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O Guerreiro Otomano – Entrevista André Castro

Redação BnR · 14 min

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André Castro é formado no FC Porto e vai representar o Goztepe, neste temporada, depois de já ter passado pelo Sporting Gijón e Kasimpasa. Aos 29 anos, abre o jogo ao Bola na Rede. Admite jogar em qualquer um dos três grandes portugueses e confessa que guarda alguma mágoa em relação a Paulo Fonseca e Fernando Santos.

Turquia

Bola na Rede (BnR): André Castro, após quatro épocas a alinhar no Kasimpasa SK (onde sempre foi uma peça-chave na equipa), esta época mudou-se para o Goztepe SK. O que significa, no seu percurso futebolístico, esta mudança?

André Castro (AC): Esta mudança para o Goztepe proporcionou-se porque o meu contrato com o Kasimpasa acabou. Eles queriam continuar comigo, mas eu achei que deveria mudar. Fizeram de tudo para me manter lá, mas a proposta do Goztepe SK foi melhor e era um clube que veio da segunda divisão mas que tem um projeto ambicioso, fez várias contratações e pareceu-me que o projeto era mais interessante do que o do Kasimpasa, por isso a minha mudança. Espero que seja dentro do mesmo, em que fiz quatro épocas muito boas e em que, numa época, fiquei na equipa ideal da liga e onde joguei os jogos todos. Foram anos de sucesso e espero continuar a jogar e ajudar o Goztepe.

BnR: Falou-se no interesse do Fenerbahce SK. Confirma? Recebeu convites de Portugal?

AC: Sim, é verdade que houve interesse do Fenerbahce, como também de outra equipa grande turca, mas aqui na Turquia os clubes querem nomes grandes. Embora o Fenerbahce tenha dito que me queria, pediu-me para esperar até ao final do mercado para ver de outras soluções e, caso existissem esses nomes grandes, não me contratavam. Achei que isso não seria bom para mim, porque eu estava livre e se eles me quisessem mesmo escusavam de esperar, bastava quererem. E se eu soubesse que iria ser uma aposta para eles iria com todo o gosto; mas senti que era um interesse que não era aquilo que eu também queria, porque eles queriam e não queriam ao mesmo tempo, assim como outras equipas grandes da Turquia. O Goztepe mostrou mais interesse que as restantes equipas e por isso a minha mudança para aqui.

BnR: Ao seu lado tem companheiros de equipa com passagens por Portugal (e pelo FC Porto), como Beto ou Ghilas. Vê-se como figura de referência para a sua melhor integração no futebol turco, ou são eles quem lhe permitem, em certa medida, “matar saudades de casa”?

AC: Isto de receber o Ghilas, o Beto ou o Scarione, que também esteve comigo no Kasimpasa, é sempre bom. São jogadores que eu já conheço e é sempre bom ter alguns colegas; nós somos uma equipa nova, fizemos cerca de dezasseis contratações e a equipa é toda nova. Temos que começar por algum lado, e espero que sirva para nos unir o máximo possível.

BnR: Até onde pode ir este Goztepe SK na Liga Turca? Vê no clube potencial para conquistas a nível interno ou, individualmente, crê que possa ser um trampolim para umas das equipas ditas “grandes” da Turquia?

AC: O Goztepe este ano tem que pensar na manutenção. É uma equipa que veio da segunda divisão, muita coisa nova, muitos jogadores e até treinador novo. Penso que, para esta época, o mais importante é fazermos um campeonato equilibrado, tentar assegurar a manutenção o mais rápido possível e, a partir do próximo ano e se tudo correr bem, pensar noutras coisas. Mas acredito que, para este ano, seja muito importante a manutenção, até porque esta liga é muito complicada e por isso aponto para conseguir a permanência.

O Goztepe SK é o novo desafio de André Castro Fonte: Goztepe SK
O Goztepe SK é o novo desafio de André Castro
Fonte: Goztepe SK

BnR: Acha a liga turca é melhor ou, pelo menos, mais interessante do que a portuguesa?

AC: Penso que os três grandes de Portugal são mais organizados do que as equipas grandes turcas. Mas, em termos da liga, a Turquia tem um campeonato bastante superior ao português, penso eu. Tem melhores jogadores e a nível de dinheiro, então, nem se fala, é mesmo outro mundo. Aqui uma equipa da parte inferior da tabela consegue ir buscar jogadores aos grandes de Portugal. Se virmos a quantidade de jogadores que este ano vieram para a Turquia, como o Nasri que foi para o Antalyaspor, vemos que é uma coisa incrível. Por isso não podemos comparar os campeonatos, a liga turca é muito competitiva e em que os pequenos ganham facilmente aos grandes, não é como em Portugal que Porto e Benfica jogam em casa e que já se saber que vão ganhar, só não se sabe é por quantos. Aqui não acontece isso. Por exemplo, já estou aqui há quatro temporadas e, nos jogos em casa contra o Besiktas, nunca perdi. É uma liga muito competitiva.

BnR: Quais as principais diferenças culturais que encontrou na Turquia?

AC: As diferenças culturais assentam em que o país, em geral, é todo muçulmano. Mas já vivi em Istambul e agora estou noutra cidade muito bonita que é Izmir e não se nota assim nada de diferente, penso que a coisa mais diferente será que eles têm que rezar algumas vezes ao dia e que à sexta-feira vão todos rezar às duas horas da tarde. De resto vive-se muito bem, as pessoas são muito boas e simpáticas e eu gosto muito da Turquia.

BnR: Como é que um jogador lida com um ambiente tão complicado como é o de alguns estádios na Turquia?

AC: O ambiente nos estádios foi outra das razões para eu mudar, porque o Kasimpasa SK é um clube que não tem adeptos porque fica em Istambul, onde os adeptos são todos das equipas grandes. O Goztepe SK é conhecido por ter muitos adeptos e essa foi uma das razões para eu mudar, porque gosto muito de ter o estádio cheio e aqui na Turquia o ambiente nos estádios é espetacular.

BnR: Quais são as diferenças entre os clubes pequenos na Turquia e em Portugal, em termos de estrutura e condições de trabalho?

AC: A diferença é abismal. Eu joguei no Kasimpasa que tinha um centro de treinos tão bom, ou até melhor, do que o do FC Porto ou Benfica. O dinheiro que eles gastam nos centros de treino é incrível, agora o Goztepe também tem um bom centro de treinos. Ou seja, todas as equipas aqui têm centros de treino e com um orçamento muito superior a muitas equipas portuguesas, até mesmo ao SC Braga. E em termos de salários, o FC Porto e o Benfica têm jogadores que ganham menos do que um clube que aqui luta para não descer. Essa é a grande diferença, em termos financeiros a Turquia é muito superior.

FC Porto

BnR: Estando a alinhar na Turquia, como vê o Besiktas JK, adversário do FC Porto na fase de grupos da Liga dos Campeões? Quais são os jogadores ou os aspetos do jogo aos quais o FC Porto deverá estar mais atento?

AC: O Besiktas é uma equipa muito boa, tem sido a melhor equipa nos últimos anos porque tem mantido uma base na equipa e isso não é muito normal aqui. Na Turquia as equipas mudam, de ano para ano, muitos dos seus jogadores e até de treinador e o Besiktas tem mantido o treinador e os melhores jogadores e isso nota-se, tendo uma equipa praticamente igual à do ano passado. Tem jogadores muito interessantes, muitos já conhecidos em Portugal, como o Quaresma e Pepe, mas tem outros como o Oguzhan Ozyakup, número 10, que é muito bom. O Talisca também fez uma boa época o ano passado, como muitos golos; têm o Babel do lado esquerdo do ataque e o defesa-esquerdo que passou pelo FC Barcelona, o Adriano. É uma equipa cheia de soluções e muito interessante. Vai ser um grupo complicado, porque acredito que o FC Porto, o Monaco e o Besiktas são três equipas boas, mas espero que o FC Porto, com este bom início de campeonato, possa passar.

BnR: Como pode descrever a passagem pelo clube do coração, o FC Porto? O que falhou para que não se tenha conseguido afirmar como um elemento indispensável para o plantel dos azuis e brancos?

AC: A minha passagem pelo FC Porto foi muito boa. Desde os infantis que joguei no FC Porto e, quando subi a sénior, fui o primeiro jogador da formação a subir em oito anos. Não joguei muito e acabei por sair para o SC Olhanense e depois para Espanha. Regressei e fiz muitos jogos com o Vítor Pereira e depois, quando o FC Porto vende muitos jogadores, como o Moutinho e o Fernando, pensei que seria o meu ano. Mas, com a chegada do Paulo Fonseca, vejo que ele traz outros jogadores e, numa conversa que tive com ele, perguntei se ele contava comigo e se seria aposta e a resposta foi que tinha trazido alguns jogadores e que não iria passar muito pelas contas dele. Aí decidimos que o melhor seria eu sair, até porque tinha uma proposta muito boa da Turquia, do Kasimpasa, e decidimos que o melhor seria eu vir. Mas eu sinto que a minha passagem foi muito boa. Creio que não me afirmei por vários aspetos; não foi por eu facilitar, sinto que fiz as coisas bem e as pessoas que estão lá no clube sabem isso e, na altura em que eu tive no FC Porto, sempre fui campeão. Nunca tive que nunca numa equipa em que desse para mudar os jogadores, não havia espaço. No primeiro ano o dono do lugar era o Raúl Meireles e outros jogadores, no segundo era o Fernando, o Moutinho e o Lucho e ainda tinha no banco o Defour, e eu consegui fazer mais minutos que alguns deles. Mas sempre existiu muita qualidade no meio campo. Creio que agora está mais fácil subir a sénior no FC Porto, porque não têm ganho e não conseguem contratar tanto; acredito que se tivesse saído agora da formação, que me tinha afirmado com mais facilidade. Mas penso que na minha altura não havia esse espaço, penso que havia mais qualidade no plantel e por isso não cheguei a ter as oportunidades que podia ter tido.

Castro ganhou 3 campeonatos ao serviço do FC Porto Fonte: FC Porto
Castro ganhou 3 campeonatos ao serviço do FC Porto
Fonte: FC Porto

BnR: Acha que agora há uma maior aposta dos clubes portugueses no jovem jogador português? Sente que se fosse nesta altura poderia ter mais oportunidades no FC Porto?

AC: Sim. Como já disse, se fosse agora, acredito que me iria afirmar no FC Porto porque acredito que teria mais oportunidades e mais espaço para me mostrar. O Herrera já está no plantel há tantos anos e ainda não ganhou um título; isso era impensável há uns anos. Não me considero inferior a muitos jogadores que agora estão lá e a outros que saíram do país e não se conseguiram afirmar. Sempre que saí, foi para jogar. Foi assim no Sporting Gijón e aqui também jogo sempre, só no FC Porto é que não consegui jogar.

BnR: Guarda alguma mágoa por não ter tido mais oportunidades?

AC: Sinto alguma mágoa, claro. Depois de um ano em que, com o Vítor Pereira, fui o décimo-segundo jogador, em que entrava sempre e onde as coisas me correram sempre bem, pensei que o ano seguinte seria o meu ano, até pelas saídas de alguns jogadores. Acabou por chegar um treinador que não contava comigo para titular e isso custou-me muito, até porque sentia que seria o ano da minha afirmação e não me deram essa oportunidade. Fui até um dos melhores na pré-época, fui sempre utilizado na Emirates Cup mas, na altura das decisões, já não contava… Ficou alguma mágoa.

BnR: Assumindo que tem acompanhado o FC Porto, como vê o momento atual do clube?

AC: Penso que o FC Porto está num momento espetacular, o Sérgio Conceição conseguiu trazer uma mentalidade que já não se via há algum tempo no clube e, sinceramente, acredito que o FC Porto pode fazer coisas muito boas e ser campeão.

BnR: Qual é que é o principal favorito a conquistar o título de campeão nacional?

AC: À partida, e como é o campeão, o Benfica pode ser mais favorito do que o FC Porto mas, pelo que vejo, não é a melhor equipa esta temporada. Para mim, não é. Penso que o FC Porto, e mesmo o Sporting, têm equipas superior à do Benfica.

Outras

BnR: Defrontou Messi e Cristiano Ronaldo, qual deles foi o mais complicado?

AC: Se tivesse de escolher um, escolhia o Ronaldo. Principalmente pelo caráter dele e por tudo o que tem feito na carreira. Daqui a uns anos penso que ainda vai ser mais valorizado, é inacreditável o que ele e o Messi têm feito. Eles, para mim, são os dois melhores jogadores da história do Futebol e vamo-nos recordar deles para sempre.

BnR: Passou duas temporadas no SC Olhanense, mas o clube agora atravessa uma situação muito complicada. Como é que vê todo este processo de declínio da equipa algarvia?

AC: É com tristeza que vejo o Olhanense passar por dificuldades. Não tenho acompanhado de perto, mas vou lendo sobre o tema. Espero que se endireitem. Não é fácil, é um clube que veio da Segunda, manteve-se alguns anos na Primeira Liga e depois surgiram confusões. Não sei o que se estará a passar, mas desejo que volte à Primeira e que sejam felizes.

Castrou deu-se a conhecer no SC Olhanense Fonte: SC Olhanense
Castrou deu-se a conhecer no SC Olhanense
Fonte: SC Olhanense

BnR: Concorda com a introdução do vídeo-árbitro?

AC: Acredito que possa vir a ajudar. Para saber se é golo, ou não, ou se é fora-de-jogo, ou não. Mas vai sempre haver erros porque depende sempre da interpretação de alguém que está a ver. Acredito que possa vir a ser bom, mas a maneira como o vamos usar é que vai ser decisiva. Espero que o utilizem da melhor maneira, embora existam coisas que vamos ter de deixar sob o critério do árbitro. Um pode achar que é penálti e outro achar que não é. Mas acredito que vá ajudar.

BnR: Como é que olha para as constantes polémicas envolvendo os três grandes portugueses. Alguém tem razão no meio disto tudo ou é apenas algo que deve ser eliminado de vez em Portugal?

AC: É normal existir polémicas entre os três grandes. Não é só em Portugal, nos outros países também é assim. Mas espero que em Portugal não se fale tanto dos árbitros e de processos. É o que eu leio todos os dias. Processos para aqui, processos para ali, claro que não é o que devia ser mais discutido. Mas é normal, tem de se falar de alguma coisa e é disso que se vai falando.

O Futuro

BnR: Tem atualmente 29 anos, e vai agora para a quinta época na Turquia. O regresso a Portugal está nos projetos futuros?

AC: Só aceitaria para um dos grandes porque as condições financeiras são muito importantes, até porque nós, jogadores de Futebol, temos uma carreira curta. E, claro, mais nenhuma equipa poderia contratar-me em Portugal devido ao meu salário. A Turquia, na Europa, deve ser o país que paga melhor e por isso eu tenho 29 anos e, neste momento, o mais importante é fazer um bom contrato. Voltar a Portugal não está muito na minha ideia e penso que a minha carreira vai continuar a ser aqui na Turquia. Tinha também a ideia de voltar a Espanha e até houve algumas propostas, mas os valores são completamente diferentes. Por isso, o melhor era continuar aqui na Turquia em que tive várias propostas, mas optei pelo Goztepe e está tudo a correr bem.

BnR: Foi internacional sub-21, mas nunca conseguiu alinhar pela Seleção A de Portugal. Esse é ainda um objetivo nesta fase da carreira?

AC: Fiz cerca de 60 jogos pelas camadas jovens de Portugal, cheguei a ser convocado uma vez por Paulo Bento, mas não entrei. Claro que cada vez fica mais difícil, até porque estou na Turquia e não é um campeonato tão visto. Portugal tem tantos jogadores sempre a aparecer e, de ano para ano, cada vez fica mais difícil representar a Seleção Nacional. É um sonho para mim, como para qualquer português. Gostava muito de ter uma oportunidade. Já houve épocas que fiz aqui na Turquia em que jogadores que mal jogavam iam à Seleção e eu com 40 jogos e 7 golos no ano passado… Não sei qual o médio português que tenha feito 7 golos no campeonato e não jogue numa equipa grande. Se não fui no ano passado, dificilmente irei mais. Mas vamos ver…

BnR: Em termos pessoais, e assumindo que sempre desejou ser futebolista profissional, o que é que ainda falta fazer e que esteja nos planos para o futuro?

AC: Penso muito no dia-a-dia e dar o máximo no clube onde estiver. Sinto-me muito orgulhoso da minha carreira porque foi tudo fruto do meu trabalho e consegui coisas difíceis, também no FC Porto. Nunca me foi dado nada, foi tudo trabalhado para conseguir os meus objetivos. Vim para a Turquia, tudo correu às mil maravilhas. Em Espanha joguei sempre também. Por onde tenho passado, tenho estado bem. No futuro espero continuar a fazer boas temporadas, sem lesões, que é muito importante, e conseguir o melhor para mim e para a minha família. É nisso que eu agora penso.

Castro já passou por vários clubes ao longo da carreira Fonte: Facebook Oficial André Castro
Castro já passou por vários clubes ao longo da carreira
Fonte: Facebook Oficial André Castro

Bate-Bola

BnR: Ganhar a Liga dos Campeões pelo FC Porto ou o Mundial pela seleção portuguesa de futebol?

AC: Mundial pela Seleção Portuguesa de Futebol. É algo que nunca aconteceu a Portugal e claro que escolhia essa.

BnR: Um talento teu que ainda ninguém descobriu.

AC: Sempre fui muito bom em jogos de Playstation, mas desde que o meu filho nasceu tive de abdicar um bocado.

BnR: O seu companheiro no mundo do futebol?

AC: Sempre tive muitas amizadas, mas se tiver de destacar alguém, destaco o Rui Pedro, João Moutinho e Raúl Meireles.

BnR: Que conselho daria a si mesmo?

AC: Continuar a ser feliz.

BnR: Que mensagem deixaria a um jovem que aspira a ser futebolista profissional?

AC: Trabalha, malandro!

BnR: Melhor futebolista de sempre e da atualidade.

AC: É o Cristiano Ronaldo. Ele e o Messi. Mas se tiver só de dizer um, digo Ronaldo.

BnR: Melhor treinador que já teve.

AC: Já tive muitos bons treinadores, mas o que mais me marcou e foi importante na minha carreira foi o Jorge Costa. Não só em termos futebolísticos, mas também em termos de personalidade. Cativou-me muito e gostei muito dele.

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