objetivos, sempre foram fiéis.

(BnR): Em 2017/2018 o clube ficou perto da promoção à Liga NOS. Contudo, a nível pessoal, arrecadas o prémio de melhor guarda-redes da Segunda Liga. Foi uma benesse que, de certa forma, colmatou a impossibilidade de subida?

(RR): Preferia ter subido a receber o prémio, é natural. Contudo, é óbvio que fiquei extremamente feliz em receber tal distinção, mérito também dos meus colegas de equipa, que tudo fizeram para que isso acontecesse. Mas, como se diz na gíria, não tive a cereja no topo do bolo, que era a subida.

-A amizade de uma vida, Paços de Ferreira e o futuro-

“Não tenho a mínima dúvida de que, caso o Chiquinho volte ao SL Benfica, irá fazer uma grande época.”

(BnR): Na Académica, fizeste amizade com um atual craque do Moreirense e do futebol nacional: Francisco Machado, mais conhecido como “Chiquinho”. A tua profecia confirmou-se e ele foi um dos destaques da temporada. Surpreendido?

(RR): Não, minimamente. Sei perfeitamente a qualidade que ele tem e vi o que ele fez ao longo da temporada. Merece sem dúvida singrar e voar mais alto, como por exemplo no SL Benfica, notícia que tem vindo a ser espalhada e que se poderá concretizar. Não tenho a mínima dúvida de que, caso o Chiquinho volte ao SL Benfica, irá fazer uma grande época. Claro que a dificuldade é acrescida, mas acredito muito nele.

(BnR): Pelas goleadas que ele te dá no PES, estás rendido ele?

(RR): (risos) É verdade! (risos) Para quem não jogava PES, ele ganhava-me muitas vezes e eu ficava mesmo chateado. Mas aquilo passava rápido… é muito fácil gostar dele, é uma pessoa por quem tenho um apreço gigante, pela sua forma de lidar com as pessoas e toda a gente gosta dele, não é por acaso.

(BnR): Volvida a temporada 2017/2018, rumas novamente ao Norte e o destino é FC Paços de Ferreira. Alcanças mais um recorde: manténs a baliza inviolável durante sete jogos. Tinhas em mente bater esse recorde ou nunca tinhas pensado sobre isso?

(RR): Nunca pensei nisso, nunca me passou pela cabeça. O facto de termos uma defesa muito sólida ajudou a que isso se realizasse. É o que costumo dizer e digo-o, não para ficar bem, mas porque é a verdade: nós começamos logo na frente, os resultados apareceram desde o início e eles não permitiam que os adversários chegassem à nossa baliza e, quando assim é, é muito difícil para a equipa adversária e foi assim durante a época toda, estive 17/18 jogos com a baliza a zero. Isso realça a qualidade da equipa.

(BnR): Temporada encerrada, subida alcançada. O mister Oliveira é considerado o “papa subidas”. E a ti, podemos chamar-te o mesmo?

(RR): (risos). Não, não podemos. Ele é o verdadeiro papa subidas, ele tem 11 ou 12 já. É um excelente treinador e faz com que as suas equipas obtenham os resultados a que se propuseram no início da época e, no Paços de Ferreira, não foi exceção. Conseguimos ser campeões, conseguimos subir, conseguimos praticar um bom futebol e, mais importante, reunimos a opinião unânime de subirmos por mérito e não por x ou y porque, da forma que está o futebol, quem ganha, ganha por isto ou por aquilo. Infelizmente, surfamos nesta onda.

(BnR): Consideras que o Vítor Oliveira é peculiar e diferente de todos os outros treinadores?

(RR): Considero que aquilo que o distancia do resto é o respeito que ele incute no balneário, porque normalmente existe sempre aquele jogador insatisfeito e, por vezes, as coisas tendem a não correr bem ou o balneário não ser muito bom e ele conseguiu agregar tudo: um grupo fantásticos, de homens, que se respeitavam mutuamente e, nos treinos, toda gente dava o máximo, facto que dificultava a tarefa dele em organizar o onze base.

(BnR): Na temporada que se avizinha, o teu desejo é permanecer no clube ou encarar outras realidades?

(RR): O meu desejo é continuar a envergar o símbolo, jogar, voltar a demonstrar o meu valor na primeira liga. Dou o exemplo do Marco, do Santa Clara: tem 31 anos, voltou à primeira liga e fez uma época fantástica. Muitas vezes, o guarda-redes português necessita de maior valorização, porque ele conseguiu, aos 31 anos, demonstrar às pessoas que as suas formas de pensar estão completamente erradas. Nós, guarda-redes portugueses, temos muita qualidade e só precisamos que as pessoas tenham a capacidade de perceber que erramos porque qualquer um erra.

(BnR): Atuar no estrangeiro é opção viável ou medo escondido?

(RR): Não tenho medo absolutamente nenhum. Sempre foi o meu sonho e sempre comentei isso com as pessoas que me são mais próximas. Quero jogar fora do país, quero experimentar outras ligas, sempre tive esse pensamento. Surgiram propostas para ir só que, por um ou outro motivo, não fui.

Ricardo Ribeiro vê com bons olhos uma possível saída para o estrangeiro
Fonte: Nélson Mota/ Bola na Rede

(BnR): No momento do “pendurar de chuteiras”, quais são os teus objetivos? Pretendes, de algum modo, continuar ligado ao mundo do futebol?

(RR): Sinceramente, não faço ideia nem pensei muito nisso. Neste momento, até estou a tirar um curso no Sindicato de Jogadores, o qual já devia ter tirado há muito tempo, mas uma pessoa deixa sempre passar. Gostava de ficar ligado ao futebol porque é o que mais gosto de fazer, mas estou consciente de quem nem todos conseguem isso. Caso não fique, arranjar-se-á outras coisas que se possam fazer, já trabalhei na fábrica dos meus tios, antes de jogar futebol, ajudando-os lá. Só depois de me tornar profissional é que deixei de trabalhar. A mim não me assusta nada.

(BnR): Prepararás a linha sucessiva de maneira a que ela intercete todas as bolas perigosas que a vida lhes envie?

(RR): Sempre, isso tem que estar vivo na nossa cabeça. Esta vida não é fácil para ninguém. Vivendo o dia a dia, e, caso apareça algum obstáculo, temos que o contornar e seguir viagem, sempre focados no nosso objetivo. Isso é o mais importante.

(BnR): Para finalizar, uma última questão. Soube que ias ser pai e, desde já, os meus parabéns! Quanto ao teu filho, quando ele crescer, vais tentar implementar nele o bichinho do futebol?

(RR): Não, vou deixá-lo fazer o que bem lhe apetecer, deixa-lo ganhar as suas próprias asas. Quero é que ele seja feliz e que siga a vida dele, porque, no futebol, nada é fácil embora as pessoas pensem que o é. O que mais me importa é o seu bem-estar e a sua felicidade.

Foto de Capa: Nélson Mota/ Bola na Rede

Romão Rodrigues

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